emerge das profundezas de meu cérebro
a imagem de um cão negro
seus dentes pontiagudos assomam da bocarra escancarada
seus olhos refletem ódio e vingança de tempos imemoriais
sentado sobre as patas traseiras
já contrai os músculos poderosos
para o salto que vai estraçalhar
inexoravelmente meu pescoço
giro loucamente a cabeça para todos os lados à procura de ajuda
mas encontro apenas a perder de vista o deserto de areias escaldantes
retesa-se o corpanzil do cão
o salto parece inexorável
como inexorável será meu fim
e meu corpo servirá de repasto
para os seres rastejantes
desse deserto infernal
talvez décimos de segundos me separam do encontro fatal
as fauces do cão negro estão a centímetro de meu pescoço
não há palavras que descrevam a beleza desse horror
não há palavras que descrevam o horror de tal beleza
só o que penso é que vivi até aqui pela minha teimosia
e morro agora de forma inglória pelos dentes de um cão
no segundo fatal
no segundo final
acordo afinal
saio do pesadelo
e das artimanhas
que me prega
meu cérebro cansado
acordado revejo a cena segundo por segundo
com o suor da noite de verão a escorrer-me pelo rosto
sofro tudo de novo
e quase morro
ao perceber a armadilha
de meu cérebro
no sonho infernal
a que ele me levou
nesta noite
de pesadelos e horrores
quando vejo e rejo os olhos faiscantes
do cão negro que salta sobre mim
não mais tenho qualquer dúvida
da mensagem que meu cérebro
enviou para mim
reconheço naquele átimo de segundo
em que não sei se morri ou sobrevivi
que o cão negro e ameaçador
sou eu mesmo tentando me matar
31.1.2026
(Ilustração: Zdzisław Beksiński, 1991)

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