nunca me pediu nada
nem mesmo deu qualquer pitaco
na minha vida contida ou desvairada
não tem livro editado – o cara lá de baixo
com regras e mais regras de cobranças
e sempre que um malfeito eu encaixo
não me olha com desconfianças
de que devia acender uma vela
num altar qualquer para comemorar
nem diz que mulher nasceu da costela
do homem a quem deve cultuar
muitas outras coisas posso dizer
do cara lá de baixo – por exemplo
nunca o vi com alguém se comprometer
que lhe ergam algum templo
embora alguns até o façam
mas são tão poucos esses loucos
que de modo algum o embaraçam
quando se lhes faz ouvidos moucos
gente boa esse cara de cara feia
que não mora no andar de cima
por ele não cuido da vida alheia
nem rezo por uma obra-prima
fica o cara bem na sua calma
sem nada exigir da minha vida
e se quiser um dia minha alma
e me puser num beco sem saída
vou-lhe dizer que não se importe
com isso não – já que não acredito
[e fica o dito pelo não dito]
no inferno depois da morte.
17.8.2026
(Ilustração: Francisco de Goya - Le Sabbat)
