23 de out. de 2026

Ingrid Bergman não partirá jamais de Casablanca

 


Agulheiro de prédios, um despropósito em ruas tão estreitas. Bairro outrora de casario baixo, o leiteiro deixava as garrafas bojudas junto do jornal no portão de grade baixa. Fincara pé. Sua casa, não. Morara sempre ali, conhecera cada menina que se casava e mudava, cada moleque que se formava e partia. As notas de lápis roxo nas folhas amarelas das cadernetas de seu mercadinho continham contas a pagar e defuntos a vestir. Perdera a conta de quantas viúvas perdoara as dívidas. Fazer o quê, coitadas. Agora, ali, sozinho, naquele sobrevivo sobrado, sobrevivendo de rala pensão e polpudas lembranças, não lamentava, não. Vira com indiferença cada casa, cada sobrado, cada jardim ser engolido por espigões de gente engravatada e olhar sisudo. Ódio, apenas aos ratos e gatos das redondezas, que teimavam em procriar no porão do carcomido sobrado. Odiava os ratos a roer as velhas cadernetas e odiava os gatos que não os impediam de destruírem as únicas lembranças de que se ocupava sua cabeça de rala cabeleira branca. A eles dedicava todas as demais horas do dia em que não estava diante da televisão, a rever filmes antigos de Ingrid Bergman, sua única paixão em oitenta e tantos anos de vida. Com as ratazanas, aprendera o exercício da calma e da astúcia: sabia como ninguém preparar venenos de sabores diversos, ratoeiras as mais engenhosas, armadilhas longamente arquitetadas. Com os gatos, acrescentara à calma e à astúcia, uma boa dose de sadismo: enterrar filhotes vivos de ninhada recém-nascida, esmagar-lhes os crânios ao prendê-los em sacos, aprisioná-los em gaiolas e deixá-los morrer de fome e sede, eram esses apenas alguns de seus atos de ódio aos felinos. Dormia, depois de cada chacina, um sono bem-aventurado num céu sem gatos e ratos. Degustava cada cadáver como um general deveria gozar a destruição do inimigo, depois de batalha feroz. O que tornava seus dias menos monótonos era que eles sempre voltavam e sempre apareciam outros espécimes a fazer ruído lá embaixo, repercutindo o som de suas estripulias ao longo das tábuas do assoalho. E lá ia o general a erguer suas barricadas e atilar suas armas, na solidão daquele sobrado antigo, perdido entre edifícios envidraçados que não deviam ter porões cheios de passado a atrair ratos e gatos. Mas houve um tempo em que se passaram quase dois meses e nada de reaparecerem. Infrutíferas as descidas através da longa e escura escada rangente. Infrutíferas as incursões noturnas com luz de lampião. Inúteis os esforços em ouvir através da madeira um ruído que fosse a indicar a presença de vida no porão infecto. Já estava preocupado. Seus dias eram mais longos. As pernas se endureciam pela falta do ir e vir constante. O corpo reclamava as longas permanências na cadeira de balanço. Não tinha o costume de sair: comprava tudo por telefone. Afinal, suas necessidades diárias eram cada dia menores. Comia cada dia menos. Usava cada dia menos sabão. Lavava cada dia menos roupa. Pisava cada dia mais silenciosamente. Precisava do silêncio para não ser surpreendido. O silêncio tinha a maciez do andar de um gato e o sorrateiro correr de um rato. Transformara-se o sobrado em escuro e silencioso túmulo, onde só a luz azulada da televisão projetava sombras nas paredes sem cor e o som abafado, quase inaudível, transmitia a voz maviosa de seu amor, Ingrid Bergman, a desfilar para ele, o velho caçador, a única lembrança de beleza em sua vida vivida entre secos e molhados do outrora próspero mercadinho do bairro que não existe mais lá fora. Até que um dia de inverno, quando cabeceava na velha cadeira de balanço, diante de mais um filme da Ingrid, visto e revisto pela milésima vez, um som familiar chegou a seus ouvidos. Não, não ouvira nada. Pressentira. Pressentira o passo lento e cuidado, o toque gordo e macio entre folhas amareladas de tinta roxa das velhas cadernetas cuidadosamente empilhadas no fundo do porão. Pressentira o deslizar elegante do corpo cansado, a romper antigas teias cuidadosamente trançadas ao longo de estreitos corredores formados por velhas geladeiras e apodrecidos armários. E mais: pressentira o cuidado no ajeitar a prole adormecida, no lamber cada um dos filhotes como a aquecê-los e deixar neles entranhada a proteção molhada da mãe que vai sair em busca do alimento e precisa estar certa de que tudo estará bem, quando voltar. Em seguida, o silêncio, de novo, suave como o ronronar de meia dúzia de gatinhos no ninho por instantes desprotegido. Como um Lázaro, ele ressuscitou da cadeira de balanço e, silenciosamente, mansamente, com as narinas dilatadas pelo prazer da chacina, acendeu o velho lampião, tomou do liso porrete que guardava sempre atrás da porta, desceu as longas escadas do malcheiroso porão e soube exatamente o que fazer. Recuperado da aventura, ajeitou de novo o cobertor sobre os joelhos e sonhou com Ingrid Bergman até de manhã, quando se levantou lentamente, arrastou os chinelos até o banheiro, barbeou-se, trocou o velho pijama por um terno surrado, mas limpo, ajeitou a gravata puída e preparou-se para sair. Depois de muitos e muitos dias sem ver a luz do sol, precisava andar um pouco, recuperar as energias, tomar um pingado no bar da esquina, comprar um jornal na banca da frente, apreciar o desfile dos carros importados dos executivos das grandes empresas dos altos edifícios... Antegozando a paz da manhã, não ouviu o primeiro miado, ainda baixinho, mal chegando ao andar de cima do velho sobrado, mas ouviu perfeitamente o entrecortado gemido quase humano a repercutir ao longo das escadas de madeira, das tábuas largas do assoalho, através dos móveis pesados e escuros, num lamento longo, longo e lento, um chamado das trevas, um desafio vindo do fundo mais profundo do velho porão. Era ela que voltara, era ela que lá estava a lamentar a perda da prole. Desistiu, de imediato, da intenção de sair. Armou-se do velho porrete e desceu as escadas rangentes e procurou e caçou e vasculhou cada centímetro do velho porão. Nada. Durante dias e noites, ouvia de vez em quando o lamento, longo e lento lamento. Armou as mais ardilosas armadilhas. Preparou os mais sutis bolinhos de veneno. Nada. A cada manhã, lá estavam as armadilhas desarmadas e os venenos intactos. E toda noite, o lamento, o longo e lento lamento a atazanar-lhe os ouvidos. Não conseguia mais ver e ouvir os filmes de Ingrid Bergman. Seus sentidos todos, sua atenção total, estavam voltados para qualquer movimento que lhe permitisse ao menos pressentir a estratégia do inimigo. E se o inimigo pretendia cansá-lo, e devia ser essa a sua estratégia, estava enganado: tirava longos cochilos ao longo do dia, para melhor vigília à noite, quando sempre se repetia o lento e longo lamento. Infrutíferos, no entanto, os esforços. Nada parecia derrotar aquele inimigo que o desafiava com seus longos e lentos lamentos. Uma noite, já cansado das várias semanas de inúteis esforços, cabeceava sentado na velha cadeira de balanço, quando acordou com o som não mais do lamento longo e lento que o atormentava, mas com o claro miado de gata que deseja atrair a atenção do dono (ele conhecia todos os truques desses felinos). Buscou ao lado o liso porrete de matar gatos, enquanto via na tela azul da televisão Ingrid Bergman, entre as brumas do aeroporto de Casablanca, despedir-se de seu amado e partir para uma viagem sem volta. Não, Ingrid Bergman não devia ir embora, ele não deixaria nunca que ela partisse. Sonhou, então, uma vida de paz e luxúria ao lado dela, fugindo de nazistas, enganando a polícia e ouvindo “As time goes by” para sempre. Tateou de novo ao lado da cadeira de balanço e achou estranho não estar ali o velho porrete, mas ainda zonzo pelo longo cochilo e ainda deslumbrado por descobrir, depois de centenas de vezes vista a mesma cena, um brilho novo no olhar de Ingrid, pegou o velho lampião e começou a descer a longa escada do malcheiroso porão. Parou no segundo degrau, arrepiado pela visão à sua frente, sobre um alto armário de seu antigo mercado de secos e molhados: eles estavam lá, os olhos dela, suaves e penetrantes, faróis de um rosto incrivelmente perfeito, o rosto da mulher que ele não teve, da deusa de seus sonhos de jovem, dos seus anseios de homem e de suas esperanças de velho. Ela estava lá, envolta nas brumas do aeroporto de Casablanca e não estava partindo, estava voltando para ele, para seus braços, para seus beijos, para dar vida nova a um sobrado carcomido pelo tempo, para iluminar uma vida roída pela rotina, para amá-lo, afinal. Estendeu o braço e desceu para o terceiro degrau, onde esquecera, há dias, o velho e roliço porrete de matar gatos. Com o pescoço quebrado, no final da escada, sem poder mover-se, sem poder soltar um só gemido, sentiu no rosto os lábios de sua amada, a lamber suavemente, docemente, suas rugas, suas marcas de uma longa e solitária vida. Sorriu. Fechou os olhos e era, enfim, um homem feliz, pois Ingrid Bergman não partirá jamais de Casablanca.



06.06.2002

(Ilustração: Jane Maday- Kittens)



20 de out. de 2026

desencontro

 




saio para a rua

em busca da lua

e tropeço numa

saudade tua



2.4.2026

(Ilustração: John Atkinson Grimshaw)

17 de out. de 2026

Depressão

  




Baixou a depressão

Pesou-me na jugular o pé pesado da solidão

As paredes da minha casa vão-se aproximando

Fechando-me pouco a pouco num caixão

Imagino nas ruas o féretro roxo

Quem está lá dentro em sossego esticado

Sabe para onde está indo

E o cortejo segue em silêncio de júbilo interior



Eu eu?

Para onde – para onde carrega-me a maldita depressão?

Para que fundos de poços sem fundo me leva a tristeza?

Pressinto mais do que sinto que as paredes se fecham sobre mim perigosamente

Para onde me levam ao me apertarem desesperadamente?

Onde a saída?



Penso em ti amiga que me abandonaste

Penso em ti e desespero-me ainda mais

Penso em ti e nos meus poetas mortos

Penso em ti e em tantos amigos mortos



Penso em ti e me angustio a me perguntar mais e mais e mais vezes

Onde os caminhos que se estendiam em planícies e amplitudes?

Onde os caminhos que se abriam e não se fechavam?

Onde os meus passos se perderam?

Em areias se perderam as marcas de meus pés ao vento da montanha?



As paredes se aproximam perigosamente e eu me fecho

Eu me fecho e me enrodilho felinamente

Para que brisas de outono soprem as folhas da jabuticabeira da minha infância

E elas cubram-me as dores e as feridas que ficaram nas cercas de arame farpado

As dores e as feridas que nunca se curaram porque ficaram lá dependuradas

Num canto qualquer de um quintal que se esfarelou no tempo de um relógio quebrado



Então eu me volto para dentro de mim mesmo e digo bem alto

Baixou a depressão?

Que venham terapias que não curam mas ardem

Que venham soluções que não solucionam mas alucinam

Sobe – sobe o som! Sobe som! Sobe o som!

Rock pesado / samba bem batucado / jazz e batuque de aldeias perdidas

Pisem com força e dor os pés nus a levantar poeira

Cantem os piagas / grasnem as araras / gritem os bem-te-vis / cantem os sabiás

Tango tango tango – eletrotango

Canções românticas: venham! Venham da Europa ou do Caribe

Afoguem-me / enterrem-me em mim mesmo e me conduzam

Para onde? Para onde?

Ritmos – ritmos africanos e cubanos

Um bolerão a fazer brotar das pupilas pepitas sem brilho

Vozes e vozes e vozes e pianos e violinos e violoncelos

Bach / Beethoven / Brahms / Mahler

E Vivaldi e Villa Lobos e Tchaikovski e mais e muito mais

Sobe o som / sobe o som / sobe o som

Que vá tudo para o inferno e leve junto a deprê

No som de estourar os tímpanos eu só quero esquecer de mim

Eu só quero esquecer que vivo

Eu só quero esquecer que sofro

E esquecer você!




3.6.2026

(Ilustração: Alexander Litovchenko (1835-1890) - 
Charon (Caronte) carries souls across the river Styx)

14 de out. de 2026

declaração à praça


 

mil línguas lambem minha língua

tantas cores em minha pele

onças e macacos e jabutis

são tantos os tantãs nas matas

o que te mata ó josé

o que te mata ó maria

não é o canto do bem-te-vi

o que te mata ó cabeça de vento

é ter no vento o veneno

que vem lá de onde

caldeiras queimam as matas

mil línguas te lambem a língua

e se te tornas mudo – e cego

que não negues o mal

que brota do capital

se te plantas nas avenidas

que cobrem rios e riachos

relinchas teu descompasso

negando o que tu enxergas

sem que vejas o real

a soja que tu plantas

o ipê que tu arrancas

o dólar que tu comes

tudo que tu consomes

são a pele da onça e do macaco

tudo que tu adoras

são minha pele e meus ossos

na calma da tarde de domingo

quando gira o disco da fome

na casa do teu vizinho

passa pela rua a rádio patrulha

que não pega o ladrão pelo cachaço

não ligas o rádio para ouvir o palhaço

não vês na tevê o choro da mocinha

se te pedem pão tu dás risada

se te dão mais valia tu pedes mais

na solidão da tua mansão

vacas mugem no litro de uísque

não vieste do Paraguai

nem carpiste roça no Uruguai

cantas óperas em italiano

nos verdes campos europeus

como verdes são teus olhos

cobertos de soja e dólar

mil línguas que te lambem a língua

são mil direitos que tu mastigas

são mil defeitos que tu mitigas

lentos os ventos que sopras

em narguilês de patifarias

sei que tu nunca farias

nem rezas nem feitiçarias

porque tu lanças tuas lambanças

nos palácios de cristais cobertos

no mato a onça estruge

na avenida o negro muge

escravo ainda do teu sangue nobre

no mato o macaco pula

na favela o branco estipula

o preço da pedra de crack

que os pelos arrepia

da mais baixa burguesia

tu te calas pelas salas

sem medo do que escondes

maltratas reis e condes

das folias que não te lambem

desde o tempo de cabrais

metes mentiras pelas mentes

e te ris de nossos sinais

compraste a peso de ouro

nossa língua e nosso couro

e não pagaste o que nos deves

negro e pobre e cafuzo e índio

somos todos nos trópicos breves

a cantar e dançar ao teu tambor

e se agora te mostramos a dor

que causou tua chibata

te digo não voltamos para a mata

nem vamos vomitar em Buenos Aires

vamos gritar nosso grito de bem-te-vi

bem aqui bem perto de ti

como cantou e gritou Elza Soares





13.9.2026

(Ilustrção: Adriana Varejão - Cena de interior-II)

11 de out. de 2026

dadaísmo




um fato é um fato é um fato é um flato

um poema é um poema é um poema é um dilema

um gato é um gato é um gato é um gato de fato

um problema é um problema é um problema é um esquema



quando um problema é um fato

quando um fato é um problema

quando um poema é um gato

quando um gato torna-se um fato

ou talvez um poema e um problema

e tudo se mistura no quarteto

de um místico soneto

soluciona-se o pulo do gato

no risco no céu do avião a jato



no poema-problema quebra-se a rima

a banda que sobe ao coreto da praça

e como uma grande orquestra

toca uma sonata do século dezenove

e antes que você este poema desaprove

eu me pergunto: que mistureba é esta?




12.7.2026

(Ilustração: Hannah Höch)





8 de out. de 2026

convivência



convivo com tantos mortos

que não sei se com quem convivo

está morto ou ainda vivo

só sei que enquanto sobrevivo

preencho a vida sobrevivida

como a página de um livro

linha por linha

palavra por palavra

e tudo quanto no passado eu tinha

é hoje o que me escalavra

nesse passo de sobrevivência

que com tanta insistência

vou vivendo pelos caminhos

cada vez mais tortos

de minha parca existência



para que não me atormentem

nem os vivos nem os mortos

minto sobre mim e a vida

- e sombra sou que procrastina

o futuro que lhe destina

esse louco beco sem saída



21.10.2025

(Ilustração: Zdzisław Beksiński) 

5 de out. de 2026

confiteor





eu ateu convicto confesso

a ti e a mim mesmo que às vezes

chovem pétalas de rosas negras

sobre meus versos mais estranhos



anoiteço então em meu casulo

para pensar por que pétalas pretas

chovem sobre meus versos vagos



volto à voragem de meus vinte anos

quando o jovem jogava o jogo

de imaginar mundos novos para si

e esse jovem criador de futuros

era no que eu iria me transformar

quando os caminhos escolhidos

seriam cobertos de pétalas

de rosas negras

e espinhos impensados

a ferir feridas que não se curam

nem com os cardos venenosos

de espantos colhidos pelas trilhas

que descem de montanhas mágicas



mas cultivar rosas negras era preciso

[as rosas que chovem pétalas negras]

para macerar com elas mezinhas mágicas

que não se misturam com o veneno

das receitas mal cosidas

nos versículos dos livros sagrados

que os pés pecaminosos de profetas

pisoteiam nos caldeirões de sabás

nas selvas profundas da minha mente

enquanto chovem pétalas de rosas negras

sobre o espanto de meus versos estranhos



e eu que sou tanto ateu confesso enfim

que não peço perdão pelas perfídias

das rosas negras eclodidas no meu jardim



6.9.2026

(Ilustração: Ricardo Dunkley)


2 de out. de 2026

POR UM NOVO CONCEITO DE ARTE


Como o conceito de arte já mereceu o bestunto de centenas de milhares de teóricos e um sem-número de páginas de livros, artigos etc., não vou, aqui, me dedicar a debulhar teorias sobre o que é ou não é arte. Por isso, essa crônica vai ser breve, muito breve. Apenas as linhas suficientes para expressar a minha preocupação com relação ao que se pode ou não ser considerado arte, nesses tempos de inteligência artificial.

Como argumento principal para o conceito que virá a seguir, advirto apenas que não podemos deixar de radicalizar a ideia de que máquinas não fazem arte, máquinas não criam, máquinas, mesmo as mais potentes imitadoras do pensamento humano, não sentem e, portanto, não são capazes de expressar aquilo que humanamente só o cérebro humano é capaz de expressar, ou seja, sentimentos os mais profundos, ou não, mas sentimentos humanos, provindos de cérebros humanos.

Que me desculpem aqueles que têm utilizado, mesmo que de forma indireta, ou mínima que seja, de inteligência artificial para corrigir ou aperfeiçoar alguma criação que pretenda ser arte: se houver interferência de máquina, de inteligência artificial ou outra qualquer que venha a ser inventada, não deverá ser considerada arte, porque, simplesmente:

CONSIDERA-SE ARTE AQUILO QUE UM SER HUMANO DISSER QUE É ARTE, DESDE QUE NÃO TENHA ABSOLUTAMENTE NENHUMA INTERVENÇÃO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL OU QUALQUER OUTRO ARTIFÍCIO MECÂNICO, ISTO É: SÓ SERÁ ARTE O QUE FOR PRODUZIDO EXCLUSIVAMENTE POR UM SER HUMANO.

Assim, meus caros escritores, o seu texto, por exemplo, pode até ser corrigido em termos ortográficos e gramaticais por uma máquina, mas se houver qualquer traço de intervenção na forma, na estrutura, nas ideias, não deverá ser considerado arte. Também qualquer gravura ou pintura, se tiver qualquer traço de ajuda mecânica, não será arte. E assim por diante...

Obras produzidas com o auxílio de máquinas podem ser belas (que o conceito de belo é fluido), agradáveis aos olhos; podem ser até expostas como obras, mas jamais como obras de arte! O termo OBRA DE ARTE deve ser de uso exclusivo para intitular aquelas obras produzidas sem qualquer ajuda mecânica ou de inteligência artificial. Que busquem outro nome para essas obras, com o auxílio da inteligência artificial, se quiserem, mas não as chamem jamais de ARTE.

 

29.9.2026 

(Ilustração: Animais pintados na Gruta de Lascaux, há 17 000 anos)