9 de dez de 2016

madrugada




(Olivier Moreau)





fui dormir tarde

muito tarde

acordei sobressaltado

algumas horas depois



liguei o rádio e tocava

uma fuga de bach



a figura de uma atriz nua

e angelicalmente desbocada

povoou meus sonhos e desejos



para espantar tal visão

li e reli dois contos de ficções

de jorge luis borges

até que a madrugada se transformasse

em luz tênue no canto do sabiá



o dia chuvoso prometia

nunca mais ser o mesmo

de todos os dias chuvosos

narrados por cervantes



inútil continuar a sonhar

com o corpo esguio da atriz nua





o tilintar das moedas

caindo no poço dos desejos

seria a sina final daquele despertar



28.11.2016

6 de dez de 2016

solidão do poeta





(Berthe Morisot) 



de versos e rimas

não tenho quem me fale

não tenho quem me ouça



sou grão de areia

num oceano de espuma



escrevo o que sinto

nem sempre sinto o que escrevo



se bons ou maus

nascem ao correr dos dedos no teclado

os poemas que me vêm à mente



não os julgam ninguém

não os leem quase ninguém

não os envio a jornais ou a revistas

nem os discuto em rodas literárias



a solidão do poeta é como a solidão dos astros

entre os quais há distâncias infinitas



e a poesia é apenas uma forma de dizer

ainda respiro e vou viver enquanto escrever


15.11.2016

3 de dez de 2016

MEU MESTRE PORCO ESPINHO







Porco espinho. Bicho aparentemente perigoso, com seus espinhos. Que servem apenas de proteção. Só machucam os incautos. Os agressivos. Os que não têm sensibilidade para dele se aproximar com carinho.

Assim era Chico de Assis. Um porco espinho. Assustava a quem dele se aproximava sem o cuidado devido. E estava sempre na defensiva. Não sei o que a vida lhe proporcionou para ser assim, tão eriçado. Só o conheci no seus últimos dezoito, vinte anos de vida. E foi uma convivência razoavelmente tranquila com seus espinhos. Nas poucas vezes que neles me espetei, tive o cuidado de afastar-me, curar as pequenas feridas e buscar uma nova aproximação, mais cuidadosa e com certeza mais proveitosa, porque fora uma lição a mais que ele me dera.

Conheci muitas pessoas inteligentes, durante a minha vida. E tive o prazer de conviver com várias dessas pessoas. Aprendi muito com elas, embora trilhasse um caminho de autodidatismo e de extremo recolhimento e cautela, que sempre me impediram que me aproximasse demasiado dessas pessoas, com receio sempre de ser um intruso. Com Chico de Assis, foi quase assim. Mas consegui furar um pouco o acanhamento e segui-lo em suas aulas por muitos e muitos anos, no Seminário de Dramaturgia do Arena – o SEMDA.

Creio, no entanto, que nunca lhe disse o quanto o admirava. O quanto admirava sua inteligência, sua memória, seus conhecimentos não só de dramaturgia, mas de tantas outras matérias com que ele recheava suas lições todas as terças-feiras, numa sala do teatro Arena, no centro de São Paulo, de forma quase franciscana e missionária. Mas o que mais me perturba hoje, depois que ele se foi, talvez tenha sido a falta de oportunidade para lhe confessar algo muito íntimo e, até certo ponto, um pouco constrangedor, já que a diferença de idade entre nós não era assim tão grande, que pudesse dar base a essa confissão.

Dizem que mãe só se tem uma. Engano. Tive várias mães, além da minha mãe biológica. Mulheres que eram mães de vários amigos que eram mais do que amigos, eram os irmãos que escolhia e que me escolhiam. Foram e algumas ainda são as mães que me acolheram e ajudaram a fazer de mim aquilo que sou, tão pequeno diante de tanto amor que tive dessas mulheres. E acrescento: foram talvez a compensação de algo que muito fez falta. A elas agradeço e, claro, à minha mãe, de quem falo adiante, todos os dias da minha vida.

Então, o que eu gostaria de ter-lhe dito prende-se a essa minha própria trajetória de vida. Filho temporão, caçula com irmãos bem mais velhos, fui criado – e protegido – por minha mãe e somente por ela, de forma solitária e sem grandes sofrimentos, mesmo diante do quadro de pobreza que nos cercava. Graças a minha mãe, nada me faltou, sua máquina de costura funcionava dia e noite para prover o meu sustento. Cresci distante da figura paterna, estudando sempre solitariamente, para me formar, a despeito de todas as dificuldades. Daí o meu autodidatismo e minha nem sempre vencida timidez diante das pessoas, que nunca me deixaram. Poucos foram os mestres a, não apenas me ensinar, mas também a me guiar, quando jovem e estudante.

As aulas de dramaturgia com Chico de Assis tornaram-se praticamente a exceção à minha busca solitária de conhecimento: tinha, agora, um mestre, um guia. Tornou-se ele, então, para mim, uma espécie de pai intelectual, a fonte onde bebia não apenas um novo mundo de saber, o teatro, mas também onde obtinha um amplo leque de visões de vida, a contribuir para o meu aperfeiçoamento tardio, como homem e como pretenso intelectual, em matérias outras muito diferentes daquelas que eu havia adquirido ao longo da vida. Sim, foi Chico de Assis, durante esses vinte anos de convivência, o pai que eu não tive, um pai ranzinza, duro às vezes, espinhento, mas sempre pronto a dar uma palavra a mais de conhecimento, de lição de vida, de descoberta de uma nova vereda pela qual eu pudesse caminhar sob seus olhos vigilantes e atentos.

E preciso confessar mais uma idiossincrasia: assim como não me lembro o dia da morte de minha mãe, ou de meus irmãos, ou dos amigos mais queridos, dos conhecidos e de tantas pessoas que passaram por minha vida e já se foram, estou também esquecendo e acho que já esqueci a data da morte de Chico de Assis. Não quero saber. Nenhuma data. Nem da morte de meus mortos nem do aniversário de vida dos meus mortos. Porque sou assim: não comemoro datas. Eles, os meus mortos queridos, são lembrados e intimamente chorados por todos, absolutamente por todos os dias da minha vida. Quero-os vivos dentro de mim, a cada instante, sem sofrimento, sem dores, apenas a deliciosa lembrança de um detalhe, de uma palavra, de um sorriso, ou, o que é ainda mais precioso, a certeza de que, se os amei, é porque há na minha memória uma marca indelével de sua passagem por minha vida. A lágrima que umedece meus olhos é discreta, e dói um pouco todos os dias, todos os dias, só um pouco, mas aumenta e ao mesmo tempo alivia a saudade. E isso me basta. E isso me conforta.

Obrigado por haver deixado essa marca, meu mestre porco espinho, meu pai Chico de Assis.


2.12.2016





2 de dez de 2016

sonhos











sobre as ondas do mar navega o valente barco

cão raivoso ruge medonho o vento

o mar inteiro enovela-se para engolir o barco e seus navegantes

prende entre nove dedos

com mais força o timão o timoneiro sozinho à proa

vespas vermelhas os marinheiros

correm pelo convés da popa à proa

preparam alguns os botes salva-vidas

gritam outros palavras de ordem

tudo se confunde ao negror da noite e à tempestade

alçam voo as gaivotas amedrontadas

possuída de ódio mortal a onda avança

da proa à popa varre o velame e o barco range

segura mais forte ao timão o velho timoneiro

sabe que é violenta a tempestade mas passageira

mais do que todos conhece o mar e seus humores

seu sonho um dia já foi alvorada

durou o tempo do dia calmo em mar de golfinhos

sabe que a noite de tempestade traz o ódio

o ódio cego a pisar a derriçada esperança

mas sua sabedoria de velho timoneiro lhe diz

que depois da bonança e do nevoeiro

vem sempre a manhã do renascimento

volta-se então para todos os marinheiros

os seus olhos cansados porém ariscos

dizem a todos que se acalmem

dizem a todos que trabalhem

que os sonhos ainda não morreram

porque a vida vira um só pesadelo

quando cada um dos marinheiros

mata dentro de si o próprio sonho

devem todos permanecer em vigília

para que a noite negra enfim amanheça

para que o sonho sonhado reviva

ao sol de uma nova e feliz alvorada

formada com a chama sempre acesa

que há nos olhos do bravo timoneiro

3.11.2016







1 de dez de 2016

O PREÇO DA POESIA




(Lavras; praça Dr. Jorge - c. 1960)



Costumo pensar comigo mesmo que jamais ganharei um só tostão furado com a minha poesia. Não que eu ache que não tenham algum valor os meus versos. Para mim, têm e muito valor. Descrevem a minha vida, descerram o que eu penso, desvelam meus sentimentos. Então, têm algum valor. Para os outros, talvez não valham nada ou muito pouco. Isso, porém pouco importa.

Quando penso que jamais ganharei algo com meus versos é porque me lembro de um episódio ocorrido quando escrevi o meu primeiro poema. Tinha quinze anos. E minha relação com meu irmão Marcos, doze anos mais velho que eu, não era, como nunca foi, das melhores. Porque eu estudava, porque eu era – nem se sonhava na existência do termo, na época – meio nerd, ou seja, diferente do que se podia esperar de um moleque pobre, muito pobre, naquele tempo quando minha mãe lutava desesperadamente para pagar meu colégio; porque eu lia muito e pretendia continuar estudando, mesmo com todas as dificuldades; porque talvez minha mãe me “mimasse”, mesmo sem recursos, por eu ser o caçula; enfim, porque a vida dele, assombrada pelo alcoolismo e por dificuldades financeiras – já casado e com filhos – não devesse ser das melhores, eu só sei que Marcos, sempre que tinha alguma oportunidade, gostava de me provocar, de me dizer coisas desagradáveis, de me colocar para baixo. Nem sei se minha mãe sabia dessas suas artimanhas.

Mas vamos ao caso. Nessa época, morava ele em São João Del Rey, o que, para mim, era um certo alívio, pois não tinha a constância de sua presença a me azucrinar. Isso amenizava um pouco o azedume de nossa relação, já que a distância fazia-me esquecer que ele fazia questão de me olhar torto e de me dizer o que eu não gostava de ouvir. E então, numa de suas visitas, logo depois de haver perpetrado o tal poema, o primeiro, um soneto, ele veio nos visitar. Não sei se para tentar uma aproximação ou por qualquer outra razão, acabei lhe mostrando o poema. Com receio, claro, de sua crítica. Mas mostrei. E para minha surpresa, ele até elogiou. Disse que ia levar para São João Del Rey e ia conseguir até mesmo publicá-lo no jornal de lá, que seria de um amigo dele.

E de fato, algum tempo depois, recebi o tal jornal com o meu poema. Claro que fiquei extremamente feliz. Não consigo lembrar mais nada. Só o meu orgulho de ler um poema de minha autoria em letra impressa. O poema – é claro – não é nenhuma maravilha; pretensioso como só poderia ser de um garoto de 15 anos, leitor de poetas parnasianos, recém-apresentado às artes das rimas e da versificação, cheio de ideias, ou melhor, ainda vazio de ideias, mas com uma grande vontade de escrever. Há, no soneto, além da pretensão, um excesso de reticências e uma mistura estranha de versos decassílabos e octossílabos. As rimas também são estranhas, muito mais rimas toantes que soantes, a indicar toda essa carpintaria canhestra que o jovem poeta de então realmente era ainda muito incipiente e insipiente. Eis o poema:

Sedução



Oh saudades... primaveras... auroras...

Noites enluaradas de amores...

Lindas flores do jardim, onde outrora,

Tu eras bela – rainha das flores...



Lindos prados... vales verdes... montanhas...

Tudo era de encantos celestes...

Paradísia ressurgida de sonhos,

Tópicos de campos agrestes...



Pintassilgos... rouxinóis policrômicos...

Sistros encantados... melódicos,

Em cascatas transbordantes... eufônicas...



Páginas da mãe natureza,

Maravilhas que eu releio em teus olhos,

Bem do coração, sem surpresa!...



No canto esquerdo, embaixo, a data (18/9/1960) e a minha assinatura, em forma de rubrica. E o tema, bem, o tema do soneto, ou do pretenso soneto, bem... deixa para lá... é só mesmo uma bobagem de um menino que, provavelmente, ainda usava calças curtas e andava descalço pelas ruas e matos da velha cidadezinha de Lavras, no Sul de Minas.

O que encerra essa tentativa de crônica e torna-a menos árida e um tanto pitoresca é o seu desfecho: meses depois, Marcos me confessou que vendera o poema para o jornal e embolsara o dinheiro, que estava precisando para comprar leite para os filhos. Enfim, eu não ganhei nunca dinheiro com meus versos, mas um dia, o meu irmão, com quem vivia às turras, conseguiu transformar uns pobres versos meus em algo de útil para sua vida e para a vida de meus sobrinhos.

Acho que, por isso, não pensei nunca mais em ganhar dinheiro com poesia. Hoje, publico todos, absolutamente todos os meus versos gratuitamente, num blog, neste blog, para que o leiam aqueles que quiserem. E, se gostarem, muito bem. Se não gostarem, nada podem dizer ou fazer, já que são de graça. Diz o ditado que a cavalo dado não se reparam os dentes. A versos gratuitos não se reparam os defeitos e não vai nisso nenhuma arrogância, mas apenas timidez e, mais do que timidez, uma brincadeirinha boba. Se quiserem os poucos e parcos leitores fazer reparos, a crítica será sempre bem-vinda.


25.102016

30 de nov de 2016

lá fora um gato vadio




(Edvard Munch - Man and Woman)




lá fora um gato vadio

miava à lua cheio de agonia

o vento batia no sino

e o som suave espalhava-se pelas árvores

o bêbado tossia e tropeçava

nas pedras da rua

ruídos e roncos de motores

ao longe nas quebradas e becos

alongava-se a sombra de raros vagabundos

e a cidade guardava o sono agitado

de seus tensos habitantes



no leito já frio os amantes

olhavam-se enfim com desespero

e o gato frustrado miava

lá fora para a lua escondida




19.11.2016

29 de nov de 2016

babava coca-cola



(Dino Valls - La Nave de los Locos)







babava coca-cola

como um poeta concretista

cuspia caroços de azeitona

como um judeu do velho testamento

olhava torto para os companheiros

como se quisesse exorcizar alguns demônios

arrotava pão de queijo

como um mineiro de sete lagoas

cantava uma melopeia sem sentido

como um gaúcho laçando boi

cheirava pó de arroz

como um carioca da zona sul

peidava picadinho de couve

como um guri da zona leste

falava mal do governo

como um motoqueiro sem destino

dançava um tango arretado

como se nadasse no rio da prata

tocava a sanfona de sete baixos

como um nordestino em são paulo

pescava e fritava um pirarucu

como pintasse um quadro de picasso

sonhava sonhos impossíveis

como se cavalgasse o rocinante

perdeu-se na baba de coca-cola

como todo poeta um dia

sonhou perder-se e era

enfim e nos finalmentes

a sombra de sua própria sombra


19.11.2016

24 de nov de 2016

o poeta





(Luiz Aquila)





não

não é o poeta apenas um fingidor



é também o poeta um pensador

que pensa tão profundamente

todas as dores do mundo

que se torna às vezes um sofredor

mesmo que as dores sentidas

sejam dores fingidas

fingidas há tanto tempo

que trazem marcas de vidas e ventos

e acabam dores tecidas

nos moinhos d’água e nos cata-ventos

dos morros arrostados pelas borrascas



não sofre à toa o poeta em seu fingimento

não canta à toa o poeta em seu atingimento

de cordas profundas e vagos sentimentos

pensa e descobre o destino

pensa e alivia os arranhões dos espinhos

e das pedras do meio dos caminhos



não

não é o poeta um fingidor apenas



vaga vário ao vento

segregado

degredado

do mundo

o pensamento





do poeta fingidor

do poeta pensador

do poeta sofredor



12.11.2016

22 de nov de 2016

desesperança

(Rothko - mural section- black on maroon - 1959)





embora a primavera caminhe para a metade

é frio e ventoso o tempo como se ainda fosse inverno

a lua mal chega às flores do jardim

e as noites sem lua exigem quartos fechados

assim também o poeta assombra as ruas e caminha ao vento

frio em seus lamentos

sonolento em seus passos lentos

como se ainda vivesse o tempo de outrora

temendo os dias que ainda virão

tremendo à lembrança de amores mortos

sua primavera escura traduz-se em cantos

que ao vento e à chuva parecem lágrimas

são doces anseios que se afogaram

nos rios cheios de verões passados

anseios agora ultrapassados e negados

pela permanência do vento frio

que promete tornar escuros até os dias de sol

dos tempos límpidos dos verões vindouros



6.11.2016

17 de nov de 2016

sabiá







(Di Magalhães - sabiá-laranjeira)





ó meu sabiá

por que cantas tantas vezes



teu trinado trinca as trancas de meu peito

e do coração desfeito entorna o vento

que traz do passado os cantos de outrora



ó meu sabiá

teu canto desde a aurora

acorda as cordas travadas desse instrumento

que há tempos bate em compasso lento

como se teu trinado de agora

trouxesse do passado os cantos de outrora



há na vida e na lembrança dos seres

que se dizem humanos

momentos de paixão e de estranhamentos

sepultados no fundo da lembrança

deixa-os lá meu caro sabiá

não os traga de volta por favor

que não há dor maior a lamentar

que esta de sempre lembrar

o que já há muito se esqueceu



teu trinado pela tarde afora

traz de volta o que um dia

num momento outrora

foi aquilo que se chamou felicidade

e por ter sido tão fugaz em seu tempo lento

é que em dor se transformou com o passar do tempo



e o vento que sopra vindo do leste

que faz vibrar as cordas do coração

e as folhas de tua pitangueira

que vento é este meu sabiá

que vento triste no trinado do anoitecer



cala o teu bico meu pássaro tardio

que a vida que escorre pelas minhas mãos

é a mesma vida que viaja

no trinado de teu canto

pelo lusco-fusco do dia que cai

pelo lusco-fusco da vida que se vai



oh meu sabiá




11.11.2016


15 de nov de 2016

respeito



(Rob Gonsalves)








prepara teus filhos para a vida

e para o mundo

não com doutrinas de deuses mortos

não com conselhos de sábios inúteis

não com ciências de objetivos duvidosos

prepara teus filhos para o mundo

dando-lhes a noção exata de sua humanidade

que exige que todos à volta os respeitem

e que eles a todos em torno de si também respeitem

deixa depois que sigam sua estrada

pisando nas pedras e nos espinhos

que os seus pés escolherem

não os teus pés nem os teus anseios

o mundo à volta deles será funesto

se de teus olhos e de teus ouvidos

não despregarem eles os seus próprios olhos e ouvidos

deixa que carreguem suas mochilas

que ouçam seus ídolos e cantem suas músicas

descubram seus erros e persigam seus sonhos

e marquem com cada passo o peso do seu próprio corpo

na areia fina da praia deserta

ou na pedra dura da montanha inóspita

deixa-os enfim criar seu próprio espaço no mundo

como tu mesmo o fizeste

quando ainda jovem juraste

respeito a ti

respeito à vida


respeito ao mundo 



29.10.2016






9 de nov de 2016

deuses mortos



(A. não identificado)







tudo o que vem de deus e seus asseclas

tem cheiro de rato morto



no porão da consciência humana

deus tece pesadelos para escravizar seus seguidores



não há janelas nem claraboias

que iluminem a mente de um deísta



cegos e idiotas são todos aqueles

que leem livros sagrados

e acreditam em suas palavras



não no inferno queimam os infiéis

mas nas ventas do deus vingador

que ergue espadas estúpidas

para degolar seus opositores



na crença de paraísos perdidos

perde-se a humanidade transformada

em seres monstruosos



matam-se por hóstias ou por blasfêmias

e o cheiro de rato morto

sai da boca de deus misturado

às fezes dos pecadores enforcados



se existisse

deus seria um velho cagão

cego por glaucoma

a bradar de ódio contra todos os homens e todas as mulheres

impotente para destruir a humanidade que criou

a rugir como um leão sem juba

para o infinito de galáxias que se criam aos punhados

dentro do buraco negro de seu divino cu



mas deus não existe e eu posso dizer tudo isso

para a ira dos deístas que não se conformam

com a morte precoce de suas ilusões

não há infernos

não há paraísos

existe apenas o ódio mortal dos deístas

e sua furibunda e nauseabunda crença


3.11.2016


4 de nov de 2016

Trova





(Lucien Freud; something has changed me)



“Tempore crevit amore”

Ovídio





Com o tempo, o amor cresceu,

Cresceu e amadureceu:

No dia em que floresceu,

No mesmo dia morreu.




29.10.2016

3 de nov de 2016

não gosto de cães



(Tiago Hoisel)





não gosto de cães

e eles não gostam de mim

fora isso

sou um cara igual a todos

sem mistérios

sem descrenças outras

que aquelas com que a vida

nos presenteia



os meus passos pisam

as mesmas pegadas

que pelos caminhos deixaram

outros seres como eu

na curta história da humanidade



os deuses do passado

tornaram-se em cães amestrados

a latir inutilmente para o futuro

um futuro bizarro e sem conotações

apenas um futuro



os pelos de meu rosto eriçam-se

a cada estrondo de morte

que permeia a galáxia onde nos toleramos



sou o que fui

e fui o que nunca serei



o vento das estrelas sopra os meus cabelos

e o cheiro de carniça

vem de trás de cada treliça

que separa e segrega



há esperança no entanto



há esperança

enquanto ladrarem molossos na escuridão

enquanto plantarem as vinhas nas encostas

enquanto se quebrarem as algemas nos dedos médios



não nos iludamos no entanto

caros companheiros da tragédia da vida

riamos até que ela aceite ser de novo comédia

e passeemos com dante em busca de beatriz

por todos os infernos que nos prometem

os pretensos e pretensiosos donos

desse mundo sem eira nem beira



não

não gosto de cães

e eles me detestam



29.10.2016

31 de out de 2016

leitura




(Claude Monet; a woman reading)




ler um bom romance é para mim um exercício complexo

pois me enrolo sempre num terno paradoxo

quando não sei se acompanho o desejo ortodoxo

de chegar logo ao fim e saboreio apenas a trama prolixa

ou leio devagar a ruminar cada palavra em doce amplexo









29.10.2016

28 de out de 2016

gente



(Érika Cardoso - Mama África)







não sou negro

a minha pele é que é negra

não sou branco

a minha pele é que é branca

não sou amarelo

a minha pele é que é amarela

branco negro amarelo

e mil outros tons tem a pele

de gente que nasceu e vive

sob sol escaldante

entre borrascas e brumas nevosas

em climas de trópicos chuvosos

de gente que mora

em cidades de cimento e aço

em palhoças à beira de rios

em casas fincadas sobre estacas

dentro de lagos

em casebres dependurados

em morros derriçados

em choças de pau-a-pique

de pedra ou de argila

cobertas com folhas de palmeiras

à beira de vulcões

à sombra de baobás

ao sol do deserto

às margens de rios e mares

sobre montanhas nevadas

gente alta

gente baixinha

gente de pescoço comprido

gente de olhos irisados

cada um com sua cor

negros

brancos

amarelos

todos têm cabeça tronco e membros

comem folhas

comem carnes

comem frutos e raízes

falam com vozes roucas

falam com vozes finas

e cantam

e dançam

e até guerreiam

se têm cores as suas peles

se têm cores os seus olhos

brancos são seus dentes

brancos são seus ossos

caminham todos sobre os pés

trabalham todos com as mãos

pensam todos com o cérebro

têm todos bocas que riem e falam

bocas que comem e beijam

narizes que cheiram

ouvidos que ouvem

olhos que veem e contemplam

a pele que sente o vento

e a carícia de outra mão

arrepia igual sem distinção de cor

não tem cor o sentimento

não tem cor o pensamento

e bate em cada peito igual coração

que faz correr em todas as veias

o mesmo sangue rubro

carregando a mesma vida multicor

gente branca

gente preta

gente parda

gente amarela

gente de cores e sabores

gente apenas

contada aos bilhões

são átomos invisíveis

num planeta perdido e solitário

a navegar por galáxias infinitas



15.10.2016

27 de out de 2016

vida e livros





(Foto de Chema Madoz)




tudo o que aprendi da vida veio dos livros que li

sem mestres

sem deuses

tudo o que a vida me ensinou transformei em livros

não necessariamente livros escritos ou publicados

mas livros devidamente encadernados em minha cabeça

sem traumas

sem dores

não faço da vida e dos livros que sempre li e reli

motivo de lamentações nem de estranhas devoções

cultivo apenas dentro de mim a minha eterna solidão

sem queixas

sem lágrimas

sou o que sou longe de mandamentos obscuros

faço de cada passo a decisão de apenas viver

com meus fantasmas e meus desejos e minha frustrações

como se a escada para a treva fosse apenas a lei da vida

sem mestres

sem deuses

sem traumas

sem dores

sem queixas

sem lágrimas

porque a vida é apenas um livro que se lê assim



22.10.2016



26 de out de 2016

LEMBRAR PARA VIVER







Dias de penúria e felicidade marcaram meus quinze primeiros anos de vida. Não lhes tenho nenhum sentimento de saudade nem desejaria que voltassem. Então, para que relembrá-los? Talvez para saber quem eu fui, quem eu sou. Para isso servem as memórias. E, proustianamente, vou, aqui, tentar desvendar mistérios, pequeníssimos, mas fundamentais mistérios de minha vida. Delimito no tempo essas memórias: os quinze anos, quando me formei no que nessa época se denominava ginasial. Precisamente o dia de minha formatura, quando, às voltas com o discurso que eu teria que fazer, como orador da turma, iniciou-se uma briga entre mim e meu irmão Marcos. Na verdade, ele é quem brigava comigo. Sexto filho de uma prole de que restaram apenas quatro irmãos – duas irmãs, Maria Amélia e Irene morreram ainda no puerpério, muitos anos antes de mim – tinha vindo ao mundo doze anos após aquele que era até então o caçula, Marcos, com quem vivia às turras. Tive, com ele, poucos momentos de distensão ao longo de toda a sua vida. Nossa relação era sempre muito tensa: temia-o mais do que o amava como acho que os irmãos de sangue devem amar-se. Era doente, o meu irmão, sofria de alcoolismo e, quando bebia, tinha crises de violência e rancor exacerbados, muitas vezes voltados para mim, como se eu tivesse culpa de ter nascido e tirado o seu lugar ou suas oportunidades de vida, sei lá, nunca consegui descobrir por que gostava de me xingar, de me agredir verbalmente. E nesse dia, em especial, tinha sido muito duro comigo: dissera que esperaria que eu crescesse, que eu me tornasse homem, para enfrentá-lo e, então, ele me daria uma surra. Sei, agora, que a promessa da surra era fanfarronice da bebedeira, mas vivi muitos e muitos anos atormentado por essa possibilidade, já que ele sempre foi muito mais forte do que eu. No auge da discussão, chegou meu padrinho de batismo, Geraldo Faria. Sim, eu tive um padrinho de batismo, não podia nunca ter escapado do catolicismo beato de minha mãe. Há uma foto ridícula de primeira comunhão, na qual um menino franzino, assustado, de terno jaquetão, calças curtas, sapatos (coisa rara) e meias brancas segura uma vela. Típica foto da época, padrão de vexames em datas específicas de que quase ninguém escapava. A fotografia não era algo comum, só os profissionais ousavam, com suas câmeras enormes, colocadas em tripés, atrás das quais o fotógrafo se escondia sob um pano negro, obter flagrantes de momentos históricos das famílias: casamentos, batismos, bodas e outras efemérides. Tergiverso, à Proust, para quem as memórias devem ser assim, oceânicas, longas, detalhadas, aborrecidas talvez para a maioria dos leitores, mas com o sabor de madalenas daquele momento específico de uma lembrança que desperta sensações que desatam nós que se enredam e desenredam em teias de sentimentos e de pedaços de vida. Nunca provei uma madalena. Nem mesmo qualquer mulher com tal nome. Minhas memórias gustativas prendem-se aos sabores quase primitivos de uma broa de fubá ou de um frango com quiabo e outras comidas típicas do interior de Minas, da velha Lavras, onde nasci. Voltemos ao meu padrinho, Geraldo. Era ele um tipo folgazão, amplo, bigode farto no rosto onde pontuava sempre um sorriso maroto. Era também uma espécie de contraparente – e eu me embaralhava nesses parentescos e nessas redes familiares, porque era filho de minha tia – não, ela não era exatamente minha tia, mas tia de meu pai – dona Elisa Faria, cujo marido... bem, é mais ou menos isso, são figuras que povoam mais a minha imaginação do que realmente lembranças concretas de sua real localização numa pretensa árvore genealógica de minha família, já que eu, por vontade e por circunstâncias, quebrei quase todos os laços que me prendiam à parentalha espalhada por aí. Meu padrinho Geraldo era, então, para mim, uma figura real e presente, com seu jeito brincalhão, com suas histórias e, hoje percebo algo que mal percebia à época, com sua possível cultura. Uma de suas histórias muito me intrigou e ilustra bem sua personalidade. Contava que, em sua época de estudante, vivia com outros rapazes em uma república. As repúblicas marcaram época: eram casas alugadas por grupos de estudantes forasteiros que iam estudar longe de suas cidades de origem. Transformavam-se, claro, em antros de farras e estripulias de uma juventude que contava com muito poucas opções de divertimento. Pois, nessa república onde morava meu padrinho, segundo ele, havia uma tradição entre os moços: no final do dia, depois do banho, todos se postavam às janelas para paquerar e conversar com as moças que passavam pela rua. Impecáveis, com suas camisas brancas de colarinho e gravata, mas completamente nus da cintura para baixo. Inocente, eu jamais atinei por que assim agiam os rapazes. Mas a história prossegue: um dia, Geraldo, moleque como ele só, descobriu que um grande espelho que havia na sala, se colocado num determinado ângulo, poderia fornecer uma grande oportunidade de pregar uma peça nos colegas. Assim, depois dos devidos ajustes na posição do tal espelho, ele seguiu o ritual de sempre, com os amigos. Porém, depois do banho, vestiu-se e foi para o portão, enquanto os demais rapazes postaram-se à janela. Divertiu-se ele às escâncaras com a reação das moças: elas paravam para conversar com os rapazes da janela e iam embora rapidamente, algumas ruborizadas, outras divertidas, com a visão de várias bundas refletidas no grande espelho. Também nunca soube – porque acho que ele nunca contou – como terminou essa patacoada. Era assim o meu padrinho Geraldo., com seu humor, suas histórias de uma juventude passada em algum lugar – seria Campo Belo ou Belo Horizonte? – completamente ignorado por mim, como também não sei até que nível de estudos ele completou. Sei que era culto, porque, naquele dia, ao chegar à minha casa, no momento mesmo da discussão com o Marcos, ele achou um motivo para me afastar da briga, me chamar de lado e me dizer algumas reconfortantes palavras e, principalmente, me entregar um presente: um livro de capa dura e vermelha, uma edição da FTD de Os Lusíadas. Não me lembro de mais nada desse dia, nem de como foi a cerimônia de formatura, tudo se apagou da minha memória, nenhum esforço recuperou os demais acontecimentos de uma data tão importante, ficou somente a memória da briga com meu irmão, porque está atrelada ao presente de meu padrinho Geraldo, por quem não tive oportunidade de chorar, muitos anos mais tarde, quando ele morreu. Choro-o agora, com todo o meu ser, porque uma lágrima de saudade não tem data nem hora para ser vertida por aqueles que marcaram tão profundamente nossas vidas, mesmo que no instante de um relâmpago, num momento crucial e salvador.


Joinville/SC – 4.6.2014

25 de out de 2016

para itamar assumpção











por que morreu itamar assumpção

por que

nego duro no batuque

nego duro no batuque

por que morreu itamar assumpção

aos cinquenta e três anos de idade

por que morreu

nego duro no batuque

nego duro no batuque

nego duro na dor

por que morreu

com tanto humor

levando a dor

levando o batuque

doi doi doi doi

morrer itamar

sem nenhuma assunção

por que morrer assim

num batuque assim

por que morreu

assumpção

por que morreu

itamar

índio negro a cantar

sofreu ou não sofreu itamar

mas morreu

e quem sofreu fui eu

ó itamar

por que por que por que

cinquenta e três

53 malditos

53 marginais

ó por que morreu

por que

ita

       mar

                 mar

                             maravilha

e tenho dito

meu preto

brasileiro

pretobrás


22.10.2016



24 de out de 2016

espreita





(Taro Hata)




confesso que vi

vi e revi e vivi

o instante sublime

fugaz

intempestivo

inusitado

nunca esperado

os meus olhos

espantou-os a visão

e quase

quase

se recusaram a ver

mas vi

vi e olhei e observei

e espreitei

por detrás das folhas

do galho da jabuticabeira

o fruto negro engasgado na boca

eu vi e quase caí

me segurei

me arrepiei

e os pelos de minha virilha

enrijeceram

os meus olhos arregalaram

os meus doze anos pesaram

os galhos da jabuticabeira envergaram

e eu vi e revi e vivi

pela janela aberta

entrando no banho

a moça nuinha

nuinha

nua

eu

vi



15.10.2016