Olha bem pra mim, seu delegado, vê se eu tenho cara de bandido, mão de bandido... isso aqui é mão de trabaiadô, ralo o dia inteiro, sou motoboy, com muita honra, seu delegado... se tava vagando na Marginal, sem rumo, é porque... porque... vai sê difícil o senhor acreditar... Tá bom, eu conto, tintim por tintim, tudo o que aconteceu. (...) Foi um dia de gato, seu delegado, é, um dia de gato, porque dia de cão eu tenho todo dia... Trabaiei até tarde, fazendo entrega e depois arrumando o escritório. Deixei a moto no estacionamento da firma – até pedi pro patrão deixá eu vim com ela pra casa, mas o disgramado do patrão não deixou, não. Quando saí, já nem tinha movimento na rua, tudo vazio, fui pro ponto de ônibus e fiquei lá esperando. Só eu. Tinha mais ninguém, não. Só eu, sozinho. Esperando. Meia hora e nada do disgraçado do ônibus. E eu lá, esperando, puto da vida, sozinho. Sozinho e cansado. Sozinho e com fome. E aí veio vindo um carro, um carrão, seu delegado, desses importado, preto, vidro escuro... Veio vindo, devagar, parou. Bem na minha frente. Levei um susto, né? Aí o vidro desceu e eu vi uma mulher, bonitona, loira, olhando pra mim... fez sinal pra que eu me aproximasse. Enfiei o carão na janela e perguntei se ela precisava de ajuda. “Como eu chego no Carrão?” – ela perguntou. “Carrão? Ih, isso é longe pra dedéu... num dá pra explicar direito, não...” “E como você sabe que é longe?” – ela perguntou de novo. “Ora, dona, é longe e eu sei que é longe porque... porque eu moro lá, né?” “Então, entra aí, que você me ensina o caminho e eu te dou uma carona até lá”. Ó, seu delegado, confesso que achei estranho, muito estranho aquilo, mas tava cansado, com fome, o ônibus num vinha, entrei! Ah, que delícia aquilo, seu delega, quero dizer, seu delegado, um carrão daquele, banco de couro, ar-condicionado, era tudo que um fio de deus precisa numa hora dessas. Depois de olhar tudo, no carro, o painel cheio de luzinhas, o toca-fitas tocando uma música lá da Lady Gaga, um sonzão de arrepiar, eu dei uma boa olhada na dona, ela tava de saia, as perna de fora, umas perna que eu vô te contá, seu delegado, só vi igual na secretária do patrão, que é boa pra caralho, desculpa, desculpa, saiu sem querer... Mas, então: eu olhava aquilo e até babava, e a dona das perna também era bem bonitona, devia ter o quê, uns trinta e cinco anos, mas eu pensei cá comigo, que dona boa, se der bobeira eu traço... Aí a dona , depois de alguns quarteirões, puxou conversa e me disse uma coisa ainda mais estranha: “Hmm, você é bem apanhadinho, heim... que idade você tem?” Respondi vinte e dois. “Sabe que assanhou os gatos aqui de dentro?” “Gato, dona, a senhora tem gato aqui no carro?” “Bobinho... então não sabe que os gatos miam assim de fome?” E a dona soltou um miadinho de arrepiar, seu delegado, igualzinho um gato no cio, eu sei porque lá onde eu moro tem um monte de gato e eles ficam miando assim, quando querem coiso uns com os outro, não sei se o senhor me entende... Tá bom, já vou contar o que senhor quer saber... Então, o miado da dona me arrepiou. Eu olhei pra ela e não pude deixar de olhar pr’aquelas perna, o vestido dela tava até aqui, seu delegado, mostrando as coxas, umas coxas... Bem, ela percebeu meu olho e disse: “Você gostou das minhas pernas?” Eu fiquei vermelho que nem pimentão e desviei logo os olhos, falei pra ela virar á direita e pegar a Marginal, pra mudar de assunto, sabe, pra não dar muita bandeira... Ela então fez a curva e o vestido subiu mais um pouco, eu não conseguia deixar de olhar, e ela disse: “Pode olhar, elas são bonitas, não são?” E sabe o que ela fez, seu delegado, pegou minha mão, e botou ela em cima daquele pernão, senti aquela pele lisinha, firme, uma delícia, um perfume gostoso vinha do corpo dela, me deu um tesão danado, quase fiquei louco. A gente ainda não tinha chegado na Marginal, não. Era uma ruazinha escura e deserta. Ela parou o carro, não desligou o motor, não, e disse: “Vem cá, me dá um beijo... dá”. Claro que eu, que já tava me babando todo, não tive dúvida: grudei meus beiços nos dela, ela enfiou a língua na minha garganta, seu delegado, quase morri de tesão... e pegou minha mão e disse: “Vem, passa a mão aqui, passa...” Então, seu delegado, louco como eu tava, num tive dúvida: enfiei a mão na toca dos gatos, enfiei a mão e ela miou, miou gostoso... uma toca macia, peludinha, e úmida, seu delegado me discurpa, mas... Tá bom, tá bom... é que só de lembrar... Tá bom... eu continuo. Então, quando eu já tava a fim de partir pras vias de fato, ela mandou parar... “Espere, vamos para um lugar melhor...” Guardei minhas coisa e amuei um pouco, no meu canto. Ela tocou o carro pra Marginal e logo entrou num motel. Aí, seu delegado, o bicho pegou, ou melhor, o gato pegou, foi miado pra mais de duas horas, a dona era uma gata de gostosa e miava, miava cada vez que gozava... e foram muitos os miado, seu delegado, tanto que no final eu, que já tava cansado pra caramba, acabei dormindo um pouco... Aí, quando acordei, o quarto tava vazio. Cadê a dona? Tinha dado no pé, seu delegado, tinha fugido como gata no telhado que a gente joga pedra, tinha ido embora com a gataria toda e eu fiquei ali, pensando e agora? e se a dona num pagou o motel, eu tô fudido. Pensei em fugir pela janela, mas num dava, os muro era tudo muito alto, fazer o quê, né, me vesti e saí. Na portaria, uma dona, no guichê, me parou: “E então, gatinho, o que houve? Saindo a pé?” Aí eu expliquei pra ela que tava na suíte 17 e tal, que a dona... nem terminei de falar, ela olhou lá no computador dela, olhou bem pra mim, até levantou um pouco pra me olhar pelo redondo do vidro, e disse: “Olha aqui, gatinho, pode ficar tranquilo, a dona pagou tudo...” É, eu pensei, com cinco real no bolso num dá pra pegar um táxi, e até falei pra ela, a dona pagou, mas como é que vou sair daqui? Você sabe como eu chego no Carrão? “Carrão? Você mora no Carrão?” Fiz que sim com a cabeça. “Então – e ela debruçou na janelinha, quase mostrando a peitaria toda, uns peito de dar água na boca, seu delegado – então, se você quiser esperar uns dez minutos... estou no fim do meu turno e posso te dar uma carona”. E piscou pra mim, seu delegado, uns oião assim de bonito. E aqueles peitos! E fez assim, com boca, um biquinho, e soltou um miadinho fino, longo, levantando as mão e mostrando as unha, como uma gata no cio, seu delegado. Foi aí que eu saí correndo, feito um doido, pela Marginal, que outra vez, não, né, seu delegado? Outra vez, não!
sp/24.5.2011
(Ilustração: Jack Vettriano - the temptress)

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