7 de fev. de 2026

sete pecados: ira

 


havia ali um bangalô

num belo terreno

jardim cuidado na frente

árvores frutíferas no quintal

seus moradores – um casal de idosos –

que por serem idosos faleceram

(todo mundo morre um dia)



veio a construtora trazendo

o progresso

e ali ergueu um prédio quadrado

de dez andares e quarenta apartamentos

onde espremeram quarenta famílias

através de um programa de habitação popular



no princípio ali viveram felizes – o sonho

que logo em pesadelo se tornou



as paredes eram tão finas que permitiam

que um vizinho ouvisse

cada palavra que o outro vizinho

dissesse e se a mulher que fizesse amor

com seu marido gemesse e gritasse

um pouquinho mais alto

era logo motivo

de batidas no teto pelo vizinho de baixo

e murros na porta do vizinho do lado



se alguém ousasse tarde da noite

comer um bife (depois de um dia de duro trabalho)

o cheiro de fritura

já era motivo de muita reclamação



se dois jovens enamorados se pegassem na escada

aí então que o barraco se armava

- a velha patrulha de moralistas de plantão

queria briga e arrumava confusão



um vaso na porta ou até mesmo um tapete

e lá vinha chateação do vizinho do lado

ligar televisão

– só bem baixinho porque senão

logo se ouvia alguém que dizia

que não se pode dormir com tal barulhão



e tudo quanto um vizinho fazia era sempre

pelo outro qualquer vizinho

motivo de reclamação



reunião de condôminos – ah! essa acabava

quase sempre em pancadaria

- por isso quase nunca ocorria



nesse caixote de quarenta apartamentos

de vinte metros quadrados cada um

quarenta famílias que antes

se toleravam e até se conversavam

hoje vivem em brigas constantes

e se ainda não se mataram

porque tempo não encontraram

(mas como esse mundo é louco

para isso falta muito pouco)



10.1.2026

(Ilustração: Jacques Callot - Les Peches Capitaux - La Colere)









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