20 de jan. de 2026
OUVRE / ABRE, de Edmond Haraucourt
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17 de jan. de 2026
Trova: corre o rio da vida
Corre o rio da vida
Para o mar-oceano
E não há investida
Que perturbe seu plano.
1.3.2022
(Isa Galindo - ciranda da praia do Cabo Branco)
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trova - corre o rio da vida
14 de jan. de 2026
Trova: alguns chamam haikai
alguns chamam haikai
mas eu chamo haiku:
porque tu dizes ai
quando como o teu cu
21.8.2018
(Ilustração: Frida Castelli)
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trova - alguns chamam haikai
11 de jan. de 2026
POEMAS (QUASE HAIKAIS) – A RÃ
1.
Sussurra o vento: psiu!
sem bulha! Na tarde – um Ploc!
– Mergulha a rã
2.
No velho lago, pula
a rã: dia aziago,
sem amanhã.
3.
Não se ouve à tarde o
baque no velho tanque
do pulo da rã.
4.
Que se destranque
na tarde o pulo da rã
no velho tanque.
5.
Chap, chap, chap! Que
foi isso no meio da tarde?
A rã – no tanque.
3.11.2019 / 29.10.2025
(Ilustração: Auguste Renoir - La Grenouillère (o lago dos sapos) - 1869)
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poemas (quase haikais) - a râ
8 de jan. de 2026
tudo é relativo (talvez uma visão ingênua)
com uma faca descasca-se a fruta
com a mesma faca mata-se uma pessoa
a tecnologia – e a faca é um objeto tecnológico –
não é má nem é boa
só depende de que não caia na mão de um filho da puta
e isso é bastante lógico
tudo na vida é relativo
um truísmo do velho cientista
porque tudo depende do ponto de vista
e não do que está escrito em qualquer livro
seja ele profano ou sagrado – mas principalmente sagrado
pois no sagrado se escrevem mentiras eternas
enquanto no profano há verdades que mudam de lado
sejam elas antigas ou modernas
agora muitos temem a tal inteligência artificial
talvez ignorando que ela é apenas uma tecnologia
se cair nas mãos de alguém do mal
entramos todos numa fria
mas se bem usada para o progresso da humanidade
pode ser a ferramenta que nos ajude
a dar ao ser humano a plenitude
para sair da barbárie antes que o mundo ainda mais se degrade
16.12.2024
(Ilustração: robô, gerado por IA)
5 de jan. de 2026
Para Clara Nunes
Não sei se é verdade ou conto de areia
A voz clara e potente
Que cantava o canto dos orixás
Não sei de quantos adeuses
Se faz a saudade do seu canto
Quem chamou para o infinito
A maré cheia desse canto
Quem chamou
Quem chamou não lembrou
Que maré que vai nunca volta
Deixa na areia o passo vago
Mas a voz que me desperta
Desperta no sangue do povo
O poder de cantar e cantar de novo
Um poder que nada para
A saudade sem fim dessa mulher
A voz potente – a voz de Clara
17.4.2025
(Ilustração: Clara Nunes - foto de Wilton Montenegro)
2 de jan. de 2026
o viajante
vaguei um dia pelas estrelas da ursa
quando estive cavalgando
pelas planuras da europa
o corpo gelado nas alturas alpinas
os pés fincados
na floresta amazônica
navegador do cosmo
pelos mares ocultos
dos deuses de um olimpo decadente
sou fernão de magalhães
a dobrar todos os cabos
que vestem fardas verdes
desnutridas de esperança
descobridor das estradas dos mares
sou colombo a sobrenadar
com as galeras santa maria
e mais a pinta e mais a niña
sobre os cascalhos dos quartéis
para molhar no vinho
que virou vinagre
as insígnias dos generais
pedro dos álvares sou cabra cabral
para fincar no peito de cada negrinha
como marco da corte portuguesa
o desejo de decepar bem decepado
a mão suja que o rei dom joão
ousou limpar em cada carapinha
mulato ou negro retinto
nasci na noite do cruzeiro
como descendente direto
daquele capitão do mato
que riu da febre que matou
o bandeirante genocida
enganado pelas pedras verdes
roto e faminto me empreguei
nas fazendas dos paulistas
colhi mais miséria que café
e deixei em cada eira
uma lasca de minha pele
segui minha jornada sem rumo
na coluna de outro capitão
que no mato plantou revolução
semente que não medrou
semente que só ficou
como ex-futuro baobá
dentro de cada peito
de preto pobre e favelado
que ainda arde de febre e dor
por um tempo sem desigualdade
viajo por todas as matas
o corpo de onça pintado
com as cores do urucum
como negro ou tupi ou tapuia
prego no peito do genocida
o prego que roubei da cruz
cruzo mares desde europa
até a foz do amazonas
e depois me espalho por aí
do oiapoque até o chuí
a plantar minhas estrelas
e a colher muitas florestas
bebo os rios de águas limpas
que os malditos empestearam
e os vomito sobre a cidade eterna
com todo o mercúrio e todo ouro
que enfeitaram suas bocas podres
enterro nas grotas das montanhas
a língua de fogo das fornalhas
que derrete o ferro das gerais
chuto a bunda dos financistas
que atiçam a sanha dos racistas
e grito contra gente que não presta
falso patriota que me detesta
sou sim o viajante vigilante
que não nega cada delito
registrado nos gritos do bem-te-vi
e é assim que assumo
meu próprio grito que ecoa
até pelas estrelas da ursa
quando planto meus pés feridos
nos píncaros alpinos podres
de uma europa que não há
e deito as penas do meu cocar
no leito agônico dos rios mares
e vestido com o manto tupinambá
planto a sonhada pátria que um dia virá
25.9.2025
(Ilustração: Manto Tupinambá na Biblioteca do Museu Nacional no Rio de Janeiro).
30 de dez. de 2025
Quem é Luana?
quando a lua enluara um luar
no leito de Luana
ela levita leve e leitosa à luz do neon
são noites de pluma e brisa
e a pluma conduz Luana para o nirvana
e a brisa conduz Luana para a luz do neon
ela aspira em si mesma os respiros do rio
e o rio lento e deleitoso corre por suas veias
e o rio lento e deleitoso abre as portas
para estranhos desejos e apelos
ardem os seus pelos
enrola rolos de areia sua língua trêfega
em mares de algas e sal mergulham seus olhos
estrugem onças dentro de seu cérebro
do nirvana à dor suprema o salto mortal
à luz da lua de neon
espelha os caminhos que se abrem à frente
têm carpetes de veludo esses caminhos
que levam Luana para os confins das estrelas
que levam Luana para os confins do universo
5.10.2025
(Ilustração: Andre Favory - una mujer dormida junto a la ventana)
26 de dez. de 2025
dezembrismo
quisera ser um gato para enrodilhar-me
num canto qualquer da minha casa
e dormir dezoito horas por dia
para livrar-me desse dezembrismo
que me açula em tempos de luzes
essas luzes que obnubilam meus olhos
e me dão vontade de dormir como um gato
felino e felinianamente dormir e esquecer
esquecer essa porra toda - o vermelho
desse ridículo gordo papai-noel-santa-claus
ou que nome dão a esse velhinho idiota
bloquear os pedidos de boas-festas
tão falsos quanto são falsos todos os presépios
a comemorar um nascimento que não houve
numa falsa manjedoura e uma estrela falsa
três reis ridículos – de onde? – a cortejar
um menino que devia ser pobre
que devia trazer a palavra da revolução
e essa palavra se perdeu pelos caminhos
da estupidez de religiões de gelo e gado
esse menino - não representa mais as crianças
que as guerras matam hoje mundo afora
quisera tanto dormir e ronronar como um gato
para não olhar com meu parco olhar felino
as caras burguesas de falsa felicidade
que duram o espoucar dos fogos de artifício
ah como eu gostaria de me enroscar
em mim mesmo e desenrolar em sonhos
meu dezembrismo em tapetes de fogo
que queimassem a estupidez humana
nesses tempos de falsas festas e falsas luzes
quando a humanidade está mergulhada
nas trevas da estupidez e das guerras inúteis
com é inútil também [e como eu o sei]
o meu protesto neste mais que inútil poema
15.12.2025
(Agnolo Bronzino - Sacra famiglia Panciatichi or Madonna Panciatichi)
23 de dez. de 2025
os pitagóricos
os pitagóricos demandam ciência
para voar sem asas
sobre as hipotenusas
pedindo aos pássaros paciência
para não pisar nas brasas
que avivam nas palavras sujas
os provérbios sem sentido
agregados ao pedido
para que respeitem o teorema
já que perpassam pelos cérebros inúteis
na busca insana de resolver o problema
que envolve a tristeza das vidas fúteis
15.12.2025
(Ilustração: Gustave Courbet - Charles-Baudelaire, ca. 1848)
20 de dez. de 2025
UMA ESCRITORA COM NOME DE GATO E UM POEMA
Os gateiros temos a mania de nos procurar nas redes sociais, de colecionar nomes de famosos que também são gateiros, de estar sempre atentos a qualquer texto, poema, livro etc. que se refira a gatos. Tenho, inclusive, num dos meus blogs (o “trapiche de bagatelas”), um item dedicado aos gatos que, de forma, vamos dizer, um tanto pernóstica, denomino de “ailurofilia” (amor por gatos). Acima dessa mania de gatos, no entanto, está meu amor pela poesia, pela literatura, pelos livros.
Sim, leio muito. Autores do mundo inteiro. Já li livros traduzidos por ela, que é o motivo desta minha crônica: Margarida Vale de Gato, escritora, poeta e tradutora portuguesa.
Imaginei: alguém com esse nome deve ser gateira.
Busquei em suas biografias, disponíveis na internet, alguma referência a gatos. Nada. Pedi ao chat GPT uma pesquisa, usando como justificativa um poema em que ela faz referência explícita a gatos, chamado “Cat people”. Nada. E ainda levei “bronca” do chat GPT, ao me lembrar que ao escrever um poema que fala de gatos não quer dizer que a autora seja gateira (ou ailurófila)!
No entanto, nada me tira da cabeça que, com esse nome, Margarida Vale de Gato não seja uma gateira. A bronca do chat GPT me levou a analisar com ainda mais detalhes o tal poema, “Cat people”, que transcrevo a seguir:
Curiosa a tribo que formamos, sós
que somos sempre e à noite pardos,
fuzis os olhos, garras como dardos,
mostrando o nosso assanho mais feroz:
quando me ataca o cio eu toda ardo,
e pelos becos faço eco, a voz
esforço, estico e, como outras de nós,
de susto dobro e fico um leopardo
ou ando nas piscinas a rondar –
e perco o pé com ganas sufocantes
de regressar ao sítio que deixei
julgando ser mais fundo do que antes.
A isto assiste a morte, sem contar
as vidas que levei ou já gastei.
Não vou falar sobre a exímia arte poética da autora, o que é evidente a qualquer leitor de capacidade mais aguçada para a poesia. Também não vou comentar o erotismo elegante que perpassa principalmente os dois quartetos, ressaltado por palavras cuidadosamente escolhidas, como “assanho”, “cio” que, associadas ao mundo felino das gatas, reforçado por “a voz esforço, estico”... “como um leopardo”, me provocou arrepios pelvianos. E sou obrigado a concordar com o chat GPT: quando lhe lembrei que há uma animalidade felina no soneto, ele me esclareceu, de forma que fiquei até pensando, de um modo meio absurdo e assustador, que uma inteligência artificial pode ter sensibilidade poética, que, sim, há três elementos no poema que costumam aparecer em textos de escritores que convivem com gatos (e misturo abaixo as observações da IA com as minhas), como as seguintes expressões:
1. “fuzis os olhos”, ou seja, o brilho noturno do olhar felino, a súbita verticalização das pupilas que dá ao predador a capacidade de distinguir seu objeto de caça;
2. “de susto dobro”, típico da gata, que é dos felinos, melhor caçadora que o macho, com o arcar do corpo de forma instintiva, para aumentar seu volume e, com isso, intimidar qualquer possível predador;
3. “as vidas que levei ou já gastei”, um traço que tradicionalmente se atribui aos gatos, de sobrevivência a várias vidas, ou a várias vicissitudes da vida.
A aguda observância da vida dos gatos, ou mais precisamente, das gatas, num poema de extrema beleza e de sutilezas felinas, não faz, é claro, de Margarida Vale de Gato uma gateira, mesmo com esse lindo sobrenome (ou apelido, como dizem os portugueses). Mas faz de mim, seu leitor, não só desse poema, mas de muitos outros, um seu fã ainda mais ardoroso, porque posso sonhar e imaginar que, por trás da grande escritora e tradutora, esconde-se também uma gateira como eu e muitos outros escritores e artistas que já se deixaram retratar em companhia de seus gatos, ou já se declararam explicitamente gateiros. E eu me lembro, especialmente, como exemplo, de Balthasar Klossowski, conhecido como Balthus, o rei dos gatos. Se não encontrei nenhuma foto dela com seu gato ou gata de estimação, não deixarei de esperar que um dia isso ainda aconteça.
Afinal, os gateiros temos assim uma espécie de sete vidas de esperança de sempre encontrar outros admiradores ou apaixonados por gatos, nas mais sutis indicações, nem que seja apenas no sobrenome ou apelido de uma grande poeta.
2.12.2025
(Ilustração: Geza Faragy - slim woman with a cat)
17 de dez. de 2025
noites de outrora
trago das noites de outrora
o cheiro das lobas
impregnado na memória
do meu olfato agonizante
não há nesse cheiro qualquer mistério
que não seja o próprio mistério
de um tempo de espessas magias
de um tempo que – sei agora –
era apenas de desencantos
por beijos jogados no abismo
por promessas perdidas no ostracismo
onde medraram entre pedregulhos
de sentimentos improváveis
semeados por mãos insensíveis
na busca de carícias inúteis
26.9.2025
(Ilustração: Edvard Munch - noite na rua Karl Johan; 1892)
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poema - noites de outrora
14 de dez. de 2025
lua na janela
a lua espiou pela janela
e escondeu-se entre nuvens
de vergonha a palpitar
quando te viu nua e mais bela
que todo o seu esplendor lunar
deixou cair no entanto um breve raio
para atiçar-me tanto amor
que nos jogos de sombra e luz
entre a nudez envergonhada da lua
que tenta concorrer com a tua
escolho o laço de teus braços em cruz
eu – um novo deus crucificado
voo do céu ao inferno em cada espasmo
e nos prazeres mais ateus
morro e ressuscito em cada orgasmo
nas asas de luz dos arroubos teus
pela janela a cada noite que a lua passeia
traz sempre diferente o seu semblante
e ao ver que a cada noite nosso amor se renova
de enciumada e ressentida lua cheia
muda de repente para minguante
e depois para a triste e solitária lua nova
24.4.2025
(Ilustração: Chantron Alexander - Danae)
11 de dez. de 2025
lua morta
quando os
lábios que
beijavam
outros lábios
beijam agora
o vento
e fecham-se ao
silêncio de
uma noite sem luar
bate no peito um
frêmito
de passos ocos
de fantasmas que
caminham por
estradas de
pedras toscas
sem olhar
para trás
[proibido o retorno]
só o abismo e a solidão do abismo
e então
onde
tudo que era
cor e luz
para os
beijos
de lábios rubros
vira o beco onde
se agrupam mais
e mais
os fantasmas
- abantesmas tresloucados
a rugir à lua
a quebrar o
ruído dos
passos ocos
nos dentes
de fera
o desejo morto
insepulto
que
não
devia
nunca
ter
ressurgido
ao grunhido
do vento
à luz
da lua
para sempre
morta morta morta
28.11.2025
(Ilustração: Odile de Schwilgué: lune et mars)
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