mil línguas lambem minha língua
tantas cores em minha pele
onças e macacos e jabutis
são tantos os tantãs nas matas
o que te mata ó josé
o que te mata ó maria
não é o canto do bem-te-vi
o que te mata ó cabeça de vento
é ter no vento o veneno
que vem lá de onde
caldeiras queimam as matas
mil línguas te lambem a língua
e se te tornas mudo – e cego
que não negues o mal
que brota do capital
se te plantas nas avenidas
que cobrem rios e riachos
relinchas teu descompasso
negando o que tu enxergas
sem que vejas o real
a soja que tu plantas
o ipê que tu arrancas
o dólar que tu comes
tudo que tu consomes
são a pele da onça e do macaco
tudo que tu adoras
são minha pele e meus ossos
na calma da tarde de domingo
quando gira o disco da fome
na casa do teu vizinho
passa pela rua a rádio patrulha
que não pega o ladrão pelo cachaço
não ligas o rádio para ouvir o palhaço
não vês na tevê o choro da mocinha
se te pedem pão tu dás risada
se te dão mais valia tu pedes mais
na solidão da tua mansão
vacas mugem no litro de uísque
não vieste do Paraguai
nem carpiste roça no Uruguai
cantas óperas em italiano
nos verdes campos europeus
como verdes são teus olhos
cobertos de soja e dólar
mil línguas que te lambem a língua
são mil direitos que tu mastigas
são mil defeitos que tu mitigas
lentos os ventos que sopras
em narguilês de patifarias
sei que tu nunca farias
nem rezas nem feitiçarias
porque tu lanças tuas lambanças
nos palácios de cristais cobertos
no mato a onça estruge
na avenida o negro muge
escravo ainda do teu sangue nobre
no mato o macaco pula
na favela o branco estipula
o preço da pedra de crack
que os pelos arrepia
da mais baixa burguesia
tu te calas pelas salas
sem medo do que escondes
maltratas reis e condes
das folias que não te lambem
desde o tempo de cabrais
metes mentiras pelas mentes
e te ris de nossos sinais
compraste a peso de ouro
nossa língua e nosso couro
e não pagaste o que nos deves
negro e pobre e cafuzo e índio
somos todos nos trópicos breves
a cantar e dançar ao teu tambor
e se agora te mostramos a dor
que causou tua chibata
te digo não voltamos para a mata
nem vamos vomitar em Buenos Aires
vamos gritar nosso grito de bem-te-vi
bem aqui bem perto de ti
como cantou e gritou Elza Soares
13.9.2026
(Ilustrção: Adriana Varejão - Cena de interior-II)

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