12 de ago. de 2026

A TURMA DE GUARÁ

 


Era a turma de Guará, todos nascidos e crescidos na hoje não mais tão longínqua cidadezinha do interior. Encontravam-se mais ou menos regularmente, os sete: José Luís, Cláudio, Mário, José Carlos, Pedro, Ivan e Frederico. Tinham os seus apelidos de infância, mas raramente os usavam uns com os outros, senhores bem sucedidos que eram, alguns com barriguinhas e carecas proeminentes, aí pelos trinta e tantos, quase quarenta anos, embora ainda joviais, ainda espirituosos e afetivos em seus encontros nem muito frequentes nem muito espaçados. Quando batia a saudade, um ligava para o outro que ligava para o outro e assim a corrente se formava, acertavam agendas, livravam-se das mulheres, dos filhos, dos compromissos e lá estavam em algum restaurante ou churrascaria rodízio, com suas brincadeiras, os abraços apertados, as gozações, essas cada vez mais leves, quase num acordo tácito para não ferir susceptibilidades.

Cláudio lembra bem a última vez em que tocaram no assunto que mais o irritava: a bunda. Fora o Zeca, o José Carlos, aliás doutor José Carlos, urologista conhecido e respeitado, com consultório sempre cheio, um gozador de primeira, o piadista da turma, que há mais ou menos uns oito anos (é, o tempo passa, pensou Cláudio), num desses encontros tocara no tabu:

- Você envelhece, cara, mas a bunda – continua a mesma.

- E parece que invicta, não? – emendou o José Luís, sempre também querendo bancar o engraçadinho.

- Acho que só a minha! – o Cláudio, com cara feia.

O encontro quase azedou. Relevaram, puseram panos quentes e nunca mais se tocou no assunto. Mas o assunto estava lá, na cabeça de Cláudio, a vida toda. Desde menino, aos nove anos, a bunda o incomoda. Foi quando, aliás, descobriu que tinha uma bunda, não exatamente uma bunda, mas uma bela bunda. O tio, irmão da mãe, tentou uma gracinha: baixou-lhe as calças e beliscou-a, dizendo:

- Dou-lhe um sorvete por essa bunda...

Cláudio não sabe por quê, mas uma raiva, um ódio imenso tomou conta dele e só não bateu na cara do tio porque ainda era muito pequeno e não alcançava aquela cara de cavalo, a rir de sua bunda, a falar de sua bunda, a apalpar a sua bunda. Só não contou para a mãe o desaforo do tio, porque este acabou engabelando-o com mil promessas de que não faria mais aquilo e ainda lhe deu alguns trocados que pagaram algodão doce para a turma toda, já àquele tempo, os sete amigos.

E assim foi, sempre: a bunda a incomodar, a chamar a atenção. Aí pelos treze, quatorze anos, quando a turma já crescida avançou para brincadeiras mais eróticas, como campeonato de punhetas e troca-troca, só participava mesmo do primeiro e nunca, jamais, em tempo algum, foi ao matinho atrás da escola, como faziam todos os outros. Não sabia exatamente o que rolava lá, mas desconfiava, pelas risadinhas e piadinhas, sempre muito veladas, mas safadas o suficiente para ele sacar que boa coisa não faziam os amigos ali, naqueles matos. Também poucas vezes ia nadar no riacho ou na piscina do clube. E nunca, nunca ficava pelado perto dos outros meninos. Mesmo assim, sempre ouvia as piadinhas. Uma vez, já no colegial, fizeram a eleição da menina mais bonita da classe e, na apuração dos votos, ele ficou roxo de raiva, quando um engraçadinho colocou no voto: a bunda do Cláudio. Deu até inquérito da direção da escola, mas as investigações não levaram a nada. Cláudio sempre desconfiou do Zeca, do Dr. José Carlos, o mais serelepe da turma, aquele de quem diziam que nenhuma bunda da turma escapara. Era por isso que a turma de Guará, quando se reunia, nunca falava do passado, nunca se metia em confissões que pudessem constranger a quem quer que fosse. A única tentativa fora aquela, do Zeca, sempre ele, mas morrera ali e, ou por medo do Cláudio ou porque tinham todos o rabo, ou melhor, a bunda presa, nunca mais se tocou no assunto. Longe dele, porém, era louvada sempre como a bunda mais bonita de toda a região de São Carlos. E alguém sempre repetia a perguntinha idiota – será invicta? – para as sempre repetidas gargalhadas de todos.

Homem é sempre fofoqueiro e dessa pecha a turma de Guará não escapava. Por uns três ou quatro anos, a fofoca predileta foi a mulher do Zeca. Quando o Zeca não estava por perto, claro. A mulher do Zeca era honesta, tão honesta quanto se sabia. O assunto era outro: sua beleza. Como era bonita a mulher do Zeca. E tinha um detalhe: uma bunda maravilhosa. E quando o Cláudio também não estava por perto, os outros cinco eram unânimes: a bunda da mulher do Zeca era tão bonita quanto a bunda do Cláudio, o que, na opinião deles significava que, sem nenhuma dúvida, a mulher do Zeca devia ter uma das bundas mais bonitas do país e não mais só da região de São Carlos. Porque o padrão de beleza anatômica do traseiro de todos os demais seres humanos, para aquela turma, era a bunda do Cláudio, a talvez invicta bunda do Cláudio, pela qual alguns até mesmo ainda suspiravam, para gozação dos outros que, ocultamente, também suspiravam. Se pudéssemos dar um nome àquele grupo de senhores, seria muito próprio dizer que formavam a Confraria da Bunda, mais especificamente, da bunda do Cláudio e, agora, também da mulher do Zeca. Na verdade, a única coisa que os unia era a possibilidade de acompanhar de perto o amadurecimento e o futuro envelhecimento da bunda do Cláudio e suspirar pela bunda da mulher do Zeca, vista apenas uma única vez, no dia do casamento, mas que ficara assim como uma espécie de sonho de uma tarde de verão, de cálice sagrado, de graal a ser um dia, quem sabe, achado, conquistado ou endeusado. Fetiche bravo, esse da turma de Guará, fetiche que só podia ser mencionado em reuniões tão secretas quanto as da maçonaria. Enfim, duas bundas e dois amigos que não sabiam que eram a motivação de reuniões etílicas que se estendiam noite adentro, a cada seis meses, um ano. E os cinco moviam mundos para que Cláudio e Zeca não deixassem de comparecer a essas reuniões. Cláudio era o muso e Zeca, o elo entre a vontade e a realidade, como se tremulasse entre eles uma espécie de bandeira da esperança, ou seja, enquanto soubessem que o Zeca continuava casado com aquela... bunda, ainda podia haver alguma possibilidade de... de quê, mesmo? Nem eles sabiam muito bem.

Estávamos num interregno entre os encontros. Bem no meio. Já a turma dos cinco pensava ora com saudade do encontro anterior, ora com intenções de programar o próximo. Vamos acompanhar o nosso muso, o Claudio, inocente Cláudio em sua luta diária no escritório de arquitetura onde trabalhava arduamente, e aonde podia comparecer usando sempre as indefectíveis roupas mais largas que sempre usara, para desespero da turma, roupas meio espalhafatosas e já fora da sua faixa etária, mas que disfarçavam bem as curvas da sua também ali, no escritório, famosa bunda, porque a olhos femininos nunca escapam detalhes como esse num homem, mesmo que a bunda do Cláudio não fosse exatamente um detalhe. Vocês sabem: homem solteiro, bonito – e Cláudio, podemos dizer, não era só bunda, não: tinha um belo porte, um rosto sereno, olhos penetrantes, enfim, era um belo espécime da macheza masculina – repetimos: homem solteiro, arquiteto, na casa dos trinta e tantos ou é bicha ou é galinha, e já sabemos que Cláudio sempre protegera com unhas e dentes seus atributos calipígios. Então, várias mulheres que saíram com Cláudio acabaram por espalhar a beleza de suas nádegas (palavra tão desagradável, que é primeira e possivelmente a última vez que a emprego nesta narrativa). E dar-lhe fama.

Então, falávamos do interregno: Cláudio levava sua vida na boa, na sua solteirice e galinhagem, até meio que esquecido de que tinha uma bunda cobiçada tanto por homens, os seus amigos, quanto pelas mulheres, colegas de trabalho e avulsas, quando, um dia, numa exposição de um outro amigo arquiteto, bicha e pintor famoso (o que, para essa narrativa, não tem absolutamente nenhuma importância), topou com um bela mulher a contemplar a mesma tela que ele. Ao virar-se, não pôde deixar de reconhecer:

- Você? Não é a mulher do Zeca, isto é, do doutor José Carlos?

- Eu mesma...

E no sorriso daquela mulher, a noite virou tarde, virou manhã, virou qualquer coisa que fez o Cláudio tremer dentro das calças.

Conversaram amenidades. Ele convidou-a para jantar. Não tinha a mínima esperança de sucesso nesse convite. Fê-lo por desencargo de consciência do predador que não pode deixar de fazer a tentativa suprema, mesmo sabendo que levará um pé no traseiro, ainda que esse traseiro seja o que vocês já sabem o que ele é.

Ela aceitou.

E nosso garanhão calipígio ficou sabendo que Lívia, esse o nome da mulher do Zeca, ou melhor, da ex-mulher do Zeca, porque o que ele ficou sabendo é que ela e o Zeca haviam se divorciado há seis meses – e os cinco tarados da turma de Guará nem desconfiavam disso, e Cláudio também não, porque Zeca escondera de todos o fim de seu casamento tempestuoso com uma das bundas mais bonitas do país. Aliás, aquela mulher não era também ela apenas bunda, não: além de bela, inteligente, culta, dona de uma famosa butique de grife, nos Jardins, mulher de sucesso profissional e social.

O que aconteceu em seguida nem a turma de Guará ficou sabendo e só vou contar, porque estou curioso para ver a cara deles no desfecho dessa narrativa.

Já dissemos que Cláudio caiu de quatro pela Lívia, assim, à primeira vista. Só não dissemos que foi recíproco. E temos que abrir um pequeno parêntese para dizer que Lívia já conhecia, e muito, o Cláudio, apesar de só tê-lo visto de relance no dia do casamento. Conhecia-o pelas bravatas do marido, ou melhor, do ex-marido. Zeca, o doutor José Carlos, não era só o engraçadinho junto com a turma: era piadista e contador de lorota em tempo integral: com os clientes (o que amenizava o constrangimento dos machões no famigerado exame de toque na próstata); no hospital, palhaço a encantar colegas, enfermeiras e pacientes; e na cama: não deixava de papaguear histórias e piadas, com Lívia. Zeca fazia-a rolar de rir, ao contar as peripécias – inclusive as sexuais – daquela turminha marota e metida a besta com quem ele se encontrava de vez em quando. E eu nem imagino quantos outros segredos da turma o Zeca destilava, e quantos outros segredos o casal – quando ainda era um casal – guardava de seus folguedos entre quatro paredes.

Então, ela sabia que o Cláudio era o mote preferido das brincadeiras dos amigos tarados por aqueles atributos de que já cansei de falar até aqui. Portanto, Lívia tinha diante de si um cara mais do que conhecido. E mais um detalhe: como muitas mulheres, ela era tarada por bunda de homem.

O que aconteceu durante o jantar, talvez enquanto já saboreassem o delicioso creme de papaia da sobremesa, foi esse diálogo, que descambou, como vão verificar, para a franqueza:

- Olha, Lívia, somos adultos e vou ser franco com você: que me perdoe o Zeca...

- Mantenha o Zeca longe daqui, Cláudio, Zeca morreu...

- ... no momento em que a revi, meu coração disparou: estou apaixonado, loucamente apaixonado. Queria...

Delicadamente, ela tapou a boca de Cláudio, que quase foi à loucura ao sentir a maciez daquela mão, o perfume daquela pele, o toque fatal que desgraça para sempre a solteirice de qualquer macho – e Cláudio era solteiro por convicção, não por falta de paixões, de mulheres e de oportunidades.

- Já sei – ela sussurrou – você quer ir para cama comigo.

Direta, assim. Cláudio suspirou. Fez cara de George Clooney, revirou os olhos e pensou: eu não mereço tudo isso! Esperou.

- Tudo bem – ela sorriu – eu dou pra você, hoje, agora... que eu também estou morrendo de tesão, afinal faz seis meses que... deixa pra lá... Mas – e ela fez uma pausa dramática – tem uma condição.

Lívia empertigou-se um pouco na cadeira estofada do restaurante. O mundo parou, lá fora, enquanto ali dentro o silêncio podia ser cortado com uma faca, espetado por um garfo e deglutido com um gole de vinho francês. Cláudio Clooney também se empertigou um pouco. Não disse nada, esperando que facas, garfos e dentes lhe cortassem, lhe espetassem e lhe comessem o coração que trotava em seu peito.

- Eu dou pra você, hoje, mas você também tem que me dar uma coisa.

- Tudo, tudo o que você quiser, minha querida – tartamudeou Cláudio, agora mais do que nunca com cara de George Clooney.

O ar parado. As pessoas, no restaurante, imóveis. Os garçons, com olhos arregalados. O ar-condicionado ronronou e parou. Talheres no ar. Guardanapos grudados nas bocas. Gestos interrompidos. O chão ameaçava abrir-se.

Lívia adiantou-se um pouco e sussurrou com aquela voz de contralto que toda mulher predadora tem, principalmente quando diante de uma presa:

- Eu quero a sua bunda. Eu quero comer a sua bunda.

Por um milésimo de segundo, os olhos de Cláudio saíram das órbitas e voltaram. E ele deixou de ser o George Clooney, seus ombros caíram um pouco, só o mínimo necessário para que o mundo voltasse a girar, o ar condicionado voltasse a funcionar, o restaurante retomasse a rotina do surdo andar dos garçons nos grossos tapetes e do ruído leve de talheres cortando, espetando e movimentando-se em direção a bocas elegantes e famintas.

E naquele átimo de segundo, passou pela cabeça de Cláudio tudo o que já fizera para preservar intactos os seus atributos de macho, de heterossexual convicto, frente ao desagradável presente que a natureza lhe fornecera. E então concluiu: uma mulher, uma mulher pode comer minha bunda. Afinal, é só uma mulher.

Foram para um motel, na Marginal, não um motel qualquer, mas o mais caro e elegante de que a memória do Cláudio pôde sacar durante o tempo de pagar a conta e esperar que o manobrista lhe trouxesse o carro.

Antes de entrar no luxuoso apartamento, aos abraços e beijos, Lívia cobrou:

- Não vai deixar de cumprir sua promessa, vai?

- Não, de forma alguma, dou-lhe minha palavra, juro...

E a primeira transa não podia ter sido melhor. Nem vou entrar em detalhes de orais, anais e eteceteras e tais. Encontro delineado pelo destino para dar certo, se é que há um destino, se é que tudo pode dar certo assim, da primeira vez. Enfim, cama, piscina, ducha na cachoeira, jacuzzi: esbaldaram se e, depois, o melhor vinho, os melhores e mais leves acepipes que podia oferecer o motel. Lambuzaram-se de bebida e comida, rolaram e se amaram tanto quando puderam pela ampla cama redonda, cheia de truques e molejos e luzes, moleques recuperando o tempo perdido.

Então, chegou a cobrança:

- Agora, é minha vez – ela disse.

- Sua vez? Como assim? – ele, entre divertido e curioso.

- Você prometeu – ela atacou.

- Promessa é promessa – ele, puxando a coragem lá do fundo das amargas lembranças de quanto sofrera para manter invicto aquele traseiro – minha bunda é toda sua.

- Então, vai ser um menininho obediente, vai? – ela, toda cheia de charme.

E sem esperar resposta, sacou não se sabe de onde uma fita preta. E vendou-o.

- Agora, fique aí quietinho: não demora nada.

Cláudio esperou, ainda sorrindo, ainda curioso, ainda divertido.

- Pronto! Pode tirar a venda.

Mesmo quando a viu com aquele enorme strap-on na cintura, negro, armado e luzidio, ainda assim Cláudio não entendeu muito bem qual era a brincadeira que, de repente, ficou séria.

- Vem, fique de quatro, meu bem... vou comer essa sua bunda maravilhosa de um jeito que você nunca mais vai se esquecer de mim.

Proféticas palavras. Sábias e proféticas palavras. Tão sábias e tão proféticas que, três meses depois, a turma de Guará, os cinco tarados – Zeca não compareceu, por motivos óbvios – aguardavam no altar de uma famosa igreja pentecostal de São Paulo a entrada triunfal dos noivos, para um casamento inusitado. Curiosos e atarantados. E mais ainda: ali, parados no altar, a boca aberta de todos não deixou dúvidas de quão encantados estavam ao ver e rever a noiva – Lívia – a ex-mulher do Zeca, o doutor Zeca, admirado e respeitado urologista – em seu vestido rosa e justo, muito justo, acentuando as curvas daquela bunda que disputava em perfeição com a de seu noivo.

E o noivo – Cláudio – para ainda maior espanto da turma, apresentou-se num belo terno muito bem cortado e justo, também extremamente justo, muito diferente das roupas largas que costumava usar, acentuando as curvas daquela bunda há tantas décadas admirada – e porque não dizer – desejada por todos e sobre a qual nada podiam falar, porque era, de toda a turma, a única bunda invicta.




(Ilustração: Alfedo López - vue sur vie)



9 de ago. de 2026

os pitagóricos

 





os pitagóricos demandam ciência

para voar sem asas

sobre as hipotenusas

pedindo aos pássaros paciência

para não pisar nas brasas

que avivam nas palavras sujas

os provérbios sem sentido

agregados ao pedido

para que respeitem o teorema



já que perpassa pelos cérebros inúteis

a busca insana de resolver o problema

que envolve a tristeza das vidas fúteis



15.12.2025

(Ilustração: escultura de Franz Bergman (Áustria - 1861-36) - 
Pitágoras desenhando o teorema)

6 de ago. de 2026

mistérios da vida

 



o único mistério da vida

é a própria vida

o resto é escrutínio

ou estuante gritaria

dos que imaginam a vida

dentro de seus cérebros

de tenebrosa insipiência



o sol que do espaço brilha

não ilumina as mentes

na incredulidade do que é



as estrelas fugitivas

não são olhos

de nenhum destino humano

a flor que brota do estrume

contém a mesma beleza

que os melífluos versos

de qualquer poeta

a pedra em que tropeça

o caminheiro

tem a mesma valia

que a gema gestada

no turbilhão de vulcões

no fundo da terra



os mistérios todos

que por aí se apregoam

só são mistérios para os estultos e pascácios

que não compreendem por que vivem

ou por que respiram e muito menos

por que acreditam que há vida além

da viva mesquinha que levam

- cegos escravos de crenças inúteis



o mistério da vida

no olho do pássaro

tem mais inevitabilidade

que qualquer metafísica



o mistério da vida

no perfume da rosa

tem mais opulência

que todas as catedrais góticas

erguidas para deuses mortos



o mistério da vida

na gota de chuva de verão

tem mais brilho e fervor

que asas de anjos tortos

e auréolas de santos falsos



a vida e seus mistérios

precisa apenas ser vivida

sem ansiedades e angústias

de esperanças etéreas

e eternidades logradas



inelutável é o universo

com seus mistérios

que nossos olhos contemplam

e só o possível contemplar

já contém mistérios além do big-bang



nosso hodierno conhecimento

só permite que aceitemos

que nascemos

que vivemos

que morremos

num ciclo que é parte – mínima parte –

de todo esse mistério




2.7.2026

(Ilustração: esculltura de Paige Bradley - Expansion - N.Y.)


 

 

4 de ago. de 2026

merda


 

não reclames que é de pobre

a merda que teu cu caga:

quando minha pica te enraba

encontra nele a função mais nobre




(Natal, RN, 7.6.2011)

(Ilustração: Francisco Brennand)

31 de jul. de 2026

meninas da amazônia

 




da rede o balanço suave embala o meu sono

- sonho águas amazônicas

e florestas inundadas



- sonho com meninas da cor do murici

os olhos de açaí

meninas-jaguatiricas pintadas de urucum

que correm pelos igarapés

que pulam cachoeiras

que batem no tronco das samaúmas

que batem pedindo socorro

contra a cobiça de nat-chó caraíba



[branco só tem a cor - não tem honradez]



meninas que não temem as águas dos rios

mesmo que as águas dos rios

estrujam venenos e metais pesados

meninas que correm da natchicü dos garimpeiros

trincham com dentes as cercas dos fazendeiros

e chegam inteiras e guerreiras nas suas aldeias

e pintam o corpo para a dança do tracajá



tem o curare da verdade

na ponta da zarabatana

o esturro de socorro

das meninas da amazônia

que ecoa e ecoa

muito além da floresta



o grito de resistência

das meninas pintadas

da floresta amazônica



- e eu sonho no balanço da minha rede

que esse grito desperte do sono

todos os caraíbas da terra de pindorama



17.6.2026

(Ilustração: foto de Ricardo Stuckert)





28 de jul. de 2026

o cão negro






emerge das profundezas de meu cérebro

a imagem de um cão negro



seus dentes pontiagudos assomam da bocarra escancarada

seus olhos refletem ódio e vingança de tempos imemoriais



sentado sobre as patas traseiras

já contrai os músculos poderosos

para o salto que vai estraçalhar

inexoravelmente meu pescoço



giro loucamente a cabeça para todos os lados à procura de ajuda

mas encontro apenas a perder de vista o deserto de areias escaldantes



retesa-se o corpanzil do cão

o salto parece inexorável

como inexorável será meu fim

e meu corpo servirá de repasto

para os seres rastejantes

desse deserto infernal



talvez décimos de segundos me separam do encontro fatal



as fauces do cão negro estão a centímetro de meu pescoço

não há palavras que descrevam a beleza desse horror

não há palavras que descrevam o horror de tal beleza

só o que penso é que vivi até aqui pela minha teimosia

e morro agora de forma inglória pelos dentes de um cão



no segundo fatal

no segundo final

acordo afinal



saio do pesadelo

e das artimanhas

que me prega

meu cérebro cansado



acordado revejo a cena segundo por segundo

com o suor da noite de verão a escorrer-me pelo rosto



sofro tudo de novo

e quase morro

ao perceber a armadilha

de meu cérebro

no sonho infernal

a que ele me levou

nesta noite

de pesadelos e horrores



quando vejo e rejo os olhos faiscantes

do cão negro que salta sobre mim

não mais tenho qualquer dúvida

da mensagem que meu cérebro

enviou para mim



reconheço naquele átimo de segundo

em que não sei se morri ou sobrevivi

que o cão negro e ameaçador

sou eu mesmo tentando me matar



31.1.2026

(Ilustração: Zdzisław Beksiński, 1991)



25 de jul. de 2026

medo da solidão






se você tem medo

de ficar sozinho

é porque você sabe

o perigo que você é

para você mesmo



[talvez não tanto

para os outros]



os seus rosnados

[que ninguém ouve]

são gritos de alerta

que sua mente recria

a cada instante

de sua solidão



e esses rosnados

[que só você ouve]

rosnam que a vida

para você um perigo

só é realmente temível

quando tudo aquilo

em que você acredita

quando tudo aquilo

que você deseja e sonha

imergem em seu medo

de ficar sozinho

e alimentam o seu medo

de viver a vida




22.4.2026

(Ilustração: Andrew Wyeth - wood stove)

22 de jul. de 2026

MATRIMÔNIO: ISSO É LÁ COM O DEMÔNIO

 






“Para garantir algo tão estranho quanto a exclusividade sexual,

é necessário gerar uma espécie de terror constante e de drama contínuo.”

Brigitte Vasallo; O desafio poliamoroso



Eu pedi numa oração

Ao querido São João

Que me desse um matrimônio

Matrimônio! Matrimônio!

Isto é lá com Santo Antônio!



(Canção popular, de Lamartine Babo)



Cale-se e beba, menina,

Que você tem sorte:

A taça pequenina

Trará rápida a morte



Cale-se e beba, senhora

O tempo de maturação

Muito longo, até agora

Só trouxe a solidão.



Cale-se e beba, matrona,

Já que sobreviveu,

Sendo tão durona,

Ao amor que já morreu.



Calem-se todas as que aspiram à felicidade

Dentro do chamado sagrado matrimônio:

O cálice que dele vem está cheio de maldade

Transmutada com capricho por algum demônio.



Atravessado o portal maldito

Em cima do qual está escrito

As palavras que Dante preveniu

Aos que entravam no inferno,

Seu grito aflito soará ao eterno

Sem mais nenhuma esperança

De que o rio de merda que fluiu

Desde aquele dia ao pé do altar



Não leve de roldão a aliança

Que obrigaram você a aceitar:

Esse rio que virou logo mar de lama

Nascido do compromisso medonho

Que você fez – repito – ao pé do altar

Apagou para sempre a chama,

Mesmo a pequena chama de algum sonho

Que um dia você pudesse sonhar.



27.1.2026

(Ilustração sem qualquer indicação de autoria)







19 de jul. de 2026

Lavras – palavra estranha

 




Lavras é palavra estranha

que me faz mineirar memórias.

Arroja em mim momentos meus

de loucos dias e dias mortos.



Lavras tem o jeito sutil

de trazer o vento que já passou,

de trazer a vida um dia já vivida,

de trazer o doce canto de minha mãe.



De Lavras vem

o eco de águas pingadas

a molhar o peito em dor,

águas doces de mangueiras em flor,

águas sujas de ruas tortas,

águas do rio louco de minha vida vã.



Às Lavras ecoam

lamentos de agora dos dias idos.



Entre sombras e entre passos retorno

às luas cheias da paixão,

catracas, rezas, cicios e preces

que o menino seguia em contrição,

pagando lá os pecados de agora.



Mergulho em Lavras atrás de mim,

mergulho em mim e encontro Lavras.



Renego, renego a vida que lá vivi,

mas não me livro da marca funda

em cicatriz de dor já mascarada.



Do pó do tempo me vêm as sombras

de tudo que já esquecera.

Se de Lavras ficou essa sombra triste

que me tornei, para lá retornam

as memórias loucas dos meus sonhos bons.



14/12/95

(Ilustração: Lavras, vista aérea, 
tendo em primeiro plano a Igreja Matriz de Santana)

16 de jul. de 2026

filosofia de bebum

 


no bar lotado todos de pinga se encharcavam

e conversavam e se chateavam

com papos sem pé nem cabeça

numa irritante chatice



foi quando entrou um bebum de fora

para quebrar a mesmice

pediu e implorou por mais um gole de cachaça

na mesa de um e outro a todos implorando

a alguns até mesmo irritando



foi quando o dono do bar

já meio cheio

de toda aquele zunzum

resolveu dar ao bebum

um bom de um safanão

e uma bela lição para livrar seus fregueses

de toda aquela doidice



mas – coitado – acabou derrotado

- pois o bêbado foi ovacionado

quando se virou para ele e disse:



“eu daqui só vou-me embora

com um copo de cachaça

porque a vida só melhora

se pela pinga ela passa”





11.2.2026

(Ilustração: Alfedo López - californiennes à Paris0