
Agulheiro de prédios, um despropósito em ruas tão estreitas. Bairro outrora de casario baixo, o leiteiro deixava as garrafas bojudas junto do jornal no portão de grade baixa. Fincara pé. Sua casa, não. Morara sempre ali, conhecera cada menina que se casava e mudava, cada moleque que se formava e partia. As notas de lápis roxo nas folhas amarelas das cadernetas de seu mercadinho continham contas a pagar e defuntos a vestir. Perdera a conta de quantas viúvas perdoara as dívidas. Fazer o quê, coitadas. Agora, ali, sozinho, naquele sobrevivo sobrado, sobrevivendo de rala pensão e polpudas lembranças, não lamentava, não. Vira com indiferença cada casa, cada sobrado, cada jardim ser engolido por espigões de gente engravatada e olhar sisudo. Ódio, apenas aos ratos e gatos das redondezas, que teimavam em procriar no porão do carcomido sobrado. Odiava os ratos a roer as velhas cadernetas e odiava os gatos que não os impediam de destruírem as únicas lembranças de que se ocupava sua cabeça de rala cabeleira branca. A eles dedicava todas as demais horas do dia em que não estava diante da televisão, a rever filmes antigos de Ingrid Bergman, sua única paixão em oitenta e tantos anos de vida. Com as ratazanas, aprendera o exercício da calma e da astúcia: sabia como ninguém preparar venenos de sabores diversos, ratoeiras as mais engenhosas, armadilhas longamente arquitetadas. Com os gatos, acrescentara à calma e à astúcia, uma boa dose de sadismo: enterrar filhotes vivos de ninhada recém-nascida, esmagar-lhes os crânios ao prendê-los em sacos, aprisioná-los em gaiolas e deixá-los morrer de fome e sede, eram esses apenas alguns de seus atos de ódio aos felinos. Dormia, depois de cada chacina, um sono bem-aventurado num céu sem gatos e ratos. Degustava cada cadáver como um general deveria gozar a destruição do inimigo, depois de batalha feroz. O que tornava seus dias menos monótonos era que eles sempre voltavam e sempre apareciam outros espécimes a fazer ruído lá embaixo, repercutindo o som de suas estripulias ao longo das tábuas do assoalho. E lá ia o general a erguer suas barricadas e atilar suas armas, na solidão daquele sobrado antigo, perdido entre edifícios envidraçados que não deviam ter porões cheios de passado a atrair ratos e gatos. Mas houve um tempo em que se passaram quase dois meses e nada de reaparecerem. Infrutíferas as descidas através da longa e escura escada rangente. Infrutíferas as incursões noturnas com luz de lampião. Inúteis os esforços em ouvir através da madeira um ruído que fosse a indicar a presença de vida no porão infecto. Já estava preocupado. Seus dias eram mais longos. As pernas se endureciam pela falta do ir e vir constante. O corpo reclamava as longas permanências na cadeira de balanço. Não tinha o costume de sair: comprava tudo por telefone. Afinal, suas necessidades diárias eram cada dia menores. Comia cada dia menos. Usava cada dia menos sabão. Lavava cada dia menos roupa. Pisava cada dia mais silenciosamente. Precisava do silêncio para não ser surpreendido. O silêncio tinha a maciez do andar de um gato e o sorrateiro correr de um rato. Transformara-se o sobrado em escuro e silencioso túmulo, onde só a luz azulada da televisão projetava sombras nas paredes sem cor e o som abafado, quase inaudível, transmitia a voz maviosa de seu amor, Ingrid Bergman, a desfilar para ele, o velho caçador, a única lembrança de beleza em sua vida vivida entre secos e molhados do outrora próspero mercadinho do bairro que não existe mais lá fora. Até que um dia de inverno, quando cabeceava na velha cadeira de balanço, diante de mais um filme da Ingrid, visto e revisto pela milésima vez, um som familiar chegou a seus ouvidos. Não, não ouvira nada. Pressentira. Pressentira o passo lento e cuidado, o toque gordo e macio entre folhas amareladas de tinta roxa das velhas cadernetas cuidadosamente empilhadas no fundo do porão. Pressentira o deslizar elegante do corpo cansado, a romper antigas teias cuidadosamente trançadas ao longo de estreitos corredores formados por velhas geladeiras e apodrecidos armários. E mais: pressentira o cuidado no ajeitar a prole adormecida, no lamber cada um dos filhotes como a aquecê-los e deixar neles entranhada a proteção molhada da mãe que vai sair em busca do alimento e precisa estar certa de que tudo estará bem, quando voltar. Em seguida, o silêncio, de novo, suave como o ronronar de meia dúzia de gatinhos no ninho por instantes desprotegido. Como um Lázaro, ele ressuscitou da cadeira de balanço e, silenciosamente, mansamente, com as narinas dilatadas pelo prazer da chacina, acendeu o velho lampião, tomou do liso porrete que guardava sempre atrás da porta, desceu as longas escadas do malcheiroso porão e soube exatamente o que fazer. Recuperado da aventura, ajeitou de novo o cobertor sobre os joelhos e sonhou com Ingrid Bergman até de manhã, quando se levantou lentamente, arrastou os chinelos até o banheiro, barbeou-se, trocou o velho pijama por um terno surrado, mas limpo, ajeitou a gravata puída e preparou-se para sair. Depois de muitos e muitos dias sem ver a luz do sol, precisava andar um pouco, recuperar as energias, tomar um pingado no bar da esquina, comprar um jornal na banca da frente, apreciar o desfile dos carros importados dos executivos das grandes empresas dos altos edifícios... Antegozando a paz da manhã, não ouviu o primeiro miado, ainda baixinho, mal chegando ao andar de cima do velho sobrado, mas ouviu perfeitamente o entrecortado gemido quase humano a repercutir ao longo das escadas de madeira, das tábuas largas do assoalho, através dos móveis pesados e escuros, num lamento longo, longo e lento, um chamado das trevas, um desafio vindo do fundo mais profundo do velho porão. Era ela que voltara, era ela que lá estava a lamentar a perda da prole. Desistiu, de imediato, da intenção de sair. Armou-se do velho porrete e desceu as escadas rangentes e procurou e caçou e vasculhou cada centímetro do velho porão. Nada. Durante dias e noites, ouvia de vez em quando o lamento, longo e lento lamento. Armou as mais ardilosas armadilhas. Preparou os mais sutis bolinhos de veneno. Nada. A cada manhã, lá estavam as armadilhas desarmadas e os venenos intactos. E toda noite, o lamento, o longo e lento lamento a atazanar-lhe os ouvidos. Não conseguia mais ver e ouvir os filmes de Ingrid Bergman. Seus sentidos todos, sua atenção total, estavam voltados para qualquer movimento que lhe permitisse ao menos pressentir a estratégia do inimigo. E se o inimigo pretendia cansá-lo, e devia ser essa a sua estratégia, estava enganado: tirava longos cochilos ao longo do dia, para melhor vigília à noite, quando sempre se repetia o lento e longo lamento. Infrutíferos, no entanto, os esforços. Nada parecia derrotar aquele inimigo que o desafiava com seus longos e lentos lamentos. Uma noite, já cansado das várias semanas de inúteis esforços, cabeceava sentado na velha cadeira de balanço, quando acordou com o som não mais do lamento longo e lento que o atormentava, mas com o claro miado de gata que deseja atrair a atenção do dono (ele conhecia todos os truques desses felinos). Buscou ao lado o liso porrete de matar gatos, enquanto via na tela azul da televisão Ingrid Bergman, entre as brumas do aeroporto de Casablanca, despedir-se de seu amado e partir para uma viagem sem volta. Não, Ingrid Bergman não devia ir embora, ele não deixaria nunca que ela partisse. Sonhou, então, uma vida de paz e luxúria ao lado dela, fugindo de nazistas, enganando a polícia e ouvindo “As time goes by” para sempre. Tateou de novo ao lado da cadeira de balanço e achou estranho não estar ali o velho porrete, mas ainda zonzo pelo longo cochilo e ainda deslumbrado por descobrir, depois de centenas de vezes vista a mesma cena, um brilho novo no olhar de Ingrid, pegou o velho lampião e começou a descer a longa escada do malcheiroso porão. Parou no segundo degrau, arrepiado pela visão à sua frente, sobre um alto armário de seu antigo mercado de secos e molhados: eles estavam lá, os olhos dela, suaves e penetrantes, faróis de um rosto incrivelmente perfeito, o rosto da mulher que ele não teve, da deusa de seus sonhos de jovem, dos seus anseios de homem e de suas esperanças de velho. Ela estava lá, envolta nas brumas do aeroporto de Casablanca e não estava partindo, estava voltando para ele, para seus braços, para seus beijos, para dar vida nova a um sobrado carcomido pelo tempo, para iluminar uma vida roída pela rotina, para amá-lo, afinal. Estendeu o braço e desceu para o terceiro degrau, onde esquecera, há dias, o velho e roliço porrete de matar gatos. Com o pescoço quebrado, no final da escada, sem poder mover-se, sem poder soltar um só gemido, sentiu no rosto os lábios de sua amada, a lamber suavemente, docemente, suas rugas, suas marcas de uma longa e solitária vida. Sorriu. Fechou os olhos e era, enfim, um homem feliz, pois Ingrid Bergman não partirá jamais de Casablanca.
06.06.2002
(Ilustração: Jane Maday- Kittens)