23 de jan. de 2026

AI DE SI

 


Um continente: ACIREMA DO SUL. Um país: LISARB. Uma cidade: SARVAL. Uma rua: inominada. A casa pequena existe. Nem simples nem pomposa. Apenas existencial. Lá não há dor. A morte apenas resistida espreita. Joana ao espelho desconversa o tempo. Vê não no rosto mas no espelho a escura mancha de cinquenta sustos. No corpo o seio ao solo deriva. No espelho estrelas contempla. Ilusão. Espelho vira vida e vida aresta da noite. Joana não pode chorar. Sorri apenas não de si mas para o futuro. Qual futuro? De Lisarb? Lisarb é só presente. De Acirema? Acirema é só passado. E Sarval? Incrustada na pedra Sarval é o reflexo de um ponto perdido entre matas e rios. No oco da montanha. Parou. Mas Joana não sabe. Joana é apenas a mulher de uma era que sobrevive. E Joana está no espelho. Fora nas ruas no mormaço do meio-dia há loucura e dor. Joana pensa. Espelho reflete. E Joana vê no cristal aquilo que seu cérebro cria. Não gosta do que vê. Sombrias imagens em fumo e névoa. No centro um furo rubro. Sangue. Por ele vem. Através dele entra a morte. E a morte está vencendo a batalha decisiva. No sangue podre escorre a existência. Não há limites. Não há resistência. Mas Joana não entende os porquês. Joana não tem perguntas. O espelho reflete o falso e o verdadeiro. E Joana não distingue em si a imagem de dentro de si que em sangue explode para a morte e Joana mergulha numa casa nem rica nem pobre de uma rua inominada de Sarval para o inferno de Lisarb como bomba que destruirá Acirema.



20.12.94

(Ilustração: Albert Marquet - desnudo a contraluz)

20 de jan. de 2026

17 de jan. de 2026

Trova: corre o rio da vida

 


 

Corre o rio da vida

Para o mar-oceano

E não há investida

Que perturbe seu plano.

 

1.3.2022

(Isa Galindo - ciranda da praia do Cabo Branco)

 

 

14 de jan. de 2026

Trova: alguns chamam haikai

 







alguns chamam haikai

mas eu chamo haiku:

porque tu dizes ai

quando como o teu cu




21.8.2018

(Ilustração: Frida Castelli)

11 de jan. de 2026

POEMAS (QUASE HAIKAIS) – A RÃ

 




1.

Sussurra o vento: psiu!

sem bulha! Na tarde – um Ploc!

– Mergulha a rã



2.

No velho lago, pula

a rã: dia aziago,

sem amanhã.



3.

Não se ouve à tarde o

baque no velho tanque

do pulo da rã.



4.

Que se destranque

na tarde o pulo da rã

no velho tanque.



5.

Chap, chap, chap! Que

foi isso no meio da tarde?

A rã – no tanque.





3.11.2019 / 29.10.2025

(Ilustração: Auguste Renoir - La Grenouillère (o lago dos sapos) - 1869)











8 de jan. de 2026

tudo é relativo (talvez uma visão ingênua)

 



com uma faca descasca-se a fruta

com a mesma faca mata-se uma pessoa

a tecnologia – e a faca é um objeto tecnológico –

não é má nem é boa

só depende de que não caia na mão de um filho da puta

e isso é bastante lógico



tudo na vida é relativo

um truísmo do velho cientista

porque tudo depende do ponto de vista

e não do que está escrito em qualquer livro

seja ele profano ou sagrado – mas principalmente sagrado

pois no sagrado se escrevem mentiras eternas

enquanto no profano há verdades que mudam de lado

sejam elas antigas ou modernas



agora muitos temem a tal inteligência artificial

talvez ignorando que ela é apenas uma tecnologia

se cair nas mãos de alguém do mal

entramos todos numa fria

mas se bem usada para o progresso da humanidade

pode ser a ferramenta que nos ajude

a dar ao ser humano a plenitude

para sair da barbárie antes que o mundo ainda mais se degrade





16.12.2024

(Ilustração: robô, gerado por IA)









5 de jan. de 2026

Para Clara Nunes

 





Não sei se é verdade ou conto de areia

A voz clara e potente

Que cantava o canto dos orixás

Não sei de quantos adeuses

Se faz a saudade do seu canto

Quem chamou para o infinito

A maré cheia desse canto

Quem chamou

Quem chamou não lembrou

Que maré que vai nunca volta

Deixa na areia o passo vago

Mas a voz que me desperta

Desperta no sangue do povo

O poder de cantar e cantar de novo

Um poder que nada para

A saudade sem fim dessa mulher

A voz potente – a voz de Clara




17.4.2025

(Ilustração: Clara Nunes - foto de Wilton Montenegro)


2 de jan. de 2026

o viajante

 




vaguei um dia pelas estrelas da ursa

quando estive cavalgando

pelas planuras da europa

o corpo gelado nas alturas alpinas

os pés fincados

na floresta amazônica



navegador do cosmo

pelos mares ocultos

dos deuses de um olimpo decadente

sou fernão de magalhães

a dobrar todos os cabos

que vestem fardas verdes

desnutridas de esperança



descobridor das estradas dos mares

sou colombo a sobrenadar

com as galeras santa maria

e mais a pinta e mais a niña

sobre os cascalhos dos quartéis

para molhar no vinho

que virou vinagre

as insígnias dos generais



pedro dos álvares sou cabra cabral

para fincar no peito de cada negrinha

como marco da corte portuguesa



o desejo de decepar bem decepado

a mão suja que o rei dom joão

ousou limpar em cada carapinha



mulato ou negro retinto

nasci na noite do cruzeiro

como descendente direto

daquele capitão do mato

que riu da febre que matou

o bandeirante genocida

enganado pelas pedras verdes



roto e faminto me empreguei

nas fazendas dos paulistas

colhi mais miséria que café

e deixei em cada eira

uma lasca de minha pele



segui minha jornada sem rumo

na coluna de outro capitão

que no mato plantou revolução

semente que não medrou

semente que só ficou

como ex-futuro baobá

dentro de cada peito

de preto pobre e favelado

que ainda arde de febre e dor

por um tempo sem desigualdade



viajo por todas as matas

o corpo de onça pintado

com as cores do urucum

como negro ou tupi ou tapuia

prego no peito do genocida

o prego que roubei da cruz



cruzo mares desde europa

até a foz do amazonas

e depois me espalho por aí

do oiapoque até o chuí

a plantar minhas estrelas

e a colher muitas florestas



bebo os rios de águas limpas

que os malditos empestearam

e os vomito sobre a cidade eterna

com todo o mercúrio e todo ouro

que enfeitaram suas bocas podres

enterro nas grotas das montanhas

a língua de fogo das fornalhas

que derrete o ferro das gerais

chuto a bunda dos financistas

que atiçam a sanha dos racistas

e grito contra gente que não presta

falso patriota que me detesta



sou sim o viajante vigilante

que não nega cada delito

registrado nos gritos do bem-te-vi

e é assim que assumo

meu próprio grito que ecoa

até pelas estrelas da ursa

quando planto meus pés feridos

nos píncaros alpinos podres

de uma europa que não há

e deito as penas do meu cocar

no leito agônico dos rios mares

e vestido com o manto tupinambá

planto a sonhada pátria que um dia virá





25.9.2025

(Ilustração: Manto Tupinambá na Biblioteca do Museu Nacional no Rio de Janeiro).