o único mistério da vida
é a própria vida
o resto é escrutínio
ou estuante gritaria
dos que imaginam a vida
dentro de seus cérebros
de tenebrosa insipiência
o sol que do espaço brilha
não ilumina as mentes
na incredulidade do que é
as estrelas fugitivas
não são olhos
de nenhum destino humano
a flor que brota do estrume
contém a mesma beleza
que os melífluos versos
de qualquer poeta
a pedra em que tropeça
o caminheiro
tem a mesma valia
que a gema gestada
no turbilhão de vulcões
no fundo da terra
os mistérios todos
que por aí se apregoam
só são mistérios para os estultos e pascácios
que não compreendem por que vivem
ou por que respiram e muito menos
por que acreditam que há vida além
da viva mesquinha que levam
- cegos escravos de crenças inúteis
o mistério da vida
no olho do pássaro
tem mais inevitabilidade
que qualquer metafísica
o mistério da vida
no perfume da rosa
tem mais opulência
que todas as catedrais góticas
erguidas para deuses mortos
o mistério da vida
na gota de chuva de verão
tem mais brilho e fervor
que asas de anjos tortos
e auréolas de santos falsos
a vida e seus mistérios
precisa apenas ser vivida
sem ansiedades e angústias
de esperanças etéreas
e eternidades logradas
inelutável é o universo
com seus mistérios
que nossos olhos contemplam
e só o possível contemplar
já contém mistérios além do big-bang
nosso hodierno conhecimento
só permite que aceitemos
que nascemos
que vivemos
que morremos
num ciclo que é parte – mínima parte –
de todo esse mistério
2.7.2026
(Ilustração: esculltura de Paige Bradley - Expansion - N.Y.)
