11 de dez de 2017

odeiem-se




(Escultura de Albert Gyorgy, nature,eternelle)



odeiem-se uns aos outros

odeiem-se visceralmente

profundamente odeiem-se



mas assim como cada um não deseja morrer ou ser morto

respeitem-se uns aos outros

que no respeito enfim encontrem

não o ódio visceral com que se olham

mas a esperança de sobreviverem como seres humanos.







25.11.2017

10 de dez de 2017

não se matem



(Paula Rego)




não se matem uns aos outros

que o não se matarem garantirá

não a vida eterna no céu do profeta

com as tais setenta mil ou oitenta mil

ou sei lá quantas mil virgens

mas que o teu neto te beije um dia o rosto

e ilumine a tua vida miserável

com a inocência de quem não sabe

nem o que disse o teu profeta

nem o que são sei lá quantas mil virgens



25.11.2017

7 de dez de 2017

mendiga poesia




(Konstantin Somov)





nem musa tem a minha poesia

vestida com trapos que encontra no varal

nenhuma pintura atavia

seus olhos sem maresia e sem sal

olha a vida como ela é

caminha pela areia descalça e mendiga

e mesmo se lhe doem os cascalhos no pé

não espera quem lhe diga

qual o caminho a seguir

vai em frente como qualquer caminheiro

lambendo nas pernas cada ferida

que lhe cobra o caminho cada espinheiro

nunca se dá por vencida

a minha poesia

renasce a cada dia

e caminha sozinha

trêfega e mais empobrecida

e se antes mais sofria

agora caminha mais embevecida

pela estrada sem rumo e sem norte

vencendo em cada passo

um desejo de dor e de morte

23.11.2017






6 de dez de 2017

ócio de amor





(Georg Emanuel  Opitz)




num oco qualquer, em qualquer lugar do mundo,

te espero sonhando, porque te espero dormindo;

mesmo que venhas no passo da brisa,

enquanto não chegas, preparo meu corpo

com a calma e o talento das ondas mais mansas,

colhendo enredos de doces mistérios

que prometes em teus enleios, quando chegares;

não venhas tão rápido, amada, que o tempo

de anseio deve alongar-se como se alonga

pela praia a sombra do luar; e quero,

quero muito antecipar teus suspiros

no farfalhar das folhas do teu caminho;

quero poder ouvir-te ao longe, no horizonte

da floresta, porque, devagar, felinamente devagar

deves tocar as pedras do caminho, que não te firam

os pés os seixos, nem os espinhos;

no devaneio da brisa, no canto do pintassilgo,

preguiçosamente te espero e preguiçosamente

deves enredar-me quando chegares

para que o nosso amor - sem nenhum espanto -

seja serpente em doce elegância de abraçar,

e goze, lento como o lento marulho do mar,

lento, como lasciva foi a formação da terra,

e tenha, depois, o doce cansaço do canto

de carros de bois subindo a serra.



14.9.2012/4.11.2012/29.11.2012




5 de dez de 2017

teologia





(Jeff Faerber)





tu me dizes que tatuaste em tuas coxas

versículos da bíblia do velho testamento

então ao primeiro ensejo recito cada um deles 

até chegar ao teu novo testamento

e gemes como na cruz o teu profeta em gozos mil 

ele que só com madalenas celebrava



tantas vezes ali recitei minhas orações 

ali tantos cultos realizei em contrições

tantas penitências fiz ali pelos meus pecados

lida e relida toda a tua bíblia em teus enleios

que me considero hoje eminente teólogo

formado e diplomado na catedral úmida dos teus anseios





14.1.2017




4 de dez de 2017

tempos de neblinas densas








aguardava ansioso cada número do pasquim

os tempos eram de nuvens negras e neblinas densas

mas o pasquim brotava nas bancas como lírios no brejo

as almas se iluminavam às tochas de uma procissão lúgubre de um cristo morto

as celas da amargura cultivavam modelos grotescos

de tempos passados

de tempos de galileu galilei

e eu aguardava esperançoso que as páginas do pasquim

trouxessem brilho de lua cheia àquela eterna sexta-feira

talvez um dia a vida se recuperasse como os lírios

que guardam no brejo seco em tempo de estiagem

os bulbos da vida que renasce sempre à primeira chuva da primavera




15.4.2017



3 de dez de 2017

tempo sujo



(Kris Kuski)






era um tempo tão sujo

de dias tão cheios de lixo

de bueiros tão entupidos

de cheiros tão nauseabundos

que restos de sujeira permaneceram no ar muito tempo depois

ainda estão por aí a sujar nossos passos quando andamos pelas ruas

a ferir nossos narizes quando tentamos aspirar um ar mais puro



era um tempo tão sujo

de ações tão monstruosas

de ratos saindo dos esgotos

de águas fétidas e paradas

que ainda hoje há quem sinta no ar aquele mesmo cheiro pútrido

que ainda há quem pense que pisamos em calçadas enlameadas

o vento que sopra dos mares ainda tem o mesmo cheiro de peixe podre



sim foi um tempo muito sujo

de botas de merda na garganta

de cabrestos e arreios e esporas

quando o calar-se era tudo

e esse tempo deixou marcas em alimárias que alimentam o medo

e esse tempo arrancou peles que ficaram pelos caminhos desnudos

e esse tempo o tempo de tempestades não amainou as lembranças



se quero portanto um outro tempo

se queres construir uma nova estrada

se queremos enfim a esperança

deixem que as águas dos rios transbordem mais uma vez

fazei que as marés invadam as praias e tomem as escadas dos palácios

protestemos contra o peixe podre que querem fazer que engulamos





se quereis enfim dias de sol

estenderemos os lençóis manchados de sangue nas sacadas e quintais

arrancarei com os dentes as ervas daninhas que crescem nos jardins

carpireis as dores e as gramíneas para medrar do solo os girassóis



do tempo dos dias sujos

pretendamos o registro

de que fiquem no passado

mas não saiam da lembrança

para que a chuva da primavera

faça crescer a força da luta

e que todo sangue daquele tempo derramado esteja em nossas veias

e renasçam no campo as raízes de mangueiras onde cantariam os sabiás





12.6.2017




1 de dez de 2017

velha mangueira




 (Paul Bond)




quando menino

gostava mesmo de subir em árvores e ficar lá em cima olhando a vida

a mangueira de frutos redondos e casca fina e cor de rosa

tão difícil seu tronco enorme seus galhos frondosos

a última fronteira

a última árvore do quintal a ser conquistada

a mais desejada

um dia a perna alcançou os galhos acima dos troncos

e os braços finos tiveram força para suspender o corpo franzino

e lá fui eu menino

a subir e subir a montanha verde até chegar ao acolhimento

alta

enorme

pujante

de seus galhos mais altos podia-se ver o mundo o meu mundo

acolhia meu corpo suas bifurcações caprichosas onde me sentava

e lá ficava por horas e horas contemplando o nada

foi no alto dessa mangueira de proporções tão grandes

que pendurei meus sonhos e meus anseios

no lugar de cada manga que colhia com minhas mãos

disputando com sabiás e bem-te-vis o privilégio

de colher os frutos mais tenros

meus sonhos e anseios ficaram lá

nem sabiás nem bem-te-vis ousaram bicá-los

no respeito mútuo do menino que um dia jurou

nunca mais usar o estilingue para matar passarinho

se os passarinhos não bicassem meus sonhos e anseios

pendurados na mangueira e apenas os levassem pelas estradas de minas

espalhando-os quem sabe por aí para nascerem e crescerem e frutificarem

como mangueiras à beira dos caminhos

os passarinhos tanto cumpriram o que prometeram

que meus sonhos e anseios

levados por seu canto e suas asas

espalharam-se pelas estradas do mundo como sementes ao vento

e foi por causa do vento e mais que o vento as tempestades

com que o menino não contava que havia no mundo

que esses sonhos tanto se espalharam que ficaram todos

pelos caminhos do mundo ao sol à chuva aos ventos aos raios

e os sonhos e anseios que deviam ter frutificado

pelas minhas estradas e pelos meus caminhos escolhidos

mal brotaram e logo se estiolaram cobertos todos pela erva daninha

sobrevivente crestada ao longo dos caminhos de meninos

que um dia penduraram sonhos em seus galhos a mangueira

não o podia imaginar o menino tão forte e tão pujante

não sobreviveria à sanha de machados de lâminas de ouro



30.10.2017




30 de nov de 2017

pelas ruas do jabaquara



(Avenida Jabaquara, São Paulo/SP: fotografia de 1928)







perambulo pelas pirambeiras do jabaquara

suas ruas tortas de calçadas com degraus

caminhos esburacados de negros passados



vou só comigo mesmo deixando a cada passo lento e largo

as marcas de uma saudade que vem de longe

cada gota de suor de meu rosto pinga uma lembrança

de tempos outros de um menino que teima não crescer

dentro de mim e os passos perseguem rumos que não tracei

para minha vida perdida pelas pirambeiras pétreas do jabaquara




7.5.2017

29 de nov de 2017

sonho





(Pablo Picasso)



uma noite qualquer de verão quando tilintavam estrelas no brejo

e os grilos cantavam sob as tábuas podres do assoalho da sala

o sonho subiu à sua cama e deitou com você sob o fino lençol

arrepiou suas costelas tocou o seu sexo e alisou seus cabelos

assenhoreou-se de seus desejos mais intensos e olhou bem fundo

no fundo de seus olhos que refletiam a febre de seu coração

aspirou o ar de seus pulmões e possuiu o seu encanto

sem lhe pedir licença e sem ao menos tentar um gesto de conciliação



você fechou as pálpebras e entregou-se a ele num assentimento

de cordas de violino ao arco que domina e as faz vibrar

sem nada pedir que não fosse o sossego infindo de ver estrelas

sob as mangueiras o verme rastejava em busca de sua língua

e os pássaros bicavam frutas azedas dentro de ninhos escuros

as vozes da noite vinham em arremedos de contágios e angústias

e o sonho arrebentou todos os segredos que você guardava

e num gesto supremo de prazer e pranto você nunca mais

desenhou estrelas em capas de livros nem desejou o fruto maduro

que o pássaro afoito deixou cair sobre seu leito vazio


12.9.2017


28 de nov de 2017

quilombos




(Sítio da Ressaca - Jabaquara, São Paulo/SP)




lento o tempo quando vento ameniza

e em brisa transformado reveste a pele

de arrepios desveste o pólen revisitado

da abelha a estrela ao longe entorpece

o riacho que corre logo abaixo da estrutura

de ferro e cimento por onde escorre o sangue

dá ligadura ao espaço que outrora servia

o braço escravo a escavar a rocha e ancora

a serventia do navio no jardim o cravo

que brota a rosa que perfuma a profunda grota

o mar que espuma o navio fantasma a lavra

o sangue negro o povo exangue a palavra

não basta não chora mais o poeta emplasta

o chão de versos no espanto o meu pranto

não aplaca o tempo ao vento o sítio da ressaca


5.8.2017



27 de nov de 2017

mundo novo




(François Boucher)




ventem-se todos os ventos

chovam-se todas as chuvas

sofram-se todos os dissabores

afoguem-se todas as esperanças

o coração continuará batendo

os olhos permanecerão acesos

os pés chutarão as pedras

o tempo virá para cada um

trará o acerbo conhecimento

a vida eliminará o caminho

nascerá assim o mundo novo

quando as armas permanecerão na forja

e as balas serão confeitos de padaria







7.1.2017

26 de nov de 2017

tu





(Eliseu Visconti) 




impregne minha pele o teu perfume

construam rotas no meu corpo os teus beijos

sejam de veludo os passos que deixares em minha vida

quero o teu cheiro

quero as tuas marcas

quero os teu caminhos

impregnem minha vida os teus sentidos

construam pontes sobre o meu desejo os teus anseios

permaneçam nas minhas veias os teus sucos

quero os teus fluidos

quero os teus suspiros

quero os teus futuros

trafeguem os teus orgasmos por minhas muralhas

mudem-se em fontes os meus abalos e incertezas

transcendam em suores nossos momentos e prazeres

quero de ti

o profundo sentido da vida

quero de ti

o profundo sentido do amor

serás o orvalho que alimenta a semente

serás o espaço preenchido do vazio da minha vida

e só o que poderei deixar-te são esses versos tortos


1.9.2017



25 de nov de 2017

vida humana





(Artemísia Gentilesch - Jael and Sisera)




viaja a vida humana no tempo e no espaço

pulsando nas veias e no bater de compasso

do coração e nas sinapses de raio

do cérebro o corpo correndo como um cavalo baio

pelas campinas e vales que levam à morte

viaja a bala no tempo e no espaço de sul a norte

impulsionando as ondas de ar e de fogo

do cano ao corpo humano como num jogo

em que não há campos nem vales no trajeto

e quando na noite tudo está parado e quieto

a vida humana não vale o chumbo que ela carrega

no tempo e no espaço ocorre a derradeira entrega





15.7.2017



24 de nov de 2017

um assassino






(Edvard Munch  (1863-1944, Norway) - L Assassin; 1910) 




há um assassino à solta



a criança que corre

atrás da bola

tropeça e cai



há um assassino à solta



a moça de tiara folheia

no banco da praça

a revista de moda





há um assassino à solta



a senhora de bengala para

um instante e olha

se vem carro



há um assassino à solta



o entregador de pizza

confere o endereço

antes de apertar a campainha





há um assassino à solta



o pedreiro estende o fio-prumo

e assenta o último tijolo

antes de ir para casa





há um assassino à solta



o jovem empresário aciona

o portão automático

da garagem e buzina



há um assassino à solta





há um assassino

um assassino

assassino

à solta

o assassino





22.3.2013

23 de nov de 2017

mistério da poesia




(Gustav Klimt _-_Wasserschlangen)







sinto o mistério da poesia na ponta de meus dedos

quando bato nas teclas do computador

letras que formam palavras

palavras que formam frases

frases que formam poemas

poemas que desvendam meus medos



sinto o mistério da poesia no fundo de meus olhos

quando vejo o mundo ao redor

o azul do espaço

tons de verde de heras e arvoredos

irisadas asas

peles que brilham



sinto o mistério da poesia quando ouço o riso de meu neto

sinfonias de beethoven

o choro do arroio ao vento da montanha

o pio da coruja e o marulhar das ondas

os passos na areia



sinto o mistério da poesia quando o vento traz perfumes de jasmim

de café quente com broa de milho assada em fogão de lenha

o cheiro de terra à primeira chuva da primavera



sinto o mistério da poesia quando em minha boca a jabuticaba

tem o mesmo gosto dos sumos do teu corpo

onde o doce amargo se desdobra em sal

e o prazer tem rugosidades de laranja em calda



e se me perguntas o que é poesia

sei apenas que cultivo o mistério

provo de seus encantos

desespero de seus desencontros

misturo-me aos prazeres sentidos

para achar em cada palavra que escrevo

não a poesia que se me escapa

mas a vida que vibra em mim

apenas porque tu existes



14.11.2017










22 de nov de 2017

envelhecer





(Armin Mersmann - hyperrealistic eye)



envelhecer é pois colocar o ato de urinar

como o fato mais importante da vida

os sabiás cantam mais e melhor durante as madrugadas

cheiro de flores lembra hospitais lotados

o espaço e o tempo unem-se afinal como disse um cínico

que se uniriam o decote e a barra das saias das mulheres

talvez os ventos que sopram mais fortes

tragam tempestades noturnas

ou chuvas de granizo pelas tardes inúteis

paredes úmidas provocam rinites

enquanto se espalham pelo ar putrefações de cemitérios

o doce delírio em compotas amargas

faz do tempo de hoje o esboço do passado

jogam-se dados à sombra de alamedas

forradas de flores de azáleas

a morte espreita sob os bancos dos jardins

ah as madrugadas insones de tantas incursões ao banheiro

sente-se rondar o perigo quando as tardes de futebol

do domingo perderam afinal a graça

os dançarinos deixaram de olhar-se nos olhos

no tango horizontal de camas redondas em sórdidos motéis

há cheiro de adeuses nos frutos da pitangueira

noites inúteis noites de olhos espantados

talvez seja só isso a vida e nada mais



11.11.2017




21 de nov de 2017

bloco concreto



 (Piet Mondrian)




um dia de garoa sem garoa

desprendeu-se de um espigão na avenida paulista

um big bloco concreto

bem no meio do caminho

bem no meio da passagem das pessoas

lá ficou o blocão desprendido

que foi medido

e conferido

observado

e fotografado

chutado

e xingado

comentado

e elogiado

cuspido

e escarnecido

por bancários e banqueiros

por funcionários públicos e escriturários

gente pobre e gente rica

jogador de futebol e padre de batina preta

até o cãozinho da madame não se furtou

a um xixi rápido de perninha levantada

tudo inútil

no meio da passagem das pessoas o blocão concreto

o bloco concretão

até que alguém

talvez um prefeito

um alcaide cioso de sua cidade

um vereador querendo publicidade

um dono de banco preocupado com a passagem obstruída

impedindo o livre tráfico do seu dinheiro

sei lá quem

alguém

foi lá e empurrou não sem muito esforço e com a ajuda

de um trator

o danado do blocão concreto

para um canto da avenida

que não estorvasse o dia a dia da cidade

na avenida dos paulistas da garoa



a garoa sumiu

o corinthians ganhou o campeonato

o padre jogou fora a batina preta

os casarões foram demolidos

mais espigões foram erguidos

o povão empobreceu e depois enriqueceu

e tornou a empobrecer

e até mesmo se acostumou

ou mesmo nem viu ou nem mais percebeu

que lá ficara o blocão concreto

o bloco concretão

ao vento

à chuva

à poeira dos carros

à poluição dos fumantes

servindo de vez em quando de púlpito

para o pregador de bíblia na mão

e lá o blocão concreto

em seu canto todo quieto

sem nada nem ninguém

que o cobrisse ou cobrisse

suas vergonhas

de vez em quando alguém

chega até ele

limpa um pouco o seu limo

tira umas fotos

publica no jornal

reclama no facebook

que paulista não tem memória

e fica tudo por isso mesmo



o blocão

não sai do lugar

não fala

não tuge nem muge

ou se tuge e muge

ninguém vê

ninguém ouve

fica lá

mudo e surdo

cego e tonto

como um blocão concreto deve ser

para sempre

sempre

sempr

semp

sem

se

s

.

.

.

sem saída



24.10.2017










20 de nov de 2017

povo preto





(Makiwa Mutomba - Zimbawe)





funéreas vidas de meninos e meninas pretos os olhos de fuligem

de querosene a poesia branca preteja e procura o próximo capítulo

escrito nas pegadas da areia negra a página em branco tem pintas

pretas que nada dizem faço poesia de branco e penso no povo preto

do meu país penso em áfricas perdidas sonhos palacetes de palafitas

provisórias sobre rios de merda e lodo o rádio tocando uma sinfonia

de mahler frère jacques a marcha fúnebre transporta meu pensamento

de joão joaquim para a jaqueria meu povo preto jamais jogou no time

dos jacques afogado que foi em sangue jorrado de sob o chicote branco





13.5.2017









19 de nov de 2017

SOLIDÃO, CONHECE-A?



(Pablo Picasso; absinthe drinker)





Sabe a solidão? Aquela coisa

que nos paralisa quando

bate no peito

e nos deixa no chão

como se de repente desfeito

em nada, em dor, em tristeza,

arrebenta o pobre coração

e com destreza destrói

cada fibra, cada veia? Pois, é:

a solidão!

Fria, invisível,

insensível como as cordas

de um violão,

um violão esqecido num canto,

coberto de folhas mortas...

É, essa mesma, a solidão

que você conhece e despreza,

aquela que frequenta os versos

de poetas e de candidatos a poetas,

como toda musa que se preza,

é ela, sim, que aquece

a chama de nossa derrisão...

A velha, boa - e maldita -

solidão: o estar mais só

do que num túmulo,

aquela que não tem dó

de nossas possibilidades de angústia,

e aperta na garganta um nó

que não desata,

musa discreta e barata

a tingir de cinzas o dossel

sob cujas franjas nos acolhemos,

a solidão, sim, a solidão,

essa mulher que nos toma

em braços e enlaços e embaraços

para jogar-nos numa espiral

de vento, de pó, de nada...

essa a solidão de que falo,

essa a solidão que a todos maltrata...

tenho-a em alta conta, sim,

mas não dentro de mim,

que convivo muito bem comigo

e não a convido nunca

para o meu festim...


(26.7.2012; 30.7.2012; 13.10.2012)