2 de set. de 2026

o cara lá de baixo




o cara lá de baixo nunca encheu meu saco

nunca me pediu nada

nem mesmo deu qualquer pitaco

na minha vida contida ou desvairada



não tem livro editado – o cara lá de baixo

com regras e mais regras de cobranças

e sempre que um malfeito eu encaixo

não me olha com desconfianças

de que devia acender uma vela

num altar qualquer para comemorar

nem diz que mulher nasceu da costela

do homem a quem deve cultuar



muitas outras coisas posso dizer

do cara lá de baixo – por exemplo

nunca o vi com alguém se comprometer

que lhe ergam algum templo

embora alguns até o façam

mas são tão poucos esses loucos

que de modo algum o embaraçam

quando se lhes faz ouvidos moucos



gente boa esse cara de cara feia

que não mora no andar de cima

por ele não cuido da vida alheia

nem rezo por uma obra-prima

fica o cara bem na sua calma

sem nada exigir da minha vida

e se quiser um dia minha alma

e me puser num beco sem saída

vou-lhe dizer que não se importe

com isso não – já que não acredito

[e fica o dito pelo não dito]

no inferno depois da morte.



17.8.2026

(Ilustração: Francisco de Goya - Le Sabbat)