quando vier o frio
aquele frio de rachar
não sei se estarei
preparado para ele
quando vier o calor
aquele calor de rachar
não sei se estarei
preparado para ele
mas quem se importa?
a temperatura do planeta
oscila com um pêndulo enlouquecido
sob as artimanhas de um menino e uma menina
que brincam no meio do oceano
e do que eles brincam?
de esquentar muito aqui – onde nunca esquentava
de esfriar muito ali – onde nunca esfriava
de provocar seca de esturricar o solo onde chovia
de chover de inundar tudo onde havia seca
e quem se importa?
desde a famigerada revolução industrial
(para quem não se lembra – iniciada lá século XVIII)
queimam tudo que pode ser queimado
escavam e furam por ouro – amarelo ou negro –
tudo o que pode ser escavado e furado
comem da terra (com fauces demoníacas)
tudo – absolutamente tudo – que pode ser comido
derrubam as árvores imensas de todas as florestas
como se fossem essas árvores capim para dar ao gado
e quem se importa?
sua-se como boi no rolete quando é verão – e não é verão
treme-se como vara verde quando é inverno – e não é inverno
e quem se importa?
sobrevive apenas queimando seus bites e bytes
a inteligência das telas
[que nem inteligência na verdade é]
e consomem-se bilhões de litros de água
para resfriar essas máquinas comedoras de cérebros
e quem se importa?
o gato enterra minhas lágrimas na noite vazia
e passa pelos cornos da lua
a sombra do mundo que explode e flutua
e quem se importa?
caminho dentro da sombra cheio da solidão da noite
e despejo minha bile num cesto lixo cheio de filé mignon
as folhas secas dos esqueletos das árvores
cobrem as calçadas das cidades-fantasma dos filmes de bang-bang
e quem se importa?
tento nutrir minhas noites comendo estrelas solitárias
esboço aquarelas em tecidos de cetim do forro dos caixões
recolho nas ventas entupidas o vento que não sopra
bebo a água poluída da chuva que não cai
na pedra da rua encosto a cabeça e espero o sol que não virá
e quem se importa?
meu desejo e meus anseios colhidos na antevéspera da história
naufragam na enxurrada que inunda os casebres de papier mâché
os olhos ardem e secam dentro da água podre
estranhos que surgem dos botes desinflados navegam sem destino
gritos e sussurros gritam e sussurram que o sol não aquece
gemidos e estertores gemem e estertoram que a água não mata a sede
só o vento que venta e não refresca – só ele – marca as fauces da morte
e de tudo o que resta?
– a desolação
e quem se importa?
29.5.2026
(Ilustração:Georges Seurat -
uma tarde de domingo na Ilha de Grande Jatte)

Nenhum comentário:
Postar um comentário