19 de jun. de 2026

CABARÉ MINEIRO



Moulin Rouge, o velho cabaré de Paris. Ali estávamos, eu, minha mulher e uma dezena de outros casais de nossa idade, todos ansiosos pelo espetáculo que tinha todo o jeito de decadente apresentação para turistas, parte do pacote, fazer o quê, e ali estávamos. Meus olhos turvos buscavam motivação para o que haveria a seguir, cansados já de tantos passeios, já sem nenhuma excitação, apenas curiosidade. Não tenho mais idade para isto, pensei, para gastas pernas e seios nus de dançarinas de cabaré, ilusão de adolescente, não têm mais o gosto do pecado. Mas soa o terceiro sinal para o início do espetáculo. Luzes se apagam. Do fundo do palco, do fundo do poço, do fundo de minha memória, a música da orquestra, de repente, corta o ar pesado e abre em minha cabeça um buraco, o buraco por onde entra o passado. Não sou mais dono de mim: são acordes que nunca mais ouvi, há mais de cinquenta anos, mais, talvez, não sei, só sei que, antes mesmo de se abrirem as cortinas do Moulin Rouge, antes mesmo que pernas de alabastro e seios de silicone enchessem e preenchessem meus sentidos, foram meus olhos que se abriram para a perdida cidade do interior de Minas, o menino de calças curtas cruza as ruas barrentas da velha e perdida cidade para viver a aventura de sua vida, uma aventura esquecida num escaninho escuro da memória, um alumbramento nunca mais tido e sentido. Relembro detalhes esmaecidos e agora perfeitos, como um retrato de polaroide. Sonho. Tenho sete anos e calças curtas. Lembro o pai, a mãe, o casebre pobre da roça, a lida diária com bois, porcos, galinhas. O pai que conversa baixinho com a mãe, depois da janta, ao pé do fogo do fumarento fogão de lenha. O instinto de moleque levado diz: estão falando de mim. Tento ouvir. Palavras desconexas. Não entendo. Preocupo-me. Algo vai acontecer, meu pai está com o cenho franzido das grandes decisões, a mãe chora um pouco, mas logo o mistério se esclarece. Devo ir à escola. Na cidade. Um susto: escola? E a roça, as galinhas, o canteiro de verduras, quem vai cuidar? Meu pai não deixa dúvidas: escola, a partir de amanhã e vai já dormir que vamos acordar cedo. No colchão de palha, a noite insone, viro, reviro. A cidade me assusta. Fui lá poucas vezes, na Semana Santa, as procissões, as missas a que a mãe assistia com fervogente de uma ou duas com o pai, para comprar na casa do agricultor algum grão ou ferramenta; muito poucas vezes, para saber direito como funciona a cidade, com seus automóveis negros, suas casas grudadas umas nas outras, pessoas andando na rua, o bonde, bicho estranho a sacolejar nos longos trilhos para cima e para baixo, tocando sino, o povo dentro, gente de paletó e gravata, de vestidos longos, sombrinhas e guarda-chuvas, gente orgulhosa, não cumprimenta ninguém; a cidade povoa meus pensamentos e não me deixa dormir; o galo canta várias vezes e eu rolo ainda na cama quando o pai vem chamar. Levanto num susto, tonto pela noite mal dormida, coloco no embornal com prazer e receio os cadernos encapados e os lápis bem apontados que o pai já comprara, visto o uniforme que a mãe fizera, calças azuis de brim e camisa branca, com um emblema no bolso esquerdo, o que me deixa orgulhoso, não sei bem o que está escrito ali, mas as letras bordadas me encantam, saio com o pai, a pé, para o centro da cidade, caminhada de quase hora e meia. O grupo escolar. Imenso, assustador. Sentado num banco comprido, espero meu pai conversar com alguém numa sala, espio, os olhos compridos nos retratos pendurados, homens e mulheres sisudos, nos mapas coloridos, nas paredes pintadas, altas, no forro de madeira, e o cheiro, ah, o cheiro, estranho, inesquecível, indefinível. O assombro do primeiro dia de aula, os colegas de classe, a algazarra do recreio, a merenda de gosto diferente da comida da mãe, os dias difíceis do longo aprendizado das letras, a tabuada cantada e depois gaguejada nos exames finais, o primeiro livro de leitura, as brigas no pátio, os amigos que fiz, os adversários que venci nos jogos de bola de meia, as professoras com suas réguas compridas que de vez em quando estalavam em nossas pernas, a qualquer indisciplina, as histórias que elas contavam e que povoavam nossas mentes, o cavalo com estrela na testa, o saci-pererê, os rios imensos e suas pororocas incompreensíveis, as festas cívicas, as paradas nos dias da independência, as provas difíceis, tudo passa como uma fita de cinema na minha cabeça, ali, naquele cabaré parisiense que não existia mais, que era apenas o pano de fundo para lembranças esquecidas. A velha trilha da casa para a cidade: um caminho no mato, moldado no lento passo de cada passante, serpente coleante a levar ao fim da rua, ao velho sobrado, enorme, sempre fechado. Eu tinha muito medo daquele sobrado assombrado, falavam que ali vivia a alma penada do antigo dono, senhor de escravos, e então passei a contornar, numa longa curva, o caminho que por ali passava, temendo sempre encontrar o fantasma daquele homem, e durante muito tempo eu dei a volta para não passar perto do sobrado velho. E um dia, já no quarto ano de grupo, meu pai veio comigo até a cidade. Prático, o meu pai, sem assombro e assombrações, não teve dúvida: pegou o caminho reto, o que passava pelo sobrado assombrado e, não tendo eu coragem para contrariá-lo, respirei fundo e fui em frente, e então, ao chegar perto do casarão, eu o vi: reluzente, novo de novo, todo pintado de amarelo, portas azuis, um imenso letreiro, automóveis estacionados a seu redor, num passe de mágica os fantasmas expulsos. Tentei perguntar ao pai o que era aquilo, o que havia acontecido, mas ele desconversou e, diante da minha insistência, acabou ameaçando me dar uma coça de vara de marmelo, se insistisse. Mesmo do alto de meus intrépidos onze anos, recuei, amuei e não mais mudei o caminho para a escola e todo dia passava à porta do tal sobrado, na ida e na volta. De manhã bem cedo, tudo fechado, alguns carros parados e o silêncio. De tardinha, na volta, a porta aberta para o que parecia um bar, roupas estendidas no quintal dos fundos, roupas coloridas, vestidos imensos e peças estranhas, que eu não sabia bem o que eram, e pessoas, gente de verdade, homens e mulheres e não fantasmas. Passava rápido, temeroso, aquela gente bem-vestida, rica, ar desenvolto, e eu tímido, franzino ainda, não ousava parar ou passar mais perto. E a curiosidade corroía meu pensamento, povoava minha imaginação de ouros, pratas, dinheiro, muito dinheiro, músicas, danças, aventuras, romances e beijos furtivos, festas, um mundo que eu não entendia, um mundo sobre o qual não ousava perguntar a ninguém, um mundo tão misterioso que escondia seus tesouros sob uma palavra misteriosa, cabalística, escrita no grande letreiro, cabaret, assim mesmo, que eu lia “cabareti” e que fizera o pai ficar tão bravo, quando lhe perguntei o que era. E me vem a lembrança nítida de uma sexta-feira, quando voltava tarde para casa, quase noite. Tinha ido fazer umas compras para o pai e demorara na cidade. Vergado sob o embornal pesado, levantei o olho curioso para ver, surgido das sombras, o sobrado já todo iluminado, uma entidade pulsante ao som de um piano, as janelas abertas vazavam luz e pecado, vozes e risos, cantos e tilintar de copos. Passei rápido, mais rápido ainda, pela rua do cabaré, a curiosidade aumentando o peso do embornal de compras. Cheguei a casa, jantei e fui dormir. Ali pela meia-noite, acordei a tempo de ouvir o primeiro canto do galo. Levantei. Do outro quarto, vinham o ronco de pai e o ressonar de mãe. Cheguei ao quintal, lua cheia, noite fria, vesti o velho casaco e tomei a trilha que me levava à rua do casarão. Aproximei-me pelo meio do mato, até um barranco encimado por uma árvore, subi como um gato até o galho mais alto e as janelas escancaradas do sobrado me revelaram o seu interior. Meus olhos aos poucos transformavam os vultos em homens e mulheres, a dançar, a conversar, a beber; meus sentidos se aguçavam para tentar entender o que era aquilo e eu fiquei ali, transido de frio, feliz com a felicidade daquela gente. Foi então que ouvi distintamente a música que nunca mais ia me sair da memória, a música que só ouvi naquele dia tão distante e hoje, neste cabaré de Paris, enquanto se abriam as cortinas do Moulin Rouge para mais um espetáculo de luzes e mulheres inefáveis. E ao som daquela música, uma cortina vermelha se abriu lentamente para um pequeno palco e surgiu uma mulher deslumbrante, num longo vestido azul, quase diáfano, a dançar uma dança exótica de gestos medidos e precisos, ao compasso daquela música, ela escondia e mostrava o rosto, os olhos grandes e azuis, a boca vermelha, movendo um enorme e sensual leque oriental, e os homens aplaudem e assobiam e gritos acompanham seu gestos de jogar a um canto o leque e começar a despir-se, cobra coleante em meneios e requebros que alternavam o despudor da bailarina e a vergonha da virgem que ela representava a sorrir, a provocar, ora avançando ora recuando, cobrindo-se e mostrando-se, a despir-se em estudados gestos, e eu fecho os olhos em êxtase e quando os abro há duas luas trêmulas a competir com a lua do céu, duas auréolas sutis de fruto e flor, de cobiça e desejo, e então meus olhos não entendem como ela tira a última peça de roupa e dança nua e loira, nua, as pernas longas, a bunda perfeita, a barriga reta, os pêlos loiros no encontro das coxas brancas e fortes, deusa de meu delírio, e eu entorpeço e eu sonho e eu não entendo o que está acontecendo com meu corpo que treme todo num espasmo profundo, quase perco os sentidos, e o galho da árvore onde estou encarapitado balança e estala e eu sinto um jorro quente escorrer por entre minhas pernas e eu estou voando, voando para as nuvens, para a lua, para as luas, para aquelas pernas longas e aquele monte loiro e misterioso e eu só sinto o baque surdo de meu corpo sobre a terra fofa do barranco, amortecido pelo mato cheio de espinhos, molhado pelo sereno da madrugada, e eu só tenho tempo de me levantar como um cabrito assustado e correr, correr muito, campo afora, segundos depois de ouvir vozes perguntando que barulho é esse, quem está aí, e eu corri tanto que em poucos minutos estava de novo em meu colchão de palha, tremendo de medo e de frio, sem entender direito por que estava tão molhada a minha calça, com aquele líquido pegajoso e agora frio, frio... e as palmas me puxam de volta ao toque de minha mulher em meu braço, você gostou, sim, sim, gostei muito, maravilhoso o espetáculo, maravilhoso, e eu pensava, sim, o maior espetáculo de minha vida, um alumbramento, o primeiro, naquele cabaré, o cabaré mineiro de minhas lembranças de menino da roça, aguçadas por uma música que nunca mais ouvira na vida, até aquela noite no Moulin Rouge...




3.11.2005

(Ilustração: Pierre Carrier-Belleuse (1851-1932) - Danseuse nue)


 

 

16 de jun. de 2026

a verdade do caminheiro



deixa o caminheiro a marca de seus pés no pó

do longo caminho de sua vida breve

e logo o vento

do tempo

de um tempo que passa na piscadela de uma estrela distante

torna as marcas sofridas dos seus pés rachados

apenas a poeira que se levanta e some nos redemoinhos



sonhou ele sonhos inescrutáveis

e agora nem o sonho de uma lápide sobre um túmulo perdido

num cemitério escondido

sob as areias do deserto

terá a marca do seu nome

para uma posteridade que não houve nem haverá



solidão

apenas solidão

colheu o caminheiro

pelo pó dos caminhos em busca de si mesmo

desdobrando-se em mil estilhaços

dentro de seu cérebro em luta

contra as intempéries da loucura

e do ensimesmamento



tropeçou nas pedras com os olhos nas estrelas

ignorando que eram elas – as estrelas – inalcançáveis

apodreceu os joelhos nas curvas e desvios das montanhas



se sofreu ou se teve breves momentos indizíveis de felicidade

nem mesmo a si mesmo

em seus pensamentos mais profundos

teve a ousadia de os revelar



o brilho de seus olhos pouco a pouco se apagou

como se apagam ao amanhecer as fogueiras dos demais caminheiros

como se apaga ao amanhecer o brilho das estrelas

restaram no fundo de suas retinas cansadas

as mágoas das pequenas conquistas que se lhe escaparam

para os abismos de suas incongruências



no outrora dos tempos de sonhos germinais

talvez pudesse ter escolhido outros destinos

veredas de águas mansas

não pirambeiras de morros insondáveis

talvez pudesse ter tomado outros desvios

para terras de lhanosas planuras

não trilhas de rochas ferventes

mas o sol se põe no horizonte de seus desejos

e não há mais nada que ele possa fazer



o futuro virou passado

e o passado é a pedra que lhe pesa às costas

enquanto cava no fundo da grota escura

a cisterna de onde jamais sairá

a verdade de sua vida





12.5.2026

(Ilustração: Jean Leon Gerome - verité au fond du puits)

13 de jun. de 2026

Trova - Não quero que você pense

 


 

Não quero que você pense

que tenho apenas tesão:

sinto por você paixão

de uma valsa vienense

 

 

3.1.2021

(Ilustração: escultura de Camille Claudel - la valse)

10 de jun. de 2026

Dormir sem roupa

 





Ela me disse, assim lassa,

assim meiga:

- agora me abraça

que derreto como manteiga.

E a preguiçosa devassa,

toda bela, toda lua

enfiou a língua ao meu ouvido,

como uma cobra, como uma chama:

- porque durmo, assim, toda nua?

porque, preguiçosa, tenho sempre esquecido,

de comprar um bom pijama.




6 de dez. de 2010

(Ilustração: Henri Matisse - The dream)

7 de jun. de 2026

CUBRAM-ME AZÁLEAS DE FIM DE INVERNO

 


Há um tempo líquido lá fora e um tempo seco em minha alma. Busco, em vão a calma dos sentidos. Sei que é impossível. Mas não quero chorar angústias por um tempo que não vivi e não viverei. É meu último pedido deixar que cubram meu corpo azáleas coloridas, muitas azáleas, para que eu fique perfumado com o néctar de abelhas que virão pousar no cromo em que meu caixão irá transformar-se, para que eu possa, em minha última morada, esquecer que este meu corpo é agora apenas uma pústula imensa de dor, como um castigo por aquilo que eu deixei de fazer quando ainda havia possibilidades. No entanto, não me arrependo. Se no meu corpo de homem, habitavam sentimentos de mulher, cumpri o meu destino. Nada há para lamentar. Entreguei a outros o cuidado que eu devia ter de mim e aqui estou, olhando para o meu corpo como se olhasse uma erupção vulcânica. As flores dentro do meu féretro serão a esperança de superação do nojo. São estes os meus últimos pensamentos: nenhuma mensagem, nenhuma lamúria, nenhuma grande declaração. Apenas que um dia existiu alguém que desejou ter seu corpo levado à última morada coberto de azáleas de todas as cores, num dia chuvoso de fim de inverno e início de primavera.



5.10.98

(Ilustração: Carl Larsson - azalea)
 

4 de jun. de 2026

quem se importa?


 

quando vier o frio

aquele frio de rachar

não sei se estarei

preparado para ele



quando vier o calor

aquele calor de rachar

não sei se estarei

preparado para ele



mas quem se importa?



a temperatura do planeta

oscila com um pêndulo enlouquecido

sob as artimanhas de um menino e uma menina

que brincam no meio do oceano

e do que eles brincam?

de esquentar muito aqui – onde nunca esquentava

de esfriar muito ali – onde nunca esfriava

de provocar seca de esturricar o solo onde chovia

de chover de inundar tudo onde havia seca



e quem se importa?



desde a famigerada revolução industrial

(para quem não se lembra – iniciada lá século XVIII)

queimam tudo que pode ser queimado

escavam e furam por ouro – amarelo ou negro –

tudo o que pode ser escavado e furado

comem da terra (com fauces demoníacas)

tudo – absolutamente tudo – que pode ser comido

derrubam as árvores imensas de todas as florestas

como se fossem essas árvores capim para dar ao gado



e quem se importa?



sua-se como boi no rolete quando é verão – e não é verão

treme-se como vara verde quando é inverno – e não é inverno



e quem se importa?



sobrevive apenas queimando seus bites e bytes

a inteligência das telas

[que nem inteligência na verdade é]

e consomem-se bilhões de litros de água

para resfriar essas máquinas comedoras de cérebros



e quem se importa?



o gato enterra minhas lágrimas na noite vazia

e passa pelos cornos da lua

a sombra do mundo que explode e flutua



e quem se importa?



caminho dentro da sombra cheio da solidão da noite

e despejo minha bile num cesto lixo cheio de filé mignon

as folhas secas dos esqueletos das árvores

cobrem as calçadas das cidades-fantasma dos filmes de bang-bang



e quem se importa?



tento nutrir minhas noites comendo estrelas solitárias

esboço aquarelas em tecidos de cetim do forro dos caixões

recolho nas ventas entupidas o vento que não sopra

bebo a água poluída da chuva que não cai

na pedra da rua encosto a cabeça e espero o sol que não virá



e quem se importa?



meu desejo e meus anseios colhidos na antevéspera da história

naufragam na enxurrada que inunda os casebres de papier mâché

os olhos ardem e secam dentro da água podre

estranhos que surgem dos botes desinflados navegam sem destino

gritos e sussurros gritam e sussurram que o sol não aquece

gemidos e estertores gemem e estertoram que a água não mata a sede

só o vento que venta e não refresca – só ele – marca as fauces da morte

e de tudo o que resta?

– a desolação



e quem se importa?




29.5.2026

(Ilustração:Georges Seurat - 
uma tarde de domingo na Ilha de Grande Jatte)



1 de jun. de 2026

Trova - Eu, que nunca frequentei

 




Eu, que nunca frequentei

Os salões da burguesia,

Também nunca imaginei

Vender minha poesia.





10.6.2024

(Ilustração: Zygmunt Zaradkiewicz)

29 de mai. de 2026

FÉ DEMAIS

 




O salão enorme do antigo cinema está com metade de seus atuais bancos de madeira compridos e sem encosto tomados pelas roupas negras dos crentes. O pastor, no púlpito, ameaça demônios e pecados, os primeiros com a expulsão e os segundos com a redenção. Seus gestos melodramáticos entusiasmam aqueles que ali estão pela primeira vez, mas não deixam imunes os fregueses habituais de suas exortações e preces. De vez em quando, um exorcismo previamente ensaiado com alguma das irmãs aumenta em alguns pontos o seu prestígio de guardião da fé. As pessoas realizam sua catarse através de longas orações, através da exposição, aos gritos, dos pecados cometidos, através dos pequenos sacrifícios exigidos pelo pastor, como ficar imóvel por uma ou duas horas, de braços erguidos, ou carregar uma pedra na cabeça, à moda dos peregrinos do nordeste (afinal, aquela é uma fé eclética), mas principalmente purgam seus pecados com uma generosa contribuição para os cofres da igreja, que está iniciando sua missão e precisa de fundos para ampliar seus tentáculos (a casa do pastor ainda não está pronta e seu fusquinha do ano precisa ser trocado por um carro maior, a família está crescendo). O culto prossegue num bem ensaiado processo dramático de cortes bruscos e reviravoltas na fala do pastor ou na encenação de outros ajudantes. Já está quase no fim e é necessário preparar o público para a exortação final, de grande impacto, que deixe a todos em estado de total enlevo, para, assim, sentirem menos quando enfiarem a mão no bolso para a contribuição do dia. O pastor e seus acólitos sabem o que fazem. Cantam o penúltimo hino, aquele que vai num crescendo até o auge, quando o som de todos os instrumentos e de todas as vozes se calam de repente e, com voz grave, tocada pela bênção do divino espírito santo, o pastor exorta, através de uma passagem bíblica significativa, a que todos se calem e permaneçam em silêncio por um minuto, para a total integração de todos os crentes com a corrente milagrosa dos poderes de deus. O silêncio que cai sobre o velho cinema transformado em templo pode ser cortado com uma faca. Suspende-se o choro do bebê, suspende-se o pigarro do ancião; os corpos e rostos e mãos e olhos estão extáticos, na contemplação mística. Um tropel de cavalos começa a fazer-se ouvir ao longe, distante mesmo, num som surdo e ritmado que vai pouco a pouco tomando todo o salão, até que o relincho e o bufar dos animais parece estar ao lado de cada um, como se o salão estivesse tomado de dezenas de alimárias a rodopiar, relinchar, bufar, arfar, sob as esporas e relhos dos cavaleiros que, com seu bodum de couro, suor e estrada, tomam todos os sentidos dos crentes que, em estado de choque, não sabem o que fazer. De repente, num átimo de silêncio, ouve-se perfeitamente, junto com o estalar do chicote (alguns juram ter visto o imenso alazão negro erguer-se nas patas traseiras, soltando fogo pelas ventas, numa visão demoníaca) o grito que vem do passado para o presente, das profundezas de um despenhadeiro para a claridade da planície, ecoa pelo espaço, gelando o sangue das fisionomias transidas pela contemplação do incontemplável, pela peripécia que nenhum pastor ousaria sequer imaginar para atrair seus fiéis: iaaaaaaaaaôôôôôôô... Silver! Não se sabe como, em menos de dez segundos, não havia um só fiel dentro do templo, inclusive o pastor e seus acólitos. Hoje, o salão do velho cinema é ocupado por um estacionamento, que só funciona durante o dia. Alguns motoristas retardatários juram que já viram ou a sombra gigantesca de um chapéu de cowboy ou o estralejar de um látego, outros já ouviram o tropel de cavalos. Dizem que o Zorro não recuperou para o cinema a velha sala e, por isso, ainda aparece de vez em quando, tentando chamar a atenção das pessoas para um passado em que pontificava nas telas, todos os domingos e feriados e dias santos, nos velhos seriados de Hollywood. Dizem, também, que ele só não admitia ter perdido a parada para..., bem, deixe isso para lá. Nada ficou provado mesmo.



23.9.97

(Ilustração: El Zorro, autoria não identificada)

26 de mai. de 2026

elegia para Theo




Theo, in memoriam

(20/5/2026)



ouço seu miado

apuro os ouvidos

é só o vento

da tarde



pressinto seu ronronado

acordo feliz

é só o vento

da noite



sinto seu cheiro

apuro meu olfato

é só o vento

do meio-dia



sinto seu colear

entre minhas pernas

arrepio-me todo

e agora - percebo

não é só o vento

- é essa ausência

tão presente

da felicidade

que eu tinha

em tantos e tantos

momentos

da minha vida



o vento que o traz

a vida que o levou

deixaram em mim

um vazio tão grande

que nunca imaginei

pudesse sentir

depois que ele

fosse embora

numa tarde de maio

fria – fria – fria





21.5.2026

(Ilustração: Theo; janeiro de 2024 - foto do autor)




23 de mai. de 2026

ainda me lembro


 

mexe mexe que mexe

com a colher de pau

mexe mexe que mexe

desempelota o mingau



na trempe quente do fogão a lenha

- ainda me lembro das mãos de mãe

a mexer o mingau no fim da tarde



e no fim da tarde assobia o vento no telhado

despede-se do dia o bem-te-vi na mangueira



na cozinha sobre a trempe do fogão a lenha

da panela de ferro sobe o cheiro da canela

e sabe a canela o mingau de minha mãe



esquecido do ontem – esquecido do amanhã

eu-menino cheio da fome logo saciada

não sei quanto de felicidade que há ali



mexeu mexeu que mexeu

com a colher de pau

mexeu mexeu que mexeu

e o que o menino comeu

não foi da mãe o mingau

foi o tempo ali parado

sem futuro e sem passado



o bem-te-vi bateu asas para mangueiras insondáveis

levado pelo vento que não assobia mais no telhado

- que telhado não há mais

- não há mais fogão a lenha

[nem cheiro de mingau com canela]

- nem a casa existe mais

e minha mãe – ah minha mãe

uma saudade que dói

que dói

[e não passa]




11.4.2026

(Ilustração: Rui de Paula)







20 de mai. de 2026

a tempestade

 





no meio de uma tempestade

queria encontrar uma nova amiga

ou uma nova amiga me encontrasse

e fosse alguém que me visse

como esperança de desejos proibidos

de amores não superados

de beijos desejados e nunca colhidos



no meio da tempestade

os meus olhos baços lhe pediriam misericórdia

os meus versos tortos que lhe falariam

talvez de traumas talvez de rosas fanadas

seus braços se estenderiam para a chuva

e suas mãos colheriam os espinhos travados

que um dia lhe tolheram a voz



no meio da tempestade

sentados ambos à mesa de um bar intemporal

contemplando as águas da enchente

embebidos apenas por nossos dilemas

nós nos deixaríamos carregar pelos sonhos

e flutuaríamos sobre as águas da enchente

para uma longínqua preamar à luz do luar



no meio da tempestade

agora na praia imaginada banhada de luar

despiríamos nossos preconceitos todos e nossos desejos

para nos ver como seres perdidos que se encontram

no meio da tempestade

para gozarmos um com o outro a ilusão

de termos enfim mitigado pelas águas

os amores perdidos outrora

no meio de tantas outras tempestades





4.4.2026

 (Ilustração: Jacqueline Colbac - promenade sous la pluie)

17 de mai. de 2026

viver com gatos

 








para o Theo, 
que está me deixando, 
pouco a pouco




coleia para cá

coleia para lá

e deixa na perna

um rastro de pelos



dorme todo o dia

acorda de madrugada

sem atenção – mia

e acorda todo mundo



o pote de comida

deve estar sempre cheio

a caixa de areia

deve estar sempre limpa



dizem que não tem dono o gato

porque faz do dono um escravo



espicha-se na cama

ocupa todo o travesseiro

senhor que é da cama

e ainda não satisfeito

aconchega-se no peito



[até gosto não acho chato

mas sinto que me tornei

apenas almofada de gato]



assim é viver

com o gato da casa

ou melhor dizendo

assim é viver

na casa do gato



– mas quem reclama?



2.4.2026

(Ilustração: Theo e eu, em junho de 2023 -  foto do autor)