20 de abr. de 2026

NOVENA 8

 

OITO PONTO NOVE



 Folgo em ver-te à luz de ti

ó lua fraca em noite vesga

o frio em ti a saudade gela

de outrora o rijo passo a ver aurora

em noites lentas de reza e dor

 

folgo em ver-te ó luar inconsútil

a descer teu manto à rua torta

em que deixei a caminhar perdido

outrora o sonho de um deus feliz.

 

 

24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde; Wildly Dancing Children)

 

 

 

17 de abr. de 2026

NOVENA 7



SETE PONTO NOVE



Água corrente o corpo molha

vida corrente a alma espanta

do rio nasce o peixe inútil

ao pescador que anzol não leva

leva apenas da reza fútil

a voz eterna da água suja

em que um dia o deus deixou

que ao corpo nu um outro espanto

vazasse em medo a dor de amor.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - lost paradise)

 

 

14 de abr. de 2026

NOVENA 6

 



SEIS PONTO NOVE



Leve o passo a sondar auroras

passa em poças o pé descalço

vinte o número em mágica posse

a vida além do morro desce

a encher de luz o passo firme



nada avisa o pé da pedra

a haver um dia à lua morta

atrás da sombra o vulto inútil.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - dancer in red dress)






11 de abr. de 2026

NOVENA 5

 


CINCO PONTO NOVE



Soube em ti desnudar o vento

minha alma triste em canto oblongo

a seguir a festa do deus já morto

a bater matraca à luz da lua



das pedras se levanta o pó

da fé perdida em noite azul

e o pobre menino inútil

revela a alma na chama nua.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - fingsten)






8 de abr. de 2026

NOVENA 4

 



QUATRO PONTO NOVE




Vagas noites de outrora inverno

vagas sombras de meus fantasmas

na rua estreita o bonde passa

e enche a noite de vozes vãs



em cismas de etéreas glórias

em vão desfilam meus caros sonhos

à luz da lua o bonde vem

marca em fogo o velho trilho

e arrasta em dor a dor que sobreviverá.



24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde -  The Last Supper; 1909)






5 de abr. de 2026

NOVENA 3

TRÊS PONTO NOVE




Em noites vagas de tempos longos

quando em luz a lua agoura

sonhos vivos de além aurora

o vento vem ao dia lento

soprar em mim o deus de outrora

e esse deus em luz tornado

para um instante para ver atrás

os sonhos loucos de luz e glória

a queimar em sangue à noite vaga.



24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde: landscape)

 

 

2 de abr. de 2026

NOVENA 2

 DOIS PONTO NOVE




Dos deuses que em mim habitam

guardo apenas a ironia do riso fácil

a tornar inferno a vida fútil

a tornar em dor a saudade inconsútil



dos deuses que em mim resguardam

habituo-me a ter somente o olhar ardente

a domar os ventos de minha louca mente

a soprar a dor que em dor ressente



dos deuses que em mim ressoam

ouço os lamentos como do inferno

a queimar o amor em fogo eterno

a tornar mais fútil o olhar mais terno



os deuses que em mim se rasgam

abrem brechas no meu ser inútil

tornam gelo o ser que sente

queimam em sarça o corpo externo

para deixar bem claro que em mim habitam.





24.5.94

(Ilustração: Emil Nolde - crucifixion)