1 de abr. de 2022

meu pai

 




meu pai morreu quando eu tinha seis anos

numa idade em que nem sabia o que era a morte

e só muito mais tarde descobri

que era uma ausência aquela morte

apenas ausência

que meu pai morto andava pela cidade

com suas duas pernas de gente viva

e a vida que me dera

multiplicava-se em outros filhos

que não eu

(o filho esquecido de um pai morto que procria)

e essa ausência foi a sombra

que marcou cada passo da minha vida

até que um dia muito mais tarde

meu pai ausente morreu de verdade

senti apenas – baixando os olhos úmidos de uma só lágrima –

que aquela sombra que seguia meus passos

seria agora uma sombra à frente dos meus olhos

e eu nunca mais iria conseguir chorar

nem quando sofri muito pela morte de minha mãe




13.12.2021

(Ilustrção: Mia Mäkilä)

30 de mar. de 2022

mentira

 





quando fujo de mim

vou para dentro de ti

e ainda que bem longe

de teus todos anseios

prescrevo a necessidade

de viver teus enleios

e tudo que senti

na mentira do pássaro

que grita que te vi





5.5.2021

(Ilustração: Johannes Hendrikus Moesman) 

26 de mar. de 2022

melodia melancólica

 



guardei dentro de mim os sons melancólicos do cair da tarde

guardei-os todos dentro de mim

mas era para ti que os guardara – minha amada de noites perdidas –

era para ti os sons todos que havia dentro de mim

sons melancólicos que ouvia

quando a tarde caía

quando a noite apenas no horizonte mostrava a sua face estrelada

e quando eu te encontrasse – minha amada de tempos a serem vividos –

seria para ti que eu traduziria

em versos melancólicos de pura poesia

aquela estranha melodia

de quando a tarde pouco a pouco me cobria

de doces lembranças de um tempo que não vivia

de um tempo guardado apenas para ti

aquele tempo de sons que não entendia

o bater suave da asa da coruja e o grito mais triste do bem-te-vi

os sons de passos compassados de sombras que não sabia

se eram as sombras do meu futuro contigo – minha amada de noites indizíveis –

um futuro que nunca em tempo algum chegaria

porque era apenas o murmúrio na minha mente de sons melancólicos

na minha mente a triste melodia da tarde que morria

como morreste também um dia

sem que eu pudesse ao menos te dizer que era tudo aquilo

- aqueles sons – aqueles sonhos – aquela melancolia –

era tudo aquilo – meu amor dos tempos não vividos – a minha fantasia





20.4.2021

(Ilustração: Edvard Munch: Melancholy, 1894) 

23 de mar. de 2022

mater gloriosa

 




venho parindo poemas pela vida afora

- mãe zelosa de suas crias –

não jogo nada fora muito embora

possam ser julgados – muitos deles –

como filhos bastardos e eu – puta –



agasalho todos eles

e prossigo como pai na mesma luta

- andrógino poeta –

que não se importa

de não ser esteta

de ter às vezes a esperança torta

na bondade alheia

de aceitar como bela criança

aquela que nasce um pouco feia



se pari tantos garotos-garotas-poemas

corujo-os e corujo-as assim – negros ou pardos

loiros ou cafuzos – rio e choro com seus problemas

descubro brilhos de estrelas em seus olhos tardos

quando a fórceps nascem de minha mente

se os pari é porque tenho o privilégio da criatividade

ainda que sopre o vento e não traga a semente

que lhes adorne o estro com alguma verdade




3.7.2021

(Ilustração: Samuel F.B. Morse - Gallery of the Louvre, 1831–1833)

20 de mar. de 2022

mata atlântica





de repente eu quero

a quietude da mata atlântica

a quietude feita de trinos e trinados

e zumbidos e assobios da fauna

uma sonata ao piano – de quem?

não importa – talvez a folha que caia

talvez a chuva que se espraia

o vento que não dá trégua

o passo lento da jaguatirica

[não esperava o susto da égua]

o rastro do tapir no brejo de lírios brancos

trilhas de avencas e samambaias

riachos e rios a cavar barrancos

[o tropel desconhecido que anuncia – o quê?]

o susto da onça e a corrida do veado

o silêncio quebrado pelo que não se vê

dos macacos o grito do bando assustado

lá em cima da montanha azul

o traço do tupi e do tupinambá

a flecha do guarani

[e lá embaixo nas praias do sul

rezas de padres com suas cruzes

botas de couro pisando cobras e lagartos]

e o grito do bem-te-vi

bem te vi

bem te vi

bem te vi

[na mata espessa o berro – ouro!]

no tronco do pau-brasil apenas o tesouro

de uma terra que não vivi




13.12.2021

(Ilustração: Argina Seixas - Painel Mata atlântica, Serra dos órgãos, Guapimirim, RJ)


17 de mar. de 2022

maresias

 




quero um tesão de fim do mundo

para percorrer do teu corpo todas as dobras

onde encontro a pureza das obras

que produzem em mim o desejo mais profundo

que me leva às raias da loucura quando

na lua nova de baixa-mar

na praia vazia de luar

posso cheirar o teu cheiro

degustar cada gota de teu suor

tocar o sino de tuas igrejas

profanar caminhos que conheço de cor

fazer contigo tudo quanto desejas

brincar com teus fogos e teus jogos traquinas

para fugir deste mundo sem eira nem beira

onde não há dobras nem esquinas

que não acumulem tanta sujeira



7.12.2021

(Ilustração: Max Ernst - le-baiser, 1927)

14 de mar. de 2022

mãos que brotam da terra





não é “bom” o tempo num dia de sol

- um dia de sol é apenas um dia ensolarado



não é “ruim” o tempo num dia de chuva

- um dia de chuva é apenas um dia chuvoso



não são “negros” os tempos de miséria

- os tempos de miséria – aí, sim – são tempos ruins

quando sob o tacão do opressor

as tripas se colam no intestino

e os olhos que veem o sol nada enxergam

e a pele que sente a chuva se arrepia nua



na natureza nada é bom ou ruim

- são boas ou ruins as ações humanas

porque nelas há a intenção de vida ou a intenção de morte



a vida é sol

a vida é chuva



sol e chuva na natureza não se conquistam

mas a vida e seu direito à dignidade

são fruto do trabalho de mãos que brotam da terra

faça chuva ou faça sol



21.10.2021

(Ilustração: Cândido Portinari - lavrador do café, 1934)


11 de mar. de 2022

manga rosa

 







verde a fruta temporã

antes do tempo ainda na manhã

de junho ou julho colhida

amarra a boca e arrepia o paladar

precisa o seu gosto madurar

o fim da primavera aguardar

quando o lento movimento

do chupar e do cheirar

provoca o ansiado prazer

de que na boca o seu derretimento

em líquens e perfumes

abra os caminhos do alvorecer

o fruto ansiado

no tempo madurado

agora chupado

à língua desamarrado

traz o gemido de paraísos perdidos

e serpentes atentas a todos os gemidos



18.9.2021

(Ilustração: Rego Junior)



Você pode ouvir este poema, na voz do autor, ISAIAS EDSON SIDNEY, nos seguintes endereços:
 
- podcast:


- youtube:

8 de mar. de 2022

lua no quintal

 





a lua veio hoje passear no meu quintal – todos viram mas tu não viste -

deixou nas folhas da pitangueira o luar de sua majestade

e fugiu feliz lua nua pelos telhados da vizinhança

fiquei eu sozinho e triste e só não mais sozinho e triste

porque estava fotografada em minhas retinas sua lembrança





26.5.2021

(Ilustração: Luis Ricardo Falero - The Witches Sabbath)


5 de mar. de 2022

lira louca

 




o meu canto desencantado

decanta a palavra cantada

por poetas e falsos profetas

pelos ventos dos tempos

palavra lavrada na pedra pisada

pelos pés peregrinos de poucos poetas



o meu canto desencanta o pranto

para o pouso do pássaro do passado

e rende-se ao rocio do rosário

de rosas despetaladas em versos

rotos versos vertidos de vasos vagos

pelos caminhos diversos

por onde se esvai e se esconde

o tesouro nunca enterrado

e assim jamais encontrado

de cantos e desencantos cantados

pela lira louca de poetas apaixonados



10.10.2021

(Ilustração: Andrew Wyeth - distant thunder)


2 de mar. de 2022

lembranças






que nos assaltem

as lembranças que nos emaranhem

em teias de sedas e rendas

e talvez arminhos



a árvore fendida

no pasto imenso

talvez um raio talvez o tempo

á água pútrida de um riacho

e a flor que dele emerge

a perfumar as margens de areia e pedra



a fruta bicada pelo sabiá

- o sumo na boca do menino

(os filhotes frustrados no ninho)



o passo marcado das botas negras

num dia de falso patriotismo



a marca na argila de um rastro torto

- o pé manco do menino mais pobre

o gibi amassado sobre a cama

para sempre esquecido – o que restou

da mão leve que por ali passou



o miado do gato

no encontro do escorpião

- o pé do menino balançando descuidado

logo acima - o susto na garganta



o traço do primeiro poema

- letra caprichada arredondada –

na folha quadriculada – decassílabos

estranhos decassílabos aos 14 anos



o passo lento do avô subindo a ladeira

sua tosse à noite

o cheiro forte de seu cigarro

a palha queimando os dedos

finos e negros

quando um dia o avô encantou

a cinza que no chão restou

ensombreceu seu vulto esguio

na memória em nuvens perdida



a cozinha sem atavios

enegrecidas as paredes pela fumaça

do fogão a lenha a cozer no seu tempo lento

delícias de frango com quiabo

o feijão cheiroso e o angu molinho



repetidas as vezes que me lembro

o som da singer aos pés da mãe

tecendo sonhos em tecidos

- vestidos que se vão como os sonhos



a praça deserta

à meia noite de lua nova

o perfume da dama-da-noite

o desejo a bater fundo nos miasmas

do primeiro amor



que nos protejam os deuses todos

das lembranças e anseios mascarados

no escuro das madrugadas

que achemos a sobrevida de um tempo

- de um tempo que se escoa

e leva para sempre as areias marcadas

de nosso passo descalço

pelas ruas frias

de frias lembranças e anseios

mascarados agora e sempre

por desejos inconsúteis

esculpidos ao som da máquina singer

na máquina da minha memória




26.10.2020

(Ilustração: Lavras / MG: Praça doutor Jorge, década de 30)

 

 

 

 

 

 

 

 

28 de fev. de 2022

lavras

 






lavras – cidade cristã

uma torre de igreja

que ilumina a manhã



embora eu seja

tão descrente

quanto um dormente

da linha do trem

subo contente

por tuas ladeiras

que me vêm

à memória

de uma terra

quase sem história



meus pés descalços

que pelas tuas ruas tortas tropeçam

sabem todos os percalços

que por ti se expressam

no tempo que passa

pelas tristes memórias de alguém

que chora um choro que se enlaça

às águas de um tempo de outrora



o menino que foi embora

todos os dias ainda chora

o fato de ter saído

o fato de ter partido

e agora a lágrima que arde

no seu rosto

rola de desgosto

por saber que é muito tarde

para lamentar o que já está posto



22.9.2021

(Ilustração: Lavras / MG: foto aérea de 1968; 
autoria não identificada)



24 de fev. de 2022

lamento dos mortos

 





abre a janela e deixa entrar

o vento

os insetos

os lamentos dos mortos



- não, não ouvirás na verdade

nenhum grito ou choro ou lamento vindos dos túmulos profundos

ou das covas rasas

- só ouvirás o silêncio dos grilos mortos e das cigarras enterradas

- só ouvirás o silêncio das asas dos urubus

nos altos círculos azuis recortados na penumbra dos cemitérios



os lamentos dos mortos não estão no vento

os lamentos dos mortos só trazem os insetos

que buscam a luz do teu quarto



os lamentos dos mortos estão tão mortos e calados

quanto estão mortos e calados os sentimentos daqueles que os enterraram

porque há só um lamento que se ouve

surdamente

pelos becos sem saída

através das máscaras e dos lenços sujos

(e que pode ser confundido com o lamento dos mortos

mas que perpassa pelos olhos fundos dos que realmente choram seus mortos)

que é o do silêncio dos que não acreditaram que eles morreriam



29.10.2021

(Ilusstração: Hieronymus Bosch)

21 de fev. de 2022

lado oculto

 





como a lua ela tem um lado oculto

sombrio mundo sem brilho do sol

vagamente emulado em sonhos

proibido fruto nunca colhido

sombreado assombro onde nascem

e também morrem

todos os passos de loucos fantasmas



sem mares revoltos nem ventos ferozes

talvez apenas a caverna

do tesouro de piratas inábeis

joia inalcançável aos olhos de fogo

impensável e obscura esperança

que depende apenas de um espasmo de paixão

esse seu lado escuro de lua branca



21.8.2020

(Ilustração: Boris Vallejo)

18 de fev. de 2022

inúteis lamentações





relembro sem saudade meus tempos de criança

agora que encaro os dias sem mais esperança

porque no tempo de eu menino

talvez encontre mais sabedoria do que agora

quando o caminho percorrido perfaz

mais estrada que o caminho a percorrer



no tempo de outrora

agora relembrado

tinha o passo lépido

tinha do vento o compasso

para o caminho o olhar alongado

no tempo dos olhos cansados

já o passo

encontra sempre o laço

para o tropeço

e o horizonte estreito

é às vezes apenas o leito

onde se remoem dias lentos de cansaço



o menino estúpido e fútil de outrora

conversa agora

como conselheiro de desencantos mal digeridos

mas os dois se abraçam na mediocridade

de uma vida sem heroísmos

queria ter havido no menino mais coragem e mais vontade

quero ter no velho mais ardor e menos dignidade



e os dois – assim elanguescidos e um ao outro grudados

vão desatando como o vento de outono desfolha as árvores

de seus rosários os nós das – agora - inúteis lamentações



19.4.2021

(Ilustração: Izzet Ziya - jovem no estúdio)



15 de fev. de 2022

inexorável





quando o manacá floresce

eu sei que estou vivo

e tenho dezesseis anos

num tempo de mudanças

dentro de mim



caminhava todos os dias

pelas ruas de pedra e terra

rumo ao colégio

nas manhãs de todas as estações



descobria poetas nos livros

e esquecia a geometria nas provas

seguia o caminho das estrelas

nas noites de lua nova



era apenas eu e meus sonhos

depositados no anseio do futuro

e hoje – quando o futuro já passou –

a flor do manacá muda as cores da vida

e sou apenas eu e meu passado



16.10.2020

(Ilustração: Tarsila do Amaral - manacá)



12 de fev. de 2022

inércia

 



não importa se a inércia do corpo

substantiva a inércia da morte

ou se a inércia do pensamento

verbaliza a inércia do corpo

apenas o que me adjetiva

é essa não vontade de movimento



uma nuvem sem vento no cume da montanha

adverbiando a pedra suspensa sobre o mar



dentro de mim o vácuo de espaços etéreos

veias vazias de volições pronominais

e o desejo escapando pelos labirintos

do rio não represado dos canais das conjunções

e a sensação de amores e humores que não mais virão



agora os corpos para sempre um hiato

subjugados no mesmo leito de águas mortas



não há mais vida sem o ardor

do sangue latejando para o gozo final



22.12.2021


(Ilustração: Lucian Freud:Berlim, 8.12.1922 - Londres, 20.7.2011)


9 de fev. de 2022

indígena

 




sou xavante

sou guarani

lanço o meu grito de bem-te-vi

pelas matas e pelos rios

quero ser livre em meu sossego

de rir o riso dos curumins

plantar pelos caminhos os ossos frios

de ancestrais que dançaram

desde a aurora do tempo

ao som do bater do coração

nos troncos da floresta

sou xavante

sou guarani

sou todos os povos de pindorama

sou todos os povos do brasil

não quero a guerra civil

ou a flecha no coração do pássaro

desejo apenas o respeito à vida

que um dia o bandeirante assassinou

os ventos que cantam no alto das árvores

sejam apenas o silvo dos rituais

não o silvo das balas dos grileiros

nem o som do machado

dos estúpidos madeireiros

não quero rezas de outros povos

deixem tupã nos governar

sou vento e brisa desses campos

sou dono dessas matas

sou dono dessas montanhas

sou dono de mim e de todos os curumins

não tenho a força da fumaça das chaminés

tenho apenas minha nudez

e o que resta de meu braço forte

para lutar contra a morte

que contra mim decretaram

aqueles que naquele maldito dia

a esperança me tiraram





23.5.2020

19.10.2020

(Ilustração: foto da internet, sem indicação de autoria)


6 de fev. de 2022

incongruências

 





as asas com que tentei voar

derreteram ao primeiro raio de sol

ícaro sem porto despenquei nos abrolhos

desci aos infernos da maldição



foram-se para sempre os ventos que podiam me elevar

sou agora o fantasma do fantasma de um pássaro

a rastejar pelos miasmas de minhas incongruências



no espelho de meus desejos vejo apenas o fim de um caminho

de pedras e espinhos construído

no poço profundo de minhas incertezas e de minhas inverdades

jaz em coma o meu coração ferido




26.11.2021

(Ilustração: Jacob Peter Gowy - The Fall of Icarus)

3 de fev. de 2022

ilusão

 






não sei onde mora

este desejo



sei que ele aflora

num doce beijo

ou num simples olhar



mistura-se ao sentimento

de que é bom e vai durar

mas traz apenas sofrimento



talvez seja ele a prova

de que não há paz na paixão

assim como na lua nova

uiva para si mesmo o cão





1.12.2020

(Ilustração: Pablo Picasso - Le Baiser)