27 de mar. de 2026

Carro guinchado

 


Parar em frente a guia rebaixada. Péssimo hábito de muitos motoristas. Péssimo e irritante. Mas, na vida, cada caso é cada caso. Nem sempre o que é péssimo para uns será apenas um castigo para outros. Pode ser muito, muito mais do que um castigo.

Minha vizinha mandou guinchar um carro que a impedia de entrar. Guia rebaixada, claro. E o carro, bem, nem se podia chamar aquilo exatamente de carro. Um pau velho quase caindo aos pedaços. Mas, irritação é irritação. De quem não pode estacionar na própria garagem. Não importa se o veículo é um Mercedes Benz último tipo ou um pau velho que precisa de reza brava para o motor pegar. E lá foi ela chamar o guincho. Das “otoridades” de trânsito, claro. Que demoraram, mas chegaram, checaram e levaram a ruína para o seu pátio, deixando no lugar o famigerado cavalete, informando que o veículo fora guinchado, telefone para tal e tal número etc.

Umas três horas depois, surge o dono do carro. Aliás, os donos. Um casal de velhinhos maltrapilhos que ali estacionaram e foram para ninguém sabe onde, fazer ninguém sabe o quê. Quando perceberam a realidade de seu pau velho ter sido levado pelas autoridades do trânsito, os dois velhinhos caíram em prantos. Choravam de dar pena. De chamar a atenção de quem passava. Até que apareceu a vizinha que chamara o guincho. E tomou pé da situação: os dois velhinhos tinham aquele carro como sua casa, era onde eles moravam. Eram sem teto. E todos os seus pertences haviam sido levados com o carro. E o choro corria solto, por isso. E não só dos dois velhinhos, não.

Já passados vários meses, a minha vizinha chora até hoje, de arrependimento, de haver chamado o guincho para levar a “casa” rodante do casal de velhinhos sem teto. Pois é, nem sempre o que parece ser uma solução ou um castigo, é só um castigo: pode ser a total desgraça para quem já está mais do que desgraçado pela vida. E motivo de arrependimento para quem causou a desgraça, mesmo que tivesse todos os motivos para isso. E tudo porque, muitas vezes, pensa-se: vou ali e volto já, e se esquece de que estacionou em frente a guia rebaixada. É a vida. E a vida não é justa para ninguém.



16.2.2019

(Ilustração: foto da internet, sem indicação de autoria)

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