31 de mar. de 2021

terror em nice







no silêncio da abóbada

e dos santos de barro

a cabeça branca baixa

sob o véu negro e tênue



de repente o branco

se tinge de vermelho



o negro se tinge de vermelho



os santos se tingem de vermelho



os olhos não têm tempo

de registrar o espanto



o grito morre no sangue

que mancha a faca

que mancha a mão

respinga o chão

leva o vermelho no sapato

para o branco da manhã



o terrorista se dobra à bala

chora o último profeta



31.10.2020

29 de mar. de 2021

tempo de amor

 




pulsa o tempo na veia aorta

o sangue impulsa o velho coração

já não mais importa

o tempo que sopra a luz da vela

bate o vento na janela

bate o tempo no tempo justo

já não mais importa

se dizes sim se dizes não

quando o amor tem o mesmo susto

do tempo que bate à minha porta



27.6.2020

(Ilustração: Heinrich Lossow)

27 de mar. de 2021

tarja preta

 




porém felicidade não se compra na farmácia

- foi quando pulava a amarelinha

que a estrela riscada no céu de cimento

brilhou à luz do negro de seus olhos

- passou dias e dias no segredo de um cofre

apertada entre os parafusos dos seus sonhos

- pegou malária na amazônia

no quarup de seus mortos não enterrados

(partícipes todos eles do banquete antropofágico de seus estranhamentos)

- beijou os pés de estátuas de deusas nuas

em cerimônias de fertilidade á luz de falsas luas

e quando enterrou o feto de suas ilusões ao pé do mamoeiro

ouviu cantar o sabiá nas palmeiras do poeta

- recebeu passes da mãe de santo nas rodas de terreiro

pagou o dízimo de sangue ao pastor enlouquecido por dinheiro

rezou missas negras aos demônios todos que prometiam

a luz da fogueira ancestral acesa no fundo do seu poço sem estrelas

e terminou seus dias na camisa de força da bula de um tarja preta





14.2.2021

(Ilustração: escultura de Matt Verginer)

25 de mar. de 2021

talvez

 



talvez eu diga que te espero

no fim do túnel

quando a luz acenda uma nova lâmpada

de duzentos volts



talvez eu diga que há luz

no fim do túnel

quando o sol ascende para uma aurora

de estrelas cadentes



talvez eu diga

talvez eu não diga



a vida é cheia de arapucas

e por mais que eu persiga

prender-te em meus braços

o rio e o riso de teus abraços

seguem seu destino

para longe de meus laços



seguem para o estranhamento

das estrelas

e eu – no meu enrodilhamento

talvez seja tão cego que siga

sem nunca poder vê-las



18.12.2020

(Ilustração: Ada Breedveld) 

23 de mar. de 2021

sutileza

 




aprecio a sutileza de vozes

que soam suaves ao som

do sopro ou do sonho

e do sonho ao assombro



fossem vozes de vento

fossem vozes da sorte

aprecio em atroz engano

a voz sutil e suave da morte



10.10.2020

(Ilustração: William-Adolphe Bouguereau: 1825-1905)

21 de mar. de 2021

susto

 



acordo assim de repente

dentro da noite a suar

talvez a indesejada a chegar

talvez um aviso da mente

em truque que sugira cuidado

no peito o coração acelerado

no susto que me faz pular

e então totalmente acordado

ouço o compasso singelo

que vem do rádio ligado

um doce solo de violoncelo




20.9.2020

(Ilustração: foto da internet, sem indicação de autoria)

19 de mar. de 2021

suplícios

 



jogar-se ao desamparo dos precipícios

apertar cada vez mais forte os cilícios



deixar que se queimem todas as pontes

assistir sem nada fazer ao secar das fontes



marcar o passo na areia quente do deserto

pensar que a vida pertence ao mais esperto



esconder-se do vento depois de beijar a lona

parir nos becos sujos como cadela sem dona



consertar as horas loucas com luvas de borracha

esperar o escarro e a palavra que te escracha



pensar no passado como o tempo da inocência

buscar no poema sem eira nem beira a coerência



atar o passo do pobre à marcha da nobreza

sonhar que os estúpidos criem alguma beleza



são todos esses e cada um o teu suplício e o teu precipício

que se renovam a cada segundo em um eterno reinício




28.12.2020

(Ilustração: Zdzisław Beksiński) 

17 de mar. de 2021

sonhos fúteis






beijo os teus lábios e adormeço

dentro da noite solitária e triste

imaginando que em mim persiste

todo o encanto do teu apreço

e acordo dos meus sonhos fúteis

na manhã do meu leito vazio

[minhas defesas foram todas inúteis

diante da morte e seu olhar de desvario]




25.9.2020

(Ilustração: Dino Valls -Iugalis)

15 de mar. de 2021

sonata

 



no cicio de versos de verlaine

sonho sonatas de debussy

na carícia de seus seios macios

sussurro pianíssimos de satie



assim como soam violas e violinos

sinto a suave seda de seus seios

e na sombra de meus devaneios

sopro em seus doces seios senhora

sons de sonatas e suaves volteios

de valsas que se dançam à aurora



25.7.2020
(Ilustração: foto de Augusto P. Gomes)

13 de mar. de 2021

sobrevivência

 



quando baixa aquela tristeza

roendo por dentro qualquer horizonte

empoçando o pensamento na depressão

fazer o quê?



sofrer em silêncio ou falar pelos cotovelos

numa sala asséptica deitado

como morto-vivo num divã?



retorcer as tripas até que o coração

transborde bílis e rancores

num vômito fétido de autocomiseração?



fechar as janelas à luz da aurora

encaracolar-se no desespero

e mergulhar no gelo da bebida que queima

para beber depois as lágrimas de fel?



beijar o pó da estrada ao crepúsculo

e maldizer as estrelas que brilham

que brilham só para outros e assim afundar

no rio da noite de todos os desesperados?



nada disso fará de ti o mergulhador

que reservou nos pulmões um pouco de ar

para enfrentar a subida e sobreviver



somente na poesia e na filosofia

encontrarás a paz do teu ser

com a completude e a compreensão

do que são as estrelas no céu

do que são os vermes nas profundezas da terra

somente na filosofia e na poesia



11.12.2020

(Ilustração: Luis Ricardo Falero)

11 de mar. de 2021

sobreviva!

 



ih! a pipoca queimou

o bolo solou

o bife queimou

e daí?

e daí que é melhor

do que sair por aí

esquecer o pior

deixar que queime o feijão

de vez em quando

deixar que se esparrame pelo fogão

a pipoca pulando

o azeite queimando

a batata fritando

do que ficar

sem ar

sem cheirar

sem paladar

sem sentir o cheiro e o gosto gostoso da cebola e do alho fritos

sem poder assistir a um filme da televisão comendo doritos

sem poder tirar com prazer a rolha de uma garrafa de vinho

mesmo que esteja sozinho

coma a pipoca queimada

sem esquecer de dar risada

do gato que correndo fugiu

quando a panela explodiu

pense sempre – e daí?

porque você dirá um dia

mesmo que na noite fria

com o vento gelado

sem ninguém ao lado

hoje você grita – e daí?

mas com certeza um dia

– e seja eu que lhe diga

sem qualquer intriga -

você vai gritar – sobrevivi!



28.6.2020

(Escultura de Camille Claudel - jovem com um feixe de trigo 1887)

9 de mar. de 2021

simples utopia

 



sonho com um tempo quando

não seja necessário

ter orgulho de ser gay ou lésbica

não seja necessário

ter orgulho de qualquer diferença

sonho com um tempo quando

ser o que se é

seja motivo apenas de ser o que se é

um mundo em que olhar o outro

seja apenas olhar o outro

sonho com um tempo quando

do galho da mesma árvore

brotem folhas e frutos tão diversos

que tenham todos o mesmo perfume

que tenham todos o mesmo gosto

que proporcionem todos o mesmo prazer

ainda que sejam todos diferentes entre si

iguais aos olhos e aos prazeres

sonho com um tempo quando

as cores do arco-íris estejam na pele

na pele e nos olhos e nos olhos e na pele

de cada criança e de cada ser que olhe

de cada ser que não enxergue

de cada ser que não estranhe

que há cores diversas que cobrem as peles

mas é sempre a mesma pele



29.6.2020

(Ilustração: Ciparis - Christelle)

7 de mar. de 2021

silêncio do vento






vejo-me em sonhos de noites frias

a caminhar caminhos de montanhas de lua

os passos lentos a quebrar folhas secas

a ferirem-se os pés nas pedras das quebradas



o vento em meu rosto em pleno agosto

tortuosos os caminhos e descaminhos

como a vida que caminha para o alto



o céu de bronze com poucas nuvens

a cabeça vazia de pensamentos e desejos

só a montanha e os passos lentos



as folhas secas estalam a cada passo

pedregulhos rolam às vezes pelo abismo



caminho não pensando em ti não pensando em nada

vou pela montanha acima como se melíflua entidade

a caminhar pela vida sem saber que não há caminhos

sem saber que tudo quanto caminhei até agora sabe a mofo



e de repente o silêncio pesado e morto como se o vento

não mais soprasse e não mais meus passos pesassem



não sei se esse silêncio assim tão de repente no caminho

é apenas a impressão que carrego de meus pesadelos

ou a ponta de areia que leva ao alto onde não há nada

nada além da paisagem que se contempla enfim

quando nossos passos deixam atrás nosso último rastro





5.11.2020

(Ilustração: Camille Pissarro:  A Cowherd on the Route de Chou-Pontoise)

5 de mar. de 2021

sem problema – 5





- sempre por aqui?

- às vezes, sempre rodando, e você?

- também de vez em quando



- linda a sua...

- também gostei da sua...

- leve?

- o braço é forte e a vida é breve...

- nossa! não há quem possa...



- vejo você de novo?

- mesma hora, quem sabe,

longe desse povo...



uma semana depois – se amaram

se amaram como loucos que eram

depois da difícil escolha:

- na minha cadeira ou na sua?




29.11.2020

(Ilustração: Hans Bellmer) 

3 de mar. de 2021

sem problema - 4

 



- espere – devo dizer-lhe – não sou

branca como você

- e eu não sou negro como você

- sou eu a negra ou é você o branco?

- seu cheiro é o cheiro

do arrepio na minha pele

- e sua pele tem o cheiro

de arco-íris e chuva depois do estio

- nada sei de arco-íris

- também nada sei de cores

- só de odores?

- só de odores



amaram-se como loucos

loucamente se amaram

porque não precisavam

nem de saber de arco-íris

nem de cheiros de chuva

amavam-se sem nenhum problema

(tinham um no outro o tesão dos odores

- não o das cores)

amavam-se apenas





18.11.2020

(Ilustração: Hans Bellmer)

1 de mar. de 2021

sem problema - 3

 


- espere – devo dizer-lhe – não sou

o que você pensa que sou

- eu não penso no que você é

e também esqueça quem

ou o que eu sou



amaram-se como loucos

loucamente se amaram

porque não precisavam

nem de saber isso ou aquilo

amavam-se sem nenhum problema

(tinha cada um o tesão e alguns tentáculos)

- amavam-se apenas





12.11.2020

(Ilustração: Hans Bellmer)