deixa o caminheiro a marca de seus pés no pó
do longo caminho de sua vida breve
e logo o vento
do tempo
de um tempo que passa na piscadela de uma estrela distante
torna as marcas sofridas dos seus pés rachados
apenas a poeira que se levanta e some nos redemoinhos
sonhou ele sonhos inescrutáveis
e agora nem o sonho de uma lápide sobre um túmulo perdido
num cemitério escondido
sob as areias do deserto
terá a marca do seu nome
para uma posteridade que não houve nem haverá
solidão
apenas solidão
colheu o caminheiro
pelo pó dos caminhos em busca de si mesmo
desdobrando-se em mil estilhaços
dentro de seu cérebro em luta
contra as intempéries da loucura
e do ensimesmamento
tropeçou nas pedras com os olhos nas estrelas
ignorando que eram elas – as estrelas – inalcançáveis
apodreceu os joelhos nas curvas e desvios das montanhas
se sofreu ou se teve breves momentos indizíveis de felicidade
nem mesmo a si mesmo
em seus pensamentos mais profundos
teve a ousadia de os revelar
o brilho de seus olhos pouco a pouco se apagou
como se apagam ao amanhecer as fogueiras dos demais caminheiros
como se apaga ao amanhecer o brilho das estrelas
restaram no fundo de suas retinas cansadas
as mágoas das pequenas conquistas que se lhe escaparam
para os abismos de suas incongruências
no outrora dos tempos de sonhos germinais
talvez pudesse ter escolhido outros destinos
veredas de águas mansas
não pirambeiras de morros insondáveis
talvez pudesse ter tomado outros desvios
para terras de lhanosas planuras
não trilhas de rochas ferventes
mas o sol se põe no horizonte de seus desejos
e não há mais nada que ele possa fazer
o futuro virou passado
e o passado é a pedra que lhe pesa às costas
enquanto cava no fundo da grota escura
a cisterna de onde jamais sairá
a verdade de sua vida
12.5.2026
(Ilustração: Jean Leon Gerome - verité au fond du puits)

Nenhum comentário:
Postar um comentário