29 de mai. de 2026

FÉ DEMAIS

 




O salão enorme do antigo cinema está com metade de seus atuais bancos de madeira compridos e sem encosto tomados pelas roupas negras dos crentes. O pastor, no púlpito, ameaça demônios e pecados, os primeiros com a expulsão e os segundos com a redenção. Seus gestos melodramáticos entusiasmam aqueles que ali estão pela primeira vez, mas não deixam imunes os fregueses habituais de suas exortações e preces. De vez em quando, um exorcismo previamente ensaiado com alguma das irmãs aumenta em alguns pontos o seu prestígio de guardião da fé. As pessoas realizam sua catarse através de longas orações, através da exposição, aos gritos, dos pecados cometidos, através dos pequenos sacrifícios exigidos pelo pastor, como ficar imóvel por uma ou duas horas, de braços erguidos, ou carregar uma pedra na cabeça, à moda dos peregrinos do nordeste (afinal, aquela é uma fé eclética), mas principalmente purgam seus pecados com uma generosa contribuição para os cofres da igreja, que está iniciando sua missão e precisa de fundos para ampliar seus tentáculos (a casa do pastor ainda não está pronta e seu fusquinha do ano precisa ser trocado por um carro maior, a família está crescendo). O culto prossegue num bem ensaiado processo dramático de cortes bruscos e reviravoltas na fala do pastor ou na encenação de outros ajudantes. Já está quase no fim e é necessário preparar o público para a exortação final, de grande impacto, que deixe a todos em estado de total enlevo, para, assim, sentirem menos quando enfiarem a mão no bolso para a contribuição do dia. O pastor e seus acólitos sabem o que fazem. Cantam o penúltimo hino, aquele que vai num crescendo até o auge, quando o som de todos os instrumentos e de todas as vozes se calam de repente e, com voz grave, tocada pela bênção do divino espírito santo, o pastor exorta, através de uma passagem bíblica significativa, a que todos se calem e permaneçam em silêncio por um minuto, para a total integração de todos os crentes com a corrente milagrosa dos poderes de deus. O silêncio que cai sobre o velho cinema transformado em templo pode ser cortado com uma faca. Suspende-se o choro do bebê, suspende-se o pigarro do ancião; os corpos e rostos e mãos e olhos estão extáticos, na contemplação mística. Um tropel de cavalos começa a fazer-se ouvir ao longe, distante mesmo, num som surdo e ritmado que vai pouco a pouco tomando todo o salão, até que o relincho e o bufar dos animais parece estar ao lado de cada um, como se o salão estivesse tomado de dezenas de alimárias a rodopiar, relinchar, bufar, arfar, sob as esporas e relhos dos cavaleiros que, com seu bodum de couro, suor e estrada, tomam todos os sentidos dos crentes que, em estado de choque, não sabem o que fazer. De repente, num átimo de silêncio, ouve-se perfeitamente, junto com o estalar do chicote (alguns juram ter visto o imenso alazão negro erguer-se nas patas traseiras, soltando fogo pelas ventas, numa visão demoníaca) o grito que vem do passado para o presente, das profundezas de um despenhadeiro para a claridade da planície, ecoa pelo espaço, gelando o sangue das fisionomias transidas pela contemplação do incontemplável, pela peripécia que nenhum pastor ousaria sequer imaginar para atrair seus fiéis: iaaaaaaaaaôôôôôôô... Silver! Não se sabe como, em menos de dez segundos, não havia um só fiel dentro do templo, inclusive o pastor e seus acólitos. Hoje, o salão do velho cinema é ocupado por um estacionamento, que só funciona durante o dia. Alguns motoristas retardatários juram que já viram ou a sombra gigantesca de um chapéu de cowboy ou o estralejar de um látego, outros já ouviram o tropel de cavalos. Dizem que o Zorro não recuperou para o cinema a velha sala e, por isso, ainda aparece de vez em quando, tentando chamar a atenção das pessoas para um passado em que pontificava nas telas, todos os domingos e feriados e dias santos, nos velhos seriados de Hollywood. Dizem, também, que ele só não admitia ter perdido a parada para..., bem, deixe isso para lá. Nada ficou provado mesmo.



23.9.97

(Ilustração: El Zorro, autoria não identificada)

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