30 de mar. de 2019

cantiga da solidão – 9






talvez haja no meio da tarde

um sopro de vida na página em branco

de computador

talvez

mas o poema não encontra palavras

e morre no fundo do peito

a luz mortiça do lusco-fusco

traz apenas saudade

nada mais





8.3.2019


(Ilustração: Shubhra Saxena)


28 de mar. de 2019

cantiga da solidão – 8





talvez outono

lá fora

cai a folha

da pitangueira

aqui a folha

do velho livro

mostra à página

mais um

poema





4.3.2019


(Ilustração: Eric Itschert)

26 de mar. de 2019

cantiga da solidão – 7






cor amada

o azul

não prevalece

a sombra da noite

tem a negritude

e a força

para o sono

sem sonhos





4.3.2019


(Ilustração: Leonid Afremov - alone)



24 de mar. de 2019

cantiga da solidão – 6







uma lembrança descansa no braço

da poltrona

o livro aberto vira a última página

ao sopro do vento





4.3.2019

(Ilustração: Nicolai Christianov)





22 de mar. de 2019

cantiga da solidão – 5








o passo que soa na sombra

passa e passa e some

fica a sombra

solitária e fria no chão da cozinha






4.3.2019


(Ilustração: Suzanna Schlemm)

20 de mar. de 2019

cantiga da solidão – 4





sonha o som da montanha distante

à tarde que parte e não retarda

a noite de perfume de jasmim





4.3.2019



(Ilustração: Salvatore Ferrara)




18 de mar. de 2019

cantiga da solidão – 3








alô

silêncio

alô

sinal de ocupado

o som de plec do fone de volta ao aparelho

rasga a penumbra da sala

só um chamado inútil no meio da noite






4.3.2019


(Ilustração: Granville Redmond)




16 de mar. de 2019

cantiga da solidão – 2





o som do raspar do chinelo no tapete

não há tábuas que possam ranger

o passo é breve o passo é leve

esmaga-se a barata assustada

e a sombra suave que vem pela vidraça

é a vida que bate devagar na aorta





4.3.2019



(Ilustração: Edward Munch - The Night Wanderer)


14 de mar. de 2019

cantiga da solidão – 1







uma canção dentro da noite

o piano matiza um noturno de chopin

a luz do abajur foca o livro

e em volta a penumbra suave

o livro

a luz mortiça

o som do piano

lá fora a lua

talvez estrelas

uma sensação de mundo vazio



4.2.2019


(Ilustração: Edvard Munch - night in Saint-Cloud-1890)

12 de mar. de 2019

Autorretrato nº 2







começa o meu nome

com a letra i

(nome que não escolhi)

moro hoje na rua dos buritis

(onde não há sequer um buriti)

mas é lavras onde nasci

e lá por vinte anos vivi

até que aqui

(em são paulo) me vi



dentre as bobagens que já fiz

milhares de versos escrevi

um casamento desfiz

em outra relação repeti

alguns corações eu parti

por muitas mulheres me dividi

e a vida que eu vivi

nem sempre foi a que eu quis





mas hoje só me sinto feliz

com minha amante fabi

(com ela que é atriz

o amor sempre pede bis)

também me sinto feliz

com um pequeno petiz

(o neto que sempre quis)

e mais um que não previ

mais a filha da filha a gabi

e ainda mais sou feliz

ouvindo o bem-te-vi

e um disco de Satie

(essa rima eu repeti)



no mais corro só por aí

com os filhos que colhi

com os amigos que escolhi

com os livros que escrevi

e todos que já li

desde o dia em que nasci







23.5.2016




(Ilustração: Marc Chagall) 















10 de mar. de 2019

assim vive o nosso amor






a boca

a tua boca

eu beijo



os seios

os teus seios

eu apalpo



a boceta

a tua boceta

eu chupo



o cu

o teu cu

eu fodo



o pau

o meu pau

tu chupas



a porra

a minha porra

tu engoles



o saco

o meu saco

tu lambes



e gozo e gozas

assim vive e sobrevive

o amor

o nosso amor





17.6.2017


(Ilustração: Gerda Wegener - 1886-1940; 
1925, Les Delassements d'Eros, anagoria)

8 de mar. de 2019

animais noturnos






animais noturnos se matam na noite

na solidão da noite

quando o peso da sombra esmaga

o vento da esperança e o corpo jaz

como morto e silenciado em lágrimas

fúteis eu ajoelhado aos pés de mim

acredito na vida das entranhas

ao som da luz sombria da lua morta







11.1.2019

(Ilustração: Edvard Munch) 






6 de mar. de 2019

alma barroca





barroca a alma que habita em mim

em dilemas opostos entrelaçada

floresta tropical de cipós e paus brasis

ferventes ondas de folhas úmidas

trilhas de troncos com flores suspensas

algas marinhas em escândalos mortos

onde o mar um dia em ondas arrebentou

hoje lagos e lagoas de régias vitórias

e derrotas no combate eterno entre o barro

e o suor de bromélias e desencantos

minh’alma gentil que pulsa o desconforto

de seres de água transformados em líquens

ondas e troncos e sapos e cobras d’água

o som das profundezas em solo de oboés

a mata o morro o mero encontro de botos

e anhangás nas encruzilhadas imaginárias

de esperanças e desesperos no fogo

na ganância de ouros encaixotados nas

raízes barrocas de minh’alma amazônica



23.2.2019 

(Ilustração: escultura de Maria Martins
 - foto de Cristiana Isidoro)


4 de mar. de 2019

a sobrevivente







trepamos durante toda a tarde

na cama redonda do hotel vagabundo

no centro da cidade lá fora o ruído

do trânsito buzinas vozes alteradas

trepamos e gozamos e eu lhe pago

aquilo que combinamos antes e saio

deixo-a sozinha e sei que cumpri

no seu corpo magro o destino

do macho que ignora de onde você

vem e de onde você ainda busca

um pouco de dignidade deixada

tão longe lá onde eu nem imagino

e que estava em seus olhos eu vi

quando despi sua saia rodada e baixei

sua calcinha azul o mar por onde você

navegou com seus irmãos pequenos

e que me importa se você nasceu em

honduras ou costa rica ou é apenas

a sobrevivente de um sistema que eu

macho nascido nesta capital confusa

nem conheço nem quero conhecer

sua história seus conflitos e lágrimas

o buraco de onde você veio irmã

só quis mesmo o buraco que você tem

entre as pernas e nem de outros

buracos de seu estômago a roncar

não você não é minha irmã você

é apenas a vagina em que deposito

o meu gozo de macho latino nascido

na metrópole que vai engolir meu

sêmen e vai engolir você também



13.11.2018

(Ilustração: Bernard Buffet - 1928-1999 - 
o império ou os prazeres da guerra após o estupro, 1992)

2 de mar. de 2019

xis do problema






vasculho a memória e busco um tema

para escrever mais um poema

a memória escusa o velho esquema

de encontrar um som ou fonema

enroscá-lo num complexo morfema

aprisiona-lo num estratagema

para inventar um novo teorema

que coloque o leitor num dilema

sem saber qual é o xis do problema

e então desisto enfim do tal poema 




18.2.2019 

(Manabu Mabe - Sem título,1981)





28 de fev. de 2019

viver para contar






viver e viver e sobreviver tão somente para contar

mesmo que o conto seja por metáforas da vida

mesmo que as lembranças sejam folhas esparsas

em versos às vezes insanos no escondido das palavras

mas um dia o calor das respostas de perguntas inúteis

invade o peito e arrebenta emoções de poços profundos

lembrar para reviver e não apenas contar os dias

ou apenas um momento de vidas convividas e divididas

edson fiorini um amigo que um jogo de bola levou tão jovem

iracema sidney pinto a irmã cujo sorriso iluminou tantas noites

lazarina gomes sidney a mãe que deixou o sulco mais profundo

samuel sidney pinto o irmão que me guiou os olhos pelos livros

vitório pereira resende o irmão que não tinha o mesmo sangue

augusto correa o filósofo das noites e madrugadas da juventude

valdir urbano o quase irmão que levava a alegria nas pernas

valter urbano o outro quase irmão que trazia circunspeção nos olhos

aparecida urbano a mater dolorosa a enfrentar o vazio da vida

damaso viegas nóbrega o cérebro que tinha um outro nome

josé geraldo danelon a elegância e a ética de uma vida equânime

chico de assis o mestre que amava e desconfiava do amor

e a lista iria adiante se quisesse lembrar todos eles e todas elas

se a vida parasse para chorar por todos eles e todas elas

então fiquemos a remoer-nos as próprias entranhas e choremos

choremos na quietude da noite cada noite cada momento

não há na vida quem não tenha os seus mortos na terra

mas só eu os tenho enterrados todos dentro do meu peito

sobrevividos todos a cada aceno de minhas lembranças





11.2.2019 

(Ilustração: Hilda Goldwag,1912–2008)

26 de fev. de 2019

tenho escrito tantos poemas de amor





que me vejo no direito de dizer agora com todas as letras

não acredito no amor

esse amor romântico capaz de todos os sacrifícios pelo ser amado

esse amor cantado em prosa e verso por velhos e não tão velhos poetas

enaltecido por todas as bocas sedentas de qualquer coisa que cheire a sentimentalismo

esse amor de possessões ciumentas em torno de um corpo que se quer livre

poderoso elixir a mudar o rumo de uma vida e os caminhos do mundo

estranho o suficiente para que todos digam não conseguirem compreendê-lo

esse amor meus caros amigos e caras amigas nunca existiu de verdade

criação vulgar de quem prega que o homem e a mulher nasceram metades incompletas

a se juntarem numa espécie de limbo sacrossanto de sentimento e abstração

para formarem uma unicidade absurda por toda uma vida e até mesmo pela eternidade

como se ambos fossem algo assim como um organismo unicelular sem vontade

sem desejo e sem olhos que não sejam um para o outro para sempre e sempre

havendo a vida dado a todos e todas tantas outras possibilidades de posse e prazer

esse amor bruto e estúpido constrói apenas muros de lamentações sem fim

e sofrimentos inúteis de ciúmes e mortes e anseios nunca realizáveis

não acredito nesse amor

não posso acreditar nesse amor

não é possível acreditar nesse amor

quando sabemos que somos ou devíamos ser animais racionais

morte pois ao amor romântico e às suas celebrações insanas para que a humanidade

assuma enfim momentos de paz e de prazer legítimo sem amarras e alianças

sem obrigações eternas e eternas promessas para que os rebentos que nasçam

de uma nova ordem de liberdade também sejam livres de pais e mães e mestres

e conduzam suas vidas para seus próprios desígnios sem peias e sem travas



21.1.2019


(Ilustração: escultura de Franz Xaver Bergmann - 1861–1936)

24 de fev. de 2019

tempo tempo tempo






o tempo passa como o vento?

ou o vento passa como o tempo?

vive-se ao vento

ou vive-se no tempo?

o tempo é lento como o vento

ou o vento é lento como o tempo?

quando se dá um tempo a alguém

esse tempo é um dia devolvido?

quando o tempo passa

deixa como rastro o vento?

ou deixa como rastro o tempo passado?

no meu tempo o tempo era

com mais ou menos tempo?

e no seu?

foi-se o tempo com o martelo

ou martelou-se o tempo com a foice?

dar tempo ao tempo

aumenta o tempo dado

ou aumenta o tempo do tempo?

depois de um tempo vem outro tempo?

quando se pede tempo

ganha-se tempo ou perde-se tempo?

ou ganha-se tempo com o tempo perdido?

há quanto tempo

que há um tempo que conta o tempo?

quem perde tempo contando o tempo

não tem tempo de ver passar o tempo?

ou a contagem do tempo não é tempo contado para o tempo?

há um tempo para isso

e há um tempo para aquilo

só não há tempo para a falta de tempo

ou todo esse tempo para isso ou aquilo é uma perda de tempo?

em outros tempos era o tempo diferente

do tempo de agora ou foi sempre o mesmo tempo

em tempos diferentes?

não há mais tempo para nada

mas há sempre tempo para dizer

que não há mais tempo para nada.

quem busca o tempo perdido

perde tempo e não acha nada

ou o tempo gasto em procurar o tempo

não conta como tempo perdido?

quando se mata o tempo o tempo nos devora

ou só perdemos tempo tentando matar o tempo?

o tempo a tudo cura ou apenas nos faz esquecer?

o tempo nem abre nem fecha portas

apenas permite que o tempo as apodreça.

dizer que o tempo faz isso ou aquilo

não é dar ao tempo uma imagem temporal?

quanto tempo você já gastou

para ler sobre o tempo

para pensar sobre o tempo

para olhar para o tempo

e deixar que o tempo passe

sem que haja tempo para mais nada?

não acha que já é tempo

de deixarmos o tempo em paz

para que ele cumpra o seu próprio tempo

no tempo que seja possível

sem que esse tempo seja para nós

um tempo sem volta

um tempo perdido?





17.2.2019 


(Ilustração: Paul Cézanne) 





22 de fev. de 2019

simplicidade







fico bem comigo mesmo

quando à tarde em minha rede

ouço a música de que gosto

leio um bom livro ou escrevo

um poema que ninguém lerá

quando penso na minha vida

e sei que nada fiz de especial

mas vivi cada segundo conforme

aquilo em que sempre acreditei

fico assim muito bem comigo

quando mesmo com dívidas

no banco não me preocupo

com dinheiro que não ganhei

com glórias que não conquistei

com cabeças em que não tive

de pisar para viver assim





16.2.2019

(Ilustração: Almeida Júnior)

20 de fev. de 2019

querido diário







hoje 21 de janeiro de 2019 amanheci no molho da angústia de sofrimentos inefáveis e inexplicáveis que me conduzem por caminhos estranhos de pensamentos sem sentido e enlouquecidos pensamentos que não queria pensar abelhas zunindo em meu cérebro e o dia que mal amanheceu não alivia os tormentos noturnos de sonhos esquecidos revirados em torno de mim mesmo na semiobscuridade de meu quarto a sombra de passados e futuros a preocupação marcando as rugas de meu rosto a devastação de um tempo cuja leitura não chega ao meu entendimento um tempo de marchas negras e contramarchas vermelhas o sangue no canto do olho a desesperança sem fronteiras os molossos a ladrar para a lua de sangue o sangue sempre ele a morte a acalentar o balanço do berço onde dorme o monstro que se alimenta no seio de chamas de ouro a surgir no horizonte combatentes fichados e arrolados em processos de encantamentos e caldeirões ferventes desde 1922 quando um tal mussolini pregava o socialismo utópico para mudar as mentes e arrebatar multidões o vento que saía de suas ventas e as palavras de sua língua traíam e atraíam multidões enlouquecidas para serem a bucha do seu canhão em campos de batalha o sangue fervente de milhões eu aqui a escrever essas palavras no meu diário nesse dia que não tem sentido nenhum esperando a alvorada de uma cidade do planalto central que um dia o italiano padre dom bosco disse que iria existir naquele paralelo uma incivilização que brota do palácio desenhado por um comunista e tudo faz algum sentido e não tem sentido nenhum porque há fascistas e há a igreja católica e há um comunista e há um povo que não sabe para onde ir o tempo urge e tudo se calcifica em praga em desmonte de morros que os pirilampos invadem para fazer ninhos das fezes do autoritarismo ingênuo não há autoritarismo ingênuo já dizia aquela judia hanah palindrômica arendt em dias de desespero e solidão no meio do caos de amores inconfessados e perseguições confessadas judia ela e seu coração sempre foi um coração valente na terra de ninguém na palestina ou na judeia o deus que sempre cultivou a guerra está de costas e defeca cruelmente em seus seguidores na manhã de um outubro vermelho qualquer quando sem eu menos esperar estou aqui no meu quarto pesando a solidão e penando a desesperança agonizante de um tempo que é hoje e ao mesmo tempo é ontem e esse ontem pode ser escrito de novo como hontem assim sem mais nem menos os ventos não sopram o sol não sai a manhã não chega a noite espreita ainda e eu penso em vão no molho do meu olho a mistura malfadada de insônia e poesia o quanto é triste ser assim no dia 21 de janeiro de 2019




(Ilustração: Odilon Redon - le cyclope)