20 de abr de 2018

Cilícios









A ti me entrego em holocausto,

na chama que nasce de teu vício.

É teu corpo em transe um fausto

que compensa o meu suplício.

Não te nego e tu não me negas:

mesmo quando aperto teus cilícios,

sou eu a morrer em mil entregas. 





(Ilustração: a. não identificado)



19 de abr de 2018

Aquecimento global








Beijo-te, beijo-te toda:

Desde a tua nuca, nua,

À ponta dos dedos dos pés,

Beijo- te, sim, beijo-te toda,

Antes que o mundo se foda.





(Betty Dodson; 1929, American)



18 de abr de 2018

abismo








meu coração está um lusco-fusco de tarde após a tempestade

não há mais considerações a serem feitas depois da tormenta

os ventos alísios sopram apenas o suficiente para mantê-lo

nunca pensei em chegar a um estado de esperança expectante

assim como os arroios que formam lagos após cachoeiras

sei que todos os seres humanos têm paixões turbulentas

não conheço quem almejara mais do que eu a paz dos idiotas

talvez agora seja o momento de enquadrar meus sentimentos

à mediocridade de um mundo que prima pela estupidez

afogado em guerras e assassinatos sem nenhum sentido

mergulho então em mim mesmo e não encontro nada

somente a fímbria escura de um horizonte tenebroso

a prenunciar o fim de tudo e o começo do absurdo

homens e mulheres abraçados a si mesmos em fogos

cometas astuciosos a cruzar o corno da lua nova

esperam-se dias de sol que nunca mais virão

e os corações angustiados desafiam leis inutilmente

porque a esperança que o fim da tarde de tempestade

trouxera enfim se esgarçou no abismo mais profundo

que estava escondido no fundo da alma de todos os seres



28.3.2018




(Ilustração: Paula Rego)



17 de abr de 2018

a bomba










verteu-se o esporro sobre os esporos de flores murchas 

expectante do instante de prazer e descontrole 

os músculos em fúria atribuíram a vitória ao sol 

e o brilho do cogumelo arruinou as retinas 

o gozo veio febril e tánatos eclodiu nas garras 

de um prazer que jamais antes fora fruído 

e o sal da terra em jatos de vento benzeu 

mil carcaças sobre o leito e sobre o eito 

dos amantes de todos tempos em que o coito 

sacralizava-se ao fio da espada e do punhal 

o esporro em nuvens assumiu o contorno 

do corpo em gozo a retorcer-se nos rios 

de lavas que sobem aos olhos vermelhos 

de tantas noites sem sono e sem sonhos 

pelas veredas de campos desfolhados 

o amor em estranhas contorções de volúpia 

deixou seu rastro nas entranhas do prazer 

e tudo o que era direito virou avesso 

e tudo o que era avesso desintegrou-se em gozo 

à luz da lua o campo está agora expectante 

e só o pio da coruja ao ver as baratas tontas 

acorda os amantes para um novo dia e ciclo 

ao cicio do cio de piedades e altares negros 






14.3.2018





(Ilustração: Bernard Buffet -1928-1999; 
 la traversge du Styx, l'enfer de Dante; 
the crossing of Styx, the hell of Dante)



16 de abr de 2018

a bunda, essa intocável










já tantas vezes a cona

da dona eu comi

e não a bunda da dona

porque, minha querida,

em tantas festas na cama,

o teu em meu corpo enroscado,

tua boceta por minha língua lambida,

meu pau por tua boca chupado,

amantes por tempo sem pejo,

no entanto, sempre me negas o desejo

que em mim está sempre alerta

do fruto perfeito e redondo

que tanta cobiça a todos desperta!



se já tantas vezes a cona

da dona fodi,

por que outras tantas

não pudeste me dar

o que muitas vezes te pedi?



não sofro pela bunda intocável,

fechada com todas as pregas,

que, se isso é trauma, é superável,

mas sofro por ver que não me entregas

um tesouro encontrável sem mapa,

sem motim, sem lutas, sem trilhas

em longínquas e misteriosas ilhas,

encontrável por qualquer pirata,

um tesouro tão à vista e tão falado

que o dia em que resolvas doá-lo

que seja para o maior regalo

desse mísero amante incansável



e então, querida, receio que ao fim

desse tempo de espera que me acanha

não mais obtenhas de mim

todo o prazer de tão doce façanha



se a dona tantas vezes comi,

por que ainda me negas

esse fruto tão cobiçado?

carpe diem, solta as pregas,

que isso nunca a ninguém

algum dia já fez mal,

que bunda todos têm

mas só a tua contém

a não esperada nem desejada,

a temida placa fatal:

curvas perigosas,

estrada interditada!



3.2.2016



15 de abr de 2018

Vida em minha boca









Sopro de leve os pelos

de teu púbis

e abro teus segredos.

Os lábios retêm teu grelo

e tu gemes baixinho.

De novo o sopro, de novo teus pelos

se arrepiam na breve aragem:

é só a vida gozando em minha boca.







(Mural da cidade de Pompeia)











14 de abr de 2018

União









Vem, tu dizes,

meu corpo é chama.

E então somos felizes

na mesma cama. 








(Ilustração: Paul-Émile Bécat)









13 de abr de 2018

sexta-feira 13








quero cruzar na rua

numa encruzilhada bem sinistra

com um belo gato preto

porque hoje é sexta-feira 13



quero entrar em casa

e quebrar bem quebrado um espelho

em mil pedaços de mil reflexos

porque hoje é sexta-feira 13



quero passar debaixo de uma escada

de madeira bem velha e não bater três vezes

para espantar qualquer maldição

porque hoje é sexta-feira 13



vou deixar todos os meus sapatos

virados de borco como barcos naufragados

para dar depois um bom chute no tal azar

porque hoje é sexta-feira 13



não quero trevo de quatro folhas

nem quero jogar moedas numa fonte

vou abrir dentro de casa meu guarda-chuva

porque hoje é sexta-feira 13



não acredito em pio de coruja

não tenho nada contra gatos pretos

escadas são escadas nada mais que escadas

ramo de arruda na orelha deixa só

um cheiro de arruda na orelha

e qualquer mandinga fica na cabeça de quem faz

seja hoje um domingo de festa

ou uma sexta-feira 13 de muita chuva

caiam raios ou flores

a sorte ou o azar não estão em mim

não estão em você a sorte ou o azar

nem nas coisas que nos cercam

seja hoje sexta-feira 13 o dia igual

a todos os dias de nossas vidas

sem bruxas

sem deuses

sem temores

sem mandingas

piem no mato todas as corujas

espreguicem-se felizes todos os gatos

deixem nos coelhos as suas patas

porque hoje é sexta-feira 13



13.1.2017



(Ilustração: Charles Camoin  - French Fauvist Painter, 1879-1965; La fille au chat)

12 de abr de 2018

Último










Enquanto no banho te lavas,

Penso, louco por foder-te:

Vieste, puta, como as escravas,

Mas não é assim que quero ver-te:

Se por qualquer dinheiro me davas,

Quero, sim, ser o último a comer-te. 









(Ilustração: Peter Fendi)



11 de abr de 2018

Tesouro









Fechado o ânus como um cofre,

há somente uma chave para abri-lo:

por isso, para entrar, o pau sofre,

faz seu dono perder um quilo

e precisa agir com toda a perícia.

Mas depois que entra – que delícia!





  (Ilustração: Loïc Dibigeon; 1934 2003)








10 de abr de 2018

Tesão








Desce minha boca

ao teu ventre.

Louca

de desejos

abres-te à língua,

e entre mil beijos

e gemidos tu choras

doida que eu te foda

e imploras

que te coma toda. 






(Ilustração: Loïc Dubigeon; Nantes, 1934 2003)




9 de abr de 2018

tempo de querer-te









há o tempo de querer-te:

- e beijo os teus lábios;

há o tempo de foder-te:

- e ficamos mais sábios! 






(Ilustração: Léon Courbouleix - 1887 – 1972, French: pour toi pour moi)





8 de abr de 2018

simples, as curvas do teu corpo









são tão simples as curvas

do teu corpo

são tão diretos os caminhos

do teu corpo

são tão previsíveis os fluidos

do teu corpo

são tão comuns os anelos

do teu corpo



mesmo assim me perco em curvas

mesmo assim retomo caminhos

mesmo assim bebo os fluidos

mesmo assim procuro os anelos



porque és, amada,

mais que curvas, caminhos, fluidos e anelos

és o gozo que encontro em cada toque

cotidianamente

sem qualquer prurido, sem qualquer culpa




(Ilustração: Betty Dodson; 1929; American; glad day)





7 de abr de 2018

Sim!









Mordo-te

o seio.

Gritas

que o gozo

já veio.






(Ilustração: Erich von Gotha; 1924; English)




6 de abr de 2018

Pressa








Dispo-te em dois segundos

em louca ânsia de amar.

No entanto, correste mundos

e fundos, para achar

a mais linda lingerie

que - desculpe, eu não vi –

pudesse me agradar. 






(Ilustração: Erich von Gotha -(1924, English; the education of Sophie)




5 de abr de 2018

Prazer solitário








Gosto, sim, do teu cheiro,

do teu gosto, eu gosto, sim.

Vibro com teu gozo,

anseio por teu corpo,

tua pele nua, teu olho,

tua ilogicidade no sexo,

teu prazer no inusitado,

gosto, gosto, sim, de

estar contigo, meu amor.

Mas, ah, gosto mais,

- e hás de me perdoar

por isso – meu amor,

gosto mais ainda de

pensar em tudo isso

quando tu não estás! 






(Ilustração: Betty Dodson - 1929 - American; man masturbating with porn)





4 de abr de 2018

paixão








o arrepio

do teu seio

não é de frio

mas de receio

de que não

te morda

de que não

te foda



(Ilustração: arte erótica chinesa)



1 de abr de 2018

Os poemas de amor









Que sejam breves

os poemas de amor.

Breves como o leve

espasmo

de teu corpo,

meu amor, na hora

do orgasmo. 






(Ilustração: Erich von Gotha)



31 de mar de 2018

Oração 9










não, não há escrava nem senhor,

quando, abraçados e nus, de joelhos,

nossos sexos trocam fluidos de amor





(Ilustração: Aroldo Bonzagni)

30 de mar de 2018

Oração 8










preparas-te para a foda

de joelhos sobre a cama:

tua bunda apaga o sol

e teu ventre vira chama






(Ilustração: Jean-Jacques Lequeu)