21 de jan de 2009

São paulo desconstruída

porque te conheço, estremeço
- porque te amo, te estranho –
e te costuro em verso enquanto
constróis labirintos em minha alma

e porque me perco em teus labirintos
me sinto puxado por um fio que não sabes
aonde levas
e és apenas uma megaluz de desencantos
e desalentos
e és calidoscópica miragem na cena de minha alma

- minha santa infernal são paulo de estranhezas e certezas -
diáspora de rios que te comem por baixo
a carne mal amada de redemoinhos de amores
e prazeres e sofreres e de encantos mil
nas listras de tuas bandeiras inauditas –
de onde partiste afinal para as conquistas –
padres e mamelucos travestidos todos de tua pobreza –
centro convexo de concavidades altaneiras do planalto ao mar
o salto ao infinito de tuas ambições

teus rios te devoram,
teus homens te devoram,
tuas mulheres te devoram
e tu mastigas todos eles a cuspir poeiras
de caminhos e fuligens de chaminés,
lentas as carruagens que te construíram,
velozes os ventos que te dão asas

teus poetas não te entenderam
e te declararam inóspita e desvairada

nada de ti se perde
tu a tudo transformas em transgênicas longevidades
e partes a bufar caminhos por onde não os há:
pontes e viadutos não te distinguem da paisagem inútil

do alto inspiras ao que aspiras
e vives de teus pecados
como prometeu ao rochedo
preso que entrega a carne para salvar o sonho não do corvo mas dos olhos que contemplam o horizonte um dia perdido –

entrelaça teu destino ao meu,
santa são paulo dos desprazeres

entrelaça o teu sonho ao nosso,
santa são paulo dos desfazeres

entrelaça o teu cabedal ao sonho
e sobe para o teu posto de guerreiro tupinambá
na ascese de antropofagias ante-europeizantes,
santa são Paulo de todos os quereres

do tango ao samba ou do samba aos ritmos primevos,
tu és bastilha de cadinhos de raças e contra-raças,

tu foste o que tens sempre sido,
apesar dos sonhos comidos,
dos caminhos destruídos,
das pontes perdidas no horizonte de teus anseios,

miseráveis sombreiam teus viadutos que a nada conduzem,
ricos escoam teu verde ouro
por rotas paisagens de subterrâneas vias,
ratos podres sobem do seio do rio de águas grossas
para o poder no topo de agulhas que buscam o infinito,

és negra branca amarela parda em multi-azuis-amarelos-amarelecidos brazões de bandeiras e desentradas
por vias nunca de agora até sempre pisadas
por teus bravos comedores de índios,

tuas choças de aço te corromperam os intestinos
e vomitas a fuligem negra
de arrotos de aço e cobre e ácidos sulfúricos sulfídricos sulfanosos em sulfanoses e esgares de mitos não resolvidos,

teus parques de anônimos cangurus e puxadores de samba
estranham o beijo que o asfalto celebra,

esmagaste um dia teus filhos em celas pútridas
e abençoaste teus renegados assassinos,
transbordaste lágrimas por serpenteantes féretros
por teu herói montado em máquinas luzentes
e por aquele que, ungido,
em teus braços adormeceu na anteposse do poder,

se contraditas tuas agonias
em esgares de palácios impávidos
nas sagradas colinas de teus fundadores,
desesperas teus filhos
em angustiantes torneios de sobrevivência
e abraças o desconhecido de longes terras
como teus salvadores,

és áfricas nos seios de tuas negras
a beber do leite negro de ruas em busca de europas,
és américas de atrozes e velozes arrojos,
és ásias de espantos em olhos de amêndoas,

touché, touché, touché!

abriste tuas pernas para o mundo
e agora prostituis o útero da mãe terra em abóboras e laranjas,
em vesgos esgares de anoréxicas amantes
no cadafalso de leis inauditas,

és o berço de heróis malditos
nas chamas de histórias mal contadas na serra da mantiqueira, em lutas, em lutas sempre em lutas,
és a violência da escrava negra contra a escrava amarela
em bairros que gritam por liberdade,
és o sonho tenebroso de peixes mortos
dos teus rios de engodos,
és mameluca gente a correr como baratas tontas
em dias de gala na marcha fúnebre de teus exércitos imberbes,
sonhas o meu sonho
e transmites via internet o carma antigo de viveres sempre só,
ó santa são paulo,

oh santa são paulo,
piratiningas e macambúzios índios e índias
de peles claras e olhos azuis
de povos que antes de ti te pisaram e te exploraram,

loucas avenidas de luz e som
sujas ruelas de mel e mijo,
minados campos ancestrais de paulistano espigão,
floridos campos de teu futuro incerto,
campos elísios, elísios campos,
de ventos e de bois de venta,
de caminhos inúteis que não te permitem saíres de ti,
ó santa são paulo,

oh são paulo de pauis e putas, de podres e paus,
de sonhos e seres celestiais de impurezas eternas,
campos,
campo belo,
belo o teu pôr de sol em dias de carnaval,
belo o teu angustiante grito em dias de festas juninas,
belo o teu cortejo de almas penadas
a buscar esmeraldas que o sonho esculpiu
nas feridas da terra que pisaste,

santa achiropitta,
santa de almas loucas no sobe e desce de bondes imaginários
a conduzir sonhos impúberes de pobres funcionários públicos,
colinas de aço a contemplar horizontes que não mais alcanças,
pilares,
pilares de esperanças ao cabeça chata que te ama e te odeia, perdido em areias verticais de tijolos mal empilhados
de tuas pirâmides de cinco séculos,

jaçanãs, jaçanãs, rios de jaçanãs,

peitos coloridos de verde e amarelo
a pintalgar o canto de tuas asas que embricam
em fornos de aço
a construir moinhos de dons quixotes
e sanchos panças agônicos a brandir lanças em ilhas
de prosperidade e mel,

teus ventos redemoinham teus sonhos
e envias para o alto o grito de teus ipirangas,
o grito de teus primevos gentios
a ecoar em anhagabaús e jaraguás,
cortando o coração de aço do operador da bolsa de valores,

quem te compra, quem te compra,
ó santa são paulo,
oh santa são paulo,

riscos de laser em teu céu de chumbo,
riscos de faca em esquinas semafóricas de perigos e drogas,
teus filhos te odeiam,
ó santa são paulo,
te odeiam por não poderem verdadeiramente te odiar,
e reclamam teus anseios
e restauram teus brios em bronzes e ouros de palácios encantados e em teatros de européia estirpe,
e abraças com teu charme o charme do europeu,
e encantas com teu encanto a sutileza
de todos os teus orientais,
e batizas nas cinzas de teu fogo
todos os árabes em judeus convertidos,
todos os judeus em árabes transmutados,

teus sábios desdenham de ti,
teus convivas não agradecem o banquete,

és mais nordeste,
és mais minas,
és mais gaúcha,
és mais amazônica que todos os que de ti retiram o sonho
mais estranha na estranha gente de estanhos olhos,
a cumprir em fábricas teu destino,
a cumprir em ventos os teus estertores,
a cumprir em rios todas as tuas esperanças,

contemplas do alto de tuas colinas os teus rios magros e negros e teu povo tísico de fuligens de motores,
teu povo que corre ladeira abaixo,
que corre rio acima,
que corre escadas abaixo,
que corre elevadores acima,
impulsionados todos por teu clima de alucinações e paixões,

amo-te,
ó santa são paulo,
oh são paulo de maus amores e maus humores,

odeio-te,
ó santa são paulo,
oh são paulo de maus humores e maus amores,

mas não te amasse mais que tu me odeias
mas não te odiasse menos que tu me amas
nesse jogo o teu destino se cumpriria em mim
como eu cumpro em ti

chega-te a mim
ó megalópode de iras e dor
a correr campos de outrora para o sempre,
sê o teu próprio cadinho de metamorfoses
e serei eu o teu profeta
a endeusar em bronze teus destinos e tuas verdades,
encanta-te de mim, encanta-te,
e no museu aberto de tuas chagas de flechas e tacapes
esculpirei teu semblante em listras negras e vermelhas
para sempre e sempre
como todo aquele que um dia se vergou
ao teus desencantos nobres
ou aos teus encantos negros

se te estranho ainda,
não te enlaces em minhas dores,
guarda, guarda, enfim, para o poeta exausto
o cálice bento de tua juventude
de quinhentos anos
ó são paulo,
oh santa são paulo
de meus desalentos e descansos

- minha e nossa sempre (in)feliz-cidade...


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