29 de set. de 2026

amores do passado – 3





amores do passado profundo

- uma dor-fantasma no quarto escuro

a assombrar o tempo e o momento

quando o pensamento é pluma ao vento



a dor assombra o fantasma

e o fantasma insufla a dor



nada-se no nada da saudade

pois saudade não há

há apenas o sopro da brisa

e sensações que obnubilam o olho

no quarto escuro de buracos

cavados no peito e desconhecidos

onde se perde a esperança

de qualquer passo para o passado



7.9.2026

(Ilustração: Alyssa Monks)

23 de set. de 2026

A MANCHA VERMELHA



Dia de nada fazer. Calor de cortar com faca. Até as moscas voavam devagar. Uma pinga a mais e o calor se mandava. Na modorra que aquietava, o estômago teimava em querer comida. Vasculhou nos bolsos imundos uma moeda improvável. Restos de pão. Lenço imundo. Um palito de dentes e outro de fósforos. Uma chave amarela que um dia terá aberto alguma porta já inexistente no fundo da memória. Um toco de cigarro, sem filtro, já quase se desmanchando. Juntou tudo dentro do lenço, seu tesouro. O que fazer? A cabeça rodava. Mais uma pinga - era essencial. Era mais uma pinga ou o derreter-se no calor como um picolé fora da geladeira. Picolé, um picolé de pinga! Por que não. Ameaçou sorrir, mas lembrou que sua boca era o oco do mundo e sentiu vergonha. É claro que ninguém iria notar que ele estava rindo, mas ele se veria com o oco do mundo escancarado num esgar fétido e sentiria vergonha. Não riu. Apertou os olhos para enxergar melhor quem vinha ao longe, caminhando devagar pela praça vazia, debaixo daquele calor de estourar mamona. Só podia ser um louco. Ou outro miserável como ele. Tateou o chão e deu com uma pedra. Lisa, redonda, sólida em sua ponderabilidade de pedra. Perfeita. A mancha distante era agora uma massa grande e branca a tapar o horizonte, numa sombra de jaqueira sobre o chão de cimento fumegante. Ao segundo de decisão seguiu-se o segundo de ação. Num átimo, a massa informe e sua sombra de jaqueira não eram mais que um corpo a gemer no chão sujo da praça onde não se ouvia nada além do zumbido de moscas lerdas ao ar parado no calor extenuante do início de uma tarde de verão em que um mendigo ardia em febre de loucura por uma dose de pinga branca para espantar a modorra e a fome do calor que abrasava tudo, até mesmo a mancha vermelha cravada para sempre na superfície leitosa de uma pedra lisa e redonda a rolar para dentro do bueiro negro.





15.10.97

(Ilustração: Mark Rothko - sem título (vermelho) 1956)

20 de set. de 2026

vinho da vida





das mãos de um deus recebo

o balsâmico vinho que bebo

o vinho de Baco



abraço mênades e sátiros como um redivivo corifeu

no êxtase da dança das bacantes

do cântaro ritualístico o vinho do deus

faz renascer em mim a catarse da fertilidade

para desapegar-me dos arrependidos instantes

em que me queimei no fogo de Prometeus

e alegro-me em Dioniso pela nova oportunidade



29.7.2026

(Ilustração: Johannes Vermeer de Delft - 
The Wine Glass; c.1658-1660)

17 de set. de 2026

Trova - Mano, ó mano velho: no teu corre

 



Mano, ó mano velho: no teu corre

Pela cidade, de sul a norte,

Tem o sal do suor que te escorre

Sabor e cheiro da tua morte.



13.9.2026

(Ilustração: Foto de Djalma Malaquias)

11 de set. de 2026

Trova - tu que entregas por aplicativo

 






Tu que entregas por aplicativo

Dirigindo moto ou bicicleta:

Só podes sonhar em ficar vivo,

Se te tornares um grande atleta.



7.9.2026

(Ilustração: imagem da internet; autoria na assinatura da figura)

8 de set. de 2026

DIA DE GATO

 



Olha bem pra mim, seu delegado, vê se eu tenho cara de bandido, mão de bandido... isso aqui é mão de trabaiadô, ralo o dia inteiro, sou motoboy, com muita honra, seu delegado... se tava vagando na Marginal, sem rumo, é porque... porque... vai sê difícil o senhor acreditar... Tá bom, eu conto, tintim por tintim, tudo o que aconteceu. (...) Foi um dia de gato, seu delegado, é, um dia de gato, porque dia de cão eu tenho todo dia... Trabaiei até tarde, fazendo entrega e depois arrumando o escritório. Deixei a moto no estacionamento da firma – até pedi pro patrão deixá eu vim com ela pra casa, mas o disgramado do patrão não deixou, não. Quando saí, já nem tinha movimento na rua, tudo vazio, fui pro ponto de ônibus e fiquei lá esperando. Só eu. Tinha mais ninguém, não. Só eu, sozinho. Esperando. Meia hora e nada do disgraçado do ônibus. E eu lá, esperando, puto da vida, sozinho. Sozinho e cansado. Sozinho e com fome. E aí veio vindo um carro, um carrão, seu delegado, desses importado, preto, vidro escuro... Veio vindo, devagar, parou. Bem na minha frente. Levei um susto, né? Aí o vidro desceu e eu vi uma mulher, bonitona, loira, olhando pra mim... fez sinal pra que eu me aproximasse. Enfiei o carão na janela e perguntei se ela precisava de ajuda. “Como eu chego no Carrão?” – ela perguntou. “Carrão? Ih, isso é longe pra dedéu... num dá pra explicar direito, não...” “E como você sabe que é longe?” – ela perguntou de novo. “Ora, dona, é longe e eu sei que é longe porque... porque eu moro lá, né?” “Então, entra aí, que você me ensina o caminho e eu te dou uma carona até lá”. Ó, seu delegado, confesso que achei estranho, muito estranho aquilo, mas tava cansado, com fome, o ônibus num vinha, entrei! Ah, que delícia aquilo, seu delega, quero dizer, seu delegado, um carrão daquele, banco de couro, ar-condicionado, era tudo que um fio de deus precisa numa hora dessas. Depois de olhar tudo, no carro, o painel cheio de luzinhas, o toca-fitas tocando uma música lá da Lady Gaga, um sonzão de arrepiar, eu dei uma boa olhada na dona, ela tava de saia, as perna de fora, umas perna que eu vô te contá, seu delegado, só vi igual na secretária do patrão, que é boa pra caralho, desculpa, desculpa, saiu sem querer... Mas, então: eu olhava aquilo e até babava, e a dona das perna também era bem bonitona, devia ter o quê, uns trinta e cinco anos, mas eu pensei cá comigo, que dona boa, se der bobeira eu traço... Aí a dona , depois de alguns quarteirões, puxou conversa e me disse uma coisa ainda mais estranha: “Hmm, você é bem apanhadinho, heim... que idade você tem?” Respondi vinte e dois. “Sabe que assanhou os gatos aqui de dentro?” “Gato, dona, a senhora tem gato aqui no carro?” “Bobinho... então não sabe que os gatos miam assim de fome?” E a dona soltou um miadinho de arrepiar, seu delegado, igualzinho um gato no cio, eu sei porque lá onde eu moro tem um monte de gato e eles ficam miando assim, quando querem coiso uns com os outro, não sei se o senhor me entende... Tá bom, já vou contar o que senhor quer saber... Então, o miado da dona me arrepiou. Eu olhei pra ela e não pude deixar de olhar pr’aquelas perna, o vestido dela tava até aqui, seu delegado, mostrando as coxas, umas coxas... Bem, ela percebeu meu olho e disse: “Você gostou das minhas pernas?” Eu fiquei vermelho que nem pimentão e desviei logo os olhos, falei pra ela virar á direita e pegar a Marginal, pra mudar de assunto, sabe, pra não dar muita bandeira... Ela então fez a curva e o vestido subiu mais um pouco, eu não conseguia deixar de olhar, e ela disse: “Pode olhar, elas são bonitas, não são?” E sabe o que ela fez, seu delegado, pegou minha mão, e botou ela em cima daquele pernão, senti aquela pele lisinha, firme, uma delícia, um perfume gostoso vinha do corpo dela, me deu um tesão danado, quase fiquei louco. A gente ainda não tinha chegado na Marginal, não. Era uma ruazinha escura e deserta. Ela parou o carro, não desligou o motor, não, e disse: “Vem cá, me dá um beijo... dá”. Claro que eu, que já tava me babando todo, não tive dúvida: grudei meus beiços nos dela, ela enfiou a língua na minha garganta, seu delegado, quase morri de tesão... e pegou minha mão e disse: “Vem, passa a mão aqui, passa...” Então, seu delegado, louco como eu tava, num tive dúvida: enfiei a mão na toca dos gatos, enfiei a mão e ela miou, miou gostoso... uma toca macia, peludinha, e úmida, seu delegado me discurpa, mas... Tá bom, tá bom... é que só de lembrar... Tá bom... eu continuo. Então, quando eu já tava a fim de partir pras vias de fato, ela mandou parar... “Espere, vamos para um lugar melhor...” Guardei minhas coisa e amuei um pouco, no meu canto. Ela tocou o carro pra Marginal e logo entrou num motel. Aí, seu delegado, o bicho pegou, ou melhor, o gato pegou, foi miado pra mais de duas horas, a dona era uma gata de gostosa e miava, miava cada vez que gozava... e foram muitos os miado, seu delegado, tanto que no final eu, que já tava cansado pra caramba, acabei dormindo um pouco... Aí, quando acordei, o quarto tava vazio. Cadê a dona? Tinha dado no pé, seu delegado, tinha fugido como gata no telhado que a gente joga pedra, tinha ido embora com a gataria toda e eu fiquei ali, pensando e agora? e se a dona num pagou o motel, eu tô fudido. Pensei em fugir pela janela, mas num dava, os muro era tudo muito alto, fazer o quê, né, me vesti e saí. Na portaria, uma dona, no guichê, me parou: “E então, gatinho, o que houve? Saindo a pé?” Aí eu expliquei pra ela que tava na suíte 17 e tal, que a dona... nem terminei de falar, ela olhou lá no computador dela, olhou bem pra mim, até levantou um pouco pra me olhar pelo redondo do vidro, e disse: “Olha aqui, gatinho, pode ficar tranquilo, a dona pagou tudo...” É, eu pensei, com cinco real no bolso num dá pra pegar um táxi, e até falei pra ela, a dona pagou, mas como é que vou sair daqui? Você sabe como eu chego no Carrão? “Carrão? Você mora no Carrão?” Fiz que sim com a cabeça. “Então – e ela debruçou na janelinha, quase mostrando a peitaria toda, uns peito de dar água na boca, seu delegado – então, se você quiser esperar uns dez minutos... estou no fim do meu turno e posso te dar uma carona”. E piscou pra mim, seu delegado, uns oião assim de bonito. E aqueles peitos! E fez assim, com boca, um biquinho, e soltou um miadinho fino, longo, levantando as mão e mostrando as unha, como uma gata no cio, seu delegado. Foi aí que eu saí correndo, feito um doido, pela Marginal, que outra vez, não, né, seu delegado? Outra vez, não!





sp/24.5.2011

(Ilustração: Jack Vettriano - the temptress)

5 de set. de 2026

confusão danada





lá no alto do morro

encontrei um cachorro



lá no meio do mato

desentoquei um gato



levei cão e gato

para minha casa no mato



o cão latiu

o gato miou

ou vice-versa



mordeu-me o cachorro

sem motivo nenhum

expulsei o cachorro

acariciei o gato

buscando contato

arranhou-me o gato

voltou o cachorro

chutei o gato

mordi o cachorro



hoje moro no morro

sozinho comigo mesmo



frito de vez em quando

um bem gordo torresmo

e sou feliz sozinho

sem cãozinho

nem gatinho



12.7.2026

(Ilustração: David de Coninck - A cat and a dog fighting over fowl -c.1659)

2 de set. de 2026

o cara lá de baixo




o cara lá de baixo nunca encheu meu saco

nunca me pediu nada

nem mesmo deu qualquer pitaco

na minha vida contida ou desvairada



não tem livro editado – o cara lá de baixo

com regras e mais regras de cobranças

e sempre que um malfeito eu encaixo

não me olha com desconfianças

de que devia acender uma vela

num altar qualquer para comemorar

nem diz que mulher nasceu da costela

do homem a quem deve cultuar



muitas outras coisas posso dizer

do cara lá de baixo – por exemplo

nunca o vi com alguém se comprometer

que lhe ergam algum templo

embora alguns até o façam

mas são tão poucos esses loucos

que de modo algum o embaraçam

quando se lhes faz ouvidos moucos



gente boa esse cara de cara feia

que não mora no andar de cima

por ele não cuido da vida alheia

nem rezo por uma obra-prima

fica o cara bem na sua calma

sem nada exigir da minha vida

e se quiser um dia minha alma

e me puser num beco sem saída

vou-lhe dizer que não se importe

com isso não – já que não acredito

[e fica o dito pelo não dito]

no inferno depois da morte.



17.8.2026

(Ilustração: Francisco de Goya - Le Sabbat)