14 de out. de 2026
declaração à praça
11 de out. de 2026
dadaísmo
um fato é um fato é um fato é um flato
um poema é um poema é um poema é um dilema
um gato é um gato é um gato é um gato de fato
um problema é um problema é um problema é um esquema
quando um problema é um fato
quando um fato é um problema
quando um poema é um gato
quando um gato torna-se um fato
ou talvez um poema e um problema
e tudo se mistura no quarteto
de um místico soneto
soluciona-se o pulo do gato
no risco no céu do avião a jato
no poema-problema quebra-se a rima
a banda que sobe ao coreto da praça
e como uma grande orquestra
toca uma sonata do século dezenove
e antes que você este poema desaprove
eu me pergunto: que mistureba é esta?
8 de out. de 2026
convivência
que não sei se com quem convivo
está morto ou ainda vivo
só sei que enquanto sobrevivo
preencho a vida sobrevivida
como a página de um livro
linha por linha
palavra por palavra
e tudo quanto no passado eu tinha
é hoje o que me escalavra
nesse passo de sobrevivência
que com tanta insistência
vou vivendo pelos caminhos
cada vez mais tortos
de minha parca existência
para que não me atormentem
nem os vivos nem os mortos
minto sobre mim e a vida
- e sombra sou que procrastina
o futuro que lhe destina
esse louco beco sem saída
5 de out. de 2026
confiteor
2 de out. de 2026
POR UM NOVO CONCEITO DE ARTE
Como o conceito de arte já mereceu o bestunto de centenas de milhares de teóricos e um sem-número de páginas de livros, artigos etc., não vou, aqui, me dedicar a debulhar teorias sobre o que é ou não é arte. Por isso, essa crônica vai ser breve, muito breve. Apenas as linhas suficientes para expressar a minha preocupação com relação ao que se pode ou não ser considerado arte, nesses tempos de inteligência artificial.
Como argumento principal
para o conceito que virá a seguir, advirto apenas que não podemos deixar de
radicalizar a ideia de que máquinas não fazem arte, máquinas não criam,
máquinas, mesmo as mais potentes imitadoras do pensamento humano, não sentem e,
portanto, não são capazes de expressar aquilo que humanamente só o cérebro
humano é capaz de expressar, ou seja, sentimentos os mais profundos, ou não,
mas sentimentos humanos, provindos de cérebros humanos.
Que me desculpem aqueles que
têm utilizado, mesmo que de forma indireta, ou mínima que seja, de inteligência
artificial para corrigir ou aperfeiçoar alguma criação que pretenda ser arte:
se houver interferência de máquina, de inteligência artificial ou outra
qualquer que venha a ser inventada, não deverá ser considerada arte, porque,
simplesmente:
CONSIDERA-SE ARTE AQUILO QUE UM SER HUMANO
DISSER QUE É ARTE, DESDE QUE NÃO TENHA ABSOLUTAMENTE NENHUMA INTERVENÇÃO DE
INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL OU QUALQUER OUTRO ARTIFÍCIO MECÂNICO, ISTO É: SÓ SERÁ
ARTE O QUE FOR PRODUZIDO EXCLUSIVAMENTE POR UM SER HUMANO.
Assim, meus caros escritores,
o seu texto, por exemplo, pode até ser corrigido em termos ortográficos e
gramaticais por uma máquina, mas se houver qualquer traço de intervenção na
forma, na estrutura, nas ideias, não deverá ser considerado arte. Também
qualquer gravura ou pintura, se tiver qualquer traço de ajuda mecânica, não
será arte. E assim por diante...
Obras produzidas com o
auxílio de máquinas podem ser belas (que o conceito de belo é fluido),
agradáveis aos olhos; podem ser até expostas como obras, mas jamais como obras
de arte! O termo OBRA DE ARTE deve ser de uso exclusivo para intitular aquelas
obras produzidas sem qualquer ajuda mecânica ou de inteligência artificial. Que
busquem outro nome para essas obras, com o auxílio da inteligência artificial, se
quiserem, mas não as chamem jamais de ARTE.
29.9.2026
(Ilustração: Animais pintados na Gruta de Lascaux, há 17 000 anos)
29 de set. de 2026
amores do passado – 3
23 de set. de 2026
A MANCHA VERMELHA
20 de set. de 2026
vinho da vida
das mãos de um deus recebo
o balsâmico vinho que bebo
o vinho de Baco
abraço mênades e sátiros como um redivivo corifeu
no êxtase da dança das bacantes
do cântaro ritualístico o vinho do deus
faz renascer em mim a catarse da fertilidade
para desapegar-me dos arrependidos instantes
em que me queimei no fogo de Prometeus
e alegro-me em Dioniso pela nova oportunidade
17 de set. de 2026
Trova - Mano, ó mano velho: no teu corre
11 de set. de 2026
Trova - tu que entregas por aplicativo
8 de set. de 2026
DIA DE GATO
5 de set. de 2026
confusão danada
encontrei um cachorro
lá no meio do mato
desentoquei um gato
levei cão e gato
para minha casa no mato
o cão latiu
o gato miou
ou vice-versa
mordeu-me o cachorro
sem motivo nenhum
expulsei o cachorro
acariciei o gato
buscando contato
arranhou-me o gato
voltou o cachorro
chutei o gato
mordi o cachorro
hoje moro no morro
sozinho comigo mesmo
frito de vez em quando
um bem gordo torresmo
e sou feliz sozinho
sem cãozinho
nem gatinho
2 de set. de 2026
o cara lá de baixo
nunca me pediu nada
nem mesmo deu qualquer pitaco
na minha vida contida ou desvairada
não tem livro editado – o cara lá de baixo
com regras e mais regras de cobranças
e sempre que um malfeito eu encaixo
não me olha com desconfianças
de que devia acender uma vela
num altar qualquer para comemorar
nem diz que mulher nasceu da costela
do homem a quem deve cultuar
muitas outras coisas posso dizer
do cara lá de baixo – por exemplo
nunca o vi com alguém se comprometer
que lhe ergam algum templo
embora alguns até o façam
mas são tão poucos esses loucos
que de modo algum o embaraçam
quando se lhes faz ouvidos moucos
gente boa esse cara de cara feia
que não mora no andar de cima
por ele não cuido da vida alheia
nem rezo por uma obra-prima
fica o cara bem na sua calma
sem nada exigir da minha vida
e se quiser um dia minha alma
e me puser num beco sem saída
vou-lhe dizer que não se importe
com isso não – já que não acredito
[e fica o dito pelo não dito]
no inferno depois da morte.
30 de ago. de 2026
Trova - penso em ti, faço uma trova
27 de ago. de 2026
DIA DE CASAMENTO
24 de ago. de 2026
amores do passado - 2
volta em versos de saudade
volta como um tornado
e não como chuvas de verão
destrói qualquer possibilidade
de desacelerar as batidas
mais fortes do coração
para sanar algumas feridas
ou trazer alguma esperança
que não seja um novo não
quando um amor do passado
desperta na mente a lembrança
de um tempo há muito enterrado
tudo o que se pode pensar
é que há algo de muito errado
neste estranho recordar
os amores do passado
devem no passado continuar
e não sejam fardo pesado
para atrapalhar o presente
como se fossem o despertar
de renitente dor de dente
18 de ago. de 2026
conversão
tu me dizes que te vais converter
a uma seita qualquer
então, mulher,
grave questão se levanta
que o mundo perderá uma puta
mas não ganhará uma santa
15 de ago. de 2026
apenas um delírio






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