20 de out de 2017

quarta lei da convivência




(Bernard Buffet (1928-1999) 





artigo primeiro



fique banida para todo o sempre de todas as mentes

a ideia de que a humanidade se divide em raças



artigo segundo



misturem-se ou não se misturem as cores

de todas as peles e todos os olhos

que se olhe com o olhar de qualquer cor

apenas o ser que está dentro da pele



parágrafo único



o direito de se ter uma cor de pele é inalienável


25.9.2017




19 de out de 2017

não importa




(Dylan Thomas by David Griffiths) 




não importa se leio ou não dylan thomas

ou qualquer outro poeta do non-sense

o que rola nas veias da morte nem sempre

requer da vida o que a poesia revela

são talvez loucos ou insanos ou apenas desgostosos

os que caminham por veredas inconcebidas

na busca do conhecimento ou do entendimento da vida

sábios mascarados já dançaram e se queimaram

em fogueiras mais ardentes do que as da inquisição

souberam através do espinho de fagulhas amargas

explorar em si mesmos os abismos da sensibilidade

e morreram em seus leitos de rosa exarando enxofre

de infernos em que se não acreditavam por serem 

como todos os infames desse mundo mendigos

para sempre esfoliados de seus direitos

cavaram com suas mãos em forma de garras

as galerias eternas por onde escoa o sangue grosso

e pútrido de sementes de vingança e desespero

não importam portanto os versos de dylan thomas

nem as diatribes de poetas malditos e enfermos

que a vida de novo reflui em gotas de pólen

trazidas pelo bico do beija-flor e depositadas

como um último alerta sobre a pedra tumular

do último poeta a cantar a liberdade e morrer por ela





18.3.2017

18 de out de 2017

nós da esquerda



(Bernard Buffet (1928-1999) 1958:os amantes)







num caminho banhado de luar de maio

cavaleiros e cavalos vão ao chão

quando a chuva de granizo atinge a cavalgada

bem no meio da longa caminhada



nós da esquerda só queremos trepar em paz

em lares estáveis de cimento e pedra

nossos cavalos têm patas de osso e luz

que pisam fortes nas pedras do caminho

não têm nossos cavalos de crina azul

proteção de santo contra raios e granizo

quando surpreendidos em caminhos banhados

de luares de abril em plena cavalgada



nós da esquerda só queremos trepar

no colchão de plumas com quem escolhemos para morar



na paz das chuvas de verão ou ao luar de setembro

depois de muito caminhar pelas estradas enlameadas

só queremos trepar em paz nós da esquerda

que não nos aporrinhem as tempestades de verão

nossa eterna primavera só acontecerá

longe de minas escuras e de campos de forçados

nem heróis nem santos nem caminheiros

apenas à luz de nosso próprio querosene

olho no olho corpos entrelaçados

a desfazer gozosos nós em nossos gritos

cavaleiros e cavalos num só trote pela estrada

banhados ao luar de prata de nossas primaveras



é isso o que queremos nós da esquerda apenas trepar em paz



17.4.2017




17 de out de 2017

não temas




(Francisco de Goya - las brujas)




não temas as sombras da noite

as almas penadas gemendo em fundos jazigos

não temas os passos perdidos

de caminheiros solitários à luz da lua

o silêncio traz apenas o aguçar dos sentidos

nunca o tiro que alucina

ou o brilho do aço no peito desprotegido



se o vento e apenas o vento varre a rua

estão em paz os corações dos homens



não temas a noite e seus seres solitários

a esperança e o desespero não se irmanam

quando o espaço entre o teu medo e teus olhos

abrem abismos nos teus sonhos e pesadelos

contempla a treva do teu próprio desespero

cultiva o desvario das estrelas insondáveis

enquanto ainda correm sangue e húmus em tuas veias



22.9.2017



16 de out de 2017

o menino




(Paul Cadmus - The Shower ;1943)





ele era um menino que dava

dava e gostava

dentre os cinco da turma que eles formavam

de moleques travessos em busca de qualquer coisa

ele era o único que dava e gostava

os outros da turma também davam no troca-troca

que era a lei

que era a regra

entre os cinco meninos em busca de coisa nenhuma

mas nenhum deles gostava de dar como ele

e então propôs

já que os outros não gostavam

que só ele desse

todos concordaram que só ele daria a partir de então

combinaram o revezamento

o menino que gostava de dar dava com gosto todo dia

menos aos sábados e domingos

quando a turma não se reunia para os folguedos

e cada um curtia o tempo com sua família



o menino que dava

dava gostoso para todos

já que só ele é que dava e gostava

viviam todos felizes

os cinco meninos ainda impúberes da rua de baixo



até que um dia se mudou para a rua de baixo

uma nova família

os novos vizinhos tinham uma garota da idade mais ou menos

dos cinco meninos que viviam felizes em seus folguedos

logo a curiosidade os aproximou da linda garota

da nova vizinha da turma da rua de baixo



companheiros ficaram e logo dos cinco meninos

quatro por ela se apaixonaram

menos o menino que gostava de dar

que esse era mesmo apaixonado pelos quatro

que agora caíam de quatro pela nova vizinha



com o tempo e a camaradagem logo descobriram

que a menina bonita de pequenos seios a surgir das blusas brancas

também gostava de dar

e dava igual ao amigo que gostava de dar

exatamente igual

comemoraram todos os quatro amigos menos o menino que dava



do grupo de cinco agora eram seis e dos seis

dois gostavam de dar

o que para os quatro era como ganhar uma partida de futebol

dos meninos da rua de cima



assim viveram algum tempo em plena harmonia

mas o tempo de amigo virou inimigo e transformou aquele sexteto

num grupo de disputa e briga já que os quatro que não davam

estavam apaixonados pela menina que dava

tão apaixonados estavam os quatro que começaram

a ficar com ciúmes uns dos outros

quebrou-se o encanto entre eles e pau quebrou entre eles

todos queriam exclusividade com a bela menina de seios pequenos

todos queriam que a menina que gostava de dar

desse só para ele e para ele e para ele e para ele

ninguém queria divisão todos a queriam só para si



reuniram-se no fundo do parque para decidir

quem ficaria com a menina que gostava de dar

entre gritos e socos e pontapés saíram todos arranhados

envergonhados e sem nenhuma decisão

ou melhor

resolveram que ela decidisse com qual deles queria ficar



chamaram os quatro a garota sem o menino que gostava de dar

colocaram para ela o dilema com quem gostaria de ficar

a menina que gostava de dar não gostou nada daquilo

olhou cada um com um triste e pesaroso olhar

decidiu que se não podia ficar com os quatro

com um só deles jamais ira ficar



de novo discutiram de novo brigaram

e depois juraram

nunca mais falar um com o outro inimigos para sempre

aquelas birras de garotos que começam para nunca acabar

desfez-se o grupo antes tão unido em torno

do menino que gostava de dar

foi cada um para outro grupo sem nunca mais se olhar



a menina que gostava de dar nem ligou

logo logo com outros meninos se enturmou



ficou sozinho e triste sem qualquer outra turma para dar

o garoto que gostava de dar

gostava de dar para os quatro amigos que nunca mais

nunca mais o procuraram

desfeita a turma

desfeita a amizade

esqueceram o amigo que tanto deles gostava

que tanto os amava e para eles apenas gostava de dar

e o menino triste ficou

no seu canto de menino sem amizades

pássaro engaiolado em suas vontades e desejos

e mais do que preso em desejos e vontades

preso para sempre à fidelidade dos amigos

dos amigos que o abandonaram por uma briga qualquer

uma briga de tolos por causa de uma garota que dava

uma garota que dava e que nem era ainda uma mulher




15.9.2017

15 de out de 2017

terceira lei da convivência



(August Macke - bright walk)




artigo primeiro



que se respeitem os deuses

apenas até a soleira da porta

e do pensamento

de cada um que neles creiam



artigo segundo



que todos os templos se fechem

por ordem do próprio deus

cansado enfim de tantas asneiras

feitas e faladas por seus falsos profetas



artigo terceiro



a fé de cada um seja a fé do íntimo de cada um

sem manifestações públicas

sem templos e sem doutrinações

sem dinheiro para seitas ou sacerdotes



parágrafo único



revoguem-se os preconceitos todos que se baseiem

na crença da existência de qualquer tipo de divindade



25.9.2017



14 de out de 2017

vida





(Claude Monet-The Gare SaintLazare; Arrival of a Train  -1877)




não ouvi todas as canções

que cantou a Cesária Évora;

não li todos os livros

que escreveu o Jorge Amado;

não memorizei nenhum poema

que escreveu o Fernando Pessoa;

não vi todos os filmes

que realizou o Luís Buñuel;

tampouco tive tempo

para todo o Bach, Beethoven ou Brahms;

não percorri todos os caminhos

que desejava, nem tive todos os carinhos

de que precisei...

porém, isso não importa, aliás, nunca importou,

porque a vida é isto: um pedaço de tudo

ou o tudo de um nada

e está completa, quando o coração

é maior do que o próprio desejo.





8.6.2013

13 de out de 2017

vulto negro

 (autor não identificado)





o vulto negro contra o céu azul

pousado no alto do prédio de dez andares

chama a atenção da moça de minissaia

fere os olhos turvos do velho de bengala

para o trânsito e perturba a tranquila

sesta do dono da relojoaria

desvia o trajeto do ônibus que ia

para a zona norte e se perdeu

para sempre com todos os passageiros

atiça a cobiça do jovem candidato a vereador

espanta a preguiça da tarde e promete

uma nova ordem no caos da cidade

sem lei mas era apenas um urubu solitário

que voou indiferente traçando no céu

um longo círculo de paciência e paz

desaparecendo em seguida no horizonte

da tarde fria da cidade sem esperança



20.6.2017

12 de out de 2017

mergulho



(Gustave Kurbet -  Retrato de Baudelaire. 1848-1849)





mergulha o pássaro

nas profundezas do mar

em busca do peixe



mergulha o poeta

nas profundezas de si

em busca do verso



o pássaro conhece no entanto

o gosto do mar

os perigos do mar

as armadilhas do mar


24.4.2015

11 de out de 2017

memória





(Carlos Barahona Possollo)



no nosso cérebro acumulam-se centenas

de informações e nossa memória apenas

nos dá notícia daquelas que ela quer

sem que a possamos controlar nem sequer

possamos escolher entre o aleatório

e o provocado às vezes por um simplório

cheiro de jasmim vindo de um jardim

desconhecido e então acessamos enfim

um extenso rosário de fatos e rostos

que podem nos trazer prazer ou desgostos



assim funciona a nossa memória

cheia de cavernas escuras e rios

encachoeirados na busca da história

de nossa vida e de nossos desvios




22..7.2017




10 de out de 2017

mares de minas






(Foto de Fátima Alves)



pelos mares de minas

singrei meu navio

em busca de porto



soube então que há sinas

que se curam no desvario

de quem vive

sentindo-se morto



quebrei minha âncora

na pedra

que embora ao sol

mantinha-se fria



não há mares em minas

um dia eu o soube

ao atracar na montanha



encheu-se-me a alma

do horror que medra

do fundo abismo

que à minh'alma coube




s/data/
31.1.2013


9 de out de 2017

maremoto



(Linda Olsen - Wave To The South) 



metem medo aos marinheiros os maremotos

se navega o navio em mares longínquos

se à luz da lua lutam lobos e hienas 

pela carcaça podre entre gritos e uivos

preenchendo de horror o pensamento vário

em pródigos pesares à pátria perdida

às ondas onde o vento encapela a cerviz

no frio fino tinir de vis violinos 

fremem ao fogo-fátuo os ossos simbólicos

de tíbias cruzadas em tribunais falsificados

mergulham nas marés e nos maremotos

na vaga indolência de marujos bêbados

os festins de penas e prisões pedidas

ao respaldo de leis ao luto voltadas

como se nos mares o marulhar das ondas

levantasse contra os escolhos a quilha do navio 

para enfim afinar a maldade à forca

condenados todos os que gritam e fogem

atentos à tragédia inútil de bocas desdentadas

a fornalha do inferno fechada sobre os ossos

e tudo não passa de golpes de morte

a tremular ao mastro a negra bandeira 

com tíbias cruzadas e marujos mortos

pelo tombadilho os corpos espalhados 

e a nave ao vento enfim naufragada





31.5.2017

8 de out de 2017

mãos



(Claude Monet )






trançavam linhas os dedos ágeis

traçavam retas as agulhas finas

surgiam logo flores e folhas

e pássaros pernaltas

em lagos de luz azul



as mãos de minha irmã

na sala em penumbra e paz

eram o destino que tecia

um mundo que só existia

nos limites do bastidor



as mãos secaram

a toalha amarelou

depois se desfez

a sala - hoje - é pó

e só a saudade insiste

urdindo com dor a vida

que há muito ela deixou



20.3.2014

22.3.2014


6 de out de 2017

manhã de inverno







à luz baça da manhã de inverno

a cidade aos poucos sai de seu torpor noturno

o motorista mal dormido para o táxi à porta

do prédio e dá boa noite ao último passageiro

que lhe responde com um bom dia

o pedreiro levanta a gola da camisa

e toma na padaria o copo de pinga para esquentar o dia

a secretária de saia curta e blazer azul

faz sinal para o sonolento motorista do ônibus suburbano

que aos poucos vai colhendo passageiros

e chega lotado ao centro da cidade

à luz baça da manhã de inverno

o ascensorista cochila um pouco e espera 

o primeiro passageiro

que entra sisudo com pasta executiva em baixo do braço

conta os números até o último andar de onde expedirá ordens

que decidirão a vida de milhares de pessoas

o jornaleiro coloca manchetes à vista na esperança

de vender mais que uma dúzia do jornal do dia

a padaria aos poucos se enche de gente que quer o pão na chapa

com manteiga e um pingado claro para um escuro para outro

boates apagam luzes e prostitutas frustradas recolhem a noite

ou o que dela sobrou em suas bolsinhas de brilho falso

à luz baça da manhã de inverno

a cidade que não dorme acorda da letargia da longa noite

e o sol aos poucos ilumina sua desesperança de todos os dias



24.8.2017

5 de out de 2017

devoção antiga




(Julius Zimmerman)




beijo-te a vara

amado meu

como se beijara

todos os santos de todos os altares

beijo-a assim por te tornares

para mim

não o santo ou o deus ou o impoluto

macho de todos os meus orgasmos

a minha devoção e isso eu não discuto

contigo nem com meus próprios espasmos

pertence àqueles cultos tão incultos que vêm

dos antigos tempos e muito além

de eva e até mesmo de lilith a mulher primeira

porque amado meu

de todos os meus prazeres

fizeste de mim a mulher inteira entre todos os seres

e entraste em minhas entranhas com o respeito

que tem o devoto no templo de seu deus

não tiraste de mim o direito

dos outros prazeres e dos outros amantes meus

e assim só assim podes ter de mim o que quiseres

ao beijar a tua vara como se ela fora a face do meu deus

sou eu em mim mesma o amor de todas as mulheres



4.10.2017


4 de out de 2017

devoção



 (Heinrich Lossow - cupids touch)




gosto do teu ventre livre

que o dás – ou vendes – 

a quem quiseres

não há quem a prive

do destino de todas as mulheres



puta ou santa não te importa

o nome com que selem tua vida

a esperança dos outros é morta

tu segues aquilo que te convida



teu é o meu respeito

teu é o meu prazer

dás-me com teu jeito

o espanto do gozo

que te provoco

sou para ti todo o fogo

do macho a te comer

tu em tuas refregas

a mim sempre entregas

o gozo que te provoco

que és para mim a santa

que entre fodas tantas

de tuas loucuras todas

de quem sou sempre devoto



30.9.2017

2 de out de 2017

lembrança


(Fátima Alves)




do fundo da memória

ouço o cheiro de café pingando do coador

de pano

e minha pele arrepia



a manga-rosa esmaece o verde

e a mangueira enlouquece

os sabiás e bem-te-vis



há o apito do trem ao longe

na lenta curva antes do barranco

e a tarde travessa atravessa o quintal

em busca do feijão a cozinhar

no fogão aquecido pela queima da serragem



ao perfume do cedro e do carvalho

o banho é inevitável

a sopa também



é a hora de acender a lamparina

vestir o pijama e depois dormir

ao som do grilo e dos fantasmas

da noite



- minha mãe puxa o terço



26.12.2014



29 de set de 2017

manga madura



(Jeff Faerber)




percorro trilhas de mato

nas curvas de teu corpo

reencontro cheiros

de eu menino

da chuva que

num repente de verão

pinga barro em minha língua

da grama pisada

do susto da murcha-cadela

que se fecha envergonhada

do sebo de boi na bola

de capotão das peladas

em tardes esticadas

da jabuticabeira

que em dia de noiva

promete prazeres

dos sumos mais doces

do jambo caído do bico

do sabiá

que à boca perfuma

com o cheiro de terra

do lento amorenamento

dos grãos de café

na torradeira que gira

na trempe de ferro

sobre as chamas da lenha

do velho fogão

da serragem miúda a cair

da madeira ferida

por dentes brilhosos

da serra assombrada



cheiros de flores

cheiros de frutos

cheiros de teu corpo

corpo que é terra

corpo que é fruto

corpo que é flor

que tem o aroma

que me alucina

dentre todos

na trilha de cheiros

que trilho em teu corpo

trilha leva

a língua à flor

- ou é fruta?

ao cheiro que me enlouquece

o cheiro que sinto

de tua boceta

o cheiro

da manga madura



7.5.2012
12.5.2012
30.5.2012
21.9.2017





28 de set de 2017

canção do operário



(Google Search - australia industrial historical)






tenho em mim milhões de sons

sons que podiam compor

sinfonias

concertos

canções

mas não tenho ideia para que serve

a clave de sol



trago em mim milhares de histórias

histórias que poderiam se transformar em

contos

romances

novelas

mas mal assino meu nome completo

na folha de pagamento



carrego dentro de mim sonhos e fantasias mil

sonhos e fantasias que poderiam virar palavras

poemas

sonetos

epopeias

mas minha ilustração literária mal alcança a manchete do dia

no jornal do sindicato



estão dentro de minha mente uma vida inteira de paisagens

paisagens que poderiam se combinar em cores como se fossem

obras-primas

telas surreais

painéis imensos

mas o meu trabalho diário mal permite que maneje pincéis

para pintar paredes de prédios alheios



sei que posso sonhar e ansiar por feitos de artistas

da dança

do circo

dos palcos

mas mal me equilibro em andaimes a erguer torres

que se desfazem nas nuvens



não sou o artesão solitário a suspirar pela lua em noites

de solidão

a pensar e compor obras de imanência e abstração

para gozos alheios e prazeres inconsúteis

tudo quanto faço e refaço na luta diária

é fruto de minhas mãos

e das mãos de meus companheiros

formigas do humano formigueiro o meu trabalho

vira o que você vê

o que você consome

o que você usa

o que você bebe e come

quando somos mãos multiplicadas no formigueiro



sozinho sou folha ao vento que a brisa leva

para os desertos do mundo

meus braços

minhas pernas

minha cabeça

minha vontade

só ganham força e força tremenda

quando com outros braços e outras pernas e outras cabeças e outras vontades

compomos todos

sinfonias

epopeias

obras de arte

de todos os gêneros para todos os gostos para todos os seres

quando com outros braços e outras pernas e outras cabeças e outras vontades

construo templos e palácios

ergo palafitas e cidades

desvio rios

contenho os oceanos

recomponho o mundo

na ordem do desejo

e então eu sou o titã

eu e meus companheiros somos as mãos os pés as cabeças as vontades

somos toda a força que os deuses tiveram

e então eu sou o que pode mudar o mundo


28.8.2017







25 de set de 2017

boceta é flor




(Leonardo Digenio - the venus flytrap flower)




boceta é flor de todas as estações

regadas à imanência da vida

bocetas florescem entre colunas dóricas

para os sabores de mágicas estripulias



boceta é flor que se abre e se fecha

ao sabor do espanto ou da glória

bocetas arrepiam o aroma de geleiras

bocetas prenunciam o vento de verão



boceta é flor e como flor exige artifícios

seus segredos esmiúçam o cotidiano

seus anseios deflagram falsos testemunhos

exige franquia e desejos de vida



bocetas vagam no fim do arco-íris

ao ouro do pirata e à reza do conde

boceta é gêiser de todos os pólens

o não amá-la implica apenas o fim



17.9.2017