30 de set. de 2020

folhas de outono

 





há outonos no fundo dos meus olhos

e o inverno que vem a galope conspira

contra as minhas convicções de madureza



há possibilidades inauditas em cada palavra

que forma versos que formam poemas

e os poemas são marcas indeléveis da vida



da vida que pulsa em lábios que escondem verdades

e as verdades são folhas de outono em meus olhos

para que os invernos não congelem meus desejos



7.7.2020

(Ilustração: Adrien-Jean Le Mayeur de Merpres)

28 de set. de 2020

festa

 



tu passas sobre meu corpo como lagartixa

em meneios de fera faminta

deixas os despojos da luta para as hienas

que gargalham dentro de mim



banqueteio-me autofagicamente

porque está na minha carne o cheiro da tua carne

porque está no meu sangue o gosto do teu sangue



sei que voltarás um dia

só não sei se terás o prazer do repasto

depois da festa gargalhante das hienas

que não deixaram nada de mim em mim mesmo



30.7.2020

(Ilustração: Jeff Faerber - succubus)

26 de set. de 2020

eu ateu

 




eu ateu confesso

que professo e a deus envio

alma e corpo de arrependido

cada vez que bebo bem bebido

um bom vinho em noite de estio



18.4.2020

(Ilustração: Ada Breedveld)

 

24 de set. de 2020

esperanças mortas


 

há noites que são noites porque escurecem 

há noites que são noites porque apodrecem



pelo tempo do desejo naufraga o espanto

solstícios de esperanças não mais apetecem



há noites que são noites porque padecem

do amplo espectro perdido da resistência

não há esperança onde tudo o que ainda resta

são despojos de beijos que nunca foram dados



submissas aos ventos de malícias e de fraquezas

são nossas as noites que gestam pérolas

são nossas as noites que se escondem em nós

e teus desejos se multiplicam em gozos loucos



faz o tempo que se desfaz em ondas aos poucos

na entrega das esquinas esconde-se o medo atroz

de que nas noites em que viajas não te encontras

e quando te vislumbro estás perdida pelas estrelas

como se fossem estradas todas essas ruas tortas

por onde vagas pelas tuas e minhas esperanças mortas





3.4.2020 

(Ilustração: Edvard Munch - evening melancholy-1896)



22 de set. de 2020

eros

 



erotizo a lembrança do teu rosto

erotizo a saudade do teu corpo

de teus seios

de teu ventre

erotizo o tempo que ficamos sem nos ver

e todas essas estranhas nuvens de desejo que perpassam

levando as chuvas da paixão para os páramos desertos

erotizo teu beijo em meu rosto quando te despediste de mim

e o teu riso safado quando te viraste para me mostrar a bunda



sob garoa ou sol ardente erotizo o tempo a que nos habituamos

nos esconsos de quartos escuros o ar pesado de nosso desejo

cobre nossos corpos nus e despe nossas indiferenças

erotizo o sopro de brisa do ar condicionado e a cama desfeita

a água que escorre de teu corpo e molha minha língua molhada de teus humores



banham-nos no exíguo do tempo e do espaço

no eterno momento dos nossos gozos esses suores e humores de eras perdidas

banham-nos em áurea luz de tardes em campos de girassóis

e erotizo o teu riso

perdido entre tuas coxas o meu estremecimento de encontros e desencontros



sim

erotizo tuas lembranças de tempos de outrora no aqui e agora

quando tu não estás a tanger como lira a minha vara

pastora de rebanhos indóceis

erotizo tuas lembranças e erotizo a vida

porque a vida sem erotismo não vale a pena ser vivida



18.8.2020 

(Ilustração: Alyssa Monks)

 

20 de set. de 2020

enleios

 






teu grelo endurece à minha língua

e tu gozas como uma égua no cio

bebo tuas águas e enlouqueço

teu ventre corcoveia em ondas

e a cama se quebra aos nossos anseios

navio naufragado na procela



enxugo em mim teus óleos santos

estiras as coxas em busca de mel

enganchas teus pés em meus enleios

em coleios de gata infiel



sou teu escravo e castigas-me

no teu engasgo de glandes e fonte

gozo em ti como gozaste em mim

na busca de profundezas inexequíveis



és vênus emergida de um mar encapelado

sou teu apolo enrustido em flechas de fogo

o mundo contempla inerte o nosso jogo

quando para o tempo no infinito despejado



23.7.2020

(Ilustração: Franz Xaver Bergman - 1861–1936)  

18 de set. de 2020

Distância

 





Sabe essa distância que se abriu entre nós?

Esse vale imenso no fundo do qual

Corre o rio de nossa saudade?

Essa distância precisa de cuidados

Precisa de seu afago e de seu carinho,

Para que ela um dia se transforme

No abraço apertado

No beijo bem beijado

No aconchego enfim de nosso ninho.



5.5.2020

(Ilustração: Toyen)


16 de set. de 2020

deus poeta

 



se fosse deus um poeta

talvez se concertassem os humanos

entre si com linha direta

com a natureza em todos os planos

não há no entanto entre o céu e a terra

qualquer indício

qualquer resquício

de que a vida que nos emperra

tenha a complacência de um deus

por isso devemos ser todos cada vez mais ateus



5.5.2020

(Ilustração: Àsìkò - Flamboyant burdens - 2018)



14 de set. de 2020

desejo maturado

 



madura o desejo dentro da noite

recolhe migalhas enquanto acolhe

como o pomo do pecado o açoite



e reacende o sol apagado em prepúcios

assim com lucius e lucíolas praguejam

nos páramos perdidos dos prados

cavalga o desejo o cavalo bravio

chega ao ponto marcado do atavio

em que se enrosca na chama que ilumina

o crime e o incesto em camas de gelo



tranquilo o fauno cuja imagem no espelho

o canto da cotovia apaga num sopro da vagina

que anseia por loucas penetrações antigas

na floresta que cumpre o destino das urtigas



desencanta-se o encanto de um mundo perdido

onde o desejo um dia maturado

rege a sinfonia de um pênis outrora sagrado



8.8.2020

(Ilustração: esc. de Franz Xaver Bergman, Viena: 1861–1936)  

12 de set. de 2020

desalento

 






bebi ontem

meia garrafa de pinga

vi dois filmes na televisão

e apaguei para sempre

num sono de dor e solidão 





25.5.2020

(Ilustração: Alexandre Gabriel Decamps - The Suicide)

10 de set. de 2020

declaração de amor

 



estou contigo há tanto tempo

que já nem me lembro

quantas noites quentes ou frias

passamos de janeiro a dezembro

até mesmo em meus longos dias

de preguiça tu me acolhias

foste a companheira constante

em momentos de alegrias

e outros de dor angustiante

nunca soltaste qualquer queixume

nunca fizeste cena de ciúme

mesmo quando de ti ficava distante

tens a paciência de uma dama

e todo o ardor de uma amante

por isso declaro aqui, neste instante

não sei viver sem ti, ó minha cama!




7.12.2109 

(Ilustração: Van Gogh)



 

 

8 de set. de 2020

curta metragem

 




um olho um plano geral

a moto a faca o azul

desencanta-se o espanto

na janela o sabiá

e você assistindo 




9.6.2020

(Ilustração: Ada Breedveld)

6 de set. de 2020

crônica da velha casa

 




tem a casa um quintal com um festival de cores

de amoreiras e jabuticabeiras e jambeiros e outras tantas árvores

de exóticas frutas ou de flores olorosas

tem a casa uma janela pela qual entram o canto dos pássaros

e os cheiros de terra molhada e grama crescendo

tem a casa um jardim na frente onde nascem e vivem

roseiras e dálias e margaridas e um imponente cacto

tem casa o silêncio da rua calma de domingo de interior

ainda que tenha em redor a cidade borbulhante

tem a casa a paz de estrelas distantes e leituras silenciosas

tem a casa o som de passos em tábuas largas e de bachianas de vila lobos



mas um dia a cidade borbulhante – inimiga a espreitar tanta placidez –

invadiu a rua quieta

quebrou o silêncio em mil cacos com carros e ônibus e comércio

– e isso foi feito sorrateiramente

porque a cidade é assim – lenta e tenaz –

mas de bote certeiro de cobra cascavel

quando precisa de larguezas de asfalto

para as buzinas e o cheiro de combustível



então a cidade roubou o jardim

roseiras e dálias e margaridas e o imponente cacto

– com seus perfumes e espinhos –

sumiram no pó da rua e no passo apressado de seres desconfiados



a cidade não se contenta porém só com o chão das avenidas e ruas

ela tem asas de ferro e cimento que a levam para as alturas e para as nuvens

e a janela da velha casa

– por onde entrava o canto dos pássaros e o cheiro da relva –

a janela perdeu até mesmo a nesga de céu e nuvem

e a velha casa parece agora

uma gazela espremida entre uma manada de elefantes

engaiolada em si mesma e nos seus silêncios quebrados

tornou-se a excrecência de um oásis decadente no meio do saara

um vale verde entre montanhas nevadas



até que um dia o silêncio se foi de vez ao som de motosserras

a espantar o canto indignado do bem-te-vi de seu ninho arrebatado

e um grande e feio caminhão da prefeitura embelezou-se afinal

com as folhas e flores e troncos centenários e dobrou a esquina

em sua majestade autoridade de quem sabe o que faz e o faz sem consciência

e o caminhão feio e grande atravessou com suas rodas de aço e borracha

sobre a mortalha de sonho e silêncio dos alicerces revelados da velha casa

agora uma sombra na lembrança da gente que ali mora

num gigante esqueleto erguido para os que usam tristes gravatas



tem agora o velho morador da velha casa

não mais um jardim de cores e perfumes a atravessar

antes de na velha casa entrar – mas uma gaiola fechada que o leva

ao apartamento de quarenta metros quadrados

num décimo segundo andar

de sua janela – ainda tem uma janela o velho morador – vê lá embaixo

a rua cheia apenas a rua cheia de gente e veículos apressados

não vê sol

não vê lua

não ouve pássaros

não sente o cheiro da grama crescendo

não há cheiro de terra na chuva



ouve o velho morador da velha casa as brigas do casal da direita

ouve o velho morador da velha casa a bateria do jovem da esquerda



os pássaros que aqui gorjeiam

só gorjeiam aos domingos de futebol

não gritam bem te vi bem te vi

gritam insultos uns aos outros quando o time ganha

gritam insultos uns aos outros quando o time perde

gritam insultos uns aos outros quando o time empata



as bachianas são buzinas que abafam até a heroica de beethoven

a máquina de lavar roupa da vizinha

tem estertores que abafam o piano de jobim

o velho dono da velha casa onde havia um jardim

o velho dono da velha casa onde havia janelas

o velho dono da velha casa de quintal sonho verde e paisagens

esse velho não é velho por ter saudade

por ter saudade de um tempo que a cidade comeu

esse velho dono de uma velha casa que no sonho se perdeu

só é velho porque tem consciência da vida plena que viveu



2.8.2020 

(Ilustração: Carl Spitzweg - dans la petite mansarde)


 (Você poderá ouvir esse texto na voz do autor, no podcast indicado ao lado)


4 de set. de 2020

confeitos

 





feitos e confeitos

nos abraços os traços

desfazem-se defeitos

enrolam-se laços

beijam-se lassos

alternam-se leitos

evitam-se embaraços

o gozo sem trejeitos

culmina os amassos



27.6.2020

(Ilustração: André Lambert-Danseuse a la Coupe de Fruits)

2 de set. de 2020

compromisso

 

 



caminhar sobre a fímbria da aurora

abrir o coração caixa de pandora

vazar para as nuvens todos os poemas

deixar na folha pisada todos os problemas

cantar o verso hegemônico dos poetas mortos

viajar por navios que não encontram portos

fundir o canto do pássaro ao som do violino

destruir dentro de mim um possível destino

vestir de desencanto as ruas primaveris

desencontrar-me de ti por um triz

sonhar ao sol o destemor de continuar a viver

e não parar nunca de sonhar e de escrever



21.7.2020

(Ilustração: John Whytock - the writer)