16 de jun. de 2026

a verdade do caminheiro



deixa o caminheiro a marca de seus pés no pó

do longo caminho de sua vida breve

e logo o vento

do tempo

de um tempo que passa na piscadela de uma estrela distante

torna as marcas sofridas dos seus pés rachados

apenas a poeira que se levanta e some nos redemoinhos



sonhou ele sonhos inescrutáveis

e agora nem o sonho de uma lápide sobre um túmulo perdido

num cemitério escondido

sob as areias do deserto

terá a marca do seu nome

para uma posteridade que não houve nem haverá



solidão

apenas solidão

colheu o caminheiro

pelo pó dos caminhos em busca de si mesmo

desdobrando-se em mil estilhaços

dentro de seu cérebro em luta

contra as intempéries da loucura

e do ensimesmamento



tropeçou nas pedras com os olhos nas estrelas

ignorando que eram elas – as estrelas – inalcançáveis

apodreceu os joelhos nas curvas e desvios das montanhas



se sofreu ou se teve breves momentos indizíveis de felicidade

nem mesmo a si mesmo

em seus pensamentos mais profundos

teve a ousadia de os revelar



o brilho de seus olhos pouco a pouco se apagou

como se apagam ao amanhecer as fogueiras dos demais caminheiros

como se apaga ao amanhecer o brilho das estrelas

restaram no fundo de suas retinas cansadas

as mágoas das pequenas conquistas que se lhe escaparam

para os abismos de suas incongruências



no outrora dos tempos de sonhos germinais

talvez pudesse ter escolhido outros destinos

veredas de águas mansas

não pirambeiras de morros insondáveis

talvez pudesse ter tomado outros desvios

para terras de lhanosas planuras

não trilhas de rochas ferventes

mas o sol se põe no horizonte de seus desejos

e não há mais nada que ele possa fazer



o futuro virou passado

e o passado é a pedra que lhe pesa às costas

enquanto cava no fundo da grota escura

a cisterna de onde jamais sairá

a verdade de sua vida





12.5.2026

(Ilustração: Jean Leon Gerome - verité au fond du puits)

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