21 de mar. de 2026

A MOSCA

 


Primeiro ele sentiu, mais do que percebeu. Depois, ele percebeu, mais do viu. E aí, sim, ele ouviu. O zumbido maldito. Era ela. Seguiu-a com os olhos. Os músculos tensos, mas imóveis. Ela rodopiou sobre sua cabeça. Zumbiu mais alto. Pousou na beirada da xícara. Pensou: é agora! Não era. Ela voou. Rodopiou sobre sua cabeça, de novo. Zumbiu bem perto de seu ouvido direito, aquele que ouvia melhor. O olho direito pegou-a em pleno voo, vindo novamente pousar na beirada da xícara, agora bem acima da asa, onde havia um minúsculo grão de açúcar. Não pensou: a mão direita subiu lentamente, sem que ela percebesse. E desceu como um raio. Ela percebeu. Com o sangue cobrindo parte dos óculos, ainda a viu ao longe, rodopiando, feliz.



10.9.97

(Ilustração: Francisco de Goya:head of a man)

18 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no parque (ou, a namorada mineira)

 


amada minha

- lagarta listada

um dia cantada

por um poeta

alçaste o voo de meu ensejo

roeste em a mim a folha amarga

és a borboleta do meu desejo



isso tudo disse o moço

em pleno parque na alvorada

ao contemplar em alvoroço

os negros olhos da namorada



- credo, amigo – disse ela

menina traquinas

de jeito recatado

lembrando assim

reinações lá de minas

- ocê fala engraçado,

inté parece mei’ doidim



27.1.2026

 (Ilustração: Alfedo López - parfum soir printemps)

15 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no circo (ou, vida que segue)

 


nobre e doce a arte da dança

entre o palhaço e o contorcionista

retesam-se músculos

movem-se membros

em brancas harmonias



bem acima da gola em flor

a cobrir os olhos do palhaço

sofre a bailarina na corda bamba



toda a pantomima se esvanece

no sonho cândido do palhaço

a imaginar o que não se deve

(não agora – não aos olhos da plateia)

entre as coxas do contorcionista



a bailarina na corda bamba

faz uma pirueta e some no espaço



o circo levanta a lona

(fica no ar um cheiro de açucenas)





1.6.2024

(Ilustração: Ada Breedveld)

12 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no cinema (ou, a prevenida)

 





no escuro do cinema

a tela treme ao beijo cinematográfico

dos amantes clandestinos



- quero beijar-te assim, minha querida,

posso?

- claro que pode – estou sem calcinha

vou levantar o vestido



[a lanterna do lanterninha tremeu

e apagou]



22.1.2026

(Ilustração: Ada Breedveld)


9 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no cabaré (ou, posto que é chama)

 




uma gota de suor escorre

ao longo do seio

e

cai

sobre a língua sôfrega da amante



congela-se a cena no cabaré

a plateia esfuma-se em odores

de uísque falsificado



fica no ar apenas a paixão

que se estatela no fundo do camarim



1.6.2024

(Ilustração: Alfedo Lopez - et pourtant elle tient)



6 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no bar (ou, etílico descuido)




tilintar de copos e corpos

fumaça

cheiro de álcool e sexo

no ar parado

a voz da crooner se esvai no final da canção



“e nesse dia então

vai dar na primeira edição

cena de sangue num bar

da avenida são joão”



ela cobre com a mão

o dedo da aliança e pisca para o bonitão

[não – ela não prestava atenção

na letra da canção]




6.10.2025

(Ilustração: Alfedo López - le dernier convive)

  

3 de mar. de 2026

sutilezas do amor – na rua (ou, aqui américa)

 




na mesma calçada

no centro de são paulo

moça e moço em sentido contrário

ambos absortos

na tela de seus celulares



mal se percebem e se esbarram

- sorry

- pardon

e pegam no chão

o celular um do outro



casaram-se com pompa e circunstância

na catedral da sé



um ano depois

ela? - voltou para os states

- ele? continua no brésil

(distraído como sempre)



6.10.2025

(Ilustração: Britto Velho)



28 de fev. de 2026

sutilezas do amor – na praça (ou, divisão equânime)

 



- vamos rápido, vamos

antes que alguém nos veja



- você trouxe o que pedi?



- trouxe, está aqui, mas ninguém pode ver

- ali, atrás daquela moita, pode ser?

- pode, rápido, vamos lá



- está pronta?

- estou louquinha, louquinha

- não consigo abrir, estou sem unhas

- deixa que eu abro

- abre, morreremos juntos, meu amor



(ouviu-se um clique: a pequena lata de caviar

recheada até a boca com o pó branco da felicidade)



- metade para cada um, certo?



veio a noite

os pássaros da praça

recolheram-se aos ninhos




23.2.2026

(Ilustração: Dinho Bento -the garden of Eden)











25 de fev. de 2026

sutilezas do amor – na cama (ou, amor que fica)

 




meia noite no quarto à luz

de um “abajur cor de carne

e um lençol azul”



- amor

você quer mais um pouco?

- não está cansada?

- estou

mas hoje faço tudo de novo

- então tá



meia hora depois

ela volta com um bolo de chocolate

onde tremula uma vela acesa



ele acorda do cochilo

- cuidado querida

não vá pôr fogo na cama

logo no dia de nossas bodas de ouro





6.10.2026

(Otto Dix -  les parents de l’artiste, 1924)



22 de fev. de 2026

breves, os poemas de amor

 





que sejam breves

os poemas de amor

breves como o leve

espasmo

de teu corpo,

meu amor, na hora

do orgasmo.



(s/data)

(Ilustração: escultura de J Patoue)



19 de fev. de 2026

CORPO PRESENTE



Centro. Segunda-feira. As luzes dos prédios começavam a perder seu brilho com o primeiro sinal de um dia que prometia ser tórrido, naquele janeiro. Um carro vem a toda velocidade, na pressa natural de todo paulistano, quando, de repente algo ameaça cair de cima do viaduto sobre ele. O motorista, assustado, freia de repente e leva uma batida espetacular do apressadinho de trás. Mas o grande volume que se destacara lá de cima não chegou ao chão. Está dependurado a meio caminho entre a curva sinuosa do viaduto e o vão por onde começam a surgir os primeiros raios de sol. Antes que o motorista de trás dissesse o primeiro palavrão, o outro apontava para cima, apavorado, mudo de horror. E outros mais já paravam seus carros, enquanto sobre o viaduto os primeiros pedestres se aglomeravam. Recortado pelo vazado do viaduto, o corpo de um homem estrebuchava, esticava-se e, de repente, se imobilizava, preso pelo pescoço por uma longa corda. E rodava lentamente. E a cada volta podia-se ver, claramente, uma mancha húmida formar-se em sua virilha e descer lentamente pelas pernas. O trânsito logo congestionou. Uma multidão logo se formou tanto em cima quanto embaixo do viaduto. Sussurros, comentários, gritos, buzinas, um alarido estranho encheu a manhã que nascia com aquele fruto estranho pendurado lá, nascido na aurora morta de uma manhã de segunda-feira de verão.


(sem data)
(Ilustração: Diana Bryan - Strange Fruit)

16 de fev. de 2026

sete pecados: soberba

 



“creio no deus pai todo poderoso

criador do céu e da terra”

que do pecado da gula me salvará

do pecado da luxúria me salvará

do pecado da ira me salvará

do pecado da preguiça me salvará

do pecado da avareza me salvará

do pecado da inveja me salvará



e eu humildemente vos peço – senhor

pois de todas as criaturas

que há no céu

de todas as criaturas

que há no mar

de todas as criaturas

que há na terra

sou aquele que cumpriu fielmente

todos os vossos mandamentos

e se ajoelhou penitente

pelo perdão de todos os pecados



e então – eu o mais humilde

de todos os seres – humildemente

vos peço – senhor de minha alma

que me salveis – senhor – e me leveis

que me leveis como levastes

a virgem mãe de vosso filho amado

- eu também vosso cordeiro -

para o vosso reino onde corre o mel

para o vosso reino onde corre o leite



que seja eu – senhor deus todo poderoso

criador do céu e da terra

seja eu o único – o humilde – senhor

a sentar ao lado do vosso trono eterno, amém.



27.1.2026

(Ilustração: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - Soberba)


13 de fev. de 2026

sete pecados: preguiça

 





desce quente

desce lenta

adoça o tempo

adoça o prazer

na rede de luz e cor



vem calma

vem

vem no ritmo do vento

deita-se

espreguiça-se

é mulher de encantos tantos

a espalhar-se calma

por todas as esquinas

essa tarde lenta

das montanhas de minas



9.1.2026

(Ilustração: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - Preguiça)



10 de fev. de 2026

sete pecados: luxúria





escândalo de branco vestida

para o fruto bendito

na antevéspera do prazer

que tu te preparas para dar



na neve de teus botões

tu te abres para atiçar as asas

tu te abres para o arrepio

de brisas e de águas de verão



mais delícias não há

no fruto que virá

no fruto que explodirá

em prazer na minha boca



nessa tua promessa louca

como achas que te acabas

- ó noiva de gozos sem fim

quando preparas para mim

teu festival de jabuticabas?



9.1.2026

(Ilustração: Jacques Callot - Les Peches Capitaux -Luxúria)

7 de fev. de 2026

sete pecados: ira

 


havia ali um bangalô

num belo terreno

jardim cuidado na frente

árvores frutíferas no quintal

seus moradores – um casal de idosos –

que por serem idosos faleceram

(todo mundo morre um dia)



veio a construtora trazendo

o progresso

e ali ergueu um prédio quadrado

de dez andares e quarenta apartamentos

onde espremeram quarenta famílias

através de um programa de habitação popular



no princípio ali viveram felizes – o sonho

que logo em pesadelo se tornou



as paredes eram tão finas que permitiam

que um vizinho ouvisse

cada palavra que o outro vizinho

dissesse e se a mulher que fizesse amor

com seu marido gemesse e gritasse

um pouquinho mais alto

era logo motivo

de batidas no teto pelo vizinho de baixo

e murros na porta do vizinho do lado



se alguém ousasse tarde da noite

comer um bife (depois de um dia de duro trabalho)

o cheiro de fritura

já era motivo de muita reclamação



se dois jovens enamorados se pegassem na escada

aí então que o barraco se armava

- a velha patrulha de moralistas de plantão

queria briga e arrumava confusão



um vaso na porta ou até mesmo um tapete

e lá vinha chateação do vizinho do lado

ligar televisão

– só bem baixinho porque senão

logo se ouvia alguém que dizia

que não se pode dormir com tal barulhão



e tudo quanto um vizinho fazia era sempre

pelo outro qualquer vizinho

motivo de reclamação



reunião de condôminos – ah! essa acabava

quase sempre em pancadaria

- por isso quase nunca ocorria



nesse caixote de quarenta apartamentos

de vinte metros quadrados cada um

quarenta famílias que antes

se toleravam e até se conversavam

hoje vivem em brigas constantes

e se ainda não se mataram

porque tempo não encontraram

(mas como esse mundo é louco

para isso falta muito pouco)



10.1.2026

(Ilustração: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - La Colere)









4 de fev. de 2026

sete pecados: inveja





noite tórrida de tempos tresloucados

o ar-condicionado

quebrado

ventilador a toda

e nada de ar fresco no quarto fechado



suor escorre como a chuva de verão

lá fora

insônia e a hora

não passa não passa não passa



e então eu penso

ainda mato

esse gato

enrodilhado

sossegado

ronronando tranquilo como se fosse inverno

ronronando tranquilo como se não fosse

esse inferno



9.1.2026

(Ilustração: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - Inveja)





1 de fev. de 2026

sete pecados: gula






esgotam-se pouco a pouco

o sangue dos povos

não se esgota a gula

dos que dominam

os bytes e bites

que tudo controlam



não se esgota a fome

dos que sugam

gota a gota

o sangue dos povos



vampiros eletrônicos

máquinas de moer ossos

salvam-se por detrás

dos canalhas que se sentam

nos tronos do poder



engordam suas contas

nos paraísos fiscais

enchem de petróleo

seus navios piratas



a monumental bocarra

tem dentes de ouro

e caninos de titânio



cada rio que morre

cada floresta que queima

cada peste que grassa

cada grão de minério

arrancado com veneno

tudo enfim que brilha

sobre a terra

tudo enfim que conta

alimenta a gula

dos poderosos da terra

e mata mais um pouco

cada braço que se cansa

e pouco ganha de seu esforço



só o que se pode dizer

é que o mundo está

cada vez menor

cada vez mais pobre

para tanta fome

para tanta gula



22.1.2025

(Ilustração: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - Gula)





30 de jan. de 2026

Má poesia - 1


 

 




Lá fora, a chuva.

Dita assim, a cada dia,

Mil vezes repetida,

É só a vida

Ou má poesia?




27.8.2007

(Ilustração: Henri Rousseau - un matin de pluie 1896-97)



 

  

29 de jan. de 2026

sete pecados: avareza

 





quando passas pisando pétalas

maceras com teu jeito o meu peito

e deixas ao longo dos teus passos

esses traços que meus abraços

não alcançam quando te sigo

e por isso como um mendigo

vou colhendo cada flor pisada

ao longo da tua jornada

coleciono-as como um avaro

trato cada uma delas como o meu ouro

guardo cada uma delas como o meu tesouro

são elas o meu tesouro mais caro

e elas – cada flor que tu pisaste

desde as pétalas até a haste

somente a mim me convêm

só eu posso achá-las as mais belas

por isso te digo que nenhuma delas

nunca vou deixar para mais ninguém




9.1.2026

(Ilustrção: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - Avareza)