havia ali um bangalô
num belo terreno
jardim cuidado na frente
árvores frutíferas no quintal
seus moradores – um casal de idosos –
que por serem idosos faleceram
(todo mundo morre um dia)
veio a construtora trazendo
o progresso
e ali ergueu um prédio quadrado
de dez andares e quarenta apartamentos
onde espremeram quarenta famílias
através de um programa de habitação popular
no princípio ali viveram felizes – o sonho
que logo em pesadelo se tornou
as paredes eram tão finas que permitiam
que um vizinho ouvisse
cada palavra que o outro vizinho
dissesse e se a mulher que fizesse amor
com seu marido gemesse e gritasse
um pouquinho mais alto
era logo motivo
de batidas no teto pelo vizinho de baixo
e murros na porta do vizinho do lado
se alguém ousasse tarde da noite
comer um bife (depois de um dia de duro trabalho)
o cheiro de fritura
já era motivo de muita reclamação
se dois jovens enamorados se pegassem na escada
aí então que o barraco se armava
- a velha patrulha de moralistas de plantão
queria briga e arrumava confusão
um vaso na porta ou até mesmo um tapete
e lá vinha chateação do vizinho do lado
ligar televisão
– só bem baixinho porque senão
logo se ouvia alguém que dizia
que não se pode dormir com tal barulhão
e tudo quanto um vizinho fazia era sempre
pelo outro qualquer vizinho
motivo de reclamação
reunião de condôminos – ah! essa acabava
quase sempre em pancadaria
- por isso quase nunca ocorria
nesse caixote de quarenta apartamentos
de vinte metros quadrados cada um
quarenta famílias que antes
se toleravam e até se conversavam
hoje vivem em brigas constantes
e se ainda não se mataram
porque tempo não encontraram
(mas como esse mundo é louco
para isso falta muito pouco)
10.1.2026
(Ilustração: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - La Colere)

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