27 de ago. de 2026

DIA DE CASAMENTO

 

Nando amou Zeferina e Zeferina amou Nando. Quarenta anos. Já velhos, encarquilhados na peleja do campo, estavam em paz. A tapera cobria seus corpos; a criação de galinhas, patos e porcos garantia a calma do ronco da barriga, agora bem menos exigente; os netos traziam a certeza do caminho bem caminhado. E assim esperavam o que todos esperam, sem mágoa, só um pouco ranzinza às vezes um com o outro, mas ranzinzice com velhice se casa. E o neto mais velho veio com a novidade: missão, missão das grandes na paróquia da cidade, com um monte assim de padre, tudo falastrão e bom de púlpito, vó tinha que i vê, tinha que levá o vô, já quanto tempo não ia na igreja? quanto? E tanto insistiu que lá foram os dois, ele na melhor camisa e terno brancos, bota lustrosa que só vendo, ela na melhor saia de chita. Igreja cheia, todo mundo lá, contrito, sermão bravo, o missionário a ameaçar com o fogo do inferno quem não casou e mora em pecado, pricisa não, pensou ele, num carece não, maginou ela, no fundo ambos querendo de volta a roça, blusa apertada, bota roendo dedão do pé, quanto tempo, quanto tempo não punham aquilo, quarenta anos vivendo juntos, esqueceram, esqueceram de casar, só viveram, nóis num veve como cristão? duvida o Nando, mas o padre insiste quem não recebeu o santo sacramento vive no pecado e o demônio mora junto, esperando pra levar pras profundas do inferno quem assim está vivendo. Que diacho, e agora? Negociam. Casam, não casam? Casam. Afinal, não querem ser pasto de capeta. Entre tantos casais, Nando está orgulhoso da velha Zefa e Zeferina está feliz com o sorriso murcho de Nando. Na alegria, na tristeza, a morte os separe, pode beijar a noiva, Deus abençoe, e o clarão do dia, na porta da igreja, depara com eles de braço dado, olhando um para outro como no primeiro dia do mundo, quando não havia ainda o anjo decaído e Nando olha pra Zefa e Zefa olha pra Nando. Atônitos. Uai, Zefa, ocê tem papo? E eu que nunca jamais tinha notado... Uai, Nando, e ocê... que diacho de cacunda é essa, ocê nunca teve cacunda...



5.10.98

(Ilustração: Cândido Portinari - casamento caipira; 1940)


 

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