Hoje acordei um tanto nostálgico de meus tempos de estudante, em Lavras, no infelizmente extinto colégio católico com nome de santa – Nossa Senhora Aparecida. Eu, que me considero ateu desde a adolescência, celebro um padre e professor que marcou minha vida e, possivelmente, a de muitos que conviveram com ele naqueles idos e vividos anos de ginásio e colégio, como se dizia antigamente.
Está lá, na página de homenagens do convite de nossa formatura, o nome do Pe. Carlos Zirke scj. Duas vezes. Como diretor do Colégio e como professor.
Isso foi em 1963. Os dezoito formandos daquele ano devem se lembrar – e muito – da figura meio elétrica e falante do querido padre Tito. O Carlos Zirke do convite de formatura.
Com sua batina branca, tocava o Colégio Nossa Senhora Aparecida com a batuta de educador. Lia como ninguém os nossos anseios. Gostava de nós, alunos, com desvelos de irmão mais velho e sabia frear nossos instintos mais bravios com a doçura da autoridade conquistada.
Padre Tito, na verdade, não era professor. Ou melhor, era. Mas não no sentido convencional. No terceiro ano do científico, não havia previsão de aulas de religião. Impossível tal matéria para moleques à beira do abismo da liberdade, da rebeldia sem causa, das buscas insensatas. Inventou-a, à aula de religião, o Padre Tito, para aproximar-se de nós, os sobreviventes de uma longa, longuíssima caminhada, desde a primeira série ginasial.
Então, toda semana, tínhamos “aula de religião”, com padre Tito. Com todas as aspas. Porque, de religião, que eu me lembre, nunca se falou nas aulas do padre Tito. Tudo se discutia, desde etiqueta básica até altas filosofias. Não era o mestre, mas o amigo que comparecia à nossa frente, à frente de nossos corações ávidos de novidades, de nossas mentes cheias de desejos.
Fico, hoje, pensando: no quanto de mim ainda há das aulas do padre Tito. Impossível saber. Porque as palavras, levou-as a todas o vento do tempo, mas ficaram, indeléveis e sutis na nossa formação, na nossa memória remota, como uma marca, um estigma, o exemplo, as boas lições e, principalmente, o carinho do Pe. Carlos Zirke, scj, o padre Tito.
Concluo essa breve crônica com uma última informação sobre esse querido professor que era, creio, padre por acaso e não exatamente por vocação: logo depois que nos formamos, abandonou a batina, casou e pouco eu soube de sua vida desde essa época.
(Ilustração: vista externa do Colégio N. S. Aparecida, Lavras, MG,
anos 50/60; foto de autoria não identificada)

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