Primeiro ele sentiu, mais do que percebeu. Depois, ele percebeu, mais do viu. E aí, sim, ele ouviu. O zumbido maldito. Era ela. Seguiu-a com os olhos. Os músculos tensos, mas imóveis. Ela rodopiou sobre sua cabeça. Zumbiu mais alto. Pousou na beirada da xícara. Pensou: é agora! Não era. Ela voou. Rodopiou sobre sua cabeça, de novo. Zumbiu bem perto de seu ouvido direito, aquele que ouvia melhor. O olho direito pegou-a em pleno voo, vindo novamente pousar na beirada da xícara, agora bem acima da asa, onde havia um minúsculo grão de açúcar. Não pensou: a mão direita subiu lentamente, sem que ela percebesse. E desceu como um raio. Ela percebeu. Com o sangue cobrindo parte dos óculos, ainda a viu ao longe, rodopiando, feliz.
10.9.97
(Ilustração: Francisco de Goya:head of a man)

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