da rede o balanço suave embala o meu sono
- sonho águas amazônicas
e florestas inundadas
- sonho com meninas da cor do murici
os olhos de açaí
meninas-jaguatiricas pintadas de urucum
que correm pelos igarapés
que pulam cachoeiras
que batem no tronco das samaúmas
que batem pedindo socorro
contra a cobiça de nat-chó caraíba
[branco só tem a cor - não tem honradez]
meninas que não temem as águas dos rios
mesmo que as águas dos rios
estrujam venenos e metais pesados
meninas que correm da natchicü dos garimpeiros
trincham com dentes as cercas dos fazendeiros
e chegam inteiras e guerreiras nas suas aldeias
e pintam o corpo para a dança do tracajá
tem o curare da verdade
na ponta da zarabatana
o esturro de socorro
das meninas da amazônia
que ecoa e ecoa
muito além da floresta
o grito de resistência
das meninas pintadas
da floresta amazônica
- e eu sonho no balanço da minha rede
que esse grito desperte do sono
todos os caraíbas da terra de pindorama
17.6.2026
(Ilustração: foto de Ricardo Stuckert)

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