14 de out. de 2026

declaração à praça


 

mil línguas lambem minha língua

tantas cores em minha pele

onças e macacos e jabutis

são tantos os tantãs nas matas

o que te mata ó josé

o que te mata ó maria

não é o canto do bem-te-vi

o que te mata ó cabeça de vento

é ter no vento o veneno

que vem lá de onde

caldeiras queimam as matas

mil línguas te lambem a língua

e se te tornas mudo – e cego

que não negues o mal

que brota do capital

se te plantas nas avenidas

que cobrem rios e riachos

relinchas teu descompasso

negando o que tu enxergas

sem que vejas o real

a soja que tu plantas

o ipê que tu arrancas

o dólar que tu comes

tudo que tu consomes

são a pele da onça e do macaco

tudo que tu adoras

são minha pele e meus ossos

na calma da tarde de domingo

quando gira o disco da fome

na casa do teu vizinho

passa pela rua a rádio patrulha

que não pega o ladrão pelo cachaço

não ligas o rádio para ouvir o palhaço

não vês na tevê o choro da mocinha

se te pedem pão tu dás risada

se te dão mais valia tu pedes mais

na solidão da tua mansão

vacas mugem no litro de uísque

não vieste do Paraguai

nem carpiste roça no Uruguai

cantas óperas em italiano

nos verdes campos europeus

como verdes são teus olhos

cobertos de soja e dólar

mil línguas que te lambem a língua

são mil direitos que tu mastigas

são mil defeitos que tu mitigas

lentos os ventos que sopras

em narguilês de patifarias

sei que tu nunca farias

nem rezas nem feitiçarias

porque tu lanças tuas lambanças

nos palácios de cristais cobertos

no mato a onça estruge

na avenida o negro muge

escravo ainda do teu sangue nobre

no mato o macaco pula

na favela o branco estipula

o preço da pedra de crack

que os pelos arrepia

da mais baixa burguesia

tu te calas pelas salas

sem medo do que escondes

maltratas reis e condes

das folias que não te lambem

desde o tempo de cabrais

metes mentiras pelas mentes

e te ris de nossos sinais

compraste a peso de ouro

nossa língua e nosso couro

e não pagaste o que nos deves

negro e pobre e cafuzo e índio

somos todos nos trópicos breves

a cantar e dançar ao teu tambor

e se agora te mostramos a dor

que causou tua chibata

te digo não voltamos para a mata

nem vamos vomitar em Buenos Aires

vamos gritar nosso grito de bem-te-vi

bem aqui bem perto de ti

como cantou e gritou Elza Soares





13.9.2026

(Ilustrção: Adriana Varejão - Cena de interior-II)

11 de out. de 2026

dadaísmo




um fato é um fato é um fato é um flato

um poema é um poema é um poema é um dilema

um gato é um gato é um gato é um gato de fato

um problema é um problema é um problema é um esquema



quando um problema é um fato

quando um fato é um problema

quando um poema é um gato

quando um gato torna-se um fato

ou talvez um poema e um problema

e tudo se mistura no quarteto

de um místico soneto

soluciona-se o pulo do gato

no risco no céu do avião a jato



no poema-problema quebra-se a rima

a banda que sobe ao coreto da praça

e como uma grande orquestra

toca uma sonata do século dezenove

e antes que você este poema desaprove

eu me pergunto: que mistureba é esta?




12.7.2026

(Ilustração: Hannah Höch)





8 de out. de 2026

convivência



convivo com tantos mortos

que não sei se com quem convivo

está morto ou ainda vivo

só sei que enquanto sobrevivo

preencho a vida sobrevivida

como a página de um livro

linha por linha

palavra por palavra

e tudo quanto no passado eu tinha

é hoje o que me escalavra

nesse passo de sobrevivência

que com tanta insistência

vou vivendo pelos caminhos

cada vez mais tortos

de minha parca existência



para que não me atormentem

nem os vivos nem os mortos

minto sobre mim e a vida

- e sombra sou que procrastina

o futuro que lhe destina

esse louco beco sem saída



21.10.2025

(Ilustração: Zdzisław Beksiński) 

5 de out. de 2026

confiteor





eu ateu convicto confesso

a ti e a mim mesmo que às vezes

chovem pétalas de rosas negras

sobre meus versos mais estranhos



anoiteço então em meu casulo

para pensar por que pétalas pretas

chovem sobre meus versos vagos



volto à voragem de meus vinte anos

quando o jovem jogava o jogo

de imaginar mundos novos para si

e esse jovem criador de futuros

era no que eu iria me transformar

quando os caminhos escolhidos

seriam cobertos de pétalas

de rosas negras

e espinhos impensados

a ferir feridas que não se curam

nem com os cardos venenosos

de espantos colhidos pelas trilhas

que descem de montanhas mágicas



mas cultivar rosas negras era preciso

[as rosas que chovem pétalas negras]

para macerar com elas mezinhas mágicas

que não se misturam com o veneno

das receitas mal cosidas

nos versículos dos livros sagrados

que os pés pecaminosos de profetas

pisoteiam nos caldeirões de sabás

nas selvas profundas da minha mente

enquanto chovem pétalas de rosas negras

sobre o espanto de meus versos estranhos



e eu que sou tanto ateu confesso enfim

que não peço perdão pelas perfídias

das rosas negras eclodidas no meu jardim



6.9.2026

(Ilustração: Ricardo Dunkley)


2 de out. de 2026

POR UM NOVO CONCEITO DE ARTE


Como o conceito de arte já mereceu o bestunto de centenas de milhares de teóricos e um sem-número de páginas de livros, artigos etc., não vou, aqui, me dedicar a debulhar teorias sobre o que é ou não é arte. Por isso, essa crônica vai ser breve, muito breve. Apenas as linhas suficientes para expressar a minha preocupação com relação ao que se pode ou não ser considerado arte, nesses tempos de inteligência artificial.

Como argumento principal para o conceito que virá a seguir, advirto apenas que não podemos deixar de radicalizar a ideia de que máquinas não fazem arte, máquinas não criam, máquinas, mesmo as mais potentes imitadoras do pensamento humano, não sentem e, portanto, não são capazes de expressar aquilo que humanamente só o cérebro humano é capaz de expressar, ou seja, sentimentos os mais profundos, ou não, mas sentimentos humanos, provindos de cérebros humanos.

Que me desculpem aqueles que têm utilizado, mesmo que de forma indireta, ou mínima que seja, de inteligência artificial para corrigir ou aperfeiçoar alguma criação que pretenda ser arte: se houver interferência de máquina, de inteligência artificial ou outra qualquer que venha a ser inventada, não deverá ser considerada arte, porque, simplesmente:

CONSIDERA-SE ARTE AQUILO QUE UM SER HUMANO DISSER QUE É ARTE, DESDE QUE NÃO TENHA ABSOLUTAMENTE NENHUMA INTERVENÇÃO DE INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL OU QUALQUER OUTRO ARTIFÍCIO MECÂNICO, ISTO É: SÓ SERÁ ARTE O QUE FOR PRODUZIDO EXCLUSIVAMENTE POR UM SER HUMANO.

Assim, meus caros escritores, o seu texto, por exemplo, pode até ser corrigido em termos ortográficos e gramaticais por uma máquina, mas se houver qualquer traço de intervenção na forma, na estrutura, nas ideias, não deverá ser considerado arte. Também qualquer gravura ou pintura, se tiver qualquer traço de ajuda mecânica, não será arte. E assim por diante...

Obras produzidas com o auxílio de máquinas podem ser belas (que o conceito de belo é fluido), agradáveis aos olhos; podem ser até expostas como obras, mas jamais como obras de arte! O termo OBRA DE ARTE deve ser de uso exclusivo para intitular aquelas obras produzidas sem qualquer ajuda mecânica ou de inteligência artificial. Que busquem outro nome para essas obras, com o auxílio da inteligência artificial, se quiserem, mas não as chamem jamais de ARTE.

 

29.9.2026 

(Ilustração: Animais pintados na Gruta de Lascaux, há 17 000 anos)



29 de set. de 2026

amores do passado – 3





amores do passado profundo

- uma dor-fantasma no quarto escuro

a assombrar o tempo e o momento

quando o pensamento é pluma ao vento



a dor assombra o fantasma

e o fantasma insufla a dor



nada-se no nada da saudade

pois saudade não há

há apenas o sopro da brisa

e sensações que obnubilam o olho

no quarto escuro de buracos

cavados no peito e desconhecidos

onde se perde a esperança

de qualquer passo para o passado



7.9.2026

(Ilustração: Alyssa Monks)

23 de set. de 2026

A MANCHA VERMELHA



Dia de nada fazer. Calor de cortar com faca. Até as moscas voavam devagar. Uma pinga a mais e o calor se mandava. Na modorra que aquietava, o estômago teimava em querer comida. Vasculhou nos bolsos imundos uma moeda improvável. Restos de pão. Lenço imundo. Um palito de dentes e outro de fósforos. Uma chave amarela que um dia terá aberto alguma porta já inexistente no fundo da memória. Um toco de cigarro, sem filtro, já quase se desmanchando. Juntou tudo dentro do lenço, seu tesouro. O que fazer? A cabeça rodava. Mais uma pinga - era essencial. Era mais uma pinga ou o derreter-se no calor como um picolé fora da geladeira. Picolé, um picolé de pinga! Por que não. Ameaçou sorrir, mas lembrou que sua boca era o oco do mundo e sentiu vergonha. É claro que ninguém iria notar que ele estava rindo, mas ele se veria com o oco do mundo escancarado num esgar fétido e sentiria vergonha. Não riu. Apertou os olhos para enxergar melhor quem vinha ao longe, caminhando devagar pela praça vazia, debaixo daquele calor de estourar mamona. Só podia ser um louco. Ou outro miserável como ele. Tateou o chão e deu com uma pedra. Lisa, redonda, sólida em sua ponderabilidade de pedra. Perfeita. A mancha distante era agora uma massa grande e branca a tapar o horizonte, numa sombra de jaqueira sobre o chão de cimento fumegante. Ao segundo de decisão seguiu-se o segundo de ação. Num átimo, a massa informe e sua sombra de jaqueira não eram mais que um corpo a gemer no chão sujo da praça onde não se ouvia nada além do zumbido de moscas lerdas ao ar parado no calor extenuante do início de uma tarde de verão em que um mendigo ardia em febre de loucura por uma dose de pinga branca para espantar a modorra e a fome do calor que abrasava tudo, até mesmo a mancha vermelha cravada para sempre na superfície leitosa de uma pedra lisa e redonda a rolar para dentro do bueiro negro.





15.10.97

(Ilustração: Mark Rothko - sem título (vermelho) 1956)

20 de set. de 2026

vinho da vida





das mãos de um deus recebo

o balsâmico vinho que bebo

o vinho de Baco



abraço mênades e sátiros como um redivivo corifeu

no êxtase da dança das bacantes

do cântaro ritualístico o vinho do deus

faz renascer em mim a catarse da fertilidade

para desapegar-me dos arrependidos instantes

em que me queimei no fogo de Prometeus

e alegro-me em Dioniso pela nova oportunidade



29.7.2026

(Ilustração: Johannes Vermeer de Delft - 
The Wine Glass; c.1658-1660)

17 de set. de 2026

Trova - Mano, ó mano velho: no teu corre

 



Mano, ó mano velho: no teu corre

Pela cidade, de sul a norte,

Tem o sal do suor que te escorre

Sabor e cheiro da tua morte.



13.9.2026

(Ilustração: Foto de Djalma Malaquias)

11 de set. de 2026

Trova - tu que entregas por aplicativo

 






Tu que entregas por aplicativo

Dirigindo moto ou bicicleta:

Só podes sonhar em ficar vivo,

Se te tornares um grande atleta.



7.9.2026

(Ilustração: imagem da internet; autoria na assinatura da figura)

8 de set. de 2026

DIA DE GATO

 



Olha bem pra mim, seu delegado, vê se eu tenho cara de bandido, mão de bandido... isso aqui é mão de trabaiadô, ralo o dia inteiro, sou motoboy, com muita honra, seu delegado... se tava vagando na Marginal, sem rumo, é porque... porque... vai sê difícil o senhor acreditar... Tá bom, eu conto, tintim por tintim, tudo o que aconteceu. (...) Foi um dia de gato, seu delegado, é, um dia de gato, porque dia de cão eu tenho todo dia... Trabaiei até tarde, fazendo entrega e depois arrumando o escritório. Deixei a moto no estacionamento da firma – até pedi pro patrão deixá eu vim com ela pra casa, mas o disgramado do patrão não deixou, não. Quando saí, já nem tinha movimento na rua, tudo vazio, fui pro ponto de ônibus e fiquei lá esperando. Só eu. Tinha mais ninguém, não. Só eu, sozinho. Esperando. Meia hora e nada do disgraçado do ônibus. E eu lá, esperando, puto da vida, sozinho. Sozinho e cansado. Sozinho e com fome. E aí veio vindo um carro, um carrão, seu delegado, desses importado, preto, vidro escuro... Veio vindo, devagar, parou. Bem na minha frente. Levei um susto, né? Aí o vidro desceu e eu vi uma mulher, bonitona, loira, olhando pra mim... fez sinal pra que eu me aproximasse. Enfiei o carão na janela e perguntei se ela precisava de ajuda. “Como eu chego no Carrão?” – ela perguntou. “Carrão? Ih, isso é longe pra dedéu... num dá pra explicar direito, não...” “E como você sabe que é longe?” – ela perguntou de novo. “Ora, dona, é longe e eu sei que é longe porque... porque eu moro lá, né?” “Então, entra aí, que você me ensina o caminho e eu te dou uma carona até lá”. Ó, seu delegado, confesso que achei estranho, muito estranho aquilo, mas tava cansado, com fome, o ônibus num vinha, entrei! Ah, que delícia aquilo, seu delega, quero dizer, seu delegado, um carrão daquele, banco de couro, ar-condicionado, era tudo que um fio de deus precisa numa hora dessas. Depois de olhar tudo, no carro, o painel cheio de luzinhas, o toca-fitas tocando uma música lá da Lady Gaga, um sonzão de arrepiar, eu dei uma boa olhada na dona, ela tava de saia, as perna de fora, umas perna que eu vô te contá, seu delegado, só vi igual na secretária do patrão, que é boa pra caralho, desculpa, desculpa, saiu sem querer... Mas, então: eu olhava aquilo e até babava, e a dona das perna também era bem bonitona, devia ter o quê, uns trinta e cinco anos, mas eu pensei cá comigo, que dona boa, se der bobeira eu traço... Aí a dona , depois de alguns quarteirões, puxou conversa e me disse uma coisa ainda mais estranha: “Hmm, você é bem apanhadinho, heim... que idade você tem?” Respondi vinte e dois. “Sabe que assanhou os gatos aqui de dentro?” “Gato, dona, a senhora tem gato aqui no carro?” “Bobinho... então não sabe que os gatos miam assim de fome?” E a dona soltou um miadinho de arrepiar, seu delegado, igualzinho um gato no cio, eu sei porque lá onde eu moro tem um monte de gato e eles ficam miando assim, quando querem coiso uns com os outro, não sei se o senhor me entende... Tá bom, já vou contar o que senhor quer saber... Então, o miado da dona me arrepiou. Eu olhei pra ela e não pude deixar de olhar pr’aquelas perna, o vestido dela tava até aqui, seu delegado, mostrando as coxas, umas coxas... Bem, ela percebeu meu olho e disse: “Você gostou das minhas pernas?” Eu fiquei vermelho que nem pimentão e desviei logo os olhos, falei pra ela virar á direita e pegar a Marginal, pra mudar de assunto, sabe, pra não dar muita bandeira... Ela então fez a curva e o vestido subiu mais um pouco, eu não conseguia deixar de olhar, e ela disse: “Pode olhar, elas são bonitas, não são?” E sabe o que ela fez, seu delegado, pegou minha mão, e botou ela em cima daquele pernão, senti aquela pele lisinha, firme, uma delícia, um perfume gostoso vinha do corpo dela, me deu um tesão danado, quase fiquei louco. A gente ainda não tinha chegado na Marginal, não. Era uma ruazinha escura e deserta. Ela parou o carro, não desligou o motor, não, e disse: “Vem cá, me dá um beijo... dá”. Claro que eu, que já tava me babando todo, não tive dúvida: grudei meus beiços nos dela, ela enfiou a língua na minha garganta, seu delegado, quase morri de tesão... e pegou minha mão e disse: “Vem, passa a mão aqui, passa...” Então, seu delegado, louco como eu tava, num tive dúvida: enfiei a mão na toca dos gatos, enfiei a mão e ela miou, miou gostoso... uma toca macia, peludinha, e úmida, seu delegado me discurpa, mas... Tá bom, tá bom... é que só de lembrar... Tá bom... eu continuo. Então, quando eu já tava a fim de partir pras vias de fato, ela mandou parar... “Espere, vamos para um lugar melhor...” Guardei minhas coisa e amuei um pouco, no meu canto. Ela tocou o carro pra Marginal e logo entrou num motel. Aí, seu delegado, o bicho pegou, ou melhor, o gato pegou, foi miado pra mais de duas horas, a dona era uma gata de gostosa e miava, miava cada vez que gozava... e foram muitos os miado, seu delegado, tanto que no final eu, que já tava cansado pra caramba, acabei dormindo um pouco... Aí, quando acordei, o quarto tava vazio. Cadê a dona? Tinha dado no pé, seu delegado, tinha fugido como gata no telhado que a gente joga pedra, tinha ido embora com a gataria toda e eu fiquei ali, pensando e agora? e se a dona num pagou o motel, eu tô fudido. Pensei em fugir pela janela, mas num dava, os muro era tudo muito alto, fazer o quê, né, me vesti e saí. Na portaria, uma dona, no guichê, me parou: “E então, gatinho, o que houve? Saindo a pé?” Aí eu expliquei pra ela que tava na suíte 17 e tal, que a dona... nem terminei de falar, ela olhou lá no computador dela, olhou bem pra mim, até levantou um pouco pra me olhar pelo redondo do vidro, e disse: “Olha aqui, gatinho, pode ficar tranquilo, a dona pagou tudo...” É, eu pensei, com cinco real no bolso num dá pra pegar um táxi, e até falei pra ela, a dona pagou, mas como é que vou sair daqui? Você sabe como eu chego no Carrão? “Carrão? Você mora no Carrão?” Fiz que sim com a cabeça. “Então – e ela debruçou na janelinha, quase mostrando a peitaria toda, uns peito de dar água na boca, seu delegado – então, se você quiser esperar uns dez minutos... estou no fim do meu turno e posso te dar uma carona”. E piscou pra mim, seu delegado, uns oião assim de bonito. E aqueles peitos! E fez assim, com boca, um biquinho, e soltou um miadinho fino, longo, levantando as mão e mostrando as unha, como uma gata no cio, seu delegado. Foi aí que eu saí correndo, feito um doido, pela Marginal, que outra vez, não, né, seu delegado? Outra vez, não!





sp/24.5.2011

(Ilustração: Jack Vettriano - the temptress)

5 de set. de 2026

confusão danada





lá no alto do morro

encontrei um cachorro



lá no meio do mato

desentoquei um gato



levei cão e gato

para minha casa no mato



o cão latiu

o gato miou

ou vice-versa



mordeu-me o cachorro

sem motivo nenhum

expulsei o cachorro

acariciei o gato

buscando contato

arranhou-me o gato

voltou o cachorro

chutei o gato

mordi o cachorro



hoje moro no morro

sozinho comigo mesmo



frito de vez em quando

um bem gordo torresmo

e sou feliz sozinho

sem cãozinho

nem gatinho



12.7.2026

(Ilustração: David de Coninck - A cat and a dog fighting over fowl -c.1659)

2 de set. de 2026

o cara lá de baixo




o cara lá de baixo nunca encheu meu saco

nunca me pediu nada

nem mesmo deu qualquer pitaco

na minha vida contida ou desvairada



não tem livro editado – o cara lá de baixo

com regras e mais regras de cobranças

e sempre que um malfeito eu encaixo

não me olha com desconfianças

de que devia acender uma vela

num altar qualquer para comemorar

nem diz que mulher nasceu da costela

do homem a quem deve cultuar



muitas outras coisas posso dizer

do cara lá de baixo – por exemplo

nunca o vi com alguém se comprometer

que lhe ergam algum templo

embora alguns até o façam

mas são tão poucos esses loucos

que de modo algum o embaraçam

quando se lhes faz ouvidos moucos



gente boa esse cara de cara feia

que não mora no andar de cima

por ele não cuido da vida alheia

nem rezo por uma obra-prima

fica o cara bem na sua calma

sem nada exigir da minha vida

e se quiser um dia minha alma

e me puser num beco sem saída

vou-lhe dizer que não se importe

com isso não – já que não acredito

[e fica o dito pelo não dito]

no inferno depois da morte.



17.8.2026

(Ilustração: Francisco de Goya - Le Sabbat)











30 de ago. de 2026

Trova - penso em ti, faço uma trova

 





Penso em ti, faço uma trova.

Preciso só da lembrança

De que me deste uma prova:

A rosa azul da esperança.



7.8.2020

(Ilustração: Nadezda Krivohizina)

27 de ago. de 2026

DIA DE CASAMENTO

 

Nando amou Zeferina e Zeferina amou Nando. Quarenta anos. Já velhos, encarquilhados na peleja do campo, estavam em paz. A tapera cobria seus corpos; a criação de galinhas, patos e porcos garantia a calma do ronco da barriga, agora bem menos exigente; os netos traziam a certeza do caminho bem caminhado. E assim esperavam o que todos esperam, sem mágoa, só um pouco ranzinza às vezes um com o outro, mas ranzinzice com velhice se casa. E o neto mais velho veio com a novidade: missão, missão das grandes na paróquia da cidade, com um monte assim de padre, tudo falastrão e bom de púlpito, vó tinha que i vê, tinha que levá o vô, já quanto tempo não ia na igreja? quanto? E tanto insistiu que lá foram os dois, ele na melhor camisa e terno brancos, bota lustrosa que só vendo, ela na melhor saia de chita. Igreja cheia, todo mundo lá, contrito, sermão bravo, o missionário a ameaçar com o fogo do inferno quem não casou e mora em pecado, pricisa não, pensou ele, num carece não, maginou ela, no fundo ambos querendo de volta a roça, blusa apertada, bota roendo dedão do pé, quanto tempo, quanto tempo não punham aquilo, quarenta anos vivendo juntos, esqueceram, esqueceram de casar, só viveram, nóis num veve como cristão? duvida o Nando, mas o padre insiste quem não recebeu o santo sacramento vive no pecado e o demônio mora junto, esperando pra levar pras profundas do inferno quem assim está vivendo. Que diacho, e agora? Negociam. Casam, não casam? Casam. Afinal, não querem ser pasto de capeta. Entre tantos casais, Nando está orgulhoso da velha Zefa e Zeferina está feliz com o sorriso murcho de Nando. Na alegria, na tristeza, a morte os separe, pode beijar a noiva, Deus abençoe, e o clarão do dia, na porta da igreja, depara com eles de braço dado, olhando um para outro como no primeiro dia do mundo, quando não havia ainda o anjo decaído e Nando olha pra Zefa e Zefa olha pra Nando. Atônitos. Uai, Zefa, ocê tem papo? E eu que nunca jamais tinha notado... Uai, Nando, e ocê... que diacho de cacunda é essa, ocê nunca teve cacunda...



5.10.98

(Ilustração: Cândido Portinari - casamento caipira; 1940)


 

24 de ago. de 2026

amores do passado - 2



quando um amor do passado

volta em versos de saudade

volta como um tornado

e não como chuvas de verão

destrói qualquer possibilidade

de desacelerar as batidas

mais fortes do coração

para sanar algumas feridas

ou trazer alguma esperança

que não seja um novo não



quando um amor do passado

desperta na mente a lembrança

de um tempo há muito enterrado

tudo o que se pode pensar

é que há algo de muito errado

neste estranho recordar



os amores do passado

devem no passado continuar

e não sejam fardo pesado

para atrapalhar o presente

como se fossem o despertar

de renitente dor de dente



24.8.2026

(Ilustração: escultura de Camille Claudel - la valse)

18 de ago. de 2026

conversão

 





tu me dizes que te vais converter

a uma seita qualquer

então, mulher,

grave questão se levanta

que o mundo perderá uma puta

mas não ganhará uma santa



(s/data)

(Artemisia Gentileschi - Conversione della Maddalena
 -  Maria Maddalena penitente)

15 de ago. de 2026

apenas um delírio

 




quando choro por causa

de uma cena comovente

da novela na televisão

tenho consciência

de que esse gatilho

nada tem a ver com a novela

e sim com fatos do mundo

atrelados à minha vida



aquela voragem

que me consome

aquela voragem

que me leva

para abismos insondáveis

que insisto em desvelar



são encantos e desencantos do inferno

os desprezos e encantamentos inexplorados

ou os inefáveis desejos de busca

pelos labirintos de pedra de minhas tolas ambiguidades



devorados os anseios de viagens por mares nunca dantes navegados

pernoito na estepe sob o chumbo da artilharia napoleônica

rasgando nos espinhos o fardamento verde de militares bêbados

a construir memórias dos que viveram e sobreviveram

nas florestas encantadas de rios insolúveis de vastas amazônias



sou o louco que grita pelas praças

pela liberdade de campear a selva

trajando cocares indígenas

totalmente pelado no mesmo coreto

sob a velha tipuana de minha terra desencantada

onde quartetos de cordas entoaram um dia em dó menor

as estranhas serenatas noturnas de Mozart



extraterrestres convidam os líderes do mundo

a cagarem juntos nas sentinas imundas

das casas grandes e dos grandes escritórios

onde os capitalistas gordos de todos os tempos

comem bites e bytes das bets enlouquecidas



operários mudos cantam a Internacional

nos congressos falidos do partido comunista

no Sputnik russo a cadela que só come caviar

vomita na bandeira deslistrada e desestrelada

que o presidente estadunidense mastiga ao café da manhã

enquanto lança bombas de papel-maché sobre a cabeça dos aiatolás



os leitores da bíblia e dos versos satânicos

marcam encontro nos campos de soja

para mascarem juntos as flores incandescentes

que o vento derruba a cada batida dos tambores



o papa condena o pecado que não houve

ou só houve nos recantos obscuros

dos seminários de Minas Gerais

onde adolescentes se masturbam uns aos outros

diante do êxtase de santas terezinhas embalsamadas



cresce e se multiplica o bulbo atômico

dentro da cabeça de líderes loucos ou enlouquecidos

pela miragem de podres poderes



o santo se santifica nos altares do juízo final

e os demônios que se revoltam contra deus

sentam-se no trono de fogo do vaticano

para ouvir os gritos que do passado recontam

histórias macabras de mistérios e bruxarias



o sétimo selo da memória que se rompe

mostra todo o desalento da humanidade

diante de um menino travesso

que de vez em quando esquenta

as águas do oceano em que os espanhóis

perseguiram as escunas negras dos piratas ingleses

que voaram para os mares do Caribe

e levaram com eles todo o ouro que havia nos Andes



todos os povos se uniram

em torno da fogueira final sobre os solos rompidos

pelas águas termais vomitadas de infernos dolarizados

e agora só resta aos humanos

o degredo de um planeta em chamas

que se sacode todo para se livrar desses vermes

que se multiplicaram como humanidade



eu quero ter a consciência dos loucos

para não ser apenas um número numa lápide

de um cemitério de periferia

como vítima de pandemias ignoradas



quero andar à toa pelas ruas tortas

subir ladeiras e deslizar pelos rios de lama

que vazam dos castelos dos que bebem uísque com coca-cola

vou chamar todos os demais fantoches como eu

para bebermos juntos a pinga vagabunda

nos bares dos bêbados anônimos

e depois da ressaca de cuspir versos aos porcos

lutar a luta dos cães de rua

miar nos telhados como gato no cio

viajar pelas planuras de luar

cantar a ária da dama da noite

perseguir morcegos nas cavernas de Minas

louvar o desencanto do imigrante

que leva cacetadas da polícia

nas ruas sujas do centro de novas iorques borbulhantes

e ser ao final do meu périplo o inolvidável das gentes

no transporte das vítimas de enchentes



talvez se eu gritasse minha revolta

sob as barbas dos profetas de Congonhas

o Aleijadinho se levantaria do seu túmulo

para anistiar as minhas intenções

de explodir todas as mansões

do lago sul de Brasília



e então eu penso:

oh mar-oceano de todos os meus sofreres

de todos os nossos choros diante das telas de televisão

quanto de teu sal não são lágrimas de Portugal

mas gritos de uma revolta muda e desencantada

que tantos com ela sonharam e por ela pereceram



22.7.2026

(Ilustração: Johannes Hendrikus Moesman (1909-1988) - the rumor)