28 de jul. de 2026

o cão negro






emerge das profundezas de meu cérebro

a imagem de um cão negro



seus dentes pontiagudos assomam da bocarra escancarada

seus olhos refletem ódio e vingança de tempos imemoriais



sentado sobre as patas traseiras

já contrai os músculos poderosos

para o salto que vai estraçalhar

inexoravelmente meu pescoço



giro loucamente a cabeça para todos os lados à procura de ajuda

mas encontro apenas a perder de vista o deserto de areias escaldantes



retesa-se o corpanzil do cão

o salto parece inexorável

como inexorável será meu fim

e meu corpo servirá de repasto

para os seres rastejantes

desse deserto infernal



talvez décimos de segundos me separam do encontro fatal



as fauces do cão negro estão a centímetro de meu pescoço

não há palavras que descrevam a beleza desse horror

não há palavras que descrevam o horror de tal beleza

só o que penso é que vivi até aqui pela minha teimosia

e morro agora de forma inglória pelos dentes de um cão



no segundo fatal

no segundo final

acordo afinal



saio do pesadelo

e das artimanhas

que me prega

meu cérebro cansado



acordado revejo a cena segundo por segundo

com o suor da noite de verão a escorrer-me pelo rosto



sofro tudo de novo

e quase morro

ao perceber a armadilha

de meu cérebro

no sonho infernal

a que ele me levou

nesta noite

de pesadelos e horrores



quando vejo e rejo os olhos faiscantes

do cão negro que salta sobre mim

não mais tenho qualquer dúvida

da mensagem que meu cérebro

enviou para mim



reconheço naquele átimo de segundo

em que não sei se morri ou sobrevivi

que o cão negro e ameaçador

sou eu mesmo tentando me matar



31.1.2026

(Ilustração: Zdzisław Beksiński, 1991)



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