13 de jul. de 2026

Eu, arquiteto

 



Rabisco em meu cérebro o projeto de uma casa.

Minha imaginação corre atrás de linhas retas

para construir a casa de meu sonho,

mas o pensamento voa para o passado

- renitente pensamento obsessivo -

e traz de volta à minha memória

a velha casa onde nasci:

seis cômodos num retângulo,

três quartos,

sala,

uma espécie de copa primitiva

e a cozinha esfumaçada,

talvez o lugar mais importante da casa,

porque lá reinava minha mãe

lutando – e essa é a palavra exata –

com o velho fogão a lenha

(que também usava serragem)

onde borbulhava nas panelas de pedra

- o angu (às vezes doce, para adoçar minha meninice)

- o arroz

- o feijão

(às vezes, e só às vezes, a carne).

Lá ficava eu a brincar ou simplesmente acompanhando

a azáfama de minha mãe.

[Um dia o meu cachorrinho cheirou sob a cadeira onde eu estava o mortífero escorpião e isso me livrou da picada e um dia, também no mesmo local, brincando com um trenzinho de caixa de fósforo, ao colocar gasolina na estopa fumegante da máquina, queimei minha perna – seis meses tomando injeção de penicilina e de molho na cama, pensando na fogueira de são João que não ia poder pular.]

Essas são lembranças de um passado tão passado

que não devia mais vir à minha memória: quero falar das casas,

das casas que rabisco no meu cérebro,

casas feitas de nuvens e de sonhos, porque nelas nunca morei

nem nunca vou morar [não, não é bem assim: moro nelas

todos os dias da minha vida, todos os dias].

Eu – arquiteto de versos tortos e sonhos mortos – ergo tijolo a tijolo

quantas casas em que moro nos meus sonhos,

construídas todas elas nas nuvens de meu cérebro.

Casas de belezas etéreas no concreto de minhas sinapses,

amplos espaços que abrigam a mim e a todos os meus filhos.

Casas onde se vive e se brinca e se refestela em festejos de família

num sonho perpétuo de amizade entre nós.

Casas e casas que imagino e que sonho

e com que construo - pelo menos dentro de mim -

o que eu sei que só existe mesmo na minha imaginação:

a felicidade.




4.1.2026


(Paul Bond - A Home At The Edge Of The World)

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