Há um tempo líquido lá fora e um tempo seco em minha alma. Busco, em vão a calma dos sentidos. Sei que é impossível. Mas não quero chorar angústias por um tempo que não vivi e não viverei. É meu último pedido deixar que cubram meu corpo azáleas coloridas, muitas azáleas, para que eu fique perfumado com o néctar de abelhas que virão pousar no cromo em que meu caixão irá transformar-se, para que eu possa, em minha última morada, esquecer que este meu corpo é agora apenas uma pústula imensa de dor, como um castigo por aquilo que eu deixei de fazer quando ainda havia possibilidades. No entanto, não me arrependo. Se no meu corpo de homem, habitavam sentimentos de mulher, cumpri o meu destino. Nada há para lamentar. Entreguei a outros o cuidado que eu devia ter de mim e aqui estou, olhando para o meu corpo como se olhasse uma erupção vulcânica. As flores dentro do meu féretro serão a esperança de superação do nojo. São estes os meus últimos pensamentos: nenhuma mensagem, nenhuma lamúria, nenhuma grande declaração. Apenas que um dia existiu alguém que desejou ter seu corpo levado à última morada coberto de azáleas de todas as cores, num dia chuvoso de fim de inverno e início de primavera.
5.10.98
(Ilustração: Carl Larsson - azalea)

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