ao escrever um poema
que vivifique todos os meus ídolos
descubro que o vinho
fica melhor perto do fim
nada tenho a acrescentar
à minha vida de cidadão solitário
a contemplar estelas que não existem
a cultivar luas que não brilham
sou o náufrago
que não devia
ter sobrevivido
canto e gemo e poetizo e canibalizo
canções e poemas e tantas outras artes
das quais pouco conheço os princípios
– sobrevivente – tenho meus direitos
de perceber quão breves são as vidas
[todas as vidas – isso é mais que óbvio]
e então agonizo-me em meus versos tortos
para celebrar aqueles que não estão mortos
de quantos ídolos que pela vida cultivei
21.12.2025
(Ilustração: escultura de Laila Mansour - O Menino e o Catavento -
localizada no centro de São Paulo)
