17 de set de 2017

lição do abismo




(Valquíria Cavalcante)





do abismo a vida nos fita

estado estático nos desvãos da rocha

rola o magma montanha abaixo

seiva e seixos liquefeitos em luz

de pureza e ardor em ariscas fulgências

abissais



do abismo a vida refeita

direta no eito o eixo do arado

a flor remota

a dupla face de anjos e demônios

estranha o estrangeiro a flor

nascida do magma à luz das estrelas

ponto a ponto a essência humana

entretecida de pedra e líquens

ora pedra ora magma

encrespa-se entre escravidão e poder





19.6.2017





16 de set de 2017

Luar de maio





(A. Eckhout - Homem Tupi)




Num caminho banhado do luar de maio

Cavaleiros e cavalos vão ao chão

Flechados e mortos pelas setas certeiras

Da brava tribo dos índios tupis



Isso foi num tempo em que caçadores

De cabeças de índios ainda podiam ser mortos

Em estradas toscas ao luar de maio

Porque ainda havia a brava tribo de índios tupis



Num caminho ao longo da selva

Guerreiros da tribo tupi emboscavam caçadores

Flechavam seus cavalos com setas certeiras



Isso num tempo em que os bravos tupis

Tinham flechas certeiras e tacapes bem duros

Isso num tempo de luas de maio e muitos tupis





27.4.2017








15 de set de 2017

lua, lua, lua





(Caspar David Friedrich - Homme et femme contemplant la lune)





sabe aquela lua que encontrei

no fundo do meu quintal?

eu te falei dela, amiga, lembra?

aquela lua redonda e branca, branca,

espetada num galho da pitangueira?

pois, é: aquela lua me trouxe

uma espécie de bestagem assim

que me fez ficar mais idiota do que sou

e então, amiga, eu resolvi

te dizer que, ah, não me olhe assim

com esse teu jeito de menina travessa,

não me olhe assim com essa dúvida,

esse meio sorriso de mona lisa,

que fico até mais besta ainda,

e não vou te dizer nunca, nunca,

nem que lua desça do galho

para me pedir, assim,

com cara de safada que só ela tem

que, nunca, nunca mesmo, eu

vou dizer de novo o quanto

o quanto eu... ah, essa lua!

ela é mesmo muito safada!



13.3.2013

25.5.2013

14 de set de 2017

ler





(Gustave Courbet -  Retrato de Baudelaire. 1848-1849)




leio

leio até me arderem os olhos

tudo quanto me cai às mãos

leio

e vivo cada página do que leio

como se a vida palpitasse

em cada palavra de cada livro

viajo

e minha cabeça entranha-se em memórias

que não são as minhas mas que

no momento em que as estou lendo

passam a ser também as lembranças e a vida que ansiei por viver



ler e ler sempre

é a forma que achou minha mente

de não enlouquecer no marasmo da existência

marasmo que não escolhi

marasmo a que sou apenas obrigado a viver

como vicissitudes improváveis que se abateram

sobre a estrada que percorria antes bem melhor do que agora



e então eu leio e fujo

trânsfuga de mim preso às páginas numeradas

de uma imensa biblioteca que aos poucos

se constrói dentro de mim

crescendo e fechando como um círculo

que ainda não sei se virtuoso ou vicioso

que o prazer infinito de ler não oprima o meu julgamento

e deixe que eu tenha os momentos de felicidade

necessários à minha saúde mental





1/4/2017



13 de set de 2017

ébano



(Autoria não identificada)




era uma negra gorda feia pobre e já gasta na casa dos trinta

não tinha mais ilusões senão levar a vida que leva toda negra

gorda feia pobre e já gasta pela vida na casa dos trinta

vendendo flores artificiais no mercado da cidade



mas a negra gorda feia e pobre vendedora de flores artificiais

no mercado da cidade um dia conheceu um príncipe que dela se enamorou



o príncipe era jovem e além de jovem muito rico e além de jovem e rico

era também muito belo e o príncipe belo rico e jovem e a negra já passada

em anos gorda feia e pobre enamorados na catedral da cidade se casaram



como era rico o príncipe pagou-lhe os melhores médicos nutricionistas

e a gorda negra já passada em anos ficou magra embora ainda feia



como era rico o príncipe pagou-lhe os melhores cirurgiões plásticos

e a quase velha gorda e feia em mãos hábeis linda e magra negra se tonou



era ela agora uma negra magra bela rica e jovem que vivia em palácios

amando um príncipe e por ele sendo amada um príncipe poderoso rico e jovem

um príncipe de sonhos sem cavalo branco e eram muito muito felizes



o príncipe amava a bela cor de ébano de sua mulher e amava cada riso

cada covinha de seu rosto perfeito cada curva de suas ancas e era feliz por isso



a negra bela magra rica e jovem amava o príncipe e queria mais que tudo

a sua felicidade o seu prazer e um dia ao levantar-se dos braços do amado

de entre sedas e arminhos no quarto todo branco contemplou-se longamente

no grande espelho de cristal que havia no quarto branco de sedas e arminhos



viu-se bela os seios rijos as pernas longas redondas ancas viu-se

viu-se em plena nudez a pele a brilhar em negro contraste do quarto branco

de sedas e arminhos de brancos lençóis do branco leito nupcial e então

não se sentiu feliz com o ébano de sua cor e disse ao branco e loiro príncipe

amado meu uma última surpresa ainda lhe quero dar talvez a maior de todas

e provar para sempre o meu amor e só você com todo o seu poder pode

me proporcionar que essa grande surpresa eu venha a lhe dar



o príncipe já antegozando de tantos prazeres que ela lhe dava

mais essa deliciosa surpresa e já que a nenhum pedido da amada negava

disse-lhe que feliz já era tanto mas se era a sua vontade aguardaria

a surpresa que sua guerreira das savanas d’áfrica lhe prometia e beijou-a



viajou a negra esposa do príncipe feliz não sem antes tantas promessas

de amor e tantos beijos e tantos enleios e tantos abraços que ela voltaria

e ela realmente voltou uma nova mulher que era antes bem antes uma negra

gorda feia pobre e já gasta pelos anos agora apresentou-se ao príncipe

uma mulher rica magra bela de longos olhos negros e pele cor da lua

cabelos longos e loiros em cascatas de ouro pelas costas brancas e nuas



contemplou-a o príncipe por longos momentos os olhos descrentes do que via

despiu-a toda e viu que que era belo aquele corpo de pelos glabros

do ébano de outrora nada restara naquela brancura de lua e cabelos tão louros

olhou-a nos olhos e mal reconheceu a negra de ébano guerreira que via

cavalgando planícies d’áfrica sobre o seu ventre cabelos ao vento em noites

de lua em noites de estrelas o ébano de seu corpo a brilhar na brancura

daquele leito de sedas brancas e arminhos de neve naquela brancura de leite

do quarto nupcial e sim ele gostou do que viu mas não era mais a mulher

como dizer como dizer não era não era mais a mulher adorada a negra

de pele de ébano de pele tão negra como as longas noites de amor sem luar

tomou-se o príncipe de uma tristeza abissal e fez aquilo que nunca imaginou

que pudesse um dia fazer à mulher amada expulsou-a do quarto tão branco

expulsou-a do palácio que para ela construíra expulsou-a de sua vida



voltou a vender flores de plástico no velho mercado a bela mulher

e o tempo aos poucos em poucos meses de luta e de miséria trouxe de volta

aquela que se escondera sob a pele branca e cabelos louros e ela tornou-se

de novo a negra ainda mais feia ainda mais gorda ainda mais velha

a vender flores de plástico no velho mercado de todos motivo de riso e chacota



o príncipe em seu castelo sozinho não ficou e logo uma loura e linda mulher

autêntica representante das neves de nórdicos países tomou-lhe a mão e o leito

parecem felizes em fotos de revistas casal modelo um para o outro feito

que é bela a loura e magra e jovem e rica e nunca vendeu flores no mercado



no sorriso de fotos de revistas o príncipe tem no fundo dos olhos

que só um dia a velha gorda e feia negra do mercado notou bem lá no fundo

a tristeza profunda do belo príncipe em seu castelo com sua linda mulher



sonha o príncipe todas as noites e acordado sonha o príncipe todos os dias

com sua negra de pele de noite sem estrela a sua amada mais amada

que tudo no mundo e sabe que nunca mais esquecerá por toda a sua vida

aquele riso branco no rosto mais negro que noite sem lua a sua amada de ébano

12.8.2017


12 de set de 2017

amores desesperados





 (Gustav Klimt) 




impregnem meu corpo os teus cheiros

por força de tanto explodir de gozos

sejam meus ossos o teu espaldar

por onde escoem fogos e águas vivas

busquem-me o anseio profundo os teus gemidos

de mares distantes batam remos galões piratas

para assaltar teus tesouros mais esconsos

do mar de escolhos o teu corpo emerja

e que em meus braços pelo desejo de magia

teu sal e teu incenso fundam-se à minha pele

a traçar a trajetória dos amores desesperados







9.9.2017

11 de set de 2017

leis da física




 (Laurence Soignon)





a água gira a roda

a roda gera energia

a energia gira a terra

a terra é nada na matéria escura



o vento gira a pá

a pá gera energia

a energia gira a vida

a vida é nada na terra azul



a imagem gira o verbo

o verbo gera poesia

a poesia gira o belo

o belo é vida na matéria escura da terra azul



6.4.2017




8 de set de 2017

leminskada


                  

(Bernard Buffet - lapin et casserole rouge)





capricho na rima

e leminsko um poema:

de baixo até em cima,

sem ritmo e sem esquema,

parece meio torto,

com cheiro de morto


26.8.2013


7 de set de 2017

lágrima



(Vincent van Gogh)





não me importa que chova

e que seja tão fria a tarde lá fora



quero o silêncio dos livros fechados

quero o tilintar de versos não lidos

quero o borbulhar do chá no fogo



e depois que meu coração estiver

um pouco mais calmo

e meus pensamentos se ordenarem

vou querer apenas a lágrima

que nunca chorei por ti



17.5.2013


5 de set de 2017

La Campanella


(Mamax Oppenheimer)




Do violiníssimo de Paganini

Ao pianíssimo de Lizt

Recria-se a poesia

E livra-nos a vida

De qualquer mistério



Ouvíssemos sons de sinos

Tangidas as cordas do coração

Não teríamos a alegria

Violiníssima e pianíssima

No abraço de Lizt em Paganini



Pois a vida que alegre voa

É a vida que alegre soa

Nas cordas do meu peito

Um coração satisfeito





19.6.2017


4 de set de 2017

folhas ao vento


 

(Kay Sage)



folhas sopradas pelos ventos

meus sentimentos vagueiam pelas calçadas imundas

comendo restos de comida roubados aos cães

rastejando esmolas nas escadarias do poder

vestindo trapos encontrados nas lixeiras 



folhas sopradas pelos ventos

meus pensamentos desnorteiam-se pelas estradas inúteis

peregrinos coxos a trautear entre cidades mortas

defenestrados de mim mesmo como párias

vestidos apenas de ócio e vergonha



não os renego todavia nem aos sentimentos nem aos pensamentos

são eles os que travam no meu peito a ânsia de morte

são eles que repetem a cada momento o meu estranho viver

caminho com eles como caminharia com os lobos

estranhando entre nós mesmos as nossas angústias

competindo às vezes por um naco de lucidez

sem eles não viveria e eles sem mim são essência morta

por isso caminhamos entre o lodo e o espaço vazio

na vida que nos é possível viver e conviver

como náufragos ou mendigos a depender do alheio olhar

folhas sim sopradas pelos ventos frios das madrugadas

mas aconchegados inelutavelmente únicos e indivisíveis





15.1.2017




3 de set de 2017

fim da linha



(Bernard Buffet - la mort)




se a mulher com quem você de vez e quando trepa já não menstrua

se a manga que você chupa até o caroço já não tem o mesmo gosto

se você evita escadas e ladeiras quando ainda anda pela rua

se você não sabe quando para o amor está realmente disposto

se você lê com dificuldades as letrinhas do jornal do dia

se você acorda de manhã com preguiça maior do que a da noite

e sonha acordado enquanto no prato a sopa esfria

se qualquer brisa sobre o seu corpo parece um açoite

se todos os seus ídolos já morreram ou não dão mais notícia

se qualquer roupa que você veste tem mais de dez anos

se você dirige o seu carro cada vez com mais vagar e mais imperícia

e andar de bicicleta pode lhe causar perdas e danos

se você prefere ver televisão a sair à noite e procurar um cinema

e são os livros cada vez mais a sua mais constante companhia

se você se surpreende discutindo com amigos sempre o mesmo tema

se assiste a um jogo de futebol pela televisão e adormece quando não devia

se você esquece pequenas coisas que aconteceram há pouco

e recorda detalhes de fatos de que ninguém mais se lembra

se tudo isso e muito mais lhe acontece e você não está louco

se você se sente cada dia mais velho e mais fracassado

se você olha para os anos que faltam e eles faltam cada vez mais

se a vontade de continuar vivo é só uma máscara em sua cara

se o fato de estar vivo é só a dor de cada manhã que lhe traz

e a solidão apenas cumpre o triste papel que lhe restara

não se preocupe com todos esses sintomas acima referidos

que realmente você está sim um velho chato a ser abandonado

e todos os seus sonhos estão agora para sempre totalmente perdidos

não lhe restam mais momentos de prazer ou de alguma sorte

senão aqueles cruéis e breves instantes dos estertores da morte


4.5.2017



31 de ago de 2017

falopoema




(Jeff Faerber - uber-alice)





projeta-se o poema um falo ereto a expressar-se

cavalo de trote certo na planície clara

contrai-se no entanto na página em branco

emasculado e flácido carne podre apenas

aos urubus servida entre o brilho e a pegada



20.6.2017


29 de ago de 2017

estrela





(Marie Bazin - le printemps)




quando se olha para o lado

e o grito explode na retina cansada;

quando se olha para cima

e a desesperança risca em voo cego o céu de abril;

quando de olha para baixo

e o que se vê é só o homem a naufragar em seus tormentos

num infernal dilúvio de ódio e mortes;

quando tudo parece perdido

e o homem está definitivamente atolado

em campos de batalha e medo;

quando, enfim, não há mais esperança nenhuma

no horizonte de nosso desespero,

e o grito

que queima as cordas vocais

ameaça romper entranhas e corações,

ouça Piazzola ou Villa, mergulhe em Beethoven,

viaje com Brahms e Bach

que uma estrela aparecerá

tênue e bela como um sol de abril

e o homem

mesmo em seu covil

- acuado o ódio em suas presas rubras -

parecerá estar queimando o seu tacape

e romperá uma quimera

do outono que nos assola

para qualquer nova primavera.


22.12.2014



28 de ago de 2017

estiagem





 (Enio Maccazzola -LA SECHERESSE)




na monotonia das tardes de sábado

componho poemas monocórdicos e monótonos

o tempo como o vento a uivar lá fora

ao sol que não aquece a tarde de inverno

monotonia a ser quebrada apenas quando

quebro o verso e anuncio em mim a esperança



não chove



o dia passa e passa e outro dia vem inútil

o vento venta e a nuvem leva para o mar

o anseio em mim de tempos que não ouso

a espera a angústia a monotonia a vida



não chove



a secura do ar nas folhas das árvores murchas

o estranho passar de horas que não passam

desejos apenas escandidos em versos inúteis

das tardes de sábado em monotonia tornadas



não chove



a boca deseja pelo menos o viço de lábios distantes

as águas profundas de desejos agora impossíveis

fontes de amianto e plástico gotejam venenos

e o ar abafado da tarde monótona esfria o sábado



não chove



seco em mim a fonte lacrimal em versos tortos

o amor que não vem na apagada e seca tarde fria

deserto o peito brotam cactos e flores de vento

enquanto espero que a tarde monótona vire noite



não chove


12.8.2017


24 de ago de 2017

ESCREVAMOS TODOS POEMAS DE AMOR




(Robin Cheers -  Writing It All Down)







Poetas, meus amigos e amigas,

escrevam, sim, versos de amor,

mesmo que sejam bobinhos,

mesmo que não tenham nenhum valor;

descrevam as brigas,

os amores perdidos, os espinhos

desse sentimento meio besta, que é amar;

não tenham vergonha do beijo

que nunca nos seus lábios vai pousar,

nem do intenso desejo

de estar ao lado da pessoa amada;

sim, meus amigos e amigas poetas,

pontuem da vida a estrada

com versos de paixões secretas,

com versos de amores loucos,

com versos que rompam o desafio

da rima pobre e do pé quebrado,

e tenham sempre ouvidos moucos

para os críticos de plantão;

sim, meus amigos e amigas poetas:

fibra por fibra bata o coração

no elogio da pessoa amada,

na saudade mais desesperada,

na paixão mais desenfreada...



porque, meus amigos e amigas,

prefiro esses versos derramados,

que muitos acham cheios de tolices,

a sermos todos obrigados

a ler diariamente idiotices,

xingamentos, ódios, preconceitos

que desfilam por aí, como pragas,

em textos de maus sujeitos

em convulsões desbragadas,

de maus bofes e maus jeitos,

a dizer mal do mundo e da vida,

como se fossem avatares

da guerra mais fratricida,

a queimar em seus altares

a ilusão mas sentida



se são tolos todos os poemas de amor,

sejamos todos, meus amigos e amigas, também

uns tolos a rimar bestamente amor e dor,

sem ligar para os outros, sem ligar para ninguém,

e escrevamos com sinceridade,

a alma compungida de saudade,

esses nossos tolos, muito tolos, poemas de amor,

que loucos somos todos e se não o somos

que se foda o mundo e seu rancor.





13.3.2013






23 de ago de 2017

doce de figo



(Foto da internet, sem identificação de autoria)





você não tem um amor

com quem dividir a cama?

- doce de figo com queijo

não substitui, mas consola




17.6.2015

21 de ago de 2017

deuses mortos



(Salvador Dalí)





tudo o que vem de deus e seus asseclas

tem cheiro de rato morto



no porão da consciência humana

deus tece pesadelos para escravizar seus seguidores



não há janelas nem claraboias

que iluminem a mente de um deísta



cegos e idiotas são todos aqueles

que leem livros sagrados

e acreditam em suas palavras



não no inferno queimam os infiéis

mas nas ventas do deus vingador

que ergue espadas estúpidas

para degolar seus opositores



na crença de paraísos perdidos

perde-se a humanidade transformada

em seres monstruosos



matam-se por hóstias ou por blasfêmias

e o cheiro de rato morto

sai da boca de deus misturado

às fezes dos pecadores enforcados



se existisse

deus seria um velho cagão

cego por glaucoma

a bradar de ódio contra todos os homens e todas as mulheres

impotente para destruir a humanidade que criou

a rugir como um leão sem juba

para o infinito de galáxias que se criam aos punhados

dentro do buraco negro de seu divino cu



mas deus não existe e eu posso dizer tudo isso

para a ira dos deístas que não se conformam

com a morte precoce de suas ilusões

não há infernos

não há paraísos

existe apenas o ódio mortal dos deístas

e sua furibunda e nauseabunda crença


3.11.2016





20 de ago de 2017

DESOLAÇÃO



(Linda Keeley; Desolation)





Os mortos estão mortos,

não precisam de nós, de nossas homenagens.

Fazemo-las por nós mesmos

Fazemo-las pelos outros.

Para que nos sintamos tristes e chorosos

e possamos nos dizer isso

a nós mesmos e a todos os outros.

Fazemo-las para que todos digam

"vejam como ele sofre pelo morto".

Mas o morto não sofre por mim.

Os mortos nem sabem que morreram.

Então, amigos que insistem em morrer antes de mim,

não contem com minhas homenagens.

Ficarei aqui, no meu canto, e a lágrima

será apenas uma gota de chuva num país chamado Desolação.







4.1.2015

18 de ago de 2017

obsolescência





(Salvador Dalí)



gosto de coisas duráveis

a obsolescência dá sobrevivência

a esse capitalismo que nos sufoca



gosto das coisas utilizáveis

à margem do tempo e do gasto



a obsolescência é a ferrugem do capitalismo

ferrugem que nos corrói por dentro

enquanto faz girar a roda dentada

que nos esmaga e transforma em rio vermelho

nossas possíveis esperanças de dias melhores



gosto das coisas duráveis

dos objetos que mantêm o brilho e a funcionalidade

além muito além das necessidades dos engravatados



odeio a ferrugem fabricada e inserida

em tudo quanto compramos e utilizamos

para a feliz opressão dos senhores das máquinas



gosto sim das coisas duráveis



das coisas feitas como os ossos que nos sustentam

brancos e puros após anos e anos na terra escura

coisas duráveis como as palavras dos poetas

válidas palavras que nos consolam pela vida

não o lixo fabricado por robôs

com data marcada para voltar ao lixo



gosto das coisas que duram como a vida

gosto das coisas que duram como os versos

gosto das coisas que duram como as palavras



17.7.2017