29 de out. de 2026

enxovalho

 





não sei quanto valho

se uma pepita de ouro

ou só o vil cascalho

só sei que gasto o couro

me rasgando pela vida

sem ganhar quase nada

só coçando a ferida

aberta a cada paulada



não sei se sou um gato

perdido pela rua

miando por um prato

ou só miando para a lua



penso as vezes que sou

apenas um cão sarnento

que come o que sobrou

de qualquer apartamento



enfim, não sei quanto valho

pois sobrevivo como posso

chafurdando no enxovalho

sem a mais-valia de um osso



25.2.2026

(Ilustração: Eric Lacombe, dark abstract portraits)





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