20 de fev de 2018

velas na cama






pedes que eu acenda velas

velas de luz e desejo

e que as espalhe pela cama



e coberta de pejo



usas todas as velas

todas elas,

para me queimares

sem nem imaginares

que de todas as aquelas velas

só tu fazias-me queimar de desejo



15.2.2018


(Ilustração: Leonid Afremov - explosion of love)




19 de fev de 2018

não faço jogo de palavras











não faço jogo de palavras

nem abuso de aliterações

contorno com graça as metáforas

e evito excessivas divagações



não que abomine tais recursos

no poetar e registrar meus pensamentos

apenas sigo o correr dos dedos no teclado

a buscar nas palavras as ideias mais claras

e as ideias mais claras nas palavras mais simples



que me desculpem os atrofiados do barroquismo

os que limam versos e garimpam rimas

prefiro tudo assim às claras

os versos tortos como se prosa fossem




14.1.2017





(Ilustração: Peter Fendi)

18 de fev de 2018

despedida








depois do amor ainda nua

lânguida abotoas o sutiã

então eu sei que a lua

já cede lugar à manhã



(Ilustração: Auguste Renoir - baigneuse endormie)



17 de fev de 2018

amigos







abro o in box do face

para conversar com você

e ele me adverte

vocês são amigos no facebook



sim

somos amigos no facebook

mas o que esse idiota desse aplicativo não sabe

é que somos amigos também na vida real

e mais do que amigos

somos amigos de cama e tesão

amantes há tanto tempo que já nem me lembro quanto

docemente amantes que se escondem nas tardes

de um hotel qualquer

despreocupados como folhas ao vento

deliciados como a brisa que balança uma rosa

amigos que se amam

que se comem como gatos vadios

em busca de um pouco de tesão e paz

em meio a um mundo que não se preocupa com isso





não sabe de nada essa rede social idiota

não sabe do que é feita a nossa amizade em camas redondas

de um hotel qualquer de tardes de qualquer estação

em misturas de fluidos e beijos e gozos

amizade que não tem cor nem tempo

que corre pelas pradarias de um quarto fechado

como o vento ou como gatos vadios

gemida e transida amizade pelos anos entretecida



24.1.2018



 (Ilustração: Georg Emanuel  Opitz) 




16 de fev de 2018

Nudez






- Quero-te nua

como os lírios

do campo.

Sorriu e, num gesto amplo,

tirou os cílios.






(Ilustração: Ronni Wood - Sally Humphreys portrait)




15 de fev de 2018

1964






Sob a égide da constelação estrelada,

nas noites claras de um sonho tropical,

figuras sinistras conspiravam.

E permitiram-lhes os deuses todos os poderes

para o bem e para o mal.



No entanto, enquanto no canto do céu,

a ponta da cruz indica o sul,

um canto de dor dobrava o corno da lua nova,

sob a égide da constelação estrelada.



Abril apenas o outono mediara,

e o inverno descia rigoroso:

nos cárceres da infâmia e do grotesco,

figuras famintas caídas no inferno

batiam dentes sob o açoite do torturador,



E o sonho da igualdade penhorada

jazia na tumba de falsas promessas

ao som das botas no asfalto negro,

sob a égide da constelação estrelada.




BH – 21.9.1978 /SP – 15.2.2018

(Ilustração: Fernando Botero)

13 de fev de 2018

UM DIA, UM GATO









Chamas-me gato,

enquanto coleio pelo teu seio

e desço até teu ventre

e, antes que digas – entre –

só um pouco te arranho

e passeio e te arrebato

te dando um bom banho

de língua de gato. 



(Ilustração: Georg Emanuel  Opitz )

10 de fev de 2018

Uns versos que havia de escrever









Ontem à noite em leito insone

pensei nuns versos maravilhosos que havia de escrever

assim que de posse de papel e tinta.

Um poema a deixar boquiabertos

todos que o lessem. Uma obra-prima a ser

transcrita em todas as antologias

de todas as editoras. A ser estudada por mestres

de todas as universidades e levadas entre as

folhas de cadernos e agendas de todos

todos os estudantes.

Versos tão fortes

e belos

e místicos

e reais

e profundos

míticos loucos verdadeiros emocionantes múlti

épicos e líricos que

alguém os colocaria a circular

no espaço virtual da internet. E lá, talvez,

na Austrália, no Japão, na Europa

ou na América (do Sul, Central e do Norte) morta,

um mísero escrevente brasileiro saudoso

da Pátria, em seu exílio voluntário,

esquecesse por um breve momento

o trabalho e o dólar suado de cada dia,

para lê-lo com ternura

e imaginar o sonho que estaria sonhando

se no Brasil ainda estivesse. E na tela

de um loucomputador

em mil pontos de luz transformado, o poema

ganharia o sentido de vidas só de esperanças vividas.

E comoveria. E abriria os corações a chamas

mais profundas de amor e solidariedade.

Pois é, mas a internet

e todos os mestres e alunos e expatriados

e apátridas – todos –

ainda vão ter de esperar pelo magnífico

poema que, à noite, em meu leito insone

imaginei.

Ao levantar-me após delírio,

o sol da manhã de outono desfizera

como gota de orvalho em folha morta

o poema.

E restou, apenas, na boca, o saibro amargo

da decepção.
São Paulo, 23.5.1995




 (Ilustração: Rick Beerhorst ) 

9 de fev de 2018

Ventre








Não há nunca um dia quente

que não possa em chuva se tornar.



O sol em lua se transforma,

quando te amo em lusco-fusco.

O sol em lua se transforma

no mesmo instante que busco

o teu sonho em líquido aroma.

Faz de ti uma estranha rima

tão estranha quanto Roma.



Não há nunca um dia quente

que não possa em chuva se tornar.



Procuro, louco, teu sorriso

e encontro teu esgar,

não de dor, mas de prazer,

quando, enfim, meu paladar

não se cansa de trazer

teus encantos de chuva e mar.



domingo, 17 de agosto de 2003

(Ilustração: Jacqueline Secor)







8 de fev de 2018

um brilho










um brilho apenas, de espantar,

de teus olhos já desatentos

à vida que não lhe pude dar,

um brilho, um brilho de doces alentos

desses teus olhos de espertas tramas

para esse que um dia ousou –

como qualquer idiota que sou -

teu amor buscar em outras camas.



segunda-feira, 31 de julho de 2006






(Ilustração: Lucien Freud - woman with eyes closed)



7 de fev de 2018

Maris stella







Chamo-te estrela

do mar

mesmo sabendo

que só de longe

te apraz o mar.



Tens, entretanto,

no brilho do olhar

a dança profunda

das águas do mar.



Chamo-te estrela

do mar,

mesmo sabendo

seres etérea como o luar

com quem concorres

com as suaves nuances

de teu olhar.



Chamo-te estrela

mesmo sabendo

vires sempre

como o luar.


quinta-feira, 14 de agosto de 2003


(Ilustração: Paul Bond - Sanctuary)


6 de fev de 2018

Ser ateu







Sou ateu. E não preciso nem gosto de justificar os motivos. Há tanta loucura nas religiões e na crença num deus, que basta estudar um pouco de História, uma pitada de Filosofia e outro tanto de Ciência para perceber que o Homem entrou num beco sem saída com suas crendices absurdas. 

Que tipo de Homem é esse que valoriza a morte e prega a destruição do semelhante com decretos obtusos de assassínio em massa, apenas porque há um livro entre ele e o outro – seja esse livro a bíblia ou o corão? 

Que religião é essa que adora um deus morto pregado ao madeiro, considerando-o o maior de todos os filósofos, quando suas palavras nada mais eram que repetições edulcoradas de velhos valores?

Que crença é essa que mistura a vida diária com preceitos antigos ditos por um profeta que buscava apenas dar um pouco de ordem ao seu tempo, à sua tribo, enfatizando regras absurdas de comportamento saídas de seu preconceito e de suas limitações?

A velha ordem deísta já deu o que tinha de dar: desrespeito ao ser humano - a si próprio e ao outro; guerras e desunião; estupidez e assassinatos; perseguições; desvalorização da vida; atraso científico; humilhações; construções de templos majestosos e cobertos de ouro enquanto os pobres que os construíam morriam de fome; mentiras em troca de bônus na eternidade; escravismo; bestialidades; genocídio de povos que professavam outras crenças; preconceitos; desrespeito à natureza e, sobretudo, obscurantismo quanto à própria sobrevivência do homem sobre a Terra.

Portanto, não são necessários argumentos científicos (que abundam em profusão!) para ser um ateu. Basta um olhar para a história do homem até os dias de hoje, com todas as mazelas que o jogaram num beco sem saída de violência individual e coletiva.




quarta-feira, 7 de maio de 2003






(Ilustração: Claude Monet -soleil levant-1872)




4 de fev de 2018

O poeta e o camponês






Faz exatos 55 anos. Tinha 17 anos e frequentava o Cine Brasil, em Lavras, MG. O cinema era uma das poucas atrações para nós, naqueles anos sessenta. O cinema, há pouco tempo inaugurado, não era luxuoso, mas dava-nos um conforto que o velho cine Ipê já não apresentava: piso inclinado, poltronas macias, tela cinemascope, som perfeito. Logo após a protofonia de O Guarani anunciar que a sessão começaria, costumava-se apresentar algo como imagens aleatórias acompanhadas de um trecho de música clássica. Nossa preferida – minha e de meu saudoso amigo Augusto – era O Poeta e o Camponês, de Von Suppé. Isso foi há exatos 55 anos. Nunca, nunca mais ouvi essa música. E então, hoje, uma manhã de abril de 2017, ouvindo o rádio, a Cultura FM presenteia-me com essa peça musical, a abertura de O Poeta e o Camponês, de Von Suppé. O adulto de 72 anos despareceu num átimo, para ceder lugar ao jovem de 17, sentado numa poltrona do cine Brasil, nas Lavras de 55 anos atrás, ao lado de um amigo querido que já se foi e se foi quando ainda tinha muita vida para viver, e esse adulto recordou cada compasso de uma música perdida nos escaninhos da memória. Sim, nossa memória prega-nos essas deliciosas e imprevisíveis peças: quando imaginamos que um momento especial de vida, apenas um traço ou um ponto na linha do tempo, está perdido, bastam algumas palavras – o nome e o autor – e alguns compassos para que o passado remoto se torne palpável como a parede branca onde projeto, como uma tela de cinemascope, as imagens recuperadas, vividamente recuperadas, embaçadas embora por uma lágrima de saudade.




29.4.2017


(Ilustração: William Sidney Mount. Dancing on the Barn Floor, 1831)

3 de fev de 2018

violoncelos









quero os sons graves de violoncelos

a ferir o breu numa noite sem lua

quero os sons graves de violoncelos

a acompanhar o passo marcado dos carregadores de esquife

numa noite sem lua coberta de nuvens

quero os sons graves de violoncelos

a esticar o meu prazer em camas sujas de motéis vagabundos

quando dolorosamente te direi que te amo

e noite sem lua coberta de nuvens caia sobre nós em gotas

de serena chuva num tempo sem amanhãs

os sons graves de violoncelos tecerão a cantata final

de meus passos e de nossa esperança e as noites

passarão tão frias e tristes que à lua só restará

deixar um pequeno rastro na cama redonda de nosso desejo


25.1.2018




(Ilustração: Jean Auguste Dominique Ingres - the valpincon bather)


2 de fev de 2018

Pequena crônica sobre uma tradução





Gosto de traduzir alguns textos, principalmente poesia, sem compromisso. De forma praticamente bissexta. Quando descubro algum poema francês ou espanhol, não muito longo, que mexe com minha sensibilidade e provoca meus instintos de tradutor. Meu amigo Wagner, no entanto, é que é um craque. Quando preciso de um texto com uma boa tradução, desafio-o. E recebo de volta algumas pérolas, que publico no Trapiche dos Outros. Às vezes, um detalhe, uma palavra, um verso que não se enquadra no ritmo certo provocam longas discussões e debates e tentativas entre mim e Wagner, por mensagens de computador, já que ele mora atualmente no Rio e eu em São Paulo. Meus palpites são sempre muito pontuais, já que é ele o tradutor, e a ele cabe quase sempre o mérito final da empreitada, cuidadoso como é, principalmente com a metrificação. Eu acabo me preocupando mais com a semântica. Nosso último desafio foi o poema abaixo, de Raymond Queneau (França, 1903 - 1976). É um poema divertido, que o aproxima do poema-piada do Oswald de Andrade. É curto e não menos cheio de pequenas armadilhas semânticas e invenções do autor. Cheio de subentendidos. Deu um pouco de trabalho. Apresento a vocês o original, a tradução do Wagner e a minha versão sacana, bem sacana, como uma brincadeira (talvez de mau gosto para com o poeta) a que não resisti:



POÈME POUR LA POSTÉRITÉ, de Raymond Queneau



Ce soir,

Si j’écrivais un poème

pour la postérité?

fichtre

la belle idée

je me sens sûr de moi

j’y vas

et à la postérité

j’y dis merde et remerde

et reremerde

drôlement feintée

la postérité

qui attendait son poème

ah mais




POEMA PARA A POSTERIDADE , tradução de Wagner Mourão Brasil:




Esta noite, 

se eu escrevesse um poema 

para a posteridade? 

Caramba 

que boa ideia

sinto-me seguro de mim mesmo

aqui vou eu 

e à posteridade 

eu digo merda grandemerda 

e grandissimamerda 

bem-humoradamente eu enganei 

a posteridade 

que aguardava por seu poema



e como!



E eis a minha tradução sacana:



POEMA PARA OS CARAS DO FUTURO (minha versão):



Esta noite

e se eu fizesse um poema

para os manos do futuro?



porra

que ideia fudida



eu sou mais eu

e assim digo pros caras

vão à merda

duas vezes à merda

três vezes à merda



tirei o maior sarro

dos bostas do futuro

que esperavam sua rima



e aí?



(Ilustração: Giorgio de Chirico; Le Muse Inquietanti ~ 1916)


31 de jan de 2018

prisão










recolher as palavras mais complicadas

encaixá-las no verso decassílabo

do soneto perfeito mas sem rimas

é trabalho de ourives não de vate



por isso não quero o meu verso canário belga

a cantar em dourada prisão

mas sabiá e bem-te-vi a brigar pela manga madura

nas tardes de verão 







5.1.2018



(Ilustração: Camille Pissarro)


30 de jan de 2018

foder-te é bom







foder-te é bom

e o faço com prazer

porém

mais do que foder-te

parece ser para mim

o prazer maior

a companhia de teu corpo

nu

a maneira como

te despes

o jeito como

te banhas

o esfregarmo-nos um no outro

nos beijos e carinhos

roçando o meu pau

em tuas coxas

minha mão em teus seios

o chupar-lhes os bicos e apertá-los

sugando a ambos ao mesmo tempo

a tua flor aberta à minha língua

o teu clitóris

um pequeno pino a vibrar

o teu tesão

nos lábios frios demonstrado

tua vontade de entrega e de gozo

os momentos de corpo com corpo

língua com língua

mãos a percorrer a pele arrepiada

então querida

mais do que foder-te

é de ti e de teu corpo esguio

que gosto tanto de ver

tocar e curtir

como o maior prazer

de meus dias tão longos e tristes


30.9.2017



(Ilustração: Edgar Degas)

29 de jan de 2018

mundo louco







este mundo é louco

quando faz do muito

um muito pouco

ou quando inverte tudo

e faz que tenha voz

até mesmo o mudo

quando chama de feio o bonito

e o belo se torna feio

e ainda mais esquisito

quando vazio e cheio

têm o mesmo valor

porém exagera sem pudor

quando alguém morre

e então até o bebum

mesmo morto de tanto porre

deixa de ser nenhum

e vira um homem de bem

e o pobre que nada tem

aplaude o rico filho da puta

que bateu as botas gozando

de sua vida de labuta

e o político que roubou

tem na estátua uma coroa

da grana que lhe sobrou

para os filhos numa boa

no paraíso fiscal

a situação é tal

neste mundo de gente falsa

que funkeiro dança valsa

para ganhar um prêmio

de são pedro no além

e tem também

a história verdadeira

de poeta que vira gênio

depois de morto

mesmo que seu verso

seja sempre torto

e o papa abençoa

pedófilos e hereges

ah esse mundo tão louco

em que o muito vira pouco

e o pouco vira nada

quando enfim o pobre lucra

um caixão meia boca

e o rico de tão milionário

tem fortuna que não acaba

quando na terra desaba

o caixão custa o salário

de um ano de trabalho

do pobre que se estica

pra pagar a prestação

de um pedaço de chão

que só vai ser seu

depois que já morreu

este mundo é mesmo louco

quando tudo vira do avesso

e o direito agora é torto

o pouco vira muito

e o muito vira pouco


3.11.2016




 (Ilustração: Max Oppenheimer)






28 de jan de 2018

musa improvável









(a.j.)





porra, mulher, preste atenção,

que eu podia até mesmo estar bêbado, é verdade,

in vino veritas, my sweet heart,

mais verdade há, assim, sóbrio,

no que estou te dizendo:

ouça, porra, ouça:

você é minha lagarta listrada,

não importa o que isso signifique

(li num verso de bandeira! é, isso mesmo,

o bandeira, o manuel do recife, poeta

que entendia como ninguém

de lagartas listradas, como entendia também

de mulheres e amores não correspondidos

e também os correspondidos: recife dos meus sonhos,

você foi o meu último alumbramento!

não o recife, não! você: você é o meu último alumbramento!)

você!

você é a minha lagarta listrada,

crisálida futura de minhas loucuras,

borboleta de minha liberdade,

(hay que endurecerse, pero...)

você

é

a

minha

lagarta,

lagarta listrada,

ah! ih! oh! ui... amor, amour, love, amore, amor, lieben, amor,

esperança de vôos possíveis e improváveis ou impossíveis, mesmo,

yes! yes! oui! sim! si! das ist... das ist... not yet... forbiden?

la vida es sueño,

sonho que sonho e que bebo

como vinho branco bem gelado...

porra, mulher, porra, te voglio tanto bene,

eu te amo, que bosta!

entenda, e não fique na sua,

como quem finge não saber de nada,

lagarta, sim,

sonho, sim, quand je pense qui tu penses! ah! quand je pense...

que porra! que mierda! eu te amo, ouviu?

não importa que você não queira ouvir

ou faça ouvidos moucos,

(você me obriga a expressões tão malucas!)

quanta (ou quântica!) emoção em ser lagarta listrada, não é mesmo?

quanta emoção em ser amada, não é mesmo?

mas quanta emoção em amar (e essa emoção é minha, ouviu? minha!)

e você tem que me ouvir, cacete! você tem que me ouvir!

há mais esperança de sonhos entre a lagarta e a borboleta

do que sonha em vão o poeta louco do país do fog,

que importa? never more, never move... mover neve... ah! é isto:

você é minha

futura

borboleta

de

sonho

e fog e fogo e sonho e sofro e sei que é você a minha lagarta listrada,

que nada, nada, rien, nothing, nada mesmo (y nadie!) pode impedir

que eu sonhe, que eu sonhe, que eu sonhe

(pues poesía eres tú! mientras miras mis ojos tus ojos negros

e negros et noir and black, black... blakout… me muero!)

em um dia te ver borboleta e sonho e vida e sol

e vento e via e vôo e ventoinha de moinhos de vento,

em noites de loucuras e amor, amor, amor,

minha lagarta mais do que listrada: meu voo ponderado

de física quântica,

meu sonho provável de asas, asas, asas,

e eu te digo tudo

isso,

e sei que você, você mesma, nunca entenderá

toda essa louca, louca, louca

declaração de guerra,

de guerra a todas as lagartas listradas que devoram

meu pé de manacá...

P.S.: (não! não estou bêbado: estoy loco por ti, amor, de amor, por ti...

mi dulce musa improvável, my sweet heart, mon amour, mi amore...

femme de mon âme,

ich liebe dich,

I love you,

je t’aime...

yo te quiero!

io te amo!

eu...

te...

amo...

porra!


quarta-feira, 3 de janeiro de 2001(madrugada)


(Ilustração:Adrien-Jean Le Mayeur de Merpres)

27 de jan de 2018

na face do demônio









na face do demônio o rito de passagem

açulava a ganância da gangue

o poço abria-se para o nada

e o esgar noturno da morte encerrava

o apelo ao senso comum

enquanto isso o demônio soltava

os presentes que o inferno lhe incumbia

todos os anjos carbonizados cantavam hosanas aos altares

onde virgens dissolutas se sacrificavam

a gangue de otomanos afiava espadas

os rins estouravam sangue em bolhas

de sabão de coco com azeite-de-dendê

esse era o preço cobrado

o preço a pagar pelo rito inconcebido

na passagem do tempo de hoje para um impossível tempo futuro


8.4.2017



 (Ilustração: Zdzisław Beksiński - soldier)