17 de out. de 2026

Depressão

  




Baixou a depressão

Pesou-me na jugular o pé pesado da solidão

As paredes da minha casa vão-se aproximando

Fechando-me pouco a pouco num caixão

Imagino nas ruas o féretro roxo

Quem está lá dentro em sossego esticado

Sabe para onde está indo

E o cortejo segue em silêncio de júbilo interior



Eu eu?

Para onde – para onde carrega-me a maldita depressão?

Para que fundos de poços sem fundo me leva a tristeza?

Pressinto mais do que sinto que as paredes se fecham sobre mim perigosamente

Para onde me levam ao me apertarem desesperadamente?

Onde a saída?



Penso em ti amiga que me abandonaste

Penso em ti e desespero-me ainda mais

Penso em ti e nos meus poetas mortos

Penso em ti e em tantos amigos mortos



Penso em ti e me angustio a me perguntar mais e mais e mais vezes

Onde os caminhos que se estendiam em planícies e amplitudes?

Onde os caminhos que se abriam e não se fechavam?

Onde os meus passos se perderam?

Em areias se perderam as marcas de meus pés ao vento da montanha?



As paredes se aproximam perigosamente e eu me fecho

Eu me fecho e me enrodilho felinamente

Para que brisas de outono soprem as folhas da jabuticabeira da minha infância

E elas cubram-me as dores e as feridas que ficaram nas cercas de arame farpado

As dores e as feridas que nunca se curaram porque ficaram lá dependuradas

Num canto qualquer de um quintal que se esfarelou no tempo de um relógio quebrado



Então eu me volto para dentro de mim mesmo e digo bem alto

Baixou a depressão?

Que venham terapias que não curam mas ardem

Que venham soluções que não solucionam mas alucinam

Sobe – sobe o som! Sobe som! Sobe o som!

Rock pesado / samba bem batucado / jazz e batuque de aldeias perdidas

Pisem com força e dor os pés nus a levantar poeira

Cantem os piagas / grasnem as araras / gritem os bem-te-vis / cantem os sabiás

Tango tango tango – eletrotango

Canções românticas: venham! Venham da Europa ou do Caribe

Afoguem-me / enterrem-me em mim mesmo e me conduzam

Para onde? Para onde?

Ritmos – ritmos africanos e cubanos

Um bolerão a fazer brotar das pupilas pepitas sem brilho

Vozes e vozes e vozes e pianos e violinos e violoncelos

Bach / Beethoven / Brahms / Mahler

E Vivaldi e Villa Lobos e Tchaikovski e mais e muito mais

Sobe o som / sobe o som / sobe o som

Que vá tudo para o inferno e leve junto a deprê

No som de estourar os tímpanos eu só quero esquecer de mim

Eu só quero esquecer que vivo

Eu só quero esquecer que sofro

E esquecer você!




3.6.2026

(Ilustração: Alexander Litovchenko (1835-1890) - 
Charon (Caronte) carries souls across the river Styx)

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