26 de out. de 2026

enquanto envelheço





não quero o silêncio das catedrais

onde moram deuses sofridos

- da minha vida depois dos oitenta quero mais

do que apenas a reza entoada com terços brandidos

no meio das noites gélidas de lua cheia

por mãos de beatas que têm seus pedidos

de santidade

renegados em ex-votos na teimosa teia

da infelicidade



não quero missas nem exorcismos nem cantos e danças

hóstias profanadas

demônios enrustidos

encantados orixás aos troncos de baobás

não quero leis rabínicas de israel ou babilônia

nem recitativos corânicos cinco vezes ao dia

não quero passes mágicos de mãos trêfegas

conduzidas como em neurastenia

em centros de desencontros e falsas bênçãos



que vão para suas cavernas escuras

e fiquem lá para sempre

todos os profetas e todos os gurus



deus não morreu porque não pode morrer o que não existe

e enquanto a minha vida persiste

e enquanto lentamente envelheço

tudo o que à vida ainda peço antes do fatal tropeço

é que me deixe em paz assim como sou

e do meu jeito

assim tosco de mau poeta e exijo que se livrem

de minhas cinzas com um mínimo de respeito



28.8.2026

(Ilustração: escultura de Liu Xue)







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