25 de fev. de 2024

cena noturna

 




latidos na madrugada

vizinhança alarmada

gritos aflitos

- ladrão! ladrão!



um vulto pula o muro

- um tiro!

um corpo na calçada

gente alvoroçada

- liga para o distrito!



o moço agoniza



do leito ainda quente

– nua – desliza

a moça assustada

olhos de pranto e medo

espiam pela fresta da janela

o corpo na calçada

– seu mais profundo segredo



26.9.2023

(Ilustração: George Grosz - 1916)


Ouça esse poema na voz do autor, ISAIAS EDSON SIDNEY, nos seguintes endereços:

- no podcast do spotfy:


- ou no You Tube:



22 de fev. de 2024

cena erótica

 




cheia de pudores a puta que levei para o quarto

meia hora para convencê-la a tirar a roupa

e quando de suas firulas e negaceios já estava farto

foi para debaixo do chuveiro e pôs uma touca

lavou-se furiosamente e também a mim

com muito sabão e muita esfregação

algo que me deixou com uma puta ereção

e ela gostou do que viu – eu e meu pau de pé assim

mas apenas lavava e lavava e lavava

finalmente lavados

muito bem enxaguados

e enxugados

voltamos ao quarto para – pensei – continuar o drama

mas ela disse que seria para sempre minha escrava

se eu deixasse que fosse ela a dirigir toda a trama

pôs-me então sentado na beirada da cama

ajoelhou-se com todo o cuidado sobre meus tênis

para não esfolar os joelhos – ela me explicava –

e chupou e chupou furiosamente o meu pênis



19.2.2022

(Ilustração: Apollonia Sainclair - la déflagration)



19 de fev. de 2024

cena de uma noite tórrida

 



 

o gato sobre a cama

com ela se confunde

num sono profundo

 

na tevê [lá de Praga – músicos vienenses]

Brahms – concerto número dois para piano e orquestra

 

[eu só]

 

para dentro de mim transpiro as gotas da saudade de uma vida que não vivi

e sobrevivo ao calor da meia-noite na cidade-túmulo-de-sonhos

[aqueles sonhos que ficaram perdidos em alguns olhos

cuja luz jaz num tempo de estrelas vazias]

 

quero o sono do gato

[apenas isso]

 

 

16.12.2023

(Ilustração: Pierre Auguste Renoir - le chat dormant, 1862)

16 de fev. de 2024

carpideiras

 




depois de tanto tempo a boca tapada

tenho mil coisas a dizer

e minha língua está um rio amazonas

cobra grande esfomeada

contemplando a boiada

escolhendo a presa



mas ao mesmo tempo penso

e não dispenso a vontade de gritar

que deve a língua continuar presa

porque muito mais do que falar

há milhões de coisas que preciso ouvir



há milhões de vozes pelo tempo a reclamar

e isso meus ouvidos não podem ignorar

- e mergulho de novo no mutismo

de estrelas das galáxias que não conheço

para tentar ouvir o que diz o vento do deserto

e pagar com meu desatino o preço

de tanto tempo tapada a boca – o perto

de hoje ficou mais longe e mais distante

quando a morte fincou suas bandeiras

no campo e na cidade e diante

de cada cova somos todos perenes carpideiras




26.9.2021

(Ilustração: Adrienne Marie Louise Grandpierre-Deverzy:
Gian Monaldeschi implore la grâce de la Reine Christine de Suède)



13 de fev. de 2024

capitalismo

 



vou moer os teus ossos e eles servirão

para engrossar o caldo do teu feijão

comerás assim a ti mesmo

e vagarás sob as chibatas de máquina a máquina – a esmo

como escravo para sempre acorrentado



dos teus uivos e do teu sangue serás alimentado

e herdarão de ti um único olho os teus filhos

não poderás pensar em sair dos trilhos

que teu pensamento estará aguilhoado

de orações e de um céu que será dado

somente aos que se curvam sem gemer

a ti [ó meu príncipe escravizado] só temos a oferecer

o caldo de feijão sujo de teu sangue

e morrerás sem ter vivido – completamente exangue





24.10.2021

(Ilustração: máquina de movimento perpétuo 
em ambiente industrial - criação de IA; foto da internet)



Você pode ouvir esse texto, na voz do autor, Isaias Edson Sidney, nestes endereços:

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10 de fev. de 2024

cantiga de roda

 




eu estou chorando

chorando muito – de tristeza – nem as palavras de consolo de meu tio

me consolavam



estava profundamente triste

o meu amor – ela [a menina de olhos negros] – está indo embora

e eu estava triste agora

mais de sessenta anos passados



tão profundamente triste – nem as palavras de consolo de meu tio

me consolam

o tempo fechara o círculo agora

e eu no centro desse círculo – e eu choro

(e ela – será que ela chora?)



o anel que não te dou

o anel que não te dei

era vidro e se quebrou

definitivamente – eu soube e eu sei



[este poema podia ser a letra de um bolero ou de uma valsa

- a valsa que contigo não dancei

- o bolero que para ti não cantei

mas é só uma triste cantiga de roda]





4.1.2022

(Ilustração: Francisco de Goya: La gallina ciega - 1789)


Você pode ouvir esse poema, na voz do autor, ISAIAS EDSON SIDNEY, num destes endereços:

- no podcast:


- no you tube:

7 de fev. de 2024

cansaço

 




não sei se é cansaço ou canseira

do longo tempo que já vivi

talvez uma saudade bem mineira

e na garganta o grito do bem-te-vi



sei apenas que de vez em quando

sopro o vento que vem do sul

chuto a areia que piso chorando

e vou tingindo o céu de mais azul



não sei se é canseira ou cansaço

o que sinto em relação à vida

sei apenas que aguardo mais um abraço

de pessoa que considero mais querida



nesses versos tão singelos como dizia

a velha canção popular

vou tentando pôr um pouco de poesia

nesse meu cansado versejar



e mesmo não sabendo ainda

se sinto cansaço ou canseira

canto essa saudade infinda

de minha juvenice mineira




9.9.2022

(Ilustração: José Rosário Castro: Manhã de paz)




4 de fev. de 2024

Canção para Clementina

 






O povo preto me falou

De uma pele salgada de mar

Quando um dia desencantou

A voz de Clementina a cantar



Oooô Clementina, Clementina de Jesus

No teu canto os atabaques de danças de além-mar

Oooô Clementina, Clementina de Jesus

No teu canto de Olorum brilha a força e a luz

Oooô Clementina, Clementina de Jesus

Tua voz ecoa através dos mares a manhã

Os caminhos da floresta, da floresta de Iansã



O povo preto me contou

De uma pele salgada de mar

Quando um dia desfolhou

A voz de Clementina a cantar



Oooô Clementina, Clementina de Jesus

Sua voz afoxés e agogôs desafiou

Acima dos tambores ressoou

Foi o povo preto que nos contou

Foi o povo preto que te abençoou

Clementina, Clementina, o mar te salgou

De Áfricas tua voz aqui nos encantou

Oooô Clementina, Clementina de Jesus

No teu canto de Olorum traz a luz

O povo preto te louvou

Tua pele salgada de mar

Quando um dia desfolhou

Tua voz a todos encantar




13.3.2022

(Ilustração: Clementina de Jesus, foto da internet, sem indicação de autoria)

 

 

 

 

 

 

 

 

1 de fev. de 2024

canção do espanto

 



 como uma pluma ao vento de agosto vaga meu delírio sobre a cidade

adormecidos os cidadãos em seus leitos

a peste em minhas asas

o grito de angústia no bico adunco

abutre noturno em busca da carne podre

sustento meu voo na força do vento que venta do norte

sei o que sou e o que sou é a dor e também a morte

passeio pelo catre imundo do favelado

passeio pelo dossel revestido de ouro falso do velho capitalista

bico o seio tatuado da madame

corto a carne da bicha apaixonada

estraçalho o ventre da puta solitária

como os olhos das criancinhas em seus berçários

canto a canção do espanto

entrevista em bocas escancaradas

e nada pode deter meu labor enquanto canto

pelos quatro cantos a vitória dos genocidas

enterro bem fundo no leito do rio da morte

as cantigas que não se afinam com o meu doce canto de morte

prendo no fundo do pântano mais sujo todos os sorrisos

que acaso ainda se escondam atrás de máscaras inúteis

 

espanto enfim como uma pluma ao vento de agosto

para a concretude de minha sanha e de meu delírio

o sonho e o futuro de cada cidadão que ouse ter o gosto

de olhar em meus olhos e desdenhar o seu martírio


 



5.6.2021




(Ilustração: Giovanni Stradano - 1587: Racconto di Ugolino - Inferno, Canto 33)

29 de jan. de 2024

caminheiro

 





dizem que os passos do caminheiro

fazem o caminho enquanto ele caminha

mas o que não sabem e não dizem

é que os caminhos pelos quais caminha o caminheiro

vão construindo dentro dele caminhos de pensamentos e de ideias

no princípio apenas vagos e depois a cada passo

cada vez mais o sonho e a poesia crescem em seu cérebro

tomam conta de seu ser e ele passa a ver os caminhos de fora

com os olhos e os sentidos dos caminhos de dentro



e então o mundo que acabaria ali ao pé do arco-íris

se estende por galáxias e pelas poeiras das estrelas distantes

e leva o caminheiro para o mundo infinito que só existe

dentro dele mesmo e de seus caminhos interiores




15.1.2022

(Ilustração: Gustav Klimt - the Sunflower Gardens - 1905-1906)

28 de jan. de 2024

JABAQUARA, TERMINAL

 

 


Desceu do ônibus no Jabaquara, sem um puto no bolso. Puto da vida, sonhava com uma puta vida, mas até agora só a putaria do cais de Santos. Ficou sem os últimos tostões. Só a quantia certa para o ônibus. Olhou para todos os lados, ainda tonto da subida da serra. Do outro lado da rua, vários bares. Tentou negociar com alguns fregueses o dinheirinho do metrô. Escorraçado, desceu a Rua dos Jequitibás e virou à esquerda na Avenida George Corbisier. No escritório do deputado, também não conseguiu nada. Com aquelas roupas e aquelas olheiras... Viu um fantasma no vidro da loja. Sentou em frente à igreja dos crentes e tentou esmolar. O sol a pino turvava-lhe o olho faminto. Nada. Precisava ir embora do Jabaquara, mas sem dinheiro... Desespera-se. Tenta descolar uma coxinha na padaria. Nada. O sol desce pelo seu estômago e provoca ânsias de anoitecer. Quase. Um sopro na tarde e só. Senta. Levanta. Pede. Povo filho-da-puta. Refaz o caminho. Torce a esquina e vê. Acha que pirou. Não. Está lá. Uma carteira no canto do muro. Dentro, uma nota de cinco e um bilhete do metrô. Entra na pastelaria e torra a nota em pastel e caldo de cana. O bilhete, uma preciosidade fechada na mão. Na descida para o metrô, para. Vira-se. De punho cerrado, uma banana pro Jabaquara, povo pão-duro e filho-da-puta, vão se foder. Enfia o bilhete na catraca, que não se abre e ainda apita. Bilhete inválido. Solta um palavrão. Na bilheteria, a moça, autoritária: falso. Não pode trocar, não. Dá escândalo e quase vai preso. Uma semana depois, na porta da igreja dos crentes, música e muitas aleluias. Fim do culto. Todos saem apressados, sem se dar conta do corpo encostado no muro.







sexta-feira, 7 de março de 2003

(Ilustração: Rua dos Jequitibás, Jabaquara, São Paulo/SP 

- foto da internet sem indicação de autoria)


(Você pode ouvir esse texto, na voz do autor, neste endereço de podcast:

https://open.spotify.com/episode/6IHWW8jOPpnLxUGWv1hL5T?si=va_8lajXRampbe4aPIUlXA)

26 de jan. de 2024

caminheiro noturno

 





eu às vezes durmo

mas minha cama não dorme

mesmo que lá fora esteja zumbindo a noite



eu às vezes cochilo

mas meu quarto não cochila

mesmo que lá fora esteja correndo-me a noite



eu às vezes sonho

mas meu travesseiro não sonha

mesmo que lá fora esteja se estrelando a noite



assim sou eu e meu mundo estranho

preso a mim e a meus objetos com que convivo à noite

porque durante o dia

sou apenas um caminheiro noturno a escrever o que não se deve

- estes meus poemas



24.12.2023


(Ilustração: Edward Munch - nuit etoilée)

24 de jan. de 2024

caminhar

 






não é preciso ter destino

para começar a caminhar

o caminho começa quando se é menino

ou menina

e só termina

quando não há mais o que sonhar




10.9.2022

(Ilustração: Giovanni Giacometti) 

21 de jan. de 2024

cafetinagem

 


tu me dizes que não gozas


no pau de outro homem

mas é ele que te come

quando precisamos de grana

e é ele que geme e goza

enquanto sonho com tua xana



1.12.2021

(Ilustração: Ciparis (Christelle)  - harmonie)

17 de jan. de 2024

caetamaro

 




um índio branco e baiano dos anos 40 de um século de guerras

desamarga o amaro passo de pássaro pelas margens do saruê

e dança o samba torto de mil amazonas sem pororoca através das serras

chegado que foi um dia pelas águas do tietê

para beber do mar a cor amara

da baía de guanabara

caetanem-se todos ao grito de alegrias tropicais

caetanem-se todos os que pularam carnavais

um índio branco e baiano dos anos 40 de um século de guerras

caminha impoluto pelos mares e pelas terras

caetaneando o brasil de cowboys e carmens mirandas

com seu trinado canto de sambas e cirandas



1.11.2021

(Ilustração: Caetano Veloso, foto da internet sem indicação de autoria)

14 de jan. de 2024

busca inútil

 


  



caminho à noite pelas ruas tortas

da cidade antiga

para onde me transportas

com tua cantiga



sou teu servo e te procuro

levantando aos ares os miasmas

de um tempo ainda mais escuro

povoado pelos meus fantasmas



meus pés que batem na pedra dura

pisam cabeças que rolam do cadafalso



no céu o sete estrelo pisca para a lua

ando só e ralo-me nas pedras descalço



não meço meus passos pela rua

nem há sentido em minha procura

estás na tua tumba há muito morta

e é somente o vento que me transporta

para o silêncio de tua sepultura



os loucos que um dia aqui viveram

teus dias de festas e tédio colheram

como se colhem as rosas do jardim

inútil é meu caminhar pela noite escura

por onde um dia teus delírios percorreram

sei há muito que tu não voltarás para mim





16.7.2022

(Ilustração: Michael Pickett - lonely walk home)





11 de jan. de 2024

busca da felicidade

 



no solo há muito crestado e sofrido a chuva


que cai

desperta da terra molhada o cheiro de felicidade



dentro do fruto amarelo o caroço chacoalha

e à primeira mordida

desperta na boca o jambo o perfume da felicidade



no horizonte verde entre duas montanhas surge

o arco colorido

e desperta aos olhos já baços as cores da felicidade



o vento do sul ou do mar agita de repente a folhagem

traz o frio

e a pele eriçada desperta um arrepio de felicidade



do verde e preto da jabuticabeira em frutos e festa

o silvo assanhado do sanhaço

desperta à memória o canto ancestral da felicidade



felicidades que vêm de fora

um momento que se comemora



então se pensa que se é feliz

e é o que todo mundo se diz



mas tudo isso vem carregado da maior falsidade

porque não existe o que se chama felicidade

nesse mundo em que somos todos aprendizes

há para o ser humano somente alguns momentos felizes





7.7.2022

(Ilustração: Nicoletta Tomas Caravia)


8 de jan. de 2024

breve instante

 

 




breve

brevíssimo

o instante do beijo



leve levíssimo

o momento da vida

quando a folha cai

quando o sopro se esvai

quando a morte passa



breve

brevíssimo o laço

que enlaça

o passo

para o nada

e os deuses cochilam

na cama quebrada

e os olhos refilam

a noite calada

o passo

o laço



cai o pano no palco vazio

enquanto o palhaço

eu – apenas sorrio

porque de leve

a vida breve

passa no passo do estio



4.9.2021

(Ilustração: Paul Bond - Departure)

5 de jan. de 2024

bossa nova

 



talvez um bar

talvez um piano

talvez a lua

no oceano

talvez um leve

talvez um leve

murmurar

talvez te ame

ao som do luar

talvez me chame

a voz do violão

sempre um talvez

jamais um não

nós dois outra vez

um barquinho no mar

sorri para mim

e eu sei que vou te amar

na canção de Jobim

talvez esse bar

nunca aconteça

talvez esse luar

nunca me entristeça

talvez não exista

esse canto e esse mar

e para sempre persista

o desejo de te encontrar


ah que seja uma trova

de um verso torto

como barco no porto

a nossa bossa nova





9.3.2023

(Ilustração: Cícero Dias: sonoridade da Gamboa do Carmo, 1930)

2 de jan. de 2024

bastidor

 





no centro do tecido

esticado pelo bastidor

agulha e linha

agilmente manejados

fazem nascer o caule

depois a flor

sumo de jabuticaba – o tecido

verde que te quiero verde – o caule

sangue vivo – a flor

nada mais desenham os dedos bordadeiros

o mundo é isto apenas – sonho

flor

esperança

e dor



11.3.2022

(Ilustração: foto da internet, sem indicação de autoria)