4 de jun. de 2026

quem se importa?


 

quando vier o frio

aquele frio de rachar

não sei se estarei

preparado para ele



quando vier o calor

aquele calor de rachar

não sei se estarei

preparado para ele



mas quem se importa?



a temperatura do planeta

oscila com um pêndulo enlouquecido

sob as artimanhas de um menino e uma menina

que brincam no meio do oceano

e do que eles brincam?

de esquentar muito aqui – onde nunca esquentava

de esfriar muito ali – onde nunca esfriava

de provocar seca de esturricar o solo onde chovia

de chover de inundar tudo onde havia seca



e quem se importa?



desde a famigerada revolução industrial

(para quem não se lembra – iniciada lá século XVIII)

queimam tudo que pode ser queimado

escavam e furam por ouro – amarelo ou negro –

tudo o que pode ser escavado e furado

comem da terra (com fauces demoníacas)

tudo – absolutamente tudo – que pode ser comido

derrubam as árvores imensas de todas as florestas

como se fossem essas árvores capim para dar ao gado



e quem se importa?



sua-se como boi no rolete quando é verão – e não é verão

treme-se como vara verde quando é inverno – e não é inverno



e quem se importa?



sobrevive apenas queimando seus bites e bytes

a inteligência das telas

[que nem inteligência na verdade é]

e consomem-se bilhões de litros de água

para resfriar essas máquinas comedoras de cérebros



e quem se importa?



o gato enterra minhas lágrimas na noite vazia

e passa pelos cornos da lua

a sombra do mundo que explode e flutua



e quem se importa?



caminho dentro da sombra cheio da solidão da noite

e despejo minha bile num cesto lixo cheio de filé mignon

as folhas secas dos esqueletos das árvores

cobrem as calçadas das cidades-fantasma dos filmes de bang-bang



e quem se importa?



tento nutrir minhas noites comendo estrelas solitárias

esboço aquarelas em tecidos de cetim do forro dos caixões

recolho nas ventas entupidas o vento que não sopra

bebo a água poluída da chuva que não cai

na pedra da rua encosto a cabeça e espero o sol que não virá



e quem se importa?



meu desejo e meus anseios colhidos na antevéspera da história

naufragam na enxurrada que inunda os casebres de papier mâché

os olhos ardem e secam dentro da água podre

estranhos que surgem dos botes desinflados navegam sem destino

gritos e sussurros gritam e sussurram que o sol não aquece

gemidos e estertores gemem e estertoram que a água não mata a sede

só o vento que venta e não refresca – só ele – marca as fauces da morte

e de tudo o que resta?

– a desolação



e quem se importa?




29.5.2026

(Ilustração:Georges Seurat - 
uma tarde de domingo na Ilha de Grande Jatte)



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