Um continente: ACIREMA DO SUL. Um país: LISARB. Uma cidade: SARVAL. Uma rua: inominada. A casa pequena existe. Nem simples nem pomposa. Apenas existencial. Lá não há dor. A morte apenas resistida espreita. Joana ao espelho desconversa o tempo. Vê não no rosto mas no espelho a escura mancha de cinquenta sustos. No corpo o seio ao solo deriva. No espelho estrelas contempla. Ilusão. Espelho vira vida e vida aresta da noite. Joana não pode chorar. Sorri apenas não de si mas para o futuro. Qual futuro? De Lisarb? Lisarb é só presente. De Acirema? Acirema é só passado. E Sarval? Incrustada na pedra Sarval é o reflexo de um ponto perdido entre matas e rios. No oco da montanha. Parou. Mas Joana não sabe. Joana é apenas a mulher de uma era que sobrevive. E Joana está no espelho. Fora nas ruas no mormaço do meio-dia há loucura e dor. Joana pensa. Espelho reflete. E Joana vê no cristal aquilo que seu cérebro cria. Não gosta do que vê. Sombrias imagens em fumo e névoa. No centro um furo rubro. Sangue. Por ele vem. Através dele entra a morte. E a morte está vencendo a batalha decisiva. No sangue podre escorre a existência. Não há limites. Não há resistência. Mas Joana não entende os porquês. Joana não tem perguntas. O espelho reflete o falso e o verdadeiro. E Joana não distingue em si a imagem de dentro de si que em sangue explode para a morte e Joana mergulha numa casa nem rica nem pobre de uma rua inominada de Sarval para o inferno de Lisarb como bomba que destruirá Acirema.
20.12.94
(Ilustração: Albert Marquet - desnudo a contraluz)

Nenhum comentário:
Postar um comentário