Rabisco em meu cérebro o projeto de uma casa.
Minha imaginação corre atrás de linhas retas
para construir a casa de meu sonho,
mas o pensamento voa para o passado
- renitente pensamento obsessivo -
e traz de volta à minha memória
a velha casa onde nasci:
seis cômodos num retângulo,
três quartos,
sala,
uma espécie de copa primitiva
e a cozinha esfumaçada,
talvez o lugar mais importante da casa,
porque lá reinava minha mãe
lutando – e essa é a palavra exata –
com o velho fogão a lenha
(que também usava serragem)
onde borbulhava nas panelas de pedra
- o angu (às vezes doce, para adoçar minha meninice)
- o arroz
- o feijão
(às vezes, e só às vezes, a carne).
Lá ficava eu a brincar ou simplesmente acompanhando
a azáfama de minha mãe.
[Um dia o meu cachorrinho cheirou sob a cadeira onde eu estava o mortífero escorpião e isso me livrou da picada e um dia, também no mesmo local, brincando com um trenzinho de caixa de fósforo, ao colocar gasolina na estopa fumegante da máquina, queimei minha perna – seis meses tomando injeção de penicilina e de molho na cama, pensando na fogueira de são João que não ia poder pular.]
Essas são lembranças de um passado tão passado
que não devia mais vir à minha memória: quero falar das casas,
das casas que rabisco no meu cérebro,
casas feitas de nuvens e de sonhos, porque nelas nunca morei
nem nunca vou morar [não, não é bem assim: moro nelas
todos os dias da minha vida, todos os dias].
Eu – arquiteto de versos tortos e sonhos mortos – ergo tijolo a tijolo
quantas casas em que moro nos meus sonhos,
construídas todas elas nas nuvens de meu cérebro.
Casas de belezas etéreas no concreto de minhas sinapses,
amplos espaços que abrigam a mim e a todos os meus filhos.
Casas onde se vive e se brinca e se refestela em festejos de família
num sonho perpétuo de amizade entre nós.
Casas e casas que imagino e que sonho
e com que construo - pelo menos dentro de mim -
o que eu sei que só existe mesmo na minha imaginação:
a felicidade.
4.1.2026
(Paul Bond - A Home At The Edge Of The World)

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