22 de jul. de 2011

MATER


(Moga - arte africana)




és bela


és negra


não sei se és bela porque negra


não sei se és negra porque bela


sei que de teu ventre


colhemos todos a semente para semear a terra


sei que que de teu seio


bebemos todos a seiva para encantar o mundo


és bela e és negra


e teu sangue é rio


que corre para todos os mares


filhos todos de ti


de ti colhemos todos os ventos


por ti caçamos todos os tempos


para seres o que és: negra


negra e bela


bela e negra


ó minha doce mãe África.



5.5.2011


20 de jul. de 2011

NÃO

(Jack Vetriano)



Recolho-me a meu silêncio
e encontro o teu abandono.
Não mais esperança:
o abismo tragou nossas rosas
e o vento estufou as velas
do navio-fantasma de nossas vidas.
Na procela, o rosto com que te olho
traz a marca da maldade,
e os olhos com que me vês
refletem apenas o meu não-espanto.
Sou – e sabes bem – aquele que
um dia venceu teus temores
e agora paga com o desencontro
o preço de seres agora
o que te tornaste ontem: o Não!

13.6.2011 (a bordo do voo 1903, de Natal/RN para Guarulhos/SP)

16 de jul. de 2011

novos poemas do cotidiano - 13

(Alfred Kubin)


espero-te, amor




espero-te, amor,
na fímbria do horizonte



ah, não sabes
se tèm fímbrias meus horizontes?



tens razão,
estão tão estreitos os meus caminhos,
estão tão estranhos os meus passos,
estão tão desacertos os meus assobios,
que nem mais horizontes eu tenho
para que nas suas fímbrias
possa um dia te esperar



(adeus)

14 de jul. de 2011

novos poemas do cotidiano - 12



(Alfred Kubin)




podes não ver






podes não ver
o que se passa




podes não olhar
o que se alonga




podes não sentir
o que se espelha




podes não passar
pelo que se vê




podes não alongar
teus olhos aos outros olhos




podes não espelhar
amor que se acabou




sim, tu podes tudo
meu amigo
não ver, não sentir, não amar




só não podes mentir
ao mundo em miséria
a rodar em torno de ti.

18.11.97

10 de jul. de 2011

novos poemas do cotidiano - 11

(Alfred Kubin)



na praça o sonho




na praça o sonho
em raça
desfaz o preço
destrói
muro e vira
na praça
a pasta
que ondeia e
naufraga
no semblante amargo
do povo
em pé às palmas
da dobra da calça
- na praça -
do homem de negro
as sobras que caem
em sonhos
destroem o mito
da raça
medo de hoje
o buraco de
todos os amanhãs.

18.11.97

8 de jul. de 2011

novos poemas do cotidiano - 10

(Alfred Kubin)


 Ó manhãs em que beijei





Ò manhãs em que beijei
o doce mel de teu ventre róseo!
Ó manhãs em que te levei
do sonho áureo ao gozo louco!
Ó manhãs em que te acordei
para saciar meu desejo com teu tesão!
Ó manhãs em que o sol brilhou mais forte
para iluminar teu seio arfante em doce gozo!
Ó manhãs em que tuas nádegas
eram o convite a escaladas mágicas!
Ó manhãs em que tudo o que eu queria
era continuar dormindo e sonhar contigo!





1.10.97

6 de jul. de 2011

novos poemas do cotidiano - 09

(Alfred Kubin)


Desnudo-te ao vento


Desnudo-te ao vento
e teu corpo alveja à luz da lua
no breve instante em que eu tento
sonhar-te, enfim, toda minha, toda nua.
Do vento que te traz
ao vento que te leva
meu sentimento faz
do teu ventre a treva.
Arredonda-se aos meus sentidos
tua bunda em curvas de anseio,
pois em busca de desejos reprimidos
minha língua vai do teu ventre ao teu seio
e volta em gloriosa caminhada
para o ninho de teus pêlos.
Mergulho, em gozo louco nesta parada,
nos teus cheiros cheios de desvelos
para gozar o meu gozo fazendo-te fremir
no jorro fácil de teu grito ao vento.
Seguro de que não vais mais fugir,
colho teu orgasmo nas pregas que arrebento.

1.10.97

4 de jul. de 2011

novos poemas do cotidiano - 08

(Alfred Kubin)


Tenho dentro de mim um lago





“UMA TRISTEZA É UM LAGO MORTO DENTRO DE NÓS”.
Fernando Pessoa





Tenho dentro de mim um lago
azedo
de aziagas águas
e criaturas mortas.




Lá navegam fantasmas
de gente amiga e gente amada,
sombras etéreas de eternas saudades.




Secá-lo não posso,
nem contemplá-lo por muito tempo.
Deixo-o escondido no peito
a lembrar que um dia
será ele tão imenso
quanto meu próprio ser.

6.8.97

2 de jul. de 2011

novos poemas do cotidiano - 07

(Alfred Kubin)


Viagem... viagens... Viajem!





Viagem... viagens... Viajem! Pelo barro
das estradas de ouro, pelo ferro
das estradas de trilhos, pelo ar
de tapetes brancos e cinza, pela água
de verdes rios sinuosos, pelo pensamento
a buscar a lembrança esmaecida, pelo olhar
de azul eterno de uma mulher, pelo verso
do poeta a buscar infinitos, pelo sonho
de amores idealizados, pelo espanto
de achar em ouro o sonho transformado...
Viajem!
Mais que o tempo, o espaço em sonhos preenchido
traz ao pensamento o espasmo de esquecer
tudo aquilo que a vida em trapos transformou,
de amores irremediáveis a saudades irrecuperáveis...
Viajem!
As asas do vento ao tempo o vão anseio espelharão
e a alma de todos os tormentos aliviada
ao seio do sonho voltará mais bela.
Viajem! Viagem... viagens!



8.7.97

30 de jun. de 2011

novos poemas do cotidiano - 06

(Alfred Kubin)



na festa de teus anos


na festa de teus anos o barro
das estrelas os pulsares
de mentes dementes o berro
nos ânus de prostitutas putas
ladram molossos aos ares
esgares
mágicos transportam do escarro
estúpidas forças brutas
na festa o teu cu
cagado de urubu
marca em cada prega a marca que te leva
tanto em pranto quanto em porra
escorres e morres escrota
em festa teu rabo
no meio um nabo
e tu te melas no melado e no mel
golfadas de porra e fel
expeles a pele de glandes
prepúcios de flandres
gonococos e gonoloucos
em farras e fanfarras
bates e bates punhetas a mil
o gozo em teus olhos
o gozo em teu sexo
o nexo o nexo
onde o nexo
de tudo
esta
festa
tu.

26 de jun. de 2011

novos poemas do cotidiano - 05




Abrasa-me o peito a ausência






Abrasa-me o peito a ausência
de um amor que não sei que fim terá;
a angústia que me toma o coração
faz de mim refém
de uma dor que não tem cura.




Choro, sofro, atormento-me
como se fosse cada minuto
um século inteiro de dor e paixão.




Toda e qualquer possibilidade
de trazer à razão
esse sentimento infame,
que me afunda em agonia e dor
faz que eu me torne dentro de mim
cada vez mais um louco a sofrer inutilmente.




Perco-me em devaneios fúteis,
para encontrar no peito em brasa
uma gota que fosse de orvalho doce
para suavizar a eterna agonia.




Sinto-me tolo, o mais tolo de todos os homens,
sinto-me louco, o mais louco de todos os homens,
sinto-me, assim, a perverter
a própria racionalidade de amar:
não mais amo, apenas,
destruo-me por dentro e passo a ter
apenas um mero sentimento de vida,
vida que vem do fato de amar.




23.6.97

22 de jun. de 2011

novos poemas do cotidiano - 04

(Alfred Kubin)


Olho para fora de mim


Olho para fora de mim,
em busca do mundo
e só encontro a ti.
Em cada nuvem.
em cada folha,
em cada gota
de chuva,
em cada oceano,
ou no céu infinito,
tu estás como deusa pagã
inaugurando o sol,
abrilhantando estrelas,
esmaecendo a lua,
aquecendo os mares,
escalando horizontes...
tu, ó inconsútil deusa,
feiticeira do tempo
a tecer em minhas retinas
bordados loucos de vidas nuas,
tu, ó vaga espuma de mundos inalcançáveis,
a trazer-me ao peito
esperanças inúteis...

Olho para dentro de mim
em busca de mundos
que, louco, construí como refúgios
de minha alma atormentada
e só vejo a ti,
ó deusa maldita de meus sonhos loucos,
a roubar de mim toda a seiva
de possíveis vidas que não viverei...
e, louca, fazes de meu peito
o espanto mudo de protestos inúteis,
tu, só tu, carnívora planta
a deglutir
em lentas doses
o coração que bate apenas
quando te vê...
tu, inverossímil deusa,
tu, mil vezes maldita,
tu, mãe de todas as eras,
tu, irmã da dor e do espanto,
cortesã de todos os repastos,
virgem de todos os altares,
tu, mil vezes bendita!

20.6.97

20 de jun. de 2011

novos poemas do cotidiano - 03

(Alfred Kubin)


Colho de ti


Colho de ti
o gelo mais frio.
Do fundo de grotas,
do grito mais animal,
da onda mais trágica,
do vento mais tosco,
colho em ti
não mais que o tempo
de sempre chorar.


Busco por ti
em cada folha,
em cada gota,
em cada grão,
em cada esperma
que escorra em tua boca,
em cada gozo
que não me deste,
em cada riso.
Em cada encanto
de doce segundo,
mato o tempo
e busco por ti.
Contigo eu sonho
deusa de gelados gestos,
a caçar em campos
de densa névoa
a carne doce
de meu sombrio amor.
Eu sonho
contigo sempre eu sonho,
e enalteço em ti
o fogo ancestral
das forças abissais.
Vulcão de lava fria,
teces em mim
rios largos de dor e prazer,
ó imaculada vênus
de pele em fogo,
ó deusa-mater
de todos os meus desejos,
eterna neve
em meus píncaros entronizada,
branca,
branca nuvem do meu destino:
gozo em ti
o vulcão de gelo
e morro em fogo
por buscar em ti
o eterno anseio de meu corpo frágil.


17.6.97

3 de jun. de 2011

novos poemas do cotidiano - 02

(Alfred Kubin)


Que estranho amor




Que estranho amor
é esse?
Amor que mais cresce
quanto mais sofre?

Que não estranha
quando
em fogo brando
mais se torce
de agonia
o pobre coração?

Que nunca apaga
a chama
e quanto mais ama
mais aberta a chaga
expõe a paixão?

Que nunca briga
e ressente
quando a intriga
só desmente
tudo quanto abriga
da paixão?

Que estranho amor!
Deixa-me assim
prostrado em dor
sofrendo em mim
o que em mim ressente
e paga apenas o horror
de ver um dia
o que nunca devia:
explodir em flor
o pobre coração!

10/6/97

31 de mai. de 2011

novos poemas do cotidiano - 01

(Alfred Kubin)



Quando calo



Quando calo
consinto;
quando falo
desminto
o que calado consentia:
louca,
a palavra
em minha boca
sai
como lava
de vulcão.
Fundo o que penso
em vã filosofia
e nunca dispenso
tudo o que vai
além do coração.
Calado, sou só
aquele que sonha.
Falando, tenho dó
de quem se me anteponha:
o vulcão despeja
tudo quanto deseja
e, num grito temerário,
mata o argumento
num só pensamento,
deixando no chão
o possível adversário.

28.10.96

21 de abr. de 2011

CAMINHOS




(Cézanne - Pissarro, casario)





Gosto dos caminhos
que parecem não ter fim,
ao se perderem no horizonte.
Como a vida, são enganosos,
e a nossos olhos encantam,
porque, como a vida,
são caminhos que se acabam
não na curva do horizonte,
mas logo ali,
no declive da montanha.




18.4.2011

17 de abr. de 2011

PASSOS

(Cézanne)



Os passos que traço tropegamente
pela vida
deixam a semente
de minhas dúvidas. A descida
da ladeira é penosa e lenta,
como lenta e penosamente tem sido erguida
cada uma de minhas barreiras
contra a morte. Não, não há sorte
nem flores nas pirambeiras
que evitei, enquanto caminhava.
Se, às vezes, deixava
que me levassem os rios
é porque, entre vales e desvios,
caindo por cachoeiras,
com o pensamento quase sempre louco e vago,
minhas corredeiras terminavam
num vasto e escuro lago.
Sou, agora, o resultado de meus passos.
Sem bússola, acolho os abraços
- poucos – que ainda me restam. E busco,
quando paro e descanso ao lusco-fusco
de mais um dia,
achar um guia, um norte
para minha vida vazia,
antes que me alcance a morte.




15.4.2011