19 de fev. de 2026

CORPO PRESENTE



Centro. Segunda-feira. As luzes dos prédios começavam a perder seu brilho com o primeiro sinal de um dia que prometia ser tórrido, naquele janeiro. Um carro vem a toda velocidade, na pressa natural de todo paulistano, quando, de repente algo ameaça cair de cima do viaduto sobre ele. O motorista, assustado, freia de repente e leva uma batida espetacular do apressadinho de trás. Mas o grande volume que se destacara lá de cima não chegou ao chão. Está dependurado a meio caminho entre a curva sinuosa do viaduto e o vão por onde começam a surgir os primeiros raios de sol. Antes que o motorista de trás dissesse o primeiro palavrão, o outro apontava para cima, apavorado, mudo de horror. E outros mais já paravam seus carros, enquanto sobre o viaduto os primeiros pedestres se aglomeravam. Recortado pelo vazado do viaduto, o corpo de um homem estrebuchava, esticava-se e, de repente, se imobilizava, preso pelo pescoço por uma longa corda. E rodava lentamente. E a cada volta podia-se ver, claramente, uma mancha húmida formar-se em sua virilha e descer lentamente pelas pernas. O trânsito logo congestionou. Uma multidão logo se formou tanto em cima quanto embaixo do viaduto. Sussurros, comentários, gritos, buzinas, um alarido estranho encheu a manhã que nascia com aquele fruto estranho pendurado lá, nascido na aurora morta de uma manhã de segunda-feira de verão.


(sem data)
(Ilustração: Diana Bryan - Strange Fruit)

Nenhum comentário:

Postar um comentário