27 de nov. de 2022
MARCO ZERO
24 de nov. de 2022
noite
quando à noite o silêncio cobre o meu leito
não sei bem com quem me deito
se com a saudade de tempos passados
ou com a saudade de tempos ansiados
sei apenas que me cubro de esperança
e o mundo de sonhos que me alcança
na dobra do romper da aurora
e tudo quanto pela vida o tempo explora
estão nos versos que escrevo já desperto
em busca de mim mesmo neste deserto
21 de nov. de 2022
namorados
deu-me a vida uma amante
para meus tempos de madurez
quando o sonho fica mais distante
deu-me a vida mais uma vez
o gozo simples de um abraço
o riso claro para um novo caminho
prendeu-me num suave laço
a feliz descoberta de seu carinho
e hoje que somos mais que amantes
e quando nos sentimos apaixonados
quero dizer-lhe muito mais do que antes
somos dois eternos namorados
19 de nov. de 2022
mistérios gozosos
melopeia de sinos encapuzados no vértice de triângulos sagrados
à vicária luz da lua o uivo dos lobos selvagens
no círculo de fogo os braços às estrelas levantados
corpos rútilos em sangue esvaídos a colorir as folhagens
o capítulo de fogo-fátuo na pedra tumular
nenhum obstáculo que impeça às ogivas romper o espaço ovular
e os templos erguidos aos deuses antigos e a seus festejos
finalmente em cinzas transformados durante a dança das ninfas nuas
destruídos todos os tabus em torno dos anseios e dos desejos
restam apenas as folhas das ulvas e as vulvas à luz de todas as luas
no altar improfícuo de cerimoniais deletérios
onde se pode gozar e comemorar como animais todos os mistérios
15 de nov. de 2022
UMA TRISTE SOMBRA ESPREITA, NUM RESTAURANTE JAPONÊS DO BAIRRO DA LIBERDADE, SÃO PAULO, BRASIL, 2002
Sueli, Sueli, nome de ocidental, nome besta esse, gostava mais do meu nome antigo, lá do Japão, Futami, isso sim, nome de gente como eu, mas há tanto tempo me chamam Sueli que até tinha esquecido, e então, lá do Japão a voz, a voz de mais de cinqüenta anos atrás, ainda bonita, no tremor de velho, velha estou eu, puxa vida, dona Sueli, não, dona Futami, setenta e sete anos, sim, no mês que vem, setenta e sete anos, e a voz que veio do Japão, semana que vem, é, semana que vem vou estar no Brasil, o português meio trôpego, mas inteligível, poderíamos nos encontrar, quem sabe, senhora Futami, um jantar, sim, um jantar, e agora ela estava ali, naquele restaurante no bairro da Liberdade, ela não morava na Liberdade, ela morava no Jardim da Saúde, mas estava ali, na Liberdade, à mesa do restaurante, mais de trinta anos não ia a um restaurante chique como esse, e então ela pensou, tudo na minha vida se passou há mais de trinta anos, e eu aqui, nesse restaurante japonês no bairro da Liberdade, não, não era mentira, e ali estava o homem que amara em 1947 e que tivera que ir embora de repente do Brasil, tinha só vinte anos, ele um pouco mais velho, vinte e cinco, um pouco mais, um pouco menos, que importa, juravam amor eterno, juravam nunca se separar, naquele mesmo bairro da Liberdade, eu te amo, Futami, ele dizia e nunca, nunca vou te deixar, e um dia ele foi embora, ele foi obrigado a ir embora, partiu numa madrugada, como um ladrão saindo pela janela, ele foi embora, uma sombra fugitiva, sem falar nada para ninguém, só ela sabia que ele ia embora, ele tinha de ir embora, ainda se escreveram durante um tempo, mas as cartas semanais viraram mensais e um dia ela percebeu que não iam chegar mais, e já se tinham passado vários anos e ela nem notou que ele não escrevia mais, sempre relendo as velhas cartas lá do Japão e então, uma nova bomba de Hiroshima não caiu em Hiroshima, caiu na minha vida, ele se casou, alguém que veio do Japão falou assim, sem mais nem menos, no meio de uma conversa boba de quem chega e tem novidades para contar, e agora ela observa o senhor grisalho e sorridente ali sentado, o presente é sonho, o passado não passou, tudo sonho, e de repente ela olha para ele e vê uma sombra, uma sombra medonha de ódio e vingança, foi por causa dessa sombra que ele foi embora, foi por causa do ódio que ele foi embora, foi por medo de uma vingança terrível que ele foi embora, eu nunca entendi direito por quê, mas ele teve de ir embora, aquele senhor sorridente a chama de senhora Futami, que me chama de Futami, sim, sim, nunca me casei, nunca tive outros homens, Futami ficou te esperando, meu amor, ela não diz, ela só pensa em dizer meu amor, um casal estranho naquele ambiente de jovens, todos tão respeitosos, mas nós somos velhos, velhos como a sombra de uma vingança terrível que ela nunca, eu nunca, jamais consegui entender, um casal, naquele restaurante japonês, um casal de velhos, e ele sorri um sorriso que podia ser de esperança, mas eles são apenas um casal de velhos, e ele conta coisas do passado, de como encontrou a pátria destruída, de como trabalhou tanto e de como prosperou nesses cinquenta anos, e ele fala de um Japão tão moderno, tão bonito, que ela não conhece, fala da mulher que morreu, dos netos que estudam tecnologias que ela não entende, e ele fala de computadores que ela não sabe bem o que são, há mais de cinquenta anos eu vivo te esperando, meu amor, e ele come com elegância e a serve, não tenho fome, meu amor, e ele parece tão jovem, não tem uma só ruga, não tem dente amarelo, não tem cabeça branca, suas mãos estão limpas e lindas e lisas, o tempo não passou, passou apenas uma sombra, e ela olha com amor aquele jovem de vinte e cinco anos e então uma sombra, uma sombra terrível que matou toda a sua esperança de vida está ali, atrás dele, a sombra ainda ali, é apenas uma sombra mas está ali, a sombra da Shindô Remei.(*)
12 de nov. de 2022
melado
quem nunca comeu melado
quando come se lambuza
e eu te como lambuzado
porque é assim que se usa
fazer amor deliciado
no balanço de uma rede
onde gemes de mansinho
onde eu mato a minha sede
a beber devagarinho
o melado do teu gozo
me lambuzo e me escorrego
lambendo teu mel cheiroso
que goteja do teu rego
na mata o tiziu se cala
quando pedes que eu te foda
eu atendo à tua fala
te afogo na porra toda
9 de nov. de 2022
lua triste
o menino tira da boca uma rosa - o sorriso de dentes pequenos
ainda os dentes de leitenão sabe para quem sorri o menino de olhos negros e suaves
sabe apenas que sorri porque a vida ainda é um jardim de grama verde
onde a bola pula no pé - esfera obediente a seus meneios
e o futuro é o gol que o amigo não defendeu
cresceram na boca do menino os dentes e a rosa aos poucos se despetalou
era a vida a reservar para ele - depois da terceira esquina
os dias tristes sem bola e sem gol não defendido por amigos que já se foram
agora o menino já não sorri como antes nem tem nos olhos a suavidade de madrugadas
ainda sonha - sim ainda sonha - mas seu futuro está preso à sua angústia
roda a cidade vendendo não a rosa murcha mas o chocolate de origem duvidosa
uma noite voltava o menino-homem-quase-feito para casa de madrugada
no bolso uns poucos reais da féria do dia
pensava ele na mãe a engrossar o angu do jantar
pensava ele na rosa que não era flor mas tinha dentes brancos e belos como ele
pensava e sonhava
quem sabe - um dia um beijo
e então de repente o susto - perdeu camarada
levanta os braços
vira de costas
abre as pernas
não olhe não olhe não olhe para trás
o que o safado está fazendo sozinho à noite
cadê o fruto do roubo
fala logo que eu não tenho tempo a perder com gente como tu
fala desgraçado
cala a boca cala a boca cala a boca
deita
deita
deita
quando se virou para deitar no asfalto frio o frio dos olhos iguais
os olhos iguais ao dele e a pele ao luar igual à dele a pele negra
não sentiu nada o menino-quase-homem-feito quando a rosa explodiu
não sentiu nada
só a lua piscou antes de se esconder atrás de uma nuvem
no barraco forrado de estrelas
o angu ficou duro e esquecido para sempre
sobre a trempe do fogão apagado
6 de nov. de 2022
lágrimas
meus olhos – lagos parados no tempo –
guardam lágrimas tantas
lágrimas que não mais tento
derramar pelas gargantas
de meus desesperos
lagos quase sem água
– água sem gosto e sem temperos –
que jorram apenas a mágoa
de estar sempre a viver
com o pouco chorar
embora com o muito sofrer
e o muito amar
3 de nov. de 2022
inevitável
o espasmo da flor murcha no vaso quebrado
o beijo negado no ardor do orgasmo
talvez seja tudo isso a vida
talvez seja tudo isso apenas o manifesto
de uma esperança que se desvaneceu
e quando tudo parece pacificado
sopra a bocarra do inefável
a trazer de novo a lembrança do inevitável
31 de out. de 2022
NONA SINFONIA
(Para
Fayvel)
28 de out. de 2022
impressões - 1
noite em são paulo
entre a fieira branca e a fieira vermelha de carros
a fita negra do rio
no meu quintal
a lua cheia não seca
a roupa no varal
lua minguante
chega o ônibus à rodoviária
desce o migrante
ficou na estrada a reforma agrária
no meu jardim
antes do desmaio
a flor de maio
sorri para mim
desce o lixeiro do caminhão do lixo
ao breu da lua nova
sob jornais os corpos rijos
liga para o patrão: vou recolher
o patrão aprova
na minha cama
cobre-me a sombra da noite
a solidão é um açoite
veloz sobe o carro na calçada
mal vejo quando foge
porque é lua crescente e chove
chove e sinto frio
conto oito corpos no meio-fio
na televisão disseram que eram nove
depois de uma noite insone
não me confortam nem sol nem lua
se eu soubesse tocar trombone
saía agora mesmo para a rua
25 de out. de 2022
hypnos
22 de out. de 2022
garganta profunda
a bocarra arreganha
e à pica arrepanha
chupa a cabeça e a molha
com cuspe e me olha
com cara de safada
não espera a gozada
chupa e engole
engole e chupa
não deixa ficar mole
cuspe em catadupa
a pica na boca
a boca na pica
já quase louca
mais dura ela fica
e então o que me espanta
é quando a pica desaparece
bem no fundo da garganta
e quanto mais a sufoca
mais a pica ela a soca
muito bem socada
a boca escancarada
a pica vai bem fundo
cada vez mais no profundo
na garganta enfiada
condena um velho moralista
mas conhecido rolista
puta que assim chupa uma pica
de forma tão profunda
também gosta de dar a bunda
retruco eu e peço que reflita
tem essa boca qualquer mulher
que faz no sexo o que quiser
se ela gosta de dar a bunda
é seu gosto e meu por direito
mas fico muito mais satisfeito
quando a pica esquece a bunda
e qualquer preconceito
e entra e sai muito bem aceito
na sua garganta profunda
27.1.2022
19 de out. de 2022
fuga
quem sabe um dia voar
nas asas de um fado para lisboa
ou dançar um tango em buenos aires
pensamentos de fuga
de angústias que estão por vir
de pesadelos que já me assustaram
pisadas de demônios na neve
de países que ficam no extremo do meu coração
beijos esquecidos em areias cálidas
de seios outrora fartos
dois montes olivais de tempos perdidos
não há gazelas nas minhas planuras
nem desejos ocultos nas reentrâncias das minhas memórias
mesmo que voe nas asas de um tango p’ra a alfama
mesmo que dance um fado en la plaza de mayo
16 de out. de 2022
AINDA AQUELE BEIJO
13 de out. de 2022
flores murchas
murcham as flores à falta de sol
murcham as flores à falta de adubo em suas raízes
murcham todas bem antes do arrebol
essas fêmeas nascidas para serem infelizes
em botão ainda e já maceradas
amordaçadas
ao jugo masculino
impedem-nas que cresçam
impedem-nas que apareçam
são raízes frágeis para o feminino
que habita em suas entranhas
meninas apenas sem desafios
prisioneiras sem qualquer defesa
manejadas por tênues fios
para serem mulheres de cama e mesa
10 de out. de 2022
Fases da lua (4 trovas)
Vago pela noite escura
A pensar no amor distante:
A saudade não tem cura,
Se amor é lua minguante.
2.
Não vejo no céu o luar:
Morreu a lua! Está na cova!
Mas responde alguém, a zombar:
Tonto, a noite é de lua nova!
3.
Terá menos tempo de espera,
Se na terra jogo a semente
Numa noite de primavera,
Tendo no céu lua crescente.
4.
Noite fria, caminho para o mar:
Minha sombra se alonga pela areia,
Como se alonga triste o meu pesar,
Sob a pálida luz da lua cheia.
8 de out. de 2022
pó da memória
espanta o poeta o pó da memória
para que aflore enfim o passado
esquecida a história
toda a história de muitas vidas
a pedra da rua torta
lá no fundo da horta
as folhas da jabuticabeira caídas
no chão de terra molhada
a manga madura na ponta do galho
a gabiroba colhida na madrugada
o passo da mãe rangendo o assoalho
o canto sentido de uma sabiá
no galho do manacá
espanta ao poeta que ainda há
sob o pó do presente
a memória perdida
a história esquecida
de um pai sempre ausente
uma pipa parada no ar
um amor que não houve
um canto que ele não soube cantar
4 de out. de 2022
pesadelos
não têm freio os meus sonhos quando penso em ti
vejo em cada laivo deles a vida que contigo não vivi
e na estrada o passo seguinte de uma vida que talvez tenhamos
porque no tempo e no espaço em que sonho nós nos amamos
mas quando acordo e sinto o cheiro dos teus cabelos
sei que por toda a noite tive apenas terríveis pesadelos
1 de out. de 2022
perenidade
mentem-se os adeuses na esperança da volta
assim o amor se alimenta de saudades estranhas
e desejos antigos
mesmo no exílio e abandono
que se mintam sempre os adeuses
aos amantes sem futuro e sem pejo
que esperem sempre o retorno
do passado no passo do presente
se fosse o amor asas de vento e leveza
pássaro de arribação no voo migratório
para o esquecimento de nossos desejos
perderia as asas abatidas pela indiferença
renasceria da pedra ou do pó das trilhas
e se tornaria planta em pousos amenos
na eterna busca de sua perenidade








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