23 de set. de 2026

A MANCHA VERMELHA



Dia de nada fazer. Calor de cortar com faca. Até as moscas voavam devagar. Uma pinga a mais e o calor se mandava. Na modorra que aquietava, o estômago teimava em querer comida. Vasculhou nos bolsos imundos uma moeda improvável. Restos de pão. Lenço imundo. Um palito de dentes e outro de fósforos. Uma chave amarela que um dia terá aberto alguma porta já inexistente no fundo da memória. Um toco de cigarro, sem filtro, já quase se desmanchando. Juntou tudo dentro do lenço, seu tesouro. O que fazer? A cabeça rodava. Mais uma pinga - era essencial. Era mais uma pinga ou o derreter-se no calor como um picolé fora da geladeira. Picolé, um picolé de pinga! Por que não. Ameaçou sorrir, mas lembrou que sua boca era o oco do mundo e sentiu vergonha. É claro que ninguém iria notar que ele estava rindo, mas ele se veria com o oco do mundo escancarado num esgar fétido e sentiria vergonha. Não riu. Apertou os olhos para enxergar melhor quem vinha ao longe, caminhando devagar pela praça vazia, debaixo daquele calor de estourar mamona. Só podia ser um louco. Ou outro miserável como ele. Tateou o chão e deu com uma pedra. Lisa, redonda, sólida em sua ponderabilidade de pedra. Perfeita. A mancha distante era agora uma massa grande e branca a tapar o horizonte, numa sombra de jaqueira sobre o chão de cimento fumegante. Ao segundo de decisão seguiu-se o segundo de ação. Num átimo, a massa informe e sua sombra de jaqueira não eram mais que um corpo a gemer no chão sujo da praça onde não se ouvia nada além do zumbido de moscas lerdas ao ar parado no calor extenuante do início de uma tarde de verão em que um mendigo ardia em febre de loucura por uma dose de pinga branca para espantar a modorra e a fome do calor que abrasava tudo, até mesmo a mancha vermelha cravada para sempre na superfície leitosa de uma pedra lisa e redonda a rolar para dentro do bueiro negro.





15.10.97

(Ilustração: Mark Rothko - sem título (vermelho) 1956)

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