14 de out. de 2026

declaração à praça


 

mil línguas lambem minha língua

tantas cores em minha pele

onças e macacos e jabutis

são tantos os tantãs nas matas

o que te mata ó josé

o que te mata ó maria

não é o canto do bem-te-vi

o que te mata ó cabeça de vento

é ter no vento o veneno

que vem lá de onde

caldeiras queimam as matas

mil línguas te lambem a língua

e se te tornas mudo – e cego

que não negues o mal

que brota do capital

se te plantas nas avenidas

que cobrem rios e riachos

relinchas teu descompasso

negando o que tu enxergas

sem que vejas o real

a soja que tu plantas

o ipê que tu arrancas

o dólar que tu comes

tudo que tu consomes

são a pele da onça e do macaco

tudo que tu adoras

são minha pele e meus ossos

na calma da tarde de domingo

quando gira o disco da fome

na casa do teu vizinho

passa pela rua a rádio patrulha

que não pega o ladrão pelo cachaço

não ligas o rádio para ouvir o palhaço

não vês na tevê o choro da mocinha

se te pedem pão tu dás risada

se te dão mais valia tu pedes mais

na solidão da tua mansão

vacas mugem no litro de uísque

não vieste do Paraguai

nem carpiste roça no Uruguai

cantas óperas em italiano

nos verdes campos europeus

como verdes são teus olhos

cobertos de soja e dólar

mil línguas que te lambem a língua

são mil direitos que tu mastigas

são mil defeitos que tu mitigas

lentos os ventos que sopras

em narguilês de patifarias

sei que tu nunca farias

nem rezas nem feitiçarias

porque tu lanças tuas lambanças

nos palácios de cristais cobertos

no mato a onça estruge

na avenida o negro muge

escravo ainda do teu sangue nobre

no mato o macaco pula

na favela o branco estipula

o preço da pedra de crack

que os pelos arrepia

da mais baixa burguesia

tu te calas pelas salas

sem medo do que escondes

maltratas reis e condes

das folias que não te lambem

desde o tempo de cabrais

metes mentiras pelas mentes

e te ris de nossos sinais

compraste a peso de ouro

nossa língua e nosso couro

e não pagaste o que nos deves

negro e pobre e cafuzo e índio

somos todos nos trópicos breves

a cantar e dançar ao teu tambor

e se agora te mostramos a dor

que causou tua chibata

te digo não voltamos para a mata

nem vamos vomitar em Buenos Aires

vamos gritar nosso grito de bem-te-vi

bem aqui bem perto de ti

como cantou e gritou Elza Soares





13.9.2026

(Ilustrção: Adriana Varejão - Cena de interior-II)

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