Ficava na esquina. Duas portas abertas para a rua principal. Portas azuis. Todo ano, o padeiro pintava sua fachada de amarelo. Amarelo ouro. O que a fazia diferente de todo o resto do casario branco ou gelo que compunha um conjunto harmonioso e desinteressante, quebrado em parte pela minha casa, feia e descascada, que ficava exatamente em frente. A padaria amarela. E essa padaria teve uma influência decisiva na minha infância. Não só pelos pães e bolos deliciosos que dali saíam e aos quais poucas vezes tive acesso, mas principalmente porque nos fundos da padaria, num quintal florido e amplo, ficava a casa do padeiro, o padeiro e sua família, família constituída pela mulher e a filha. Vou falar, primeiro, da mulher do padeiro, para logo em seguida esquecê-la e dedicar-me ao motivo dessas linhas pelas quais recupero, depois de tantos e tantos anos de desgostos e desilusões, uma parte ínfima e fundamental de minha vida. Em minha solidão de cidade grande, apertado neste minúsculo apartamento, único bem adquirido em mais de trinta e cinco anos de trabalho, só agora posso me dar a satisfação dolorida de recordar. E é o que faço, diante de um computador que é um luxo, na escassez de recursos de minha moradia de velho empedernidamente solteiro. Solteiro e solitário. Sei que ambas as palavras têm a mesma origem, a mesma raiz, e por isso se tornam redundantes, num texto que pretende ser apenas um relato sucinto de um tempo tão distante numa cidadezinha minúscula perdida no mapa da memória e das montanhas de Minas. Sim, das montanhas que me viram nascer, crescer, sofrer e desaparecer para sempre na multidão anônima da grande cidade, mendigo do ensino a treinar aqui e ali crianças e jovens de outros tempos e costumes, tão diferentes. Mas voltemos à mulher do padeiro. Só saía acompanhada do marido em festas religiosas ou ocasiões especiais da política ou da sociedade extremamente provinciana da cidadezinha conservadora. Era bela, belíssima, pelos padrões da época. Suas raras aparições despertavam suspiros e deixavam muito marmanjo de braço roxo com os beliscões de namoradas, noivas e esposas ciumentas. Isso, no entanto, eu só soube tempos mais tarde, em conversas esquecidas com minha mãe, ao pé do fogão a lenha que pouco a pouco se consumia, como a vida de minha mãe, e empretecia as paredes de minha casa. Que, como já disse, ficava bem em frente à padaria, num terreno meio abandonado e tomado pelo mato que eu, apesar da pouca idade nessa época, tentava manter mais ou menos limpo. Ao lado de minha casa, havia uma mangueira, alta e frondosa o suficiente para encobrir o meu posto de observação em um de seus galhos mais altos. Dali, podia ver uma parte do quintal da padaria, onde se amontoavam pilhas de lenha para os fornos, frequentemente renovadas por um carroceiro pontual e barulhento que, toda sexta-feira, chegava de manhã bem cedo e despejava sua carga na calçada e depois a levava para dentro, junto com os dois ajudantes do senhor padeiro. Sim: era o senhor padeiro, por todos respeitado em razão do sabor de seus pães, por causa de sua conduta de cidadão acima de qualquer suspeita, pela dedicação ao trabalho duro numa arte que exige competência e muita disposição para aquecer e manter aquecidos os fornos madrugada a dentro, e, principalmente, por ser casado com uma das mulheres mais bonitas da região, o que o tornava mais do que respeitado, invejado e admirado. E por ali, por aquela padaria simples de cor amarela, desfilavam durante todo o dia, em horas determinadas, praticamente todas as mulheres, todos os homens e todos os jovens da pequena cidade de pouco mais de dois mil habitantes, porque ele era o único padeiro de toda uma região muito pobre, constituída de camponeses e roceiros sempre humildes em suas fainas diárias de plantar, colher, moer o milho, fazer fubá que era vendido ali mesmo na cidade, em feiras improvisadas ao lado da matriz, ou para algum eventual comerciante de cidades próximas, mais populosas e de mais recursos. Ah, a memória, quantos detalhes nos vêm, quando a acionamos preguiçosamente em noites de insônia! E, ao mesmo tempo em que permite reviver momentos que pareciam perdidos, seleciona só aquilo que não traz sofrimento, num processo de retenção das lágrimas que se aprisionam nos olhos do velho ao lembrar os momentos que podiam ter sido de felicidade e prazer e, no entanto, só trouxeram desencanto a um menino de calças curtas surpreendido por ela, a memória, encarapitado no galho mais alto de uma frondosa mangueira, a espionar o quintal do vizinho, do padeiro da casa amarela, a ver se avistava, nem que fosse furtivamente, por um único e breve instante, sua filha, a filha do padeiro pela qual o coraçãozinho ainda tão frágil batia mais forte. Relutei tanto a apresentar a personagem de minha narrativa, nessa já tão longa noite de insônia, que não sei se terei ainda a força necessária para dizer o que foram para mim aqueles dias de primavera, outubro já em meio, os momentos de contemplação solitária do quintal do padeiro, no qual esperava que surgisse, num passe de mágica, de prestidigitação da vontade, a dona do vestido rosa de um sonho inatingível. Não sei como nascera a paixão, paixão dos onze anos e meio de joelhos marcados pelos embates de bola nos campinhos improvisados nas ruas de terra, mas paixão arrasadora como qualquer outra que pudesse vir a experimentar em outros momentos de minha vida, totalmente primitiva e demolidora, por ser a primeira e a que marcou para sempre a conduta solitária do homem que me tornei e do velho misantropo em que me transformei. Mas acho que o alumbramento surgiu num dia comum de começo de primavera, quando saía para a escola, de manhã muito cedo, e passei por ela no mesmo trajeto em direção ao grupo onde ambos estudávamos, desconhecidos um do outro até aquele momento, quando ao sol nascente de uma manhã de bem-te-vis e marias-sem-vergonha, eu a vi pela primeira vez com olhos de cobiça que nem imaginava pudessem existir dentro de uma pessoa, principalmente de uma pessoinha tão desprezível e pobre quanto eu, o menino da casa da mangueira em frente à padaria da pequena dama de vestido rosa, sapatos pretos e meias brancas que subia abraçada a seus cadernos, caprichosamente encapados, pela rua poeirenta daquela cidadezinha perdida em minha memória. A menina da casa amarela, a filha do padeiro, a filha da mulher mais bonita da cidade, uma família que, afinal, fazia e vendia pães e doces e quitutes até para o prefeito e o vigário, uma família chefiada por um pai de costumes rígidos, mas sempre alegre e simpático para com os fregueses, um pai que mandava pintar e repintar as paredes da casa amarela todo ano, um pai que provia com o trabalho uma família que eu não tinha, reduzida, em minha condição de órfão, a uma mãe que precisava virar a noite na máquina de costura para não deixar que faltasse na velha casa descascada o arroz, o feijão e, quando possível, o pão que nem sempre o pai de meu desesperado objeto de amor cobrava de minha mãe. Pois foi naquele dia de início de primavera que eu descobri ao mesmo tempo o amor e a pobreza. Nos traços suaves da menina, no seu andar coleante e firme, de quem sabe para onde vai e o que quer da vida, nas suas mãozinhas de flor e fada segurando cadernos, livros, lancheira, no pequeno brinco de suas orelhas, na fita do cabelo, no seu vestido rosa, naquele conjunto que os olhos baços de menino viam pela primeira vez com cobiça de paixão, de desejo que fazia pular o peito e estranhamente dava uma dorzinha na virilha, como quando a gente almoça e sai correndo, que fazia bater os joelhos descobertos pelas calças curtas, e fazia os pés descalços e grossos correr mais ligeiros, ali, naquela visão primeira e primeva, estava o objeto ao mesmo tempo tão próximo e tão distante, que me fez ter consciência do que eu era, e tive vergonha de minha camisa surrada, de minha calça remendada, de meus livros usados, de meus cadernos desencapados e meus tocos de lápis numa caixinha improvisada. E olhei para meus pés, e olhei para minhas unhas sujas, e me vi, então, como eu nunca me vira antes: pobre, pobre e órfão, órfão e desamparado. Desamparado diante do amor, diante da vida. E então, a menina rica, de vestido rosa e sapatos brilhantes, se voltou um instante e olhou para mim e me viu, e sorriu um pouco, só um pouco, e continuou seu caminho. Naquele instante, o sol nublou, a rua se fechou, o tempo se calou na primeira sílaba do canto do bem-te-vi e eu nasci para a vida e para a solidão. Foram, depois, muitos e muitos dias trepado no galho da mangueira a esperar que ela aparecesse no quintal, que pudesse vislumbrar por um instante que fosse o seu vestido rosa, vestido que eu vi, sim, mais uma única vez, no dia seguinte, pendurado no varal. Mas, a dona, a dona dele, nunca mais, nunca. Nem na escola, nem no quintal, nem mesmo quando o movimento na padaria diminuiu, as portas quase sempre fechadas, o entra e sai de uma pessoa estranha, com uma maleta, disse-me a mãe, distraidamente, era o médico, que a filha do padeiro estava doente, e eu ficava a tarde toda encarapitado no galho mais alto da mangueira, espreitando, sabiá perdido em meio às flores e aos frutos que começavam a crescer, ignorado e ignorante, louco e perdido, perdido por um sentimento que eu não entendia, a palavra paixão só aparece como expressão do velho que digita no computador, tantos anos depois, a tentativa de explicar toda uma vida de solidão por um momento de desespero, quando a casa amarela se fechou para sempre, depois que saiu o cortejo com o caixãozinho rosa da menina cujo nome eu não soube nunca, porque minha mãe também não sabia, perdida em seu labor diário na máquina de costura, já tão desgastada e pobre, que o tempo para ela também se fechava, como se fechou para sempre o coração do menino que se tornou homem na cidade grande e se transformou no velho e solitário misantropo que vive, hoje, de lembranças que julgava perdidas de uma casa amarela e da menina de vestido rosa.
11.12.2006
(Ilustração: Alyssa Monks)



















