14 de mai. de 2026

A FILHA DO PADEIRO

 

Ficava na esquina. Duas portas abertas para a rua principal. Portas azuis. Todo ano, o padeiro pintava sua fachada de amarelo. Amarelo ouro. O que a fazia diferente de todo o resto do casario branco ou gelo que compunha um conjunto harmonioso e desinteressante, quebrado em parte pela minha casa, feia e descascada, que ficava exatamente em frente. A padaria amarela. E essa padaria teve uma influência decisiva na minha infância. Não só pelos pães e bolos deliciosos que dali saíam e aos quais poucas vezes tive acesso, mas principalmente porque nos fundos da padaria, num quintal florido e amplo, ficava a casa do padeiro, o padeiro e sua família, família constituída pela mulher e a filha. Vou falar, primeiro, da mulher do padeiro, para logo em seguida esquecê-la e dedicar-me ao motivo dessas linhas pelas quais recupero, depois de tantos e tantos anos de desgostos e desilusões, uma parte ínfima e fundamental de minha vida. Em minha solidão de cidade grande, apertado neste minúsculo apartamento, único bem adquirido em mais de trinta e cinco anos de trabalho, só agora posso me dar a satisfação dolorida de recordar. E é o que faço, diante de um computador que é um luxo, na escassez de recursos de minha moradia de velho empedernidamente solteiro. Solteiro e solitário. Sei que ambas as palavras têm a mesma origem, a mesma raiz, e por isso se tornam redundantes, num texto que pretende ser apenas um relato sucinto de um tempo tão distante numa cidadezinha minúscula perdida no mapa da memória e das montanhas de Minas. Sim, das montanhas que me viram nascer, crescer, sofrer e desaparecer para sempre na multidão anônima da grande cidade, mendigo do ensino a treinar aqui e ali crianças e jovens de outros tempos e costumes, tão diferentes. Mas voltemos à mulher do padeiro. Só saía acompanhada do marido em festas religiosas ou ocasiões especiais da política ou da sociedade extremamente provinciana da cidadezinha conservadora. Era bela, belíssima, pelos padrões da época. Suas raras aparições despertavam suspiros e deixavam muito marmanjo de braço roxo com os beliscões de namoradas, noivas e esposas ciumentas. Isso, no entanto, eu só soube tempos mais tarde, em conversas esquecidas com minha mãe, ao pé do fogão a lenha que pouco a pouco se consumia, como a vida de minha mãe, e empretecia as paredes de minha casa. Que, como já disse, ficava bem em frente à padaria, num terreno meio abandonado e tomado pelo mato que eu, apesar da pouca idade nessa época, tentava manter mais ou menos limpo. Ao lado de minha casa, havia uma mangueira, alta e frondosa o suficiente para encobrir o meu posto de observação em um de seus galhos mais altos. Dali, podia ver uma parte do quintal da padaria, onde se amontoavam pilhas de lenha para os fornos, frequentemente renovadas por um carroceiro pontual e barulhento que, toda sexta-feira, chegava de manhã bem cedo e despejava sua carga na calçada e depois a levava para dentro, junto com os dois ajudantes do senhor padeiro. Sim: era o senhor padeiro, por todos respeitado em razão do sabor de seus pães, por causa de sua conduta de cidadão acima de qualquer suspeita, pela dedicação ao trabalho duro numa arte que exige competência e muita disposição para aquecer e manter aquecidos os fornos madrugada a dentro, e, principalmente, por ser casado com uma das mulheres mais bonitas da região, o que o tornava mais do que respeitado, invejado e admirado. E por ali, por aquela padaria simples de cor amarela, desfilavam durante todo o dia, em horas determinadas, praticamente todas as mulheres, todos os homens e todos os jovens da pequena cidade de pouco mais de dois mil habitantes, porque ele era o único padeiro de toda uma região muito pobre, constituída de camponeses e roceiros sempre humildes em suas fainas diárias de plantar, colher, moer o milho, fazer fubá que era vendido ali mesmo na cidade, em feiras improvisadas ao lado da matriz, ou para algum eventual comerciante de cidades próximas, mais populosas e de mais recursos. Ah, a memória, quantos detalhes nos vêm, quando a acionamos preguiçosamente em noites de insônia! E, ao mesmo tempo em que permite reviver momentos que pareciam perdidos, seleciona só aquilo que não traz sofrimento, num processo de retenção das lágrimas que se aprisionam nos olhos do velho ao lembrar os momentos que podiam ter sido de felicidade e prazer e, no entanto, só trouxeram desencanto a um menino de calças curtas surpreendido por ela, a memória, encarapitado no galho mais alto de uma frondosa mangueira, a espionar o quintal do vizinho, do padeiro da casa amarela, a ver se avistava, nem que fosse furtivamente, por um único e breve instante, sua filha, a filha do padeiro pela qual o coraçãozinho ainda tão frágil batia mais forte. Relutei tanto a apresentar a personagem de minha narrativa, nessa já tão longa noite de insônia, que não sei se terei ainda a força necessária para dizer o que foram para mim aqueles dias de primavera, outubro já em meio, os momentos de contemplação solitária do quintal do padeiro, no qual esperava que surgisse, num passe de mágica, de prestidigitação da vontade, a dona do vestido rosa de um sonho inatingível. Não sei como nascera a paixão, paixão dos onze anos e meio de joelhos marcados pelos embates de bola nos campinhos improvisados nas ruas de terra, mas paixão arrasadora como qualquer outra que pudesse vir a experimentar em outros momentos de minha vida, totalmente primitiva e demolidora, por ser a primeira e a que marcou para sempre a conduta solitária do homem que me tornei e do velho misantropo em que me transformei. Mas acho que o alumbramento surgiu num dia comum de começo de primavera, quando saía para a escola, de manhã muito cedo, e passei por ela no mesmo trajeto em direção ao grupo onde ambos estudávamos, desconhecidos um do outro até aquele momento, quando ao sol nascente de uma manhã de bem-te-vis e marias-sem-vergonha, eu a vi pela primeira vez com olhos de cobiça que nem imaginava pudessem existir dentro de uma pessoa, principalmente de uma pessoinha tão desprezível e pobre quanto eu, o menino da casa da mangueira em frente à padaria da pequena dama de vestido rosa, sapatos pretos e meias brancas que subia abraçada a seus cadernos, caprichosamente encapados, pela rua poeirenta daquela cidadezinha perdida em minha memória. A menina da casa amarela, a filha do padeiro, a filha da mulher mais bonita da cidade, uma família que, afinal, fazia e vendia pães e doces e quitutes até para o prefeito e o vigário, uma família chefiada por um pai de costumes rígidos, mas sempre alegre e simpático para com os fregueses, um pai que mandava pintar e repintar as paredes da casa amarela todo ano, um pai que provia com o trabalho uma família que eu não tinha, reduzida, em minha condição de órfão, a uma mãe que precisava virar a noite na máquina de costura para não deixar que faltasse na velha casa descascada o arroz, o feijão e, quando possível, o pão que nem sempre o pai de meu desesperado objeto de amor cobrava de minha mãe. Pois foi naquele dia de início de primavera que eu descobri ao mesmo tempo o amor e a pobreza. Nos traços suaves da menina, no seu andar coleante e firme, de quem sabe para onde vai e o que quer da vida, nas suas mãozinhas de flor e fada segurando cadernos, livros, lancheira, no pequeno brinco de suas orelhas, na fita do cabelo, no seu vestido rosa, naquele conjunto que os olhos baços de menino viam pela primeira vez com cobiça de paixão, de desejo que fazia pular o peito e estranhamente dava uma dorzinha na virilha, como quando a gente almoça e sai correndo, que fazia bater os joelhos descobertos pelas calças curtas, e fazia os pés descalços e grossos correr mais ligeiros, ali, naquela visão primeira e primeva, estava o objeto ao mesmo tempo tão próximo e tão distante, que me fez ter consciência do que eu era, e tive vergonha de minha camisa surrada, de minha calça remendada, de meus livros usados, de meus cadernos desencapados e meus tocos de lápis numa caixinha improvisada. E olhei para meus pés, e olhei para minhas unhas sujas, e me vi, então, como eu nunca me vira antes: pobre, pobre e órfão, órfão e desamparado. Desamparado diante do amor, diante da vida. E então, a menina rica, de vestido rosa e sapatos brilhantes, se voltou um instante e olhou para mim e me viu, e sorriu um pouco, só um pouco, e continuou seu caminho. Naquele instante, o sol nublou, a rua se fechou, o tempo se calou na primeira sílaba do canto do bem-te-vi e eu nasci para a vida e para a solidão. Foram, depois, muitos e muitos dias trepado no galho da mangueira a esperar que ela aparecesse no quintal, que pudesse vislumbrar por um instante que fosse o seu vestido rosa, vestido que eu vi, sim, mais uma única vez, no dia seguinte, pendurado no varal. Mas, a dona, a dona dele, nunca mais, nunca. Nem na escola, nem no quintal, nem mesmo quando o movimento na padaria diminuiu, as portas quase sempre fechadas, o entra e sai de uma pessoa estranha, com uma maleta, disse-me a mãe, distraidamente, era o médico, que a filha do padeiro estava doente, e eu ficava a tarde toda encarapitado no galho mais alto da mangueira, espreitando, sabiá perdido em meio às flores e aos frutos que começavam a crescer, ignorado e ignorante, louco e perdido, perdido por um sentimento que eu não entendia, a palavra paixão só aparece como expressão do velho que digita no computador, tantos anos depois, a tentativa de explicar toda uma vida de solidão por um momento de desespero, quando a casa amarela se fechou para sempre, depois que saiu o cortejo com o caixãozinho rosa da menina cujo nome eu não soube nunca, porque minha mãe também não sabia, perdida em seu labor diário na máquina de costura, já tão desgastada e pobre, que o tempo para ela também se fechava, como se fechou para sempre o coração do menino que se tornou homem na cidade grande e se transformou no velho e solitário misantropo que vive, hoje, de lembranças que julgava perdidas de uma casa amarela e da menina de vestido rosa.






11.12.2006


(Ilustração: Alyssa Monks)




11 de mai. de 2026

boca

 



quem tem boca

não morre à míngua:

se falha o pau

nunca falha a língua




21.2.2026


(Ilustração: Namio Harukawa)

8 de mai. de 2026

Trova - meu quarto parece um cofre

 





Meu quarto parece um cofre

Onde vive e dorme um pobre,

Que não sabe o que é ser nobre,

Que apenas suspira e sofre.





1.2.2020

(Ilustração: Vincent Van Gogh - o quarto - 1889)

5 de mai. de 2026

A ENTREVISTA






- Então, quais são as três coisas melhores da vida, na sua opinião? (Merda! tinha que perguntar isso?! A coisa estava indo bem, ele parecia estar confiando em mim, já havia falado de vários assuntos importantes, e eu venho com isso... queria matar minha chefe, a desgraçada... ela adora essas bobagens... diz que o entrevistado só se revela quando responde sobre banalidades, idiota, só ela acredita nisso...)

- Bem, as coisas mais importantes da vida? (Essa menina até que é bem gostosa... e inteligente... fez perguntas interessantes, mas agora, pisou no tomate... que bobagem isso, coisas mais importantes da vida... quem se importa com isso... vou sacanear essa garota... dar uma resposta que possa deixá-la constrangida... vamos lá, pensemos, pensemos numa coisa que pareça chocante, mas que possa ser dita assim, com bastante naturalidade...). Bem, até que enfim uma pergunta inteligente!...

- Como assim? (o desgraçado está me tirando, eu sabia que não devia perguntar uma bobagem dessa, mas se eu não pergunto a idiota da minha chefe vai me encher o saco... vou ter que aguentar a ironia desse coroa... até que ele é bem apanhado, mas coroa, muito coroa, e metido a intelectual... tá certo, ele tem direito de ser metido, afinal...) O senhor acha... isso ... que eu perguntei... inteligente? (Devolvo a ironia para ele, quem sabe assim eu consiga dar um clima melhor para as outras bobagens da minha chefe... )

- Sim, porque muita gente acha que, quando se responde sobre assuntos, digamos, mais triviais, as pessoas se abrem, se revelam, se aproximam mais de seus fãs, enfim, a personagem se humaniza... (quanta besteira! mas entremos no jogo, preparemos o terreno para uma resposta fora do convencional, vamos ver se ela se assusta...)

- Puxa vida, mestre, como o senhor é sagaz... minha chefe também acha isso... (ele está jogando comigo, o sacana, vejo bem no olhar dele a troça, a gozação, ele quer me derrubar, logo quando já estou quase terminando a entrevista... mas eu preciso me manter firme, ele é importante, será que toparia ler meus poemas? alguns, pelos menos?)

- Você deve ter, então, uma chefe muito inteligente, isso é ótimo... (ela também gosta de ser irônica, esperta, muito esperta essa garota, mas pode deixar, vou fazê-la ficar bem constrangida, só preciso achar algo... acho que já sei... deixe-me elaborar um pouco...)

- Obrigada, sem dúvida é bom trabalhar com gente inteligente, mas é bem melhor conversar com pessoas geniais, assim, como o senhor... (bem, se ele não começar a falar, vou ter que apelar, não posso perder essa entrevista, a vaca da minha chefe disse que era uma oportunidade de ouro para qualquer novata como eu, entrevistar esse cara... e foi tudo bem... até agora, ele que não vá me enrolar). Então, o senhor pode dizer aos leitores de minha revista o que um escritor de seu... (quilate? coisa mais grotesca!)... de sua dimensão... acha que são as três melhores coisas da vida? Só para quebrar a solenidade, claro... o senhor já disse coisas tão importantes... (isso, se eu puxar o saco dele, quem sabe no final eu consigo que ele prometa, pelo menos prometa ler meus poemas...)

- Está bem, eu vou dizer, se você acha que isso é importante para seus leitores... (um bagre ensaboado essa garota, vai longe... esperta! Que idade terá? Uns 25, 26 anos... e bem gostosa... até que... não, nem vou me iludir, é ainda uma franguinha...) Eu acho que as três coisas mais importantes da vida são o vinho, a boceta e a literatura! (Olha só a cara dela... acho que não entendeu...)

- (Me belisque, ele disse "boceta"?) Desculpe, mestre, não entendi... o senhor pode repetir?

- (Ah... ah... ah... ela ficou espantada... consegui! a franguinha vai perder as penas!) Pois, não, senhorita: eu disse que as três coisas melhores da vida são: o vinho, a boceta e a literatura. Não necessariamente nessa ordem. (Ela assimilou... será que entendeu bem o que eu disse?) E veja bem: se você juntar as duas primeiras, o vinho e a boceta, o orgasmo já seria simplesmente divino... Se se pudesse juntar, nesse momento, a literatura... um poema de Camões... uma página de Proust... um canto de Homero... ou um simples poema de amor... mas um poema! tem que ser um poema - então, fogos espocariam, a terra tremeria... Entendeu?

- (O filho da puta é um fauno! E eu que estava aqui tentando me segurar, toda comportada, como uma virgenzinha intelectual, a discutir alta filosofia e literatura grega e o escambau... e o cara, olha só, adora uma pornografia barata... boceta, pois sim... ele é que se prepare...) E como o senhor juntaria, pela sua experiência e alta sabedoria... como o senhor juntaria a boceta e o vinho, professor? (Até que do alto de seus cinquenta e dois anos, ele ainda daria um caldo... cala-te, boca!)

- (Puta merda! não é que ficou deliciosamente provocadora a expressão "boceta e vinho" na boca dessa garota? Ela é mais esperta do que eu pensei... ou será que ela não entendeu direito o que eu disse? Vamos testá-la...) Bem, senhorita, não sei se os leitores de sua revista estão interessados em boceta, já que vinho e literatura podem ser suficientes para satisfazer sua curiosidade... Quer mesmo que eu explique?

- (Ele está tentando me dar um nó, está me testando... sacana!) Ora, mestre, não acha que já temos literatura suficiente? E vinho, bem, nossos leitores gostam, sim, de vinho, já que temos na revista uma ótima seção de enologia, que faz bastante sucesso... Agora, boceta, atualmente, é um assunto de que até as mulheres gostam... se é que o senhor me entende...

- E você quer uma explicação prática ou teórica?

- Prática, professor, uma explicação bem prática... O senhor prefere no meu apartamento ou no seu?




(sp/2/9/2012)

(Ilustração: foto de Jan Saudek - couple naked/dressed)

2 de mai. de 2026

trova - enquanto, dentro do peito,

 





Enquanto, dentro do peito,

Bate forte o coração,

Por fora, o bico do seio

Endurece de tesão.



2.11.2021

(Ilustração: Adriana Varejão: dadivosa)

29 de abr. de 2026

Trova - faça chuva ou faça lua

 



faça chuva ou faça lua

bom tempo sempre adivinho

quando penso em meu amor

bebendo à noite um bom vinho



18.4.2020

26 de abr. de 2026

Trova - digo quando o amor acaba

 





Digo quando o amor acaba:

Restam silêncio da lua,

Sabor de jabuticaba,

Passos trêfegos na rua.

 



24.8.2020

(Ilustração: Miss Sharad Singh - Night with full moon)

23 de abr. de 2026

NOVENA 9

 



NOVE NOVENA. PONTO.




Talvez não haja luar sobre o jardim

talvez

talvez não venha nunca sobre mim

o deus perdido em risos loucos

talvez



a lua apenas à noite a noite estranha

a lua apenas o meu sonho banha

ao verso esparso escolhe assim

o lamento apenas de um deus maroto

a zombar do alto o meu espanto



a dor de outrora era futuro

a dor de hoje é a face oculta

pela falsa lua a tecer mistérios

em jardins de luz que haverá outrora.



Nunca talvez agora.





24.5.94

(Ilustraçao: Emil Nolde - child in large bird)

20 de abr. de 2026

NOVENA 8

 

OITO PONTO NOVE



 Folgo em ver-te à luz de ti

ó lua fraca em noite vesga

o frio em ti a saudade gela

de outrora o rijo passo a ver aurora

em noites lentas de reza e dor

 

folgo em ver-te ó luar inconsútil

a descer teu manto à rua torta

em que deixei a caminhar perdido

outrora o sonho de um deus feliz.

 

 

24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde; Wildly Dancing Children)

 

 

 

17 de abr. de 2026

NOVENA 7



SETE PONTO NOVE



Água corrente o corpo molha

vida corrente a alma espanta

do rio nasce o peixe inútil

ao pescador que anzol não leva

leva apenas da reza fútil

a voz eterna da água suja

em que um dia o deus deixou

que ao corpo nu um outro espanto

vazasse em medo a dor de amor.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - lost paradise)

 

 

14 de abr. de 2026

NOVENA 6

 



SEIS PONTO NOVE



Leve o passo a sondar auroras

passa em poças o pé descalço

vinte o número em mágica posse

a vida além do morro desce

a encher de luz o passo firme



nada avisa o pé da pedra

a haver um dia à lua morta

atrás da sombra o vulto inútil.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - dancer in red dress)






11 de abr. de 2026

NOVENA 5

 


CINCO PONTO NOVE



Soube em ti desnudar o vento

minha alma triste em canto oblongo

a seguir a festa do deus já morto

a bater matraca à luz da lua



das pedras se levanta o pó

da fé perdida em noite azul

e o pobre menino inútil

revela a alma na chama nua.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - fingsten)






8 de abr. de 2026

NOVENA 4

 



QUATRO PONTO NOVE




Vagas noites de outrora inverno

vagas sombras de meus fantasmas

na rua estreita o bonde passa

e enche a noite de vozes vãs



em cismas de etéreas glórias

em vão desfilam meus caros sonhos

à luz da lua o bonde vem

marca em fogo o velho trilho

e arrasta em dor a dor que sobreviverá.



24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde -  The Last Supper; 1909)






5 de abr. de 2026

NOVENA 3

TRÊS PONTO NOVE




Em noites vagas de tempos longos

quando em luz a lua agoura

sonhos vivos de além aurora

o vento vem ao dia lento

soprar em mim o deus de outrora

e esse deus em luz tornado

para um instante para ver atrás

os sonhos loucos de luz e glória

a queimar em sangue à noite vaga.



24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde: landscape)

 

 

2 de abr. de 2026

NOVENA 2

 DOIS PONTO NOVE




Dos deuses que em mim habitam

guardo apenas a ironia do riso fácil

a tornar inferno a vida fútil

a tornar em dor a saudade inconsútil



dos deuses que em mim resguardam

habituo-me a ter somente o olhar ardente

a domar os ventos de minha louca mente

a soprar a dor que em dor ressente



dos deuses que em mim ressoam

ouço os lamentos como do inferno

a queimar o amor em fogo eterno

a tornar mais fútil o olhar mais terno



os deuses que em mim se rasgam

abrem brechas no meu ser inútil

tornam gelo o ser que sente

queimam em sarça o corpo externo

para deixar bem claro que em mim habitam.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - crucifixion)

30 de mar. de 2026

NOVENA 1

 

UM PONTO NOVE





Talvez haja luar sobre o jardim

e uma face negra sob a face branca

e uma face azul sob a face negra

e um arco-íris ao fim das máscaras



talvez haja apenas minha mente

a criar fantasmas e sombras sob a luz

a luz única de estranhos olhos

a ver apenas o luar plausível

nas brancas flores do jardim inútil



só porque talvez floresça a vida

sob o luar do jardim de outrora

e fantasmas a haver no fundo do meu ser.



24.5.94


(Ilustração: Emil Nolde - moonlight night)

27 de mar. de 2026

Carro guinchado

 


Parar em frente a guia rebaixada. Péssimo hábito de muitos motoristas. Péssimo e irritante. Mas, na vida, cada caso é cada caso. Nem sempre o que é péssimo para uns será apenas um castigo para outros. Pode ser muito, muito mais do que um castigo.

Minha vizinha mandou guinchar um carro que a impedia de entrar. Guia rebaixada, claro. E o carro, bem, nem se podia chamar aquilo exatamente de carro. Um pau velho quase caindo aos pedaços. Mas, irritação é irritação. De quem não pode estacionar na própria garagem. Não importa se o veículo é um Mercedes Benz último tipo ou um pau velho que precisa de reza brava para o motor pegar. E lá foi ela chamar o guincho. Das “otoridades” de trânsito, claro. Que demoraram, mas chegaram, checaram e levaram a ruína para o seu pátio, deixando no lugar o famigerado cavalete, informando que o veículo fora guinchado, telefone para tal e tal número etc.

Umas três horas depois, surge o dono do carro. Aliás, os donos. Um casal de velhinhos maltrapilhos que ali estacionaram e foram para ninguém sabe onde, fazer ninguém sabe o quê. Quando perceberam a realidade de seu pau velho ter sido levado pelas autoridades do trânsito, os dois velhinhos caíram em prantos. Choravam de dar pena. De chamar a atenção de quem passava. Até que apareceu a vizinha que chamara o guincho. E tomou pé da situação: os dois velhinhos tinham aquele carro como sua casa, era onde eles moravam. Eram sem teto. E todos os seus pertences haviam sido levados com o carro. E o choro corria solto, por isso. E não só dos dois velhinhos, não.

Já passados vários meses, a minha vizinha chora até hoje, de arrependimento, de haver chamado o guincho para levar a “casa” rodante do casal de velhinhos sem teto. Pois é, nem sempre o que parece ser uma solução ou um castigo, é só um castigo: pode ser a total desgraça para quem já está mais do que desgraçado pela vida. E motivo de arrependimento para quem causou a desgraça, mesmo que tivesse todos os motivos para isso. E tudo porque, muitas vezes, pensa-se: vou ali e volto já, e se esquece de que estacionou em frente a guia rebaixada. É a vida. E a vida não é justa para ninguém.



16.2.2019

(Ilustração: foto da internet, sem indicação de autoria)

24 de mar. de 2026

cena surrealista




baila o gordo com a leveza

e tristeza

de uma chama de lamparina



beija o umbigo da bailarina



ela despe a saia plissada

e rodopia o salto agulha

sobre a barriga estufada

do gordo extasiado

o sangue na plateia borbulha



do fosso sobe uma alegre valsa vienense





16.6.2024

(Ilustração: Vita Schagen)





21 de mar. de 2026

A MOSCA

 


Primeiro ele sentiu, mais do que percebeu. Depois, ele percebeu, mais do viu. E aí, sim, ele ouviu. O zumbido maldito. Era ela. Seguiu-a com os olhos. Os músculos tensos, mas imóveis. Ela rodopiou sobre sua cabeça. Zumbiu mais alto. Pousou na beirada da xícara. Pensou: é agora! Não era. Ela voou. Rodopiou sobre sua cabeça, de novo. Zumbiu bem perto de seu ouvido direito, aquele que ouvia melhor. O olho direito pegou-a em pleno voo, vindo novamente pousar na beirada da xícara, agora bem acima da asa, onde havia um minúsculo grão de açúcar. Não pensou: a mão direita subiu lentamente, sem que ela percebesse. E desceu como um raio. Ela percebeu. Com o sangue cobrindo parte dos óculos, ainda a viu ao longe, rodopiando, feliz.



10.9.97

(Ilustração: Francisco de Goya:head of a man)

18 de mar. de 2026

sutilezas do amor – no parque (ou, a namorada mineira)

 


amada minha

- lagarta listada

um dia cantada

por um poeta

alçaste o voo de meu ensejo

roeste em a mim a folha amarga

és a borboleta do meu desejo



isso tudo disse o moço

em pleno parque na alvorada

ao contemplar em alvoroço

os negros olhos da namorada



- credo, amigo – disse ela

menina traquinas

de jeito recatado

lembrando assim

reinações lá de minas

- ocê fala engraçado,

inté parece mei’ doidim



27.1.2026

 (Ilustração: Alfedo López - parfum soir printemps)