1 de out. de 2023

visita do tempo

 


“batidas na porta da frente

é o tempo”

(aldir blanc)



quando ele insiste

não nos damos conta do risco e abrimos a porta

às vezes ele já foi embora

sem nem mesmo dizer alguma coisa ou piscar o olho

mas quando entra

abraça-nos com o fervor de amigos de longa data

como se ele não fosse a própria longa data

espicha-se no sofá da sala

e aguarda uma xícara de café

ou senta-se conosco no chão da memória

e sorri aquele seu sorriso amarelo que diz que nos pegou de surpresa

uma visita inconveniente a espicaçar-nos o íntimo de nossos desesperos

incorrigível o tempo

imarcescível o tempo

e por isso mesmo sarcástico o tempo

não nos deixa respirar um minuto e já está tinto de alvaiade nossos cabelos

e já são estradas ruinosas o nosso rosto

e já são pequenos terremotos as nossas mãos

e já são temerários os nossos passos

porque ele vem e está sempre com um sorriso de pasta de dente na manhã

porque quando ele sorri a manga comida pelo bem-te-vi cai de madura

porque quando ele nos interpenetra com seus ditos sarcásticos

o momento já não é o mesmo e o espaço se abriu para nossos destemperos

a viagem por seus meandros só não se completa com nossas lágrimas

porque o abraço dado já passou e ele – o tempo que nos visita –

já não está mais na sala

já não está mais sorvendo seu café recém-coado

já não está mais espicaçando nossos passos de outrora

porque ele – o tempo que nos visita – já foi embora




12.1.2022

(Ilustração: Salvador Dalí - la persistance de la memoire)

28 de set. de 2023

vidas esquecidas

 



não é mais vida

quando a vida se resume

a esperar que a vida acabe



vidas esquecidas

talvez até de si mesmas

abandonadas como embalagem vazia

num canto qualquer de uma casa que se esvazia

a cada dia



tocos de velas que de repente

sem que ninguém lamente

se apagam ao sopro de qualquer brisa

a vida um fio frouxo na gola da camisa

um bater de asas do beija-flor

algo de que ninguém mais precisa

espantalho de gente vivendo de favor

por parcos dinheiros

que pagam meia pensão e meia fome

e não pagam os mensageiros

das parcas que não dizem seu nome



não são mais vidas

as vidas assim esquecidas



17.3.2023

(Ilustração: Andrea Kowch, 1986)

25 de set. de 2023

vida soturna

 




soturna a minha poesia

soturna a pandemia

de proibidos abraços

e qualquer convivência



o mundo para de repente

a vida de repente num beco



soturnos à noite os passos

de viajantes embuçados

a bater às portas trancadas

a abrir de repente os braços

num convite para o nada



não há gemidos nem cortejos

apenas o espanto e a suspensão

de todos os nossos desejos



20.9.2020

(Ilustração: Tyrone Wright)



22 de set. de 2023

viagem sem fim

 





sonho que

estou a debulhar o milho

como debulho os teus seios

ou será o contrário disso:

que esteja a debulhar os teus seios

como debulho o milho?



bobagem isto de milho e seios

que não os sei nem um nem outro

que nunca me debulhei em lágrimas

nem lágrimas há nos teus seios

que não sejam do milho o suco ou o centeio

que esmagam as máquinas do tempo

na inútil roda da vida



quero milho em minhas mãos

e semeá-lo como semeias filhos

e tuas odes cantar ao som da lua

menestrel de quinta numa noite de sexta-feira

no banzo de cantigas emprenhadas à sombra do baobá



que seja eu teu escravo em danças orientais

e serei teu senhor nas tabas da tribo tupinambá



debulhem-se em gotas de ouro e prata

todos os poemas que para ti não escreverei

mesmo que os cante todos em serenata



que sejam teus seios o mágico anoitecer

de todas minhas searas de angústias

e que todo o ópio que consumiu álvaro de campos

as minhas noites entonteça quando

não estejas a estibordo de minha cama

e a espiga aloirada do teu ventre

não se abra aos ventos que enfumam minhas velas

para a viagem sem fim rumo às estrelas





4.7.2022

(Ilustração: escultura de Camille Claudel, 1864-1943)



19 de set. de 2023

versos livres

 


deixei tão livres meus versos que agora

quando quero prendê-los um pouco numa gaiola

rebelam-se em pés escandidos tão fora da métrica

que deixam no ar a explosão elétrica

de peixes luminosos do fundo do mar

e eu pobre poeta sem barco ou anzol

não tenho mais como os pescar

 


26.11.2021

(Ilustração: Volpi)

16 de set. de 2023

versos de vida

 




poetas aos milhares escreveram

palavras doces

versos mergulhados em potes de mel

aos milhares outros tantos escreveram

palavras amargas

versos mergulhados no veneno da serpente

não os escrevo todavia – aos versos

nem doces nem amargos

apenas versos de vida tangidos pelo vento

para o deleite ou desprezo

de ouvidos e olhos que não se desencaminham

senão pelo toque do tambor

quando soa o grito de vingança

de todos aqueles que ficaram sangrando pelos caminhos

sem nunca os seus olhos

pousarem num raio de sol nascente

e assim minha poesia às vezes semeia

no ventre sujo da terra

o dissabor da vida

e o estranhar dos que dormem sob as estrelas

e não acordam quando

o soldado armado de fuzil lhes chuta a bunda

na manhã que não acontece



28.8.2021

(Ilustração: Pawel Kuczynski)

13 de set. de 2023

vênus inaudita

 



vestida com as mais ricas vestes

com que te ornou a natureza

desfilas nua e pura - a tua pele -

sobre folhas de ciprestes

e pisas meu peito como deusa

para o sonho que me impele

a édens gozosos

de amores poderosos

que me tiram todo o juízo

os teus seios

a destilar o néctar do paraíso

nos entremeios e receios

dos ensejos e desejos - os pecados

todos de um deus

os olhos teus nos olhos meus

nossos orgasmos desesperados



19.8.2021

(Ilustração: Kiéra Malone)

8 de set. de 2023

vazio

 



na sua hora certa

você me desperta

você me come

e depois some

não fica na sombra do quarto

qualquer cheiro de seu passo

apenas na cama a ceia farta

do preço do meu cansaço



na sua hora torta

você me deporta

você me enjoa

e depois voa

não fica no vazio da minha vida

sequer o vibrato de suas penas

apenas a esperança perdida

no rastro de tardes serenas



19.11.2021 (São Vicente, SP)

(Ilustração: Valquíria Cavalcante)

4 de set. de 2023

vá embora de mim

 



 que vá embora de mim

o medo da vida

que vá embora de mim

o medo da morte

 

que vão embora de mim

o assombro do ódio

e o furibundo espectro da vingança

que vão embora de mim

o desejo de que se exploda o mundo

e o desejo de que morram meus inimigos

mesmo que seus espectros me assombrem

 

que vá embora de mim

o que nunca em mim esteve

- a inveja que corrói o invejoso

- o ciúme que enegrece a vida

se não os tenho que se vão

para longe de mim

os invejosos e os ciumentos

que não me atormentem

nem me alimentem

que os não quero nem de ouro cobertos

 

que vá embora de mim

o desgosto da vida

que vá embora de mim

a tristeza que de vez em quando

rodeia meus sentidos e me joga no chão

 

que vá embora de mim

essa ânsia de conquistar um amor

como se fosse o amor o elixir da vida

que me deixe em paz o amor

que não coma do meu prato

que não durma em minha cama

que não rabisque o livro que estou lendo

que vá embora de mim

o amor que não me quer

só esse o meu desejo agora

quando da vida só espero

o sossego de folha caindo durante o outono

antes que a seque o rigor do inverno



 

9.9.2021

(Ilustração: Edward Okun - Four Strings of the Violin, 1914)

 

 

1 de set. de 2023

usura

 

 




um olho que flutua

imitação porca da lua

um porco que ronca na rua

imitação do grunhido que se dissimula

dentro da máquina o esqueleto

talvez da mulher preta

talvez do homem preto

o homem nu agachado na tumba

lágrimas de pedra em seu rosto

o louco que impõe mais um imposto

a luta que acaba na busca

do eterno retorno da criatura

que não foi criada mas acumula

o peso de um deus cujo olho flutua

sobre o menino da rua

numa noite que se enclausura

na morte da lua

e no espantoso aumento da usura



8.11.2021

(Ilustração: Drissi Slimane - Misère)

26 de ago. de 2023

LUZ DE VIDA

 




... quando o corpo percebe na pele o barulho lento de máquinas ao longe que transmitem vibrações a todo o prédio, abro os olhos lentamente e lentamente eles vêem no alto o teto branco, muito branco, a luz suave, a primeira visão, o teto, estar vivo e vendo aquele teto branco e o olho olha aquele teto branco e inútil como se fosse, como se fosse a primeira vez, o primeiro dia, o dia, e baixa um pouco e avista ali ao alcance o pedaço superior da janela, a única janela, a persiana branca que deixa passar suave luz diurna, suave luz a brincar com a fosforescência opaca da luz do quarto, e o dia lá fora parece estar claro, muito claro, sem sinal de chuva, um sol de qualquer estação, de qualquer ano, de qualquer dia, e aqui dentro a vibração inaudível de máquinas que transmitem ao prédio a sensação de organismo vivo, ronronar distante e vago, distante e vago o pensamento que voa, que voa, que vai para além de um mundo que desconhece o perigo, a dor, não há dor, apenas lembrança de dias de calma, de dias de amor e de ambição e de esperança, e o dia lá fora não tem nenhum movimento, parece morto o morno dia lá fora, só aqui dentro o ronronar de gato das máquinas que mantêm vivo o prédio e o prédio, no entanto, permanece frio e indiferente, só estão vivas as pessoas que passam silenciosas, ventos que flutuam em brancas vestes, ventos de esperança em passos que passam ciciantes, vidas que mal se avistam, silenciosas todas as esperanças, silenciosos sempre todos os lábios, um vento que não vem de fora e reverbera no vidro duplo da janela, os olhos apenas percebem no vão superior o vento que bate ali e traz esperança, e o olho pensa através do cérebro o que está fazendo aqui, o que o trouxe aqui, silêncio apenas, no grito que não sai da garganta, na dor que não se concretiza em lágrimas, o quarto branco, o teto branco, é tudo quanto eu sei, eu sou o olho que olha e dói, eu sou o olho que abre e não vê nada além daquele teto branco e se estou aqui é porque estou vivo, vivo, não, não sou eu quem devia pensar em vida, não sou eu quem devia ter esperança, mas sou eu que sofro e me martirizo imaginando mundos e momentos sem a esperança de sua voz, sem a clara luz de seus olhos, sem o grito de gozo de sua garganta, e os olhos se acostumam lentamente com aquela luz, com aquelas luzes, a de dentro, pálida e fria e a de fora, quente e retorcida no vidro duplo da janela mal encoberta pela persiana branca, e então os olhos buscam outras paisagens, mas não há outras paisagens, há apenas a parede também branca, muito branca, como o branco do teto e o branco da luz branca que emana suave da janela de vidros duplos e das luminárias brancas que alongam vagas sombras aos meus olhos que procuram no interior deste aposento a sombra sem sombra, a claridade opaca e suave que transcenda a morte, e o olho segue pouco a pouco, lentamente, sem pressa, o risco do canto e percebe na parede branca o quadro estranho de pintor anônimo, traço abstrato, arqueado, a retratar o nada, traço levemente irisado sobre o branco da tela, a mostrar que há vida muito além deste quarto de hospital, sim, de hospital, onde jaz no leito ao lado a luz de uns olhos, mais que amados, que, eles sim, buscam um pouco de vida...




03/1/2004

Isaias Edson Sidney

Grupo de Contistas de São Paulo (5/2/04)

(Ilustração:Lewis Houghton - hospital bed)



(Você pode ouvir esse conto, na voz do autor, neste link de podcast:


23 de ago. de 2023

umbral das trevas

 


 

quando o espanto ultrapassou

o umbral das trevas

e tudo aquilo que ele sonhou

se transformou em levas

de encantos submergidos

o poço que era fundo

se alargou

e o que restou do mundo

virou pequenos arquipélagos perdidos

na memória do tempo e do vento

sujeitos todos eles às ondas provocadas

por tsunamis que trazem espanto e morte





10/10/2021

(Ilustração: Pawel Kuczynski)

20 de ago. de 2023

uma gota de ódio

 




afrontemos os poderosos

enfrentemos os governos que servem aos poderosos

chutemos a bunda dos generais e arranquemos as fardas dos recrutas

libertemos os presos políticos

e os presos que ousaram erguer sua voz contra as injustiças

embarquemos no grito de liberdade

de todos os negros escravizados

de todos os índios massacrados

de todas as mulheres assassinadas

de todos os jovens imolados

de todas as crianças esfomeadas

embarquemos no grito de angústia

da terra queimada

dos oceanos emporcalhados

dos rios em esgoto transformados

das florestas derrubadas

das montanhas exploradas



que seja o mundo um lugar melhor

quando todos os ratos voltarem para o esgoto

e os governos fascistas se afogarem no próprio sangue

e os falsos profetas descerem cada um ao seu próprio inferno



e antes que reclamem que sou radical

que estou disseminando o ódio entre as pessoas

reclamo para mim o direito

de despejar no oceano de ódio que todos eles disseminaram

em tantos séculos de dominação

uma gota

apenas uma gota

uma mísera gota de ódio num mísero poema

a todos os autoritários do mundo

a todos os fascistas do mundo

a todos os controladores da vida e da mente das pessoas

a todos os destruidores do futuro

a todos os exploradores de nossas misérias

ainda que essa simples gota de ódio

possa ser apenas mísera gota de ácido que fure um furo mínimo

na bolha de cristal onde se enrustem todos os canalhas





13.1.2022

(Ilustração: Antonio Balestra, Justice and Peace Embracing, ca. 1700)



17 de ago. de 2023

uma gota de lágrima

 





os meus olhos – trago-os pra a frente do mundo

para que ao mundo me levem as lágrimas

há em cada gota que cai desses meus olhos

o sentimento de que há no mundo somente aquilo com que se faz o sofrimento do mundo

almas vazias que povoam os espaços vazios

átomos divisíveis em subpartículas a flutuar

no unir-se e separar-se infinitamente



fogos-fátuos de cemitérios oníricos

esse o mundo que aos meus olhos se revela

quando os levo e os carrego para o centro da vida

essa vida a que um dia o poeta chamou de sonho

esse sonho que eu penso que pode ser vida



trocados os miúdos pelos graúdos

é tudo o resumo de átomos a se entrechocarem no fundo de buracos negros

o universo todo contido na gota de lágrima dos meus olhos

e os meus olhos são só espelho de mim mesmo querendo ser todo o universo



não há metafísica que resiste aos átomos

não há deuses que sobrevivam ao vazio



leva – leva também os teus olhos

ó ser inominado no picadeiro das constelações

leva os teus olhos para o profundo infinito do universo

e lá encontrarás o começo de tudo

ou talvez o fim



30.7.2022

(Ilustração: escultura de Luo Li Rong)

14 de ago. de 2023

um tango para piazzolla

 



o tango escorre pelas coxas nuas da bailarina

suspensa no ar pelas mãos do macho argentino

indiferente à fluidez de seus movimentos



eletricidade pura percorre o palco iluminado

tocado pela indiferença fingida e forçada do macho argentino

suas mãos conhecem o caminho que conduz para as estrelas

o fogo de dezenas de olhos acesos pelas ondas do bandoneón

que um bruxo vindo das profundezas de tempos mágicos

abraça ao peito com o fervor que os amantes da bailarina

acariciariam seus seios palpitantes

se ela – a bailarina – não alçasse o voo das palomas de buenos aires



no palco o vento emudece

no palco o espaço vencido recurva-se em ondas

a bailarina e seu parceiro transcendem as nuvens

macho e fêmea em comunhão com o compasso elétrico do tango

e a plateia pisca para as estrelas enquanto aguarda em suspenso

que o bruxo faça do staccato o último murmúrio da terra



2.10.2021



(Ilustração: Leonid Afremov - girl in black)

11 de ago. de 2023

um poema que não escrevi

 





caminham loucos pela estrada como zumbis

é este o começo de um poema que não escrevi

para dizer que em algum dia eu fui feliz

quando o zumbi que eu sou gostava de ti



agora que os todos os caminhos estão gastos

peço às flores que guardem seus espinhos

porque do mundo de loucos eu me afasto

para me afogar na espiral de teus torvelinhos




12.9.2022

(Ilustração: escultura de Kris Kuski - Artemis of Stockholm)

8 de ago. de 2023

um poema para manuel bandeira

 



sob a chuva o bicho chapinha os pés na enxurrada

deserta a rua

por detrás dos grossos vidros

dos escuros vidros dos apartamentos

olhos vermelhos de espanto – espiam



o bicho segue seu caminho fuçando latas de lixo



de dentro dos salões apagados

dedos angustiados

teclam teclas de telas coloridas



segue o bicho seu trêfego caminhar sob a chuva

no silêncio quebrado das latas de lixo chutadas



um estampido



acendem-se luzes

iluminam-se janelas

cessa a chuva

buzinam os carros

apressa o passo

a gente apressada



no fim da manhã

chega o camburão



num rito de robôs mal pagos

os empregados da prefeitura

cumprem o diário oficial

jogam dentro dele o corpo do bicho

limpam o sangue da calçada

e somem no meio caos do trânsito



suspiram donzelas nas janelas

[e donzelas nas janelas – meu poeta

são o escracho deste meu tempo de bites e bytes]



o bicho não era um cão

o bicho não era um gato

o bicho não era um rato



o bicho – meu poeta – era apenas um pobre preto da periferia





2.6.2023

(Ilustração: Kevin Lee - Invisibility of Poverty)




(Você pode ler o poema de Manuel Bandeira, "O Bicho", neste endereço:

5 de ago. de 2023

último espasmo

 




tocas nua as cordas

de um velho violoncelo

que me transporta

para um céu de gelo



soam acordes dissonantes

de um tempo muito antes

dos tempos de agora

em que choro o outrora

de nossos gozos tão gozosos



no espaço entre a cordas

do instrumento agora brasa

guia-te o som que extravasa

de outrora e quando acordas

voas para as asas do orgasmo

e expeles teu último espasmo



1.11.2021

(Ilustração: Joyce Lee)


2 de ago. de 2023

poema traduzido: desiderata, de Max Ehrmann




DESIDERATA



Go placidly amid the noise and haste,

and remember what peace there may be in silence.

As far as possible without surrender

be on good terms with all persons.

Speak your truth quietly and clearly;

and listen to others,

even the dull and the ignorant;

they too have their story.



Avoid loud and aggressive persons,

they are vexations to the spirit.

If you compare yourself with others,

you may become vain and bitter;

for always there will be greater and lesser persons than yourself.

Enjoy your achievements as well as your plans.



Keep interested in your own career, however humble;

it is a real possession in the changing fortunes of time.

Exercise caution in your business affairs;

for the world is full of trickery.

But let this not blind you to what virtue there is;

many persons strive for high ideals;

and everywhere life is full of heroism.



Be yourself.

Especially, do not feign affection.

Neither be cynical about love;

for in the face of all aridity and disenchantment

it is as perennial as the grass.





Take kindly the counsel of the years,

gracefully surrendering the things of youth.

Nurture strength of spirit to shield you in sudden misfortune.

But do not distress yourself with dark imaginings.

Many fears are born of fatigue and loneliness.

Beyond a wholesome discipline,

be gentle with yourself.



You are a child of the universe,

no less than the trees and the stars;

you have a right to be here.

And whether or not it is clear to you,

no doubt the universe is unfolding as it should.



Therefore be at peace with God,

whatever you conceive Him to be,

and whatever your labors and aspirations,

in the noisy confusion of life keep peace with your soul.



With all its sham, drudgery, and broken dreams,

it is still a beautiful world.

Be cheerful.

Strive to be happy.




– Max Ehrmann, em “Desiderata: um caminho para a vida”. []. Edições de Bolso. Rio de Janeiro: Editora Sextante, 2006. (Max Ehrmann, Desiderata, Copyright 1952).


Tradução de Isaias Edson Sidney:


Serenamente caminhe entre o barulho e a pressa,

e lembre-se de quanta paz pode haver no silêncio.

Não se humilhe,

mas atenda com educação a todas as pessoas.

Fale o que você pensa calma e claramente;

e ouça o que lhe dizem,

mesmo as coisas tolas e estúpidas;

todos merecem ser ouvidos.

Evite gente barulhenta e agressiva,

que só lhe trazem aborrecimentos.

Não se compare com os outros,

Isso pode torná-lo vaidoso e amargo;

sempre haverá pessoas melhores e piores que você.

Comemore suas conquistas e faça planos.



Orgulhe-se de seu trabalho, por mais humilde que seja;

ele é sua âncora ante as incertezas da vida.

Seja cauteloso nos negócios;

pois o mundo está cheio de trapaceiros.

Mas não deixe que isso o torne cego para as boas oportunidades;

muitas pessoas lutam por altos ideais;

em todos os lugares, a vida está cheia de heroísmo.

Seja você mesmo.

Principalmente, não finja afeto.

Nem seja cínico sobre o amor;

pois diante de toda insensibilidade e desencanto

ele é tão perene quanto a grama.



Aceite com tranquilidade a passagem do tempo,

conservando o frescor da juventude.

Cultive a força de espírito para protegê-lo das adversidades da vida.

Não se angustie com pensamentos sombrios.

Muitos medos brotam do cansaço e da solidão.

Cultive uma vida saudável, cuide de si mesmo.

Você é uma criança do universo,

não menos importante que as árvores ou as estrelas;

você tem o direito de estar aqui.

E mesmo que não esteja claro para você,

não há dúvida de que o universo está em constante evolução, como sempre.



Portanto, esteja em paz com Deus,

seja qual for a sua concepção dele,

e quaisquer que sejam suas tarefas e aspirações,

nesta vida confusa e agitada,

esteja em paz consigo mesmo.

Com toda essa falsidade, lutas e sonhos desfeitos,

tem ainda o mundo muitas belezas.

Cultive a alegria.

Busque a felicidade.



15.7.2023




(Ilustração: Catherine Chauloux)


(Você pode ouvir esse poema, na voz do tradutor, Isaias Edson Sidney, neste endereço de podcast:

30 de jul. de 2023

OUVINDO CHOPIN





Barbeava-me ao som de Chopin. Lentamente, como deve ser, a afiada navalha herdada de meu pai deslizava sobre minha pele, enquanto olhava no espelho o meu rosto crispado, os meus olhos injetados de sangue. Nem Chopin nem o ato de barbear-me lentamente conseguiam acalmar-me. Tinha, porém, que me barbear, para aliviar a tensão, para tentar dar à ruína de meu rosto uma aparência no mínimo apresentável. Iria, logo depois, ao IML. Árdua tarefa procurar por um corpo que não havia, era tudo muito incerto, era tudo muito estranho. Três dias. Três dias e três noites eu a procurei. Agora, iria ao IML. Meu coração batia desritmado no peito, como as cordas de um piano desafinado, tão desafinado que nem o concerto de Chopin dava jeito. Os pelos de meu rosto iam pouco a pouco sendo arrancados e levados pela água fria da torneira aberta à proporção que subia minha angústia em pensar que... Ouço um barulho de chave na porta, fecho a torneira e uns dois segundos de profundo silêncio caem sobre mim. Espero. A porta se abre e se fecha. A chave gira e tranca. A mão treme, a navalha deixa um risco de sangue no meu rosto. Os passos leves sobem agora a escada, lentamente, lentamente, lentamente. O perfume entra antes da dona, o perfume forte e doce que ela teima em usar, apesar de minha rinite. Não tenho tempo de me virar e ela já está encostada em mim, o olho enorme refletido no espelho, misturado ao meu espanto. "Oi, querido, já de pé tão cedo?" Uma flauta que se imiscui ao som do piano. Antes de me virar, estendo a mão direita e desligo o rádio. Chopin acaba de descer o ralo com todo o meu ódio. Não. Meu ódio borbulha e retorna. No tempo entre o momento em que minha mão desliga o som do rádio e meu corpo faz um giro de cento e oitenta graus para se colocar de frente para ela, eu lembro os últimos três dias. Acordara de manhã para trabalhar e o leito estava vazio. Fui ao banheiro, tomei banho, desci. Um pesado silêncio acompanhou meus passos escada abaixo. A casa, vazia. Chamei. "Helena". Nada. Gritei. "Helena!". Nada. Vasculhei cada vão e desvão da casa. Nada. Liguei para os amigos. Nada. Um bilhete, nada, nada, nada. Sentei e esperei. Lá pelas duas da tarde, o telefone: "Pedro, está tudo bem?" "Quem... quem é?" "Orlando, aqui do escritório... você não apareceu para a reunião... Algum problema?" "Não... não... só não estou me sentindo bem... não vou trabalhar hoje... avisa aí o pessoal... desculpe..." Desliguei. O sol traçou um longo arco desde o sofá até o piano e desapareceu. Fechei as cortinas pesadas. Encolhi-me de novo no sofá. Agora, as costas doíam. A alma doía. A escuridão doía. Abri a cortina da sala e meus olhos arderam com a luz do poste, luz branca, forte, fogo em minha cabeça. Voltei para o sofá e só acordei com o sol batendo em meu rosto. Vinte e quatro horas haviam se passado desde que Helena sumira. Liguei para a polícia. Depois de várias tentativas, depois de me mandarem de um número para outro, consegui que me ouvissem. "Comunicar um desaparecimento". "Quanto tempo?" "Vinte e quatro horas". "Desculpe, mas temos que aguardar pelo menos setenta e duas horas, para tomarmos providências..." "Puta que pariu, é minha mulher!" "Desculpe, senhor, nada podemos fazer." Bati o telefone e voltei para o sofá. E agora? Depois de um tempo, resolvi ligar de novo, agora para os amigos, pedir ajuda, desabafar. Prestativos, alguns; indiferentes, outros, mas acabei recebendo alguma ajuda. Prontificaram-se a procurar em hospitais e delegacias de polícia. E assim passou o segundo dia. À noite, alguns amigos apareceram. Tinham revirado a cidade. Nada. Sugeriram que eu tentasse dormir. De manhã, se nada acontecesse, um deles prometeu me levar ao IML, Instituto Médico Legal. Olhei-o com ódio, ele não percebeu. Ainda bem. Não tinha culpa. Queria ajudar. Tentei comer. Não consegui. Tentei conversar com um ou outro que ainda ficara para me consolar. Não consegui. Sozinho, acomodei-me de novo no sofá, ao lado do telefone, ouvindo o eco da casa vazia. E acompanhei o lento esmaecer da luz do poste com a chegada da manhã. E então, alguém ligou, dizendo que eu me arrumasse e me vestisse, que passaria para me pegar dentro de uma hora. Foi quando subi para me lavar, barbear e liguei o rádio do banheiro, que estava tocando um concerto de Chopin. E agora ela estava ali, na minha frente, os dentes brancos entre os lábios vermelhos, o olho azul mais brilhante ainda que da última vez que os fitara, o rosto levemente maquiado e fresco, como o de alguém que acabara de acordar, feliz da vida, lépida, livre e linda. Aquele rosto tão perto do meu. Aquele colo branco ao alcance de minha mão. Queria beijá-la, queria apertar aquele pescoço e fazê-la gemer de prazer, como sempre gemia, em nossos rompantes de amor, adorava que lhe apertasse o pescoço antes do orgasmo, e gozávamos juntos, entre gritos e gemidos, e aquele longo e branco e delicioso pescoço a oferecer-me de novo o paraíso, o paraíso que trilhávamos juntos, loucos, cães vadios em ruas desertas, em turbilhões de sentimentos e mistérios revelados, epifanias de paixão, nós, fundidos numa via láctea de prazeres, e então eu só me lembro de haver acordado sei lá quanto tempo depois, com o barulho da porta lá embaixo sendo arrombada, e ela estava ali, o pescoço aberto, o sangue coalhado e espalhado em poças por todo o banheiro, tudo, tudo vermelho e eu... só me lembro que me barbeava ao som de Chopin.





31.3.2013

(Ilustração: Piet Mondrian - Composition with Dark Colours, 1919)


(Você pode ouvir esse texto, na voz do autor, seguindo este link de podcast: