não quero o silêncio das catedrais
onde moram deuses sofridos
- da minha vida depois dos oitenta quero mais
do que apenas a reza entoada com terços brandidos
no meio das noites gélidas de lua cheia
por mãos de beatas que têm seus pedidos
de santidade
renegados em ex-votos na teimosa teia
da infelicidade
não quero missas nem exorcismos nem cantos e danças
hóstias profanadas
demônios enrustidos
encantados orixás aos troncos de baobás
não quero leis rabínicas de israel ou babilônia
nem recitativos corânicos cinco vezes ao dia
não quero passes mágicos de mãos trêfegas
conduzidas como em neurastenia
em centros de desencontros e falsas bênçãos
que vão para suas cavernas escuras
e fiquem lá para sempre
todos os profetas e todos os gurus
deus não morreu porque não pode morrer o que não existe
e enquanto a minha vida persiste
e enquanto lentamente envelheço
tudo o que à vida ainda peço antes do fatal tropeço
é que me deixe em paz assim como sou
e do meu jeito
assim tosco de mau poeta e exijo que se livrem
de minhas cinzas com um mínimo de respeito
28.8.2026
(Ilustração: escultura de Liu Xue)
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