12 de abr. de 2016

silêncios



(Edivaldo Barbosa)







queria os silêncios da terceira sinfonia




de Brahms




para ouvir a mim mesmo 




sem queixas




sem imprecações 




contra a vida






queria os silêncios de um poema 




de Fernando Pessoa




para entender o mundo




sem ódios




sem preconceitos




de qualquer espécie







queria sim os silêncios dos lagos




distantes




dos lagos margeados de grandes




árvores




visitados apenas por aves




migratórias




onde os peixes nadam




à superfície




sem bulha e sem receios






o barulho da vida




que entra em meus ouvidos




não traz boas notícias




por isso queria tanto




o silêncio das estrelas




no alto das montanhas




e o canto triste da rolinha




dizendo apenas que




o fogo apagou








16.2.2016

11 de abr. de 2016

militar progressista







um intelectual maluco
(afirmam alguns ter sido o multidelirante Gláuber Rocha)
disse ao general estrelado
bem ao pé do seu ouvido
general
o senhor é um militar progressista


o general pensou
militar eu sou sem dúvida
tenho minhas estrelas
tenho a minha tropa
cavalgo meu cavalo branco
comando
dou ordens
sou militar
sim
sou militar


e cabreolou ainda na cabeça do general
sou progressista
progressista da ordem e do progresso
progressista porque marcho sempre para a frente
não é isso ser progressista?


então na cabeça do general
as duas palavras se enfrentaram
cada uma numa trincheira
lá entre os poucos neurônios do general
inimigas prontas a desencadear
a tempestade mental
a batalha final
a batalha sangrenta
na cabeça do general


eram tão fortes em suas trincheiras
as palavras fatais
militar de um lado com sangue nos olhos
progressista de outro com a faca entre dentes
elas partiram como dois gigantes
para o confronto final
na cabeça do general
elas se chocaram na cabeça general
nunca houve choque igual
na cabeça do general
e o choque foi tão violento
na cabeça do general
que caiu duro o general
nem um músculo nunca mais se moveu


hoje tanto tempo depois
está lá o general estatelado
em sua cadeira de balanço acomodado
com seu olho para sempre arregalado
de sua boca escorrendo a baba branca
vestido com seu melhor fardamento
no peito todas as medalhas
calado para sempre
absolutamente quieto
não há quem lhe solte o breque
apenas um chuchu
um chuchu com seu lindo quepe

22.3.2016


(Você pode ouvir esse poema, na voz do autor, no podcast indicado à direita, no alto da página)



10 de abr. de 2016

mistérios



(Érika Cardoso - burka)




a mente tem subterrâneos
com minas de ouro e carvão
escondem-se lá os mistérios
de vidas vividas e vidas sonhadas
e não há entre elas
- as vidas reais e as vidas imaginadas –
nenhuma diferença
apenas um certo desconforto


21.3.2016





9 de abr. de 2016

a inspiração



(Sergey Reznichenko)






a inspiração é algo assim


que vem e que passa


e depois que passa


fica a poesia




 21.3.2016


8 de abr. de 2016

salve o planeta










garoto, fique ligado:
punheta no banho,
chuveiro desligado!



31.3.2016

7 de abr. de 2016

A GRIMAÇA






Conversando há poucos dias com meu amigo Adelino, por telefone, recordávamos os tempos do Colégio N. S. Aparecida, em Lavras, onde estudamos e fizemos juntos o antigo ginasial e o colegial. Lembrávamos dos professores, especialmente do saudoso Pe. Luís Things. Não há aluno do Aparecida que tenha estudado com ele que não tenha alguma história ou não imite o seu falar característico, com forte sotaque alemão. Foi realmente uma figura marcante de minha formação, com suas aulas de história, principalmente, dentro de todas as limitações da época.

Lembramos, então, eu e o Adelino, um fato curioso que ocorreu comigo. Estava na quarta série ginasial. Nunca fui um aluno exemplar, fazia algumas traquinagens típicas de moleque de 14 anos, não sendo, no entanto, nenhum mau elemento. Era só um garoto, como se dizia na época, “um tanto desesperado”, meio travesso.

Lembro-me de que estava quieto, prestando atenção não exatamente à aula, mas aos meus sonhos, ao meu mundo interior, numa manhã qualquer de um dia bonito lá fora. Padre Luís escrevia no quadro negro (não se usava a palavra lousa) e a classe estava tranquila. De repente, olhando para meus braços, descubro bem no meio do bíceps uma pequena espinha. Ergo o antebraço e levo a outra mão para espremê-la, num gesto meio distraído, tão distraído quanto estava em lugares longínquos o meu pensamento. No mesmo instante, Padre Luís se volta para a classe e me pega no meio daquele gesto. Num impulso, grita comigo, naquele seu linguajar típico:

- Isaias, forra!!! – seus erres eram sempre dobrados, muito dobrados.

Assustei-me. Caí de meu mundo nefelibata para a dura carteira escolar. E resolvi, num átimo, que devia resistir àquela injusta expulsão. Enfrentei-o:

- Por quê? O que foi que eu fiz?

- Vous estava fazendo grimaça!!! – Padre Luís sempre usava esse tratamento para conosco, esse “vous” que soava “vus”.

Tive um instante de estupefação. Não tinha a menor ideia do que estava falando o professor. Devolvi-lhe:

- Fazendo o quê?

Para delírio da classe, ele repetiu:

- Grimaça! Vous estava fazendo grimaça! Forra!!

- Não estava fazendo nada! E não vou sair!

Criado o impasse. Não ia sair. Já havia sido expulso de classe uma ou outra vez, mas naquele momento não estava fazendo nada e era injusta a minha expulsão. Sempre reagi mal às injustiças, em quaisquer situações. Não fazia parte de meu repertório deixar-me punir por algo que eu nem sabia o que era, a tal grimaça. Fez-se um silêncio tenso na classe. E para regozijo de todos, o Padre Luís contemporizou:

- Vous fica!! - E continuou a aula.

Amuado, assustado, sem saber direito o que fizera, como ousara rebelar contra a autoridade do professor, passei a prestar a atenção à aula, ou mais precisamente, às suas reações. Percebi ou intuí que ele não se contentara com a solução. E que viria algum tipo de punição, posteriormente.

No dia seguinte ou no outro, não me lembro bem, a primeira aula da manhã seria com o Padre Luís. Pensei: ele não vai me deixar entrar. Acontece que os professores, na primeira aula, ficavam à porta da sala recolhendo as carteirinhas, que deviam ser carimbadas pela secretaria com a presença do dia e devolvidas ao final do período. Então, era simples: ele não me deixaria entrar.

Abro um pequeno parêntese: estudava na mesma classe o meu primo Tadeu. Tadeu Arthur de Mello. Éramos ambos muito parecidos. O que nos distinguia era o modo de trajar: enquanto eu usava roupas simples, calça e camisa sem quaisquer atrativos, Tadeu vinha sempre muito bem arrumadinho para as aulas, em terninhos com gravata! Bem-comportado e tímido, não era um menino que chamasse a atenção ou desse qualquer tipo de problema aos professores. Passava quase desapercebido.

Pois bem, naquela manhã, depois de chegar à conclusão de que Padre Luís com certeza não recolheria minha carteira estudantil e, portanto, não me deixaria entrar, aplicando-me uma suspensão pela rebeldia, resolvi dormir um pouco mais, iludindo minha mãe com qualquer desculpa para chegar mais tarde ao Colégio.

E aí entra a narração do Adelino e de outros colegas. Ao apresentar sua carteira para entrar, todo tímido e no seu terninho com gravata, Padre Luís barrou-o:

- Vous não entra! – decretou.

- Mas, Padre Luís, o que foi que eu fiz? – protestou o tímido Tadeu.

- Vous botou paletó e gravata, mas vous não me engana! Vous não entra!

E foi uma encrenca para convencer o Padre Luís de que aquele era o Tadeu e não o proscrito aluno que fizera grimaça na aula anterior e se rebelara ao ser expulso. Ah, sim: só muito tempo depois, quando tive acesso a um dicionário é que descobri o significado de grimaça: trejeito, esgares, careta. Deduzo que, quando ele se voltou para a classe e me viu, pensou que, ao levantar o braço, para espremer a espinha, eu estava lhe mandando aquela famosa “banana” e fazendo caretas para ele.


7.4.2016



6 de abr. de 2016

LUPANÁRIO


43


depois do bar



(Francis Picabia)



batem cinco horas
no relógio da São Bento

encontro-me contigo afinal
depois de muitas ruas
e esquinas

no bar o garçom sonolento
nos recebe com cara
de poucos amigos

peço um uísque
você toma uma coca-cola

paraguaio o uísque
quente o refrigerante

não nos falamos

o garçom nos olha
desconsolados os três
há todo um clima
de noite interrompida
e dia que não vem
ou vem lentamente
no passo trôpego dos operários
que irão daqui a pouco
dependurar-se como fantoches
nos elevadores externos
de prédios em eterna
construção

olho nos teus olhos e
teus olhos não olham
nos meus

somos agora estranhos
que há pouco se conheceram

ficou para trás nossa
história
e nem sei bem por quê

na tela mortiça da tevê
balança os quadris a Beyoncé
não a ouço cantar apenas
vejo-a a rebolar
com mais algumas bailarinas esguias
e um trio de cantoras gordas e felizes

a coca-cola esquenta
entre teus dedos
ligo nas tuas pernas nuas
as pequenas varizes
que tecem desenhos
desenhos de operários
presos por fios azuis
como fantoches

foram tão ferrenhos
nossos dias

no copo em minhas mãos trêmulas
o gelo do uísque derrete
o garçom limpa o balcão e tosse

espera com certeza
que comecemos uma briga
e olha-nos complacente

não tem tempo o tempo
de espera

o relógio da São Bento
martela os quinze minutos
de nosso silêncio

a cidade acorda

levanto e chamo o rapaz que agora
varria a calçada

em passo lento volta ao balcão
anota num pedaço de papel a conta

pago com uma nota velha de cinquenta
recuso o troco
e saio
a Beyoncé e suas bailarinas recolhem
o aplauso
não olho para trás
porque sei que teus olhos
me seguem
que teus olhos me seguem
até que chegue à rua
e depois meus passos chapinharão
na rua molhada há pouco lavada
e depois
e depois teus olhos piscarão

(soube que choraste por mim)

e não haverá mais nada




14.9.2013



FIM



5 de abr. de 2016

LUPANÁRIO

41


vigília






um relógio ao longe bate uma vez,
depois a segunda,
já na terceira eu agonizo
e vem o quarto toque e o silêncio

e então eu ouço outro toque
esse sim, o místico toque do salto do teu sapato
na calçada da avenida deserta
o ar úmido
o vento cortante
toque, toque, toque, toque
não são quatro, claro, são muitos os passos
que te trazem para mim, afinal, no fim da noite
ou início do dia
e paras à porta, a chave gira, o vento bate em meus olhos
teu cheiro entra por minhas narinas
o teu cheiro de fêmea fodida por muitos machos
mas é esse teu cheiro que me alucina
e tu jogas longe os sapatos e teus passos até o leito
são de corça desgarrada da manada e te atiras em meus braços
és minha, finalmente, depois da longa noite
depois da longa noite
depois da longa noite



14.7.2013



42


chorei por ti




os nós da vida estão em nós
as putas de cada esquina
em desleixos de madeixas queimadas

somos os que somos e mais ainda
somos o que querem que sejamos

não fingimos
como fingem os fingidores
mas sentimos na carne e nas dobras do corpo
cada um dos nós de nossos desejos
contidos em vasos de horror e pranto

chorei por ti
meu desesperado amor
chorei por ti
no teu leito em forma de lua
no quarto de hotel vagabundo
no quinto andar do prédio decadente
e pensaste que te amava

chorei por ti
meu tresloucado amor
porque eras a vítima quando pensaste
que tinhas colhido a última flor do meu desejo

ah, meu caro, os lugares-comuns do amor
mais que lugares-comuns do eu te amo
são apenas os nós do meu corpo
a rejubilar-se em dólares e ienes
nas esquinas de Tóquio ou de Manhattan

pensaste que sou puta de paulistana cepa
sou do mundo, meu desencantado amor,
sou eu e os meus nós em cada continente
a esperar a doce morte de cada um dos meus clientes
para arrancar-lhes um pouco do meu dia seguinte

vivo assim os meus nós - cada dia um pouco
um pouco de cada beijo, outro tanto de cada orgasmo

chorei por ti,
e foram as lágrimas que secaram os meus nós


4 de abr. de 2016

LUPANÁRIO

39


vida fácil





contra ti o preconceito da
mulher da vida fácil

mas só é facil a tua vida
quando
de joelhos tu lambes cada
gota de porra
do meu pau

porque sabes - e sabes bem -
que só neste lenho de carne à deriva
tens o porto de teu naufrágio


11.7.2013










40


lua escorraçada





penso e dispenso
em mim tudo o que vem
de ti
talvez queiras me dizer algo
talvez nem queiras me dizer algo
não importa
atrás de cada rastro que deixo
vêm meus insinceros anseios
meus incontáveis receios
e tudo o que a vida me dá

sou tua e sou de todos
a puta que adota um homem
e és talvez dentre todos os homens
o homem que não tem culhão
de adotar de vez a puta que eu ainda sou

por isso, meu querido, nem sei se te digo
tudo o que em mim persigo
do resto que ainda me resta do que eu fui
e dispenso em ti tudo o que vem de mim
lua perdida em flores de manganato
escorraçada da rua
sem porto em tuda cama
sem beijo em tua boca



7.2.2014

3 de abr. de 2016

LUPANÁRIO

37



 bombom





não me importam
os caminhos que trilhaste
não me importam
os gozos que buscaste
é sempre bom
esse cheiro de violeta
esse cheiro de bombom
que exala a tua boceta



6.7.2013






38


até quando?






olhaste-me e enregelei
tocaste-me e meus pelos todos
subiram rumo ao norte
encrespei-me em teus braços
cacto sem flor
desafiaste meus espinhos
cravei as unhas em tuas costas
deixaste marcas em meu sexo
desandei cataratas em teu peito
somos o que a vida nos deixou
restos de prantos
pedaços de paus
barcos de papel na enxurrada
merecemo-nos


até quando?



2 de abr. de 2016

LUPANÁRIO

35


eu te amo





eu te amo - digo-lhe fixando
os meus olhos em seus olhos -
e mais do que dizer eu
te amo - e eu o digo mil vezes -
eu te amo eu te amo eu te amo -
o melhor de tudo é dizer assim
- eu te amo - com o meu pau
bem fincado lá dentro de
tua boceta - e sinto-me então
o mais feliz dos homens

e também o mais filho da puta



26.6.2013







36



fidelidade





o caminho que me leva para ti
faço e refaço mais uma vez

pelo tanto que me destruí
pelo tanto que esmaeci
pelo tanto que me retorci
nem me importa que já à tua porta
num buraco do asfalto
quebre o meu salto
e pelo tanto que pela noite
com outros homens me senti fodida
mesmo torta e cambaleante
puta e desiludida  
esqueço da noite todo o desatino
para cumprir este destino
 - ser tua lua e teu sol


28.10.2013


1 de abr. de 2016

LUPANÁRIO

33


 lua





em noites de lua cheia
a sombra do teu corpo
escorre pela sarjeta

completas tua trajetória
de mulher e puta
buscando braguilhas abertas
e bocas sem esperança

a lua contigo caminha
a lua contigo compartilha
a lua contigo estremece
a lua contigo estertora

e somem ambas ao mesmo tempo
exausta mais a puta que a mulher

fria e longíqua lá em cima
sorri a lua pálida à luz da aurora

em farrapos te deitas
em meu leito
em farrapos te beijo os seios
juntando ambos na minha boca
enquanto brilha
na retina de teus olhos
a outra lua
a lua dos loucos
a lua dos desesperados


23.6.2013








34



 tatuagem








mata-me
desata-me os nós
do desejo
cala a minha voz
é o teu ensejo
de traçar outro destino
de tomar outro navio
encolho o meu cio
e não mais protejo
a intimidade e o desatino
com que a cada hora
construo nossa trilha
nessa cidade - manda-me então
embora
- a louca a gritar orgasmos
já quase rouca -
- espesso o esperma em minha boca -
já tens a tua marca em cada praça
de meu corpo
tatuadas as pontas de teu dente
desata de uma vez
não contes nem até três
mata-me
mata enfim esse amor tão imprudente
tão impudente


28.10.2013