19 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA




(Foto sem indicação de autoria)




13.





Não há sabedoria em criar

frases belas e de grande efeito.

Apenas os tolos apreciam

a rima que ornamenta

a frase colorida de palavras vazias.





18 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA





(Foto de Chema Madoz)


12.





Mesmo quem nada tem a ensinar

julga-se sempre um grande professor.

O verdadeiro sábio apenas ouve

e julga-se o mais estúpido dos homens.



17 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA




(Autor não identificado)



11.



Pôs o homem os seus deuses

num ponto bem acima de suas vaidades.

Para quê? Para ter sempre a desculpa

de nunca conseguir alcançá-los.





16 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA




(A. não identificado)



10.





Há pessoas que rezam todos os dias,

e todos os dias renovam seus pecados.

Eu prefiro achar que não há pecados

que valham qualquer oração.



15 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA



(Foto de Fátima Alves - paisagem mineira)



9.



Há lições de moral no Alcorão.

Há lições de moral na Torá.

Há lições de moral na Bíblia.

Só o livro sempre aberto

da Natureza

não tem lições de moral.



14 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA




(Foto de Pierre Molinier - Self-portrait)



8.



O palhaço no picadeiro

repete sempre o mesmo gesto,

a mesma piada, o mesmo desalento.

Não é exemplo para a vida. A vida

é que é assim, triste como um palhaço.







13 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA




(Foto de Robert Mapplethorpe)


7.



Se choro, envelheço. Se rio,

renovo-me. Gargalho, então,

para cada entrave que a vida

coloca em meu destino.



12 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA



(Foto de Chema Madoz)



6.



Não há otimismo em minha filosofia.

Nem pessimismo. Apenas

o tédio de contemplar a vida.



11 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA




(Foto de Oto Olivier Valsecchi - teste de rorschach)




5.



Gesta a planta uma flor

durante várias estações. Abre-se, depois,

por apenas uma noite.

Assim a minha vida: uma noite, só uma noite

de perfume, para mil dias de gestação

e tédio.



10 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA



(Lavras, MG - Cine Brasil, c. 1960 - A. não identificado)



4.



O pó da rua me faz mal às narinas.

O pó que cobre o meu passado

traz apenas a cócega de um rapé

que existira outrora na caixinha antiga e velha

da minha imaginação.





8 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA




(Foto de Rita-Martin)



3.



Abro a janela, se há luar.

Abro os olhos, se há paisagem a contemplar.

Abro o coração, se há amigos para abraçar.



7 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA



(A. não identificado)



2.



Há no canto da sala uma sombra triste.

De vez em quando olho para ela

e me entristeço um pouco, também.

Depois, abro a janela e a sombra triste

esvai-se num átimo com o raio do sol.



6 de jan de 2017

BECO SEM SAÍDA




(Foto de Jan Saudek)



1.



Por que falar de rouxinóis,

se nada sei de rouxinóis?

No meu quintal, apenas de sabiás e bem-te-vis

o canto encanta a tarde.

Não os rouxinóis.

No meu poema, também não há

que falar de dores, de amores.

No meu canto apenas a vida

tece e entretece a rede

onde irá dormir um dia o poeta

para sempre.

Por isso, não falo de rouxinóis

nem de dores nem de amores.


3 de jan de 2017

cu











um cu é só um cu

não importa a bunda

em que ele esteja



quando se come um cu

come-se apenas o cu

não importa a bunda

em que ele esteja



quando se fode um cu

fode-se apenas o cu

não importa de quem

seja a bunda

em que ele esteja



assim o cu é celebrado

pelo aperto e pelo prazer

não pela bunda

em que ele possa estar



assim o cu é festejado

pelo gozo que sempre dá

não importa a bunda

nem o dono nem a dona

da bunda em que ele está



quando se está comendo

um bom cu apertado

está-se comendo apenas

um bom cu arretado



um cu é somente um cu

nada mais do que um cu

e não será nunca nada além

do que somente um cu



ainda que seja sempre

muito bem festejado


29.8.2015

1.9.2015

1 de jan de 2017

LIÇÕES DE HIGIENE




(Valquíria Cavalcante)


  1. Lavar as mãos. Sempre. Muitas vezes ao dia. Antes de comer. Depois de comer. Após um cigarro. Ao chegar da rua. Depois de um aperto de mãos, esse de forma discreta, depois, sem que o perceba o amigo. Lavar as mãos, sempre, muitas vezes durante o dia. Sem obsessão. Antes de sentar-se ao computador. Depois de ler o jornal. Sempre manter as mãos limpas. E o rosto de vez em quando. Com água fria, de torneira. Desperta e mantém a pele saudável.

  1. Ainda a água, agora na higiene íntima. Após defecar, lavar-se sempre. Com água morna ou fria, mas lavar-se sempre. Papel higiênico só para se enxugar. E depois, com muito sabão, as mãos, mais uma vez e outra e outra mais. Não obsessivamente, mas lavar-se.

  1. Escovar os dentes, sempre após as refeições, com calma. Alguns dentistas dizem que por quinze minutos, pelo menos. Mas escovar bem. E a língua, também: escová-la cuidadosamente. E as gengivas. Com escova macia e um bom creme dental. Mais uma vez a água: em abundância para enxaguar. Se usar um desses detergentes bucais, faça-o com moderação, muita moderação, não mais que uma vez ao dia. E usar, sempre, fio dental.

  1. Roupa de cama: trocar sempre que possível. E colocar, se possível todos os dias, ao sol para matar os ácaros. Travesseiros também. Se tiver relações sexuais, mudar toda a roupa de cama. E lavar com algum tipo de germicida líquido. Na máquina ou no tanque, no molho.

  1. Roupa íntima (meias, camisetas e camisas inclusive): troca obrigatória todos os dias. Sem perdão. E lavar, também, com algum germicida líquido, no tanque ou na máquina, ao deixar no molho. E enxaguar muito.

  1. Banho: também diária é a obrigação. Com água morna, de preferência. Só no inverno, se não aguentar a morna, um pouco mais quente. Nunca quente demais, pois descama além do necessário a pele. Ao enxugar-se, friccione-se um pouco. Estimula a circulação.

  1. Unhas: mantê-las curtas e limpas. Também as dos pés. Para a do dedão do pé, use, de preferência um corte reto, abaulado para dentro, para não encravar.

  1. Fumo: fuja! Mas, se for impossível: no máximo dez cigarros por dia; não fume com estômago vazio; não fume em lugares fechados, principalmente no quarto de dormir; não fume diante de doentes e crianças; não fume ao volante.

  1. Evitar: coçar os olhos, levar a mão à boca, usar palitos de dentes, ficar em casa com sapatos de rua (é bom manter um tapete na entrada da casa ou do apartamento, para limpar os sapatos antes de entrar), andar descalço, usar roupas e sapatos apertados, usar roupas íntimas de tecido sintético, beber e comer apressadamente e pisar em cocô de cachorro, na rua.

Bem, por que todos esses conselhos agora?  Pode estar perguntando eventual leitor. Ficou louco o articulista?

Você conhece Isaac Asimov? Já leu algum de seus livros? Asimov escreve ficção científica. Da melhor qualidade. Ou escrevia, pois faleceu há poucos anos. Deixou obra memorável. Seus melhores contos e romances falam de robôs. Até criou as leis da robótica, para dirigir o comportamento dos robôs. Já ouviu falar? São elas:

·       1ª lei: um robô não pode fazer mal a um ser humano  nem, por inação, permitir que algum mal lhe aconteça.
·       2ª lei: um robô deve obedecer às ordens dos seres humanos, exceto quando estas contrariarem a primeira lei.
·       3ª lei: um robô deve proteger a sua integridade física, desde que com isto não contrarie as duas primeiras leis.

Então, há um conto de Asimov em que nenhum computador consegue fazer os cálculos do salto quântico, que possibilitará as viagens interplanetárias. Todos entram em pane, num determinado momento. E os cientistas não sabem por quê. A última possibilidade é um supercomputador, um cérebro eletrônico de última geração, capaz de quase tudo. As fórmulas e os dados complexíssimos são, então, jogados em sua memória. Depois de algum tempo, o computador parece que enlouquece. Começa a ficar estranho, a cantar canções e dizer coisas desconexas, como se precisasse alhear-se do que acontece em seu interior. Depois de muita expectativa, os resultados aparecem e a fórmula do salto quântico é entregue aos cientistas. Que procuram, então, saber o que aconteceu com o supercérebro, que enlouquecera e se alheara, como se sonhasse ou entrasse em zonas imprecisas, enquanto realizava a tarefa. E descobrem que, para realizar o salto, a nave e a tripulação precisariam desintegrar-se (morrer) por algum tempo, para reintegrar-se (ressuscitar) depois, no infinito do espaço sideral. Os computadores não faziam o cálculo porque isso implicaria a morte de seres humanos, o que contrariava a primeira lei. O super-cérebro, no entanto, percebera que a morte era transitória, embora real, pois havia um renascer futuro. O que ele fez? Alheou-se, passou a cantar óperas, a dizer poesia, a fazer-se de louco, enfim, para iludir a rigidez da primeira lei.

Foi mais ou menos isso o que fiz: não estou, no momento, conseguindo escrever o que eu quero, ficção. Também a realidade que me cerca anda tão deprimente, tão trágica até, que preciso dar um tempo, enlouquecer um pouco, aliviar meu cérebro e tentar, quem sabe? fingir que nada acontece, que é preciso ver o futuro e voltar a uma certa lucidez mental para, então, conseguir realizar o salto que meu cérebro se recusa a dar. Por isso, essas lições de higiene, que devem servir para alguma coisa, afinal.


7.6.2006


30 de dez de 2016

reflexões sobre a natureza




(Claude Monet - Impression Sunrise)







quando abro a janela de meu quarto

já nas tardias horas de manhãs de sol ou chuva

não tenho paisagens para contemplar

apenas o verde de minhas árvores

e às vezes o canto do bem-te-vi para me alegrar



por que digo isso assim de forma tão prosaica

nas linhas do que deveria ser um poema



é porque eu sei que existem pessoas por aí

que se deparam com paisagens deslumbrantes

da natureza em toda a sua potência

quando abrem as janelas de seus quartos

em manhãs de sol ou de chuva



essas pessoas que a vida contemplou com tais prazeres

veem com absoluta naturalidade essas paisagens deslumbrantes

e acham que essas maravilhas todas foram criadas por um deus

para o seu deleite e o deleite do povo eleito por esse deus



não vejo no verde das minhas árvores e no canto do bem-te-vi

que alegram as minhas manhãs nenhum sinal de divindade

como não veria qualquer marca da presença de um criador

nas maravilhosas paisagens de mares e montanhas

de lagos e planícies ou de florestas imensas de árvores milenares



a natureza nem é tão bela quanto nossos olhos insistem em ver

a natureza é apenas a natureza não importa quão recortados sejam

os cimos das montanhas ou as longas praias de ondas suaves

não houve intenção de beleza ou de tornar mais felizes os homens

naquilo que chamamos de paisagens deslumbrantes

não há intenções na estranheza da floresta nem nos picos nevados

não há intenções no canto do bem-te-vi a não ser a de marcar seu território

as artes que imitam a natureza são sim a busca da beleza

uma beleza que depende muito mais dos olhos que veem

do que das mãos que tentam transformar em belo

os inalcançáveis tons e formas e sons de um rio que desce a montanha



quando abro a janela de meu quarto

em manhãs de sol ou de chuva

contemplo apenas o verde das árvores

que plantei no meu quintal

e ouço apenas o canto bravo do bem-te-vi

e sei que há naquele pequeno quadrado de solo

tanta vida e tanta beleza quanto há

nas paisagens de montanhas imensas

e desertos sem fim

que muitos contemplam quando abrem

as janelas de seus quartos e pensam

que tudo aquilo é obra de um criador

porque a natureza é apenas o que é

e não se curva à vontade de ninguém



28.12.2016




28 de dez de 2016

A TERCEIRA PERNA




(H. Sorayama)


“Qual é o animal que tem quatro pernas de manhã, três ao    meio-dia e duas ao anoitecer? ” Esse o enigma proposto pela Esfinge a Édipo. Referia-se, é claro, ao homem. Engatinha quando criança, anda sobre duas pernas na maturidade e utiliza-se de uma bengala na velhice.

Há apenas um engano nesse enigma mítico: na verdade, o homem nunca tem, em sua trajetória, apenas duas pernas. O homem é um animal de três pernas. E sem a terceira perna ele não sobrevive.

Senão, vejamos: como todo animal, enquanto no útero da mãe, é dela que ele depende para sobreviver. Até aí, nada de mais. Também ao nascer, em seus primeiros vagidos, é a mãe ou algum substituto que vela por sua segurança. E começam as diferenças entre o bicho-homem e os demais bichos. Quase todos os nossos demais irmãos vivos já nascem com alguns dispositivos de sobrevivência bastante desenvolvidos. Embora dependam dos pais, essa dependência não é absoluta. A maioria bem que conseguiria sobreviver, se os pais faltassem, pelos menos até encontrar uma família substituta. O homem, não. Se não tiver outros homens para ampará-lo, alimentá-lo e protegê-lo, não teria como sobreviver. E aí nasce a terceira perna. O seio da mãe. O cuidado de alguém. A chupeta. O brinquedinho. O berço...

Com essa terceira perna, nascem também os traumas. Os complexos. A dependência de fatores externos que nunca mais o deixarão. Com marcas indeléveis em sua personalidade. E a terceira perna muda a cada idade, a cada circunstância, embora esteja sempre presente em todos os momentos da vida humana. E ela varia de pessoa para pessoa. Pode ser a mãe, na infância. Ou o professor, na adolescência. O conselho de um amigo, na idade adulta. Mas essas são terceiras pernas comuns, ou melhor, mais óbvias. Há outras, muitas outras. Desde aquelas que milhões utilizam até aquelas específicas de cada um. Idiossincráticas: do indivíduo ou de um povo.

A religião, por exemplo. Quer terceira perna mais gorda? E mais variada? O cristianismo, o budismo e vários outros ismos escondem milhares de tipos de terceiras pernas. A pior de todas, aquela que quase ofusca todo os demais sentidos, não importa em que ismo esteja, é o fundamentalismo, também ele um ismo. E talvez anterior ao fundamentalismo, há um outro ismo pior: o monoteísmo. Ao adotar a crença num único deus, a humanidade inventou a exclusão, o divisionismo, o preconceito, o ódio por diferença de opinião. E todas as sacanagens possíveis foram cometidas em nome de um único deus, criado à imagem e semelhança do homem: cruel, vingador, ciumento de seu rebanho, a ponto de não admitir que ninguém que pense diferente possa partilhar de suas benesses.

O rol de terceiras pernas estranhas também é imenso: pertencem às superstições. Ou ao folclore. Pode ser uma medalhinha de São Jorge ou do seu dragão. Pode ser um brinco no meio da língua. Ou a crença de que voltará Dom Sebastião de Portugal, para fazer o sertão virar mar. Ou o mar virar sertão.

Leio no jornal que o homem mais gordo do mundo, com cerca de 450 quilos, que mora nos Estados Unidos, teve de ser transportado para o hospital. Além de quase demolirem a casa, para que ele pudesse sair, os bombeiros tiveram que contar com helicóptero e uma carreta especial. Seu problema: come demais, quando fica angustiado ou depressivo. A terceira perna, neste caso, transformou esse coitado num homem elefante.

Uma terceira perna engraçada, se não fosse trágica, nos dias de hoje: os cursos de autoajuda. Substituem, por algum tempo, em seus efeitos imediatos, mas que não devem perdurar mais do que o tempo de esquecer o quanto se pagou por eles, a terceira perna mais complicada de tratamentos psicanalíticos ou psicológicos. No entanto, não servem para nada. Aliás, servem: servem para engordar as contas bancárias de inúmeros prestidigitadores da boa-fé de idiotas que acreditam em milagres a cem dólares a hora. Nesse caso, a terceira perna desses ilusionistas é o bolso cheio de dinheiro.

Triste terceira perna é a das nações. A terceira perna coletiva. Jogos olímpicos, por exemplo. A nações se empolgam com os feitos de seus atletas, como se de cada medalha dependesse o seu destino de nação. Os países do terceiro mundo, então, fazem de cada conquista uma forma de autopromoção que beira o ridículo. É como se uma simples medalha - de bronze, prata ou de ouro - pudesse pôr de joelhos o “inimigo” mais poderoso, mais rico ou mais charmoso. No Brasil, esportes como judô, iatismo ou hipismo (que às vezes ganham medalhas) são festejados como se cada brasileiro fosse um exímio conhecedor de ippons ou tivesse no quintal de sua casa um haras com os mais puros-sangues ou vivesse em marinas fantásticas com barcos ainda mais fantásticos. O povo precisa disso, diriam os menos cépticos. Afinal, é o circo nosso de cada dia.

Circo onde vivemos e morremos como palhaços. Desdentados como o idiota do palhaço Tiririca, com suas musiquinhas preconceituosas, ingenuamente preconceituosas, mas espertamente utilizadas pela multinacional Sonny, para faturar às custas da ingenuidade de uns e da estupidez de milhares. Transformam-se os atletas olímpicos em heróis da mesma forma como se criam os Mamonas Assassinas ou os Tiriricas da vida em matéria de consumo rápido.

Pobre país, a correr atrás de heróis para defender sua integridade como nação. País que busca terceiras pernas no ato isolado de seus cidadãos, para fugir à responsabilidade coletiva de construir uma nação decente para os seus filhos.





P.S.: Este texto foi escrito em 1997. Havia referências aos jogos olímpicos de Atlanta, que eu retirei. Mas deixei as referências aos Mamonas Assassinas, que já haviam morrido tragicamente num acidente de avião, em 1996, e ao palhaço Tiririca que, hoje, é deputado federal!

24 de dez de 2016

humilha-se o homem





(Zdzisław Beksiński) 






humilha-se o homem diante dos altares dos deuses que ele criou

como um cão abana o rabo diante do dono

numa demonstração de quanta estupidez cabe

em suas ações e pensamentos

e deixa de viver a vida e ver o mundo

com a grandeza e toda a beleza que ele tem



é assim como se a galinha passasse a adorar o ovo

que saiu da sua cloaca e dedicasse a ele altares

e orações e erguesse templos para o culto

e quando nascesse daquele ovo o pinto

dele se tornasse para todo sempre escrava



a galinha tem um ovo concreto como concreto é o pintainho

que dele nasceu



o homem engendrou em seu cérebro um ovo imaginário

do qual nasceu glorioso com num paraíso

um ser imaginário

e para ele ergue templos e altares e a ele dedica

a vida

a sua vida

e torna-se escravo desse ser absurdo

desse ser imaginário que ele mesmo criou com sua estupidez

e esse ser imaginário torna-se senhor de suas vontades e de suas ações



o homem

o ser humano que se diz racional

o ser humano que adquiriu a capacidade de dominar a natureza

o ser humano que pode um dia conquistar as estrelas

o ser humano que criou com sua imaginação poderosa

a arte

o esporte

as cidades

as ciências

torna-se nada frente àquilo que ele mesmo inventou

e escraviza e mata e morre por algo que está apenas em sua cabeça

ab ovo

deo gratia





10.12.2016


22 de dez de 2016

por que buscar o amor




(Riccardo Tommasi Ferroni)



por que razão buscar o amor

se em cada peito medra de diferentes cores



por que razão aceitar o amor

se traz borrascas e noites de pavor



o mistério que faz pulsar mais rápido o coração no peito

o desfalecimento das sensações dentro do cérebro

as eternas vigílias em campos de girassóis

o vazio das ausências acentuando os dias de espera

a angústia da palavra nunca suficiente

a tudo isso confrange o amor e a muito mais

a conspirar contra o amador como ondas revoltas

que naufragam barcos que não acham porto



por que desejos inúteis busca-se o amor

por que se trocam tão poucos momentos de prazer

por tantos dias e tantas noites de desesperança

por que sofre tanto o amador por quem ama



se tem a força da procela e a calma da eternidade

são poucas muito poucas as promessas de paz

e o amor descreve no peito dos amantes

sua trajetória de marcas que ferem e ficam para sempre




10.12.2015

20 de dez de 2016

receio os teus medos




(Turner - Ulysses)




receio os teus medos

como receio o vento do norte



há na relva a marca do tempo

há na ponte o passo da tropa

chegam dos planetas os sinais

vem do brilho falso da lua

a espera da descarga fatal

prescreveram-se todas as esperanças

enquanto o sábio meditava na treva



receio os teus temores

como receio a chuva do sul



há na areia a âncora perdida

há no livro o verso inconcluso

chegam dos polos os ventos gélidos

vem das estrelas o desencanto

vidas não vividas são enterradas

detiveram-se todos os mensageiros

não há mais ouvidos atentos



receio os teus medos



3.12.2016