21 de ago de 2017

deuses mortos



(Salvador Dalí)





tudo o que vem de deus e seus asseclas

tem cheiro de rato morto



no porão da consciência humana

deus tece pesadelos para escravizar seus seguidores



não há janelas nem claraboias

que iluminem a mente de um deísta



cegos e idiotas são todos aqueles

que leem livros sagrados

e acreditam em suas palavras



não no inferno queimam os infiéis

mas nas ventas do deus vingador

que ergue espadas estúpidas

para degolar seus opositores



na crença de paraísos perdidos

perde-se a humanidade transformada

em seres monstruosos



matam-se por hóstias ou por blasfêmias

e o cheiro de rato morto

sai da boca de deus misturado

às fezes dos pecadores enforcados



se existisse

deus seria um velho cagão

cego por glaucoma

a bradar de ódio contra todos os homens e todas as mulheres

impotente para destruir a humanidade que criou

a rugir como um leão sem juba

para o infinito de galáxias que se criam aos punhados

dentro do buraco negro de seu divino cu



mas deus não existe e eu posso dizer tudo isso

para a ira dos deístas que não se conformam

com a morte precoce de suas ilusões

não há infernos

não há paraísos

existe apenas o ódio mortal dos deístas

e sua furibunda e nauseabunda crença


3.11.2016





20 de ago de 2017

DESOLAÇÃO



(Linda Keeley; Desolation)





Os mortos estão mortos,

não precisam de nós, de nossas homenagens.

Fazemo-las por nós mesmos

Fazemo-las pelos outros.

Para que nos sintamos tristes e chorosos

e possamos nos dizer isso

a nós mesmos e a todos os outros.

Fazemo-las para que todos digam

"vejam como ele sofre pelo morto".

Mas o morto não sofre por mim.

Os mortos nem sabem que morreram.

Então, amigos que insistem em morrer antes de mim,

não contem com minhas homenagens.

Ficarei aqui, no meu canto, e a lágrima

será apenas uma gota de chuva num país chamado Desolação.







4.1.2015

18 de ago de 2017

obsolescência





(Salvador Dalí)



gosto de coisas duráveis

a obsolescência dá sobrevivência

a esse capitalismo que nos sufoca



gosto das coisas utilizáveis

à margem do tempo e do gasto



a obsolescência é a ferrugem do capitalismo

ferrugem que nos corrói por dentro

enquanto faz girar a roda dentada

que nos esmaga e transforma em rio vermelho

nossas possíveis esperanças de dias melhores



gosto das coisas duráveis

dos objetos que mantêm o brilho e a funcionalidade

além muito além das necessidades dos engravatados



odeio a ferrugem fabricada e inserida

em tudo quanto compramos e utilizamos

para a feliz opressão dos senhores das máquinas



gosto sim das coisas duráveis



das coisas feitas como os ossos que nos sustentam

brancos e puros após anos e anos na terra escura

coisas duráveis como as palavras dos poetas

válidas palavras que nos consolam pela vida

não o lixo fabricado por robôs

com data marcada para voltar ao lixo



gosto das coisas que duram como a vida

gosto das coisas que duram como os versos

gosto das coisas que duram como as palavras



17.7.2017



17 de ago de 2017

desejo de vida




(Chagall - la vie)




às vezes a vida vem ao vento

nas pétalas de uma flor

na semente de um fruto



mas também vem a vida aos olhos

na epifania de mundos descobertos

no interior mesmo de nossa mente



a vida não tem pejos nem lhe faltam ensejos

de explodir em galáxias distantes

ou de fluir no fundo do riacho calmo



sabe-se apenas que é vida o que pulsa

em cada célula de seres invisíveis

sob o manto de magma de vulcões

por sobre o borbulhar de gêisers



nada impede nasça e renasça

em cores em lamentos de buracos negros

no fundo do meu quintal ou em palácios

de longos corredores cobertos de pó



que seja a vida a esperança a brilhar

no fundo dos olhos da mulher desejada

não seja porém a vida a despedida

que a sombra deixa ao brilho da luz



6.5.2017

15 de ago de 2017

Amor e canivetes






 (Foto de a. não identificada)



Encontrei esta postagem no facebook, de minha amiga Érika Cardoso: “Quando vejo nomes de casais talhados em árvores, não acho ‘meigo’. Acho muito estranho que levem facas a um encontro amoroso!!!” 



O espanto de minha amiga, marcado pelos três pontos de exclamação... isso despertou em mim algumas lembranças e algumas considerações sobre o passado, o presente e o às vezes estranho mundo dos homens, esses seres que carregam consigo estigmas profundos de bondades e maldades em iguais proporções, a entrechocar-se sempre com o tal mundo das mulheres, também constituído igualmente de bondades e maldades, mas de teores completamente diversos. Talvez seja estranho, hoje, falar em diferenças entre esses dois mundos, quando o chamado “politicamente correto” pespega o rótulo de machismo a qualquer pensamento que saia um pouco de uma certa curva. E é dessa curva que eu vou sair um pouco, para tentar desvendar o “mistério das facas em encontros de casais”.



Uma breve história dos anos oitenta, quando lecionava em um grande cursinho de São Paulo: uma manhã, na sala dos professores, ao redor de uma grande mesa, no intervalo das aulas, batendo papo e tomando café, não me lembro por que motivo, saquei de minha bolsa de materiais escolares um canivete, daqueles canivetes suíços, de mil e uma utilidades, mas que não prestam para nada. Para minha surpresa, dos treze ou quatorze professores, todos homens, que ali estavam, quase todos fizeram o mesmo, para divertimento e risos gerais. 



Ninguém sabia explicar por que carregava seu canivete. Mas praticamente todos tinham um. Talvez herança de tempos em que portar um canivete era questão quase de sobrevivência: nos tempos antigos, lembro meu avô a picar fumo – com seu canivete, a descascar uma laranja – com seu canivete... Nem vou listar todas as utilidades do famigerado canivete, portado por praticamente todos os homens. O canivete podia até, em momentos de briga e ódio, servir como arma mortal, mas não era exatamente visto como arma, de defesa ou de ataque, era um instrumento de utilidade prática, de uso diário. E quando casais enamorados realmente se enamoravam, o namoro quase sempre escondido, pelo menos em seu início, quase sempre era marcado por encontros em jardins, em bosques, em parques, que os havia em grande quantidade por aí, talvez justamente para o idílio dos pares que se formavam às escondidas de pais furibundos e da moral rígida e hipócrita da época. Ocasião em que, entre juras de amor e beijos roubados – expressão apenas literária, já que ninguém acredita em sã consciência que se roubassem beijos, melhor seria dizer beijos trocados – o ritual amoroso praticamente estipulava que os casais marcassem na árvore mais próxima a data daquele amor e as juras que deveriam crescer ou permanecer enquanto durasse aquele tronco. Então, aí estava a maior e talvez a mais nobre prestação de serviço do canivete: nem se pensava em ataques ou crimes seriais, como hoje as crônicas policiais andam cheias, a justificar o receio de minha amiga Érika.



Não, não estou dizendo que os homens de antanho (sempre imaginei usar essa palavra estranha e fora de moda, numa crônica passadista) fossem mais gentis ou menos violentos, que crimes hediondos havia, sim, e muitos eram cometidos atrozmente contra indefesas mulheres – namoradas, noivas, esposas, filhas – pela sempre presente fúria de homens machistas e perversos, em muitos casos, no chamado sacrossanto recesso do lar. Mas o coração talhado na árvore – a canivete – não devia fazer parte desses temores, era apenas um momento em que essa fúria estava mitigada e transformada em símbolo de amor, de desejo, de promessas, mesmo que tudo isso se esfumaçasse depois, na metamorfose do romance e da paixão na atroz supremacia do marido macho senhor da vida e da morte de suas mulheres.



Hoje, que os canivetes estão fora de moda, que todos portam telefones celulares e outros badulaques, incluindo armas de fogo, realmente estranharia encontrar recém-talhado em algum tronco de parque o velho coração trespassado por uma flecha, com o nome dos enamorados e a data. As redes sociais, às vezes de forma cruel – quando fotos vazadas por pura maldade cumprem o papel de perpetuar uma vingança – estão aí, como árvores sem folhas, sem sombras, sem romantismo, para marcar de forma não tão indelével o encontro dos enamorados. Um canivete, ou uma faca, ou um punhal, seriam, sim, armas bastante suspeitas num encontro amoroso.



14.8.2017





14 de ago de 2017

derradeiro suspiro






(Pablo Picasso - dos figuras y un gato)




desencantou-se ao pólen a rósea flor

desfeito o mistério na neblina da retina

uivaram os cães à lua no seu magistério

da verdade que flutua em ondas de prazer

a flor se abre encantada ao pêndulo e ascende

o grito ao infinito apegada à face o estertor

o lábio roxo brilha o corpo todo fervilha

o pólen à flor se desespera pedinte ousado

abrindo pétalas forçando a espera como se fosse

o último cavaleiro a buscar o cálice supremo

no derradeiro suspiro ao prazer supremo



29.7.2017


11 de ago de 2017

confissão





(Brigitte Bardot - foto de a. não identificado)




quando criança sonhava em poder assistir

à diva nua no escurinho do cinema



quando o sonho enfim se quebrou

nas pedras de ruas tortas

e no asfalto de tantas estradas mortas

descobri o que sou

e de mim não tive pena



resta o sonho sempre

mesmo agora quando espero

que se recupere o meu juízo

e que sábio o velho de outrora

seja hoje o menino

que sonhava por pernas nuas



não tenho medo do que ainda me resta

desde que a vida me mostrou

que tudo o que me disseram não presta

se o sonho que ainda sonho se afogou



não importa o tempo de estrada

porque tudo o que ficou

resume-se a uma dor antiga

por uma pedrada que um dia

acertou um bem-te-vi

e tudo o que sou se resume a consertar

todas as dores que infligi

não só calando o pássaro da mangueira

mas principalmente calando em mim

a voz da vida sem eira nem beira

que - eu mesmo jurei para mim -

um dia eu teria



sei no entanto que tudo o que a vida dá

a estrada come

e tanto aqui como acolá

no mundo do sonho ou da razão

todos os homens querem que se tome

a vida pelo cabresto

como os bois no carro a gemer



e se o menino se encantava no cinema

com as pernas de uma loira qualquer

não vai ser esse novo jovem que teima

em tomar a voz da razão pela voz do voo

que irá reconstruir caminhos que não trilhei



porque ainda que o sonho venha em trapos rotos

tenho ainda e sempre por tudo o que do mundo arrastei

a força profana de uma floresta de brotos




2.2.2014



10 de ago de 2017

coisas simples da vida





(Marie Magère, Thé ou café ?)




coisas simples da vida – um café

bem quentinho – um doce

tudo como se o destino fosse

um ato fortuito de amor e fé

de que a esperança renasce

em cada gota de orvalho

num ato ás vezes tão falho

de trocar as cartas de um baralho

ou ansiar por que um beijo na face

seja o espanto de um momento

em que o café o doce enfim

tornem um simples contentamento

o ensejo de teu amor por mim



22.7.2017.



9 de ago de 2017

chega mais



(Gustav Klimt - the kiss)



chega mais ela disse aconcheguei-me em seus braços

foi assim que dormi feliz e acordei saudoso

uma memória feliz que refaz em mim a trajetória

de um tempo que passa num desabrochar de desejo

suave o tempo que para na memória dói no coração

tormentosos os dias em que a vida apenas transpira

sem nada mais que o movimento de ondas na monotonia da tarde

sob as eternas nuvens do tempo reconstruído num moinho de vento

sobrepõe-se o meu castelo a esse vento embrutecido

crestado pelo sol em arestas e reentrâncias de sombras e luzes

aconcheguei-me um dia ao colo lácteo que se arrepiava 

fechei meus caminhos por trilhas de peixes mortos

dormindo enfim na saudade de seus cabelos e de meus ensejos







15.4.2017

8 de ago de 2017

beethoven



(René Vincent-Viry - Beethoven)




tudo quanto bethoven escreveu tinha a marca do gênio

não do gênio humano

do gênio de beethoven

dirão alguns no entanto de suas dificuldades conhecidas

de seus achaques

da surdez que o atormentou

da surdez que lhe trouxe tanto sofrimento

beethoven surdo deixou de ouvir os sons do mundo

deixou de ouvir os sons da orquestra que ele regia

não deixou de ouvir os sons que havia dentro dele

a música que percorria seu corpo

reverberava em seus ossos

corria em suas veias

enchia seus pulmões

fazia bater seu coração

a música que acelerava todas as sinapses de seu cérebro

o cérebro de beethoven

o mais complexo computador musical que a natureza criou

beethoven surdo ouvia mais músicas que pudesse sonhar toda a humanidade

em qualquer tempo

em qualquer lugar

enquanto nós simples mortais sem o seu gênio contemplamos o mundo

e vemos nuvens árvores rios animais cidades invenções coisas enfim

o gênio olhava o mundo

e via uma clave de sol

e ouvia os sons

que vêm das estrelas

no início dos tempos

das profundezas das galáxias que existiam metamorfoseadas em sons

dentro dele

beethoven não era surdo

apenas não ouvia o que pensamos que seja música



29.7.2017

7 de ago de 2017

balada de la luna llena




(Foto de Flora Maria)




venho há muitos anos caminhando pela estrada da vida

nela encontrei tantos amigos quanto as pedras que ralaram meus pés

para eles só o que eu posso deixar é uma palavra tão pequena

que mal cabe nesta minha doce balada de la luna llena



vi morrerem tantos seres que amei quantos outros que odiei

mal cabe em meus sentimentos contar ou cantar a pena

ou a satisfação de deixar a todos minha balada da la luna llena



tortas as palavras tantas derramadas em versos tantos

pelas noites insones da solidão mais plena

quando baixava em mim a balada de la luna llena



de desencantos vivi pelas ruas tortas de cidades mortas

na esperança sonhei dias que não couberam na minha pena

mesmo quando compunha essa triste balada de la luna llena



faço de cada lágrima misturada à chuva que segue meus passos

a necessidade de mil abraços que tornassem mais serena

a busca inglória do ensejo de encontrar minha balada de luna llena



não sou triste no entanto nesse infausto mundo em que a paz

talvez esteja dentro de mim numa planície que se estenda serena

ao canto ardente que sai do meu peito como uma balada de la luna llena

também não sou alegre como parece cantar ao sol do meio dia

a risada estrondosa que espanta do meu peito a dor serena

quando desejava que todos ouvissem apenas minha balada de la luna llena



representam minha vida e meu canto com força plena

os versos tristes desta triste balada de la luna llena


29.7.2017




6 de ago de 2017

caminho




Gustave Caillebotte - Le Père Magloire sur le chemin de Saint-Clair à Étretat






há um caminho atrás de meus passos

como pergaminho desenredado

traços marcam cada tropeço

no areal de lágrimas lavado



quanto mais para trás se alonga

essa trilha de pedra e cal

mais ao alcance da mão

fica essa luz boreal

na qual imbrica meu destino

em desatino o vadio coração



se já não faz assim bom tempo

o tempo que tenho a caminhar

sem mágoas rolam os dias

como as águas ao vento encapelam



não há dor nem pranto

se levanto de cada tombo os olhos

dos esfolhos que me engambelam

com futuros que não terei



não importa se tudo o que sei

cabe no traço que deixo atrás

de cada passo desse caminho



se duro em cada pedra

em que tropeço

que saiba a jambo maduro

o travo de vida que me move

e tudo o que ainda peço

é que o passo seja firme

mesmo quando venta e chove


28.2.2014


2 de ago de 2017

batuque



(Wanderley Caramba- sambista e pintor)



“o dia se renova todo dia”

diz o sambista lá no morro

a poesia se recria em poesia

escrevo eu poeta em meu socorro

buscando a rima que não existe

e o passo marcado a compasso

de um batuque nem alegre nem triste





3.7.2017




31 de jul de 2017

águas que correm




 (Foto de Fátima Alves)





rios nos montes nascidos

filetes

fios de pérolas

se escorrem 

por preguiçosos leitos

encachoeiram-se em véus

dos céus os arco-íris

espalham-se 

sob florestas

fontes de nuvens

fontes de mares

águas que escorrem

em pedras e limos

formando caminhos

caminhos de vida

águas

águas

águas

vivas

em chuvas 

e cheias

em cheias

e limo de vida

que nascem finos fios

viram oceanos

rios que correm

rios que morrem

se não os amamos

se deles não cuidamos

rios de vida

rios de morte

nossa a escolha

se vivemos

se morremos

nas águas que correm

nos rios da terra

que descem da serra

filetes

fontes

riachos

ribeirões

rios

oceânicos rios

rios que correm

águas de vida

águas da vida



22.6.2016

29 de jul de 2017

autorretrato 3

(René Magritte) 





como pouco

bebo muita água

mijo muito

cago pouco

à parte isso

escrevo poemas

como quem vai morrer amanhã



na política sempre à esquerda

não uso gravata

não vou a enterros nem a casamentos

odeio cerimônias

ateu

profundamente ateu

convictamente ateu

irritantemente ateu



gosto de animais

não de cães

que eles

os cães

também não gostam de mim

e isso

de não gostar de cães

já está ficando repetitivo dizer



não sou de engolir desaforos

ouço-os pouco é verdade

felizmente

já que meu pavio é tão curto

quanto minha paciência

para ouvir bobagens metafísicas



gosto de música

quase de qualquer tipo de música

principalmente bach

beethoven e brahms

mas de bach não ouço nunca

sua produção dita sacra

odeio música sacra

mesmo escrita por meu amado bach

enchem de prazer os meus ouvidos

as bachianas de villa e de gozos os meus sentidos

as canções de billie holliday



ler é minha paixão

leio de tudo

de nietszche a bula de remédio

sei por causa disso uma ou outra coisa da vida

mas ainda muito pouco

muito pouco mesmo

para entendê-la minimamente possível



assim sou eu

ou uma parte de mim

já que se for escrever

tudo o que sou

tudo o que não sou

tudo o que gostaria de ser

tudo o que não fui porque não pude

e tudo o que pude ser mas não quis

teria que estender a mim um tapete

que me levasse à lua

ou talvez mais longe




27.2.2017

16 de jul de 2017

silêncio do poeta





(James Abbott McNeill) 




em silêncio, nasce um botão e transforma-se em flor;

em silêncio, seca a roupa no varau;

em silêncio, o sol vem e vai de nossos olhos

a cada rotação silenciosa da Terra;

em silêncio, o espermatozoide encontra o óvulo

e ambos, silenciosamente, formam um novo ser;

em silêncio, ouvia Beethoven os sons da Nona Sinfonia;

rasteja o verme no fundo da terra em silêncio

e em silêncio o mal consome o corpo;

por isso, em silêncio morre o poeta

e seus poemas são o seu único grito sobre a terra.


10.6.2015

4 de jul de 2017

sinfonia em dó menor



(Symphony Painting by Valerie Vescovi)







vida uma sinfonia que nasce ao solo de um oboé

grito estridente a chamar os finos flautins

afinada a orquestra entram violinos e violoncelos

tímpanos anunciam movimentos trágicos

violinos e violoncelos abraçam trompas

trompetes e todas as madeiras se encapelam

tudo freme em frêmitos e frenesis

longo o andante em dó maior e dores maiores

para enfim calarem-se todos os instrumentos

para o solo encantado da harpa num adagietto

o maestro descansa a batuta e vira-se

para a plateia vazia que responde com silêncio

à sinfonia justa de um tempo que passou

e eu confesso que não compreendo



estranhos os tempos de banhos e leites e tantos cuidados

a vida sem nenhum outro sentido que só o viver

o olhar atento a tudo a tudo absorvendo

bicho que chora que ri que esperneia que anda de gatinhas

o oboé silencia aos poucos para as primeiras palavras

e eu confesso que não compreendo



janelas se abrem para um infinito que cabe numa flor

num cão vadio pela rua num carro que buzina e não freia

a vida começa a ter contornos de prazer e dor

o vento que assobia aos ouvidos são os finos flautins

do lento amanhecer de estações que se sucedem

e eu confesso que não compreendo



o tempo enfim se conta ao som de violinos e violoncelos

sensações e espantos emoções e desilusões o outro

os outros a campina se abre em caminhos e obstáculos

sente-se o vento mas não se acomoda a ele e prossegue

tempo lento que passa numa rajada e fulge em branca luz

e eu confesso que não compreendo



a tragicidade do espanto se instala e o mundo é largo

não se luta tanto quanto se devia lutar e o mundo é largo

não se ama tanto quanto se devia amar e o mundo é largo

o tempo traz as trompas da felicidade que se compra

ali na esquina está a sombra que nos perseguirá

mais adiante o desejo que não se saciará jamais

homens e mulheres enlaçam-se em ritos de passagem

campinas antes floridas ao som dos violoncelos

estiolam-se e renascem mais adiante em flores

que também se estiolam ao sol ou até mesmo aos ventos

cada passo abre um caminho e o mundo é muito largo

constroem-se mistérios e destroem-se as pontes

vagam vazios os vagões vermelhos aos ventos vivos

os caminhos se cruzam e descruzam como centopeias

olham-se para olhos que não mais olham estampado o medo

cultivam-se rancores e amores e esperanças e o mundo é largo

vai comendo cada broto da árvore que se plantou há muitos anos

para um dia quem sabe construir o arco do violino e a palheta

de todas as cores de um arco-íris que devia ter rompido o céu

depois de tantas tempestades e que se despedaçou no deserto

cacos de vida que não se juntam mais e o mundo é largo

e eu confesso que não compreendo



lento o passo ao som do adagio de uma harpa que marca

o compasso em escala descendente para um dó menor

a dor maior dos olhos baços e do caminhar angustiado

contando o compasso a cada passo a cada laço

de que pendem das árvores do caminho as sombras

que marcaram a areia e deixaram o rastro para ninguém

e eu confesso sim confesso que nunca compreendi

que não compreendo ainda e que nunca vou compreender


30.6.2017





22 de jun de 2017

cantiga de amor




 (Cecily Brown)




atrás da igreja matriz

no banco da praça

no gramado do jardim

na areia da praia

atrás da tipuana

na cama do motel

na mesa do jantar 

no banco de trás

na escada do prédio

na beira da piscina

na sombra da lua

ao sol do meio dia

de manhã 

de tarde

de noite

a qualquer hora

quando você quiser

quando eu pedir

me abrace

me aperte 

me beije

me despe

me lambe

me chupa

me fode





22.1.2017




20 de jun de 2017

dia de preguiça



(Van Gogh - A Sesta)






hoje não, amor,

que é meu dia de preguiça



sim, eu sei do que tu gostas

eu sei bem como tu gostas

e daqueles jeitos todos

tu me dás, depois, muito cansaço



então, hoje não, amor,

que meu dia é de preguiça



sim, eu sei que promessas

foram essas,

que beijos foram despregados

e grudados

e tudo o mais

mas, e depois, amor, e depois?



não, é melhor não, que hoje

é meu dia de preguiça



gosto, sim, amor, quando tua

língua me percorre, quando

tuas umidades me esquentam

quando nua

te abres e te abandonas,

mas, enfim, hoje

não que eu não queira

não que eu não deseje

mas, enfim, é sim, meu dia

meu dia de preguiça



e por ser hoje o meu dia

de preguiça, vem aqui perto

e deixa

que eu te veja, apenas,

que te olhe

que me molhe

só com o pensar

sem tocar,

sem outro tesão

que o dos olhos



claro, amor, amanhã

de manhã, talvez

mas, sim, com certeza,

com absoluta certeza,

amanhã à tarde,

que hoje...





hoje é meu dia de preguiça

19 de jun de 2017

caminhada




(JULIA CUDDLEWELL)




toquem meus pés a terra seca da caatinga

ou as areias escaldantes do sudeste

toquem minhas mãos os espinhos do mandacaru

ou as pétalas suaves do copo de leite

toquem meus lábios os lábios molhados

ou as rugosas arestas secas da caverna escura

são todos os meus ensejos o que espero

alcançar com os ventos os arrepios teus

voar acima dos desejos mais perturbadores

e atingir enfim nirvanas de prados eternos







14.1.2015