Baixou a depressão
Pesou-me na jugular o pé pesado da solidão
As paredes da minha casa vão-se aproximando
Fechando-me pouco a pouco num caixão
Imagino nas ruas o féretro roxo
Quem está lá dentro em sossego esticado
Sabe para onde está indo
E o cortejo segue em silêncio de júbilo interior
Eu eu?
Para onde – para onde carrega-me a maldita depressão?
Para que fundos de poços sem fundo me leva a tristeza?
Pressinto mais do que sinto que as paredes se fecham sobre mim perigosamente
Para onde me levam ao me apertarem desesperadamente?
Onde a saída?
Penso em ti amiga que me abandonaste
Penso em ti e desespero-me ainda mais
Penso em ti e nos meus poetas mortos
Penso em ti e em tantos amigos mortos
Penso em ti e me angustio a me perguntar mais e mais e mais vezes
Onde os caminhos que se estendiam em planícies e amplitudes?
Onde os caminhos que se abriam e não se fechavam?
Onde os meus passos se perderam?
Em areias se perderam as marcas de meus pés ao vento da montanha?
As paredes se aproximam perigosamente e eu me fecho
Eu me fecho e me enrodilho felinamente
Para que brisas de outono soprem as folhas da jabuticabeira da minha infância
E elas cubram-me as dores e as feridas que ficaram nas cercas de arame farpado
As dores e as feridas que nunca se curaram porque ficaram lá dependuradas
Num canto qualquer de um quintal que se esfarelou no tempo de um relógio quebrado
Então eu me volto para dentro de mim mesmo e digo bem alto
Baixou a depressão?
Que venham terapias que não curam mas ardem
Que venham soluções que não solucionam mas alucinam
Sobe – sobe o som! Sobe som! Sobe o som!
Rock pesado / samba bem batucado / jazz e batuque de aldeias perdidas
Pisem com força e dor os pés nus a levantar poeira
Cantem os piagas / grasnem as araras / gritem os bem-te-vis / cantem os sabiás
Tango tango tango – eletrotango
Canções românticas: venham! Venham da Europa ou do Caribe
Afoguem-me / enterrem-me em mim mesmo e me conduzam
Para onde? Para onde?
Ritmos – ritmos africanos e cubanos
Um bolerão a fazer brotar das pupilas pepitas sem brilho
Vozes e vozes e vozes e pianos e violinos e violoncelos
Bach / Beethoven / Brahms / Mahler
E Vivaldi e Villa Lobos e Tchaikovski e mais e muito mais
Sobe o som / sobe o som / sobe o som
Que vá tudo para o inferno e leve junto a deprê
No som de estourar os tímpanos eu só quero esquecer de mim
Eu só quero esquecer que vivo
Eu só quero esquecer que sofro
E esquecer você!
3.6.2026
(Ilustração: Alexander Litovchenko (1835-1890) -
Charon (Caronte) carries souls across the river Styx)
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