17 de abr. de 2026

NOVENA 7



SETE PONTO NOVE



Água corrente o corpo molha

vida corrente a alma espanta

do rio nasce o peixe inútil

ao pescador que anzol não leva

leva apenas da reza fútil

a voz eterna da água suja

em que um dia o deus deixou

que ao corpo nu um outro espanto

vazasse em medo a dor de amor.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - lost paradise)

 

 

14 de abr. de 2026

NOVENA 6

 



SEIS PONTO NOVE



Leve o passo a sondar auroras

passa em poças o pé descalço

vinte o número em mágica posse

a vida além do morro desce

a encher de luz o passo firme



nada avisa o pé da pedra

a haver um dia à lua morta

atrás da sombra o vulto inútil.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - dancer in red dress)






11 de abr. de 2026

NOVENA 5

 


CINCO PONTO NOVE



Soube em ti desnudar o vento

minha alma triste em canto oblongo

a seguir a festa do deus já morto

a bater matraca à luz da lua



das pedras se levanta o pó

da fé perdida em noite azul

e o pobre menino inútil

revela a alma na chama nua.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - fingsten)






8 de abr. de 2026

NOVENA 4

 



QUATRO PONTO NOVE




Vagas noites de outrora inverno

vagas sombras de meus fantasmas

na rua estreita o bonde passa

e enche a noite de vozes vãs



em cismas de etéreas glórias

em vão desfilam meus caros sonhos

à luz da lua o bonde vem

marca em fogo o velho trilho

e arrasta em dor a dor que sobreviverá.



24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde -  The Last Supper; 1909)






5 de abr. de 2026

NOVENA 3

TRÊS PONTO NOVE




Em noites vagas de tempos longos

quando em luz a lua agoura

sonhos vivos de além aurora

o vento vem ao dia lento

soprar em mim o deus de outrora

e esse deus em luz tornado

para um instante para ver atrás

os sonhos loucos de luz e glória

a queimar em sangue à noite vaga.



24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde: landscape)

 

 

2 de abr. de 2026

NOVENA 2

 DOIS PONTO NOVE




Dos deuses que em mim habitam

guardo apenas a ironia do riso fácil

a tornar inferno a vida fútil

a tornar em dor a saudade inconsútil



dos deuses que em mim resguardam

habituo-me a ter somente o olhar ardente

a domar os ventos de minha louca mente

a soprar a dor que em dor ressente



dos deuses que em mim ressoam

ouço os lamentos como do inferno

a queimar o amor em fogo eterno

a tornar mais fútil o olhar mais terno



os deuses que em mim se rasgam

abrem brechas no meu ser inútil

tornam gelo o ser que sente

queimam em sarça o corpo externo

para deixar bem claro que em mim habitam.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - crucifixion)

30 de mar. de 2026

NOVENA 1

 

UM PONTO NOVE





Talvez haja luar sobre o jardim

e uma face negra sob a face branca

e uma face azul sob a face negra

e um arco-íris ao fim das máscaras



talvez haja apenas minha mente

a criar fantasmas e sombras sob a luz

a luz única de estranhos olhos

a ver apenas o luar plausível

nas brancas flores do jardim inútil



só porque talvez floresça a vida

sob o luar do jardim de outrora

e fantasmas a haver no fundo do meu ser.



24.5.94


(Ilustração: Emil Nolde - moonlight night)

27 de mar. de 2026

Carro guinchado

 


Parar em frente a guia rebaixada. Péssimo hábito de muitos motoristas. Péssimo e irritante. Mas, na vida, cada caso é cada caso. Nem sempre o que é péssimo para uns será apenas um castigo para outros. Pode ser muito, muito mais do que um castigo.

Minha vizinha mandou guinchar um carro que a impedia de entrar. Guia rebaixada, claro. E o carro, bem, nem se podia chamar aquilo exatamente de carro. Um pau velho quase caindo aos pedaços. Mas, irritação é irritação. De quem não pode estacionar na própria garagem. Não importa se o veículo é um Mercedes Benz último tipo ou um pau velho que precisa de reza brava para o motor pegar. E lá foi ela chamar o guincho. Das “otoridades” de trânsito, claro. Que demoraram, mas chegaram, checaram e levaram a ruína para o seu pátio, deixando no lugar o famigerado cavalete, informando que o veículo fora guinchado, telefone para tal e tal número etc.

Umas três horas depois, surge o dono do carro. Aliás, os donos. Um casal de velhinhos maltrapilhos que ali estacionaram e foram para ninguém sabe onde, fazer ninguém sabe o quê. Quando perceberam a realidade de seu pau velho ter sido levado pelas autoridades do trânsito, os dois velhinhos caíram em prantos. Choravam de dar pena. De chamar a atenção de quem passava. Até que apareceu a vizinha que chamara o guincho. E tomou pé da situação: os dois velhinhos tinham aquele carro como sua casa, era onde eles moravam. Eram sem teto. E todos os seus pertences haviam sido levados com o carro. E o choro corria solto, por isso. E não só dos dois velhinhos, não.

Já passados vários meses, a minha vizinha chora até hoje, de arrependimento, de haver chamado o guincho para levar a “casa” rodante do casal de velhinhos sem teto. Pois é, nem sempre o que parece ser uma solução ou um castigo, é só um castigo: pode ser a total desgraça para quem já está mais do que desgraçado pela vida. E motivo de arrependimento para quem causou a desgraça, mesmo que tivesse todos os motivos para isso. E tudo porque, muitas vezes, pensa-se: vou ali e volto já, e se esquece de que estacionou em frente a guia rebaixada. É a vida. E a vida não é justa para ninguém.



16.2.2019

(Ilustração: foto da internet, sem indicação de autoria)

24 de mar. de 2026

cena surrealista




baila o gordo com a leveza

e tristeza

de uma chama de lamparina



beija o umbigo da bailarina



ela despe a saia plissada

e rodopia o salto agulha

sobre a barriga estufada

do gordo extasiado

o sangue na plateia borbulha



do fosso sobe uma alegre valsa vienense





16.6.2024

(Ilustração: Vita Schagen)





21 de mar. de 2026

A MOSCA

 


Primeiro ele sentiu, mais do que percebeu. Depois, ele percebeu, mais do viu. E aí, sim, ele ouviu. O zumbido maldito. Era ela. Seguiu-a com os olhos. Os músculos tensos, mas imóveis. Ela rodopiou sobre sua cabeça. Zumbiu mais alto. Pousou na beirada da xícara. Pensou: é agora! Não era. Ela voou. Rodopiou sobre sua cabeça, de novo. Zumbiu bem perto de seu ouvido direito, aquele que ouvia melhor. O olho direito pegou-a em pleno voo, vindo novamente pousar na beirada da xícara, agora bem acima da asa, onde havia um minúsculo grão de açúcar. Não pensou: a mão direita subiu lentamente, sem que ela percebesse. E desceu como um raio. Ela percebeu. Com o sangue cobrindo parte dos óculos, ainda a viu ao longe, rodopiando, feliz.



10.9.97

(Ilustração: Francisco de Goya:head of a man)

18 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no parque (ou, a namorada mineira)

 


amada minha

- lagarta listada

um dia cantada

por um poeta

alçaste o voo de meu ensejo

roeste em a mim a folha amarga

és a borboleta do meu desejo



isso tudo disse o moço

em pleno parque na alvorada

ao contemplar em alvoroço

os negros olhos da namorada



- credo, amigo – disse ela

menina traquinas

de jeito recatado

lembrando assim

reinações lá de minas

- ocê fala engraçado,

inté parece mei’ doidim



27.1.2026

 (Ilustração: Alfedo López - parfum soir printemps)

15 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no circo (ou, vida que segue)

 


nobre e doce a arte da dança

entre o palhaço e o contorcionista

retesam-se músculos

movem-se membros

em brancas harmonias



bem acima da gola em flor

a cobrir os olhos do palhaço

sofre a bailarina na corda bamba



toda a pantomima se esvanece

no sonho cândido do palhaço

a imaginar o que não se deve

(não agora – não aos olhos da plateia)

entre as coxas do contorcionista



a bailarina na corda bamba

faz uma pirueta e some no espaço



o circo levanta a lona

(fica no ar um cheiro de açucenas)





1.6.2024

(Ilustração: Ada Breedveld)

12 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no cinema (ou, a prevenida)

 





no escuro do cinema

a tela treme ao beijo cinematográfico

dos amantes clandestinos



- quero beijar-te assim, minha querida,

posso?

- claro que pode – estou sem calcinha

vou levantar o vestido



[a lanterna do lanterninha tremeu

e apagou]



22.1.2026

(Ilustração: Ada Breedveld)


9 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no cabaré (ou, posto que é chama)

 




uma gota de suor escorre

ao longo do seio

e

cai

sobre a língua sôfrega da amante



congela-se a cena no cabaré

a plateia esfuma-se em odores

de uísque falsificado



fica no ar apenas a paixão

que se estatela no fundo do camarim



1.6.2024

(Ilustração: Alfedo Lopez - et pourtant elle tient)



6 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no bar (ou, etílico descuido)




tilintar de copos e corpos

fumaça

cheiro de álcool e sexo

no ar parado

a voz da crooner se esvai no final da canção



“e nesse dia então

vai dar na primeira edição

cena de sangue num bar

da avenida são joão”



ela cobre com a mão

o dedo da aliança e pisca para o bonitão

[não – ela não prestava atenção

na letra da canção]




6.10.2025

(Ilustração: Alfedo López - le dernier convive)

  

3 de mar. de 2026

sutilezas do amor – na rua (ou, aqui américa)

 




na mesma calçada

no centro de são paulo

moça e moço em sentido contrário

ambos absortos

na tela de seus celulares



mal se percebem e se esbarram

- sorry

- pardon

e pegam no chão

o celular um do outro



casaram-se com pompa e circunstância

na catedral da sé



um ano depois

ela? - voltou para os states

- ele? continua no brésil

(distraído como sempre)



6.10.2025

(Ilustração: Britto Velho)



28 de fev. de 2026

sutilezas do amor – na praça (ou, divisão equânime)

 



- vamos rápido, vamos

antes que alguém nos veja



- você trouxe o que pedi?



- trouxe, está aqui, mas ninguém pode ver

- ali, atrás daquela moita, pode ser?

- pode, rápido, vamos lá



- está pronta?

- estou louquinha, louquinha

- não consigo abrir, estou sem unhas

- deixa que eu abro

- abre, morreremos juntos, meu amor



(ouviu-se um clique: a pequena lata de caviar

recheada até a boca com o pó branco da felicidade)



- metade para cada um, certo?



veio a noite

os pássaros da praça

recolheram-se aos ninhos




23.2.2026

(Ilustração: Dinho Bento -the garden of Eden)











25 de fev. de 2026

sutilezas do amor – na cama (ou, amor que fica)

 




meia noite no quarto à luz

de um “abajur cor de carne

e um lençol azul”



- amor

você quer mais um pouco?

- não está cansada?

- estou

mas hoje faço tudo de novo

- então tá



meia hora depois

ela volta com um bolo de chocolate

onde tremula uma vela acesa



ele acorda do cochilo

- cuidado querida

não vá pôr fogo na cama

logo no dia de nossas bodas de ouro





6.10.2026

(Otto Dix -  les parents de l’artiste, 1924)



22 de fev. de 2026

breves, os poemas de amor

 





que sejam breves

os poemas de amor

breves como o leve

espasmo

de teu corpo,

meu amor, na hora

do orgasmo.



(s/data)

(Ilustração: escultura de J Patoue)



19 de fev. de 2026

CORPO PRESENTE



Centro. Segunda-feira. As luzes dos prédios começavam a perder seu brilho com o primeiro sinal de um dia que prometia ser tórrido, naquele janeiro. Um carro vem a toda velocidade, na pressa natural de todo paulistano, quando, de repente algo ameaça cair de cima do viaduto sobre ele. O motorista, assustado, freia de repente e leva uma batida espetacular do apressadinho de trás. Mas o grande volume que se destacara lá de cima não chegou ao chão. Está dependurado a meio caminho entre a curva sinuosa do viaduto e o vão por onde começam a surgir os primeiros raios de sol. Antes que o motorista de trás dissesse o primeiro palavrão, o outro apontava para cima, apavorado, mudo de horror. E outros mais já paravam seus carros, enquanto sobre o viaduto os primeiros pedestres se aglomeravam. Recortado pelo vazado do viaduto, o corpo de um homem estrebuchava, esticava-se e, de repente, se imobilizava, preso pelo pescoço por uma longa corda. E rodava lentamente. E a cada volta podia-se ver, claramente, uma mancha húmida formar-se em sua virilha e descer lentamente pelas pernas. O trânsito logo congestionou. Uma multidão logo se formou tanto em cima quanto embaixo do viaduto. Sussurros, comentários, gritos, buzinas, um alarido estranho encheu a manhã que nascia com aquele fruto estranho pendurado lá, nascido na aurora morta de uma manhã de segunda-feira de verão.


(sem data)
(Ilustração: Diana Bryan - Strange Fruit)