21 de jun de 2018

o mofo do tempo









inútil sacudir os ombros ou expô-los ao vento e à chuva

que lá está a mancha perene o mofo do tempo

que nada amortece a lembrança o som distante de um piano na noite

o ruído dos passos ao pisar a folha seca do jardim

o banco deserto na praça à luz da lua

o lento gotejar da chuva na cornija

o pio do pássaro no ninho à espera do alimento

o cicio de preces cantadas ao rosário no calor da noite

luzes distantes e sutis de primaveras

e tudo isso nada vale que o som do piano

as esperanças fugidias e o estalido da madeira

os ombros curvados em busca da terra roxa

e o mofo estranho entranhado agora nos seus olhos turvos



24.5.2018

(Ilustração: Zdzisław Beksiński)


 

16 de jun de 2018

o meu silêncio








passo tantas vezes em silêncio por esses caminhos

que minha voz se torna rouca quando dela necessito

mas não te iludas com esse meu recolhimento e esse meu jeito

de nada dizer e andar por aí como pálida sombra

o meu cérebro fervilha de desencanto e protesto e sabe

que os tempos são difíceis e o pão é pouco a cada um

sofro e faço do silêncio a minha forma muda de dizer

que o mundo ao redor não tem o espaço de justiça

e as tão desgastadas esperanças de vida mais digna

sou o silêncio dos que não mais têm forças para gritar

sou o silêncio dos que ainda buscam no fundo do ser

a gota fatal da descrença e do ódio para levantar

quem sabe ao último estalar do chicote aquele grito

que estremecerá a mão que fere e fará nascer enfim

a flor lentamente gestada da revolta dos desesperados





13.6.2018

(Ilustração: Robert Fisher - Lyndhurst Eclipse II)



13 de jun de 2018

noturno número 8








o que era róseo fez-se negro 

o que era plúmbeo fez-se amargo 

o que era promessa fez-se pesadelo 

e o tempo de olhos abertos deixou na boca 

o gosto de pianos desafinados quando o frio 

cobriu os ossos e arrepiou os pelos do corpo 

na campa de plumas o olho não fechou 

e tudo o que era passado se fez presente 

no mesmo instante em que o perfume 

apagou todas as lâmpadas e acendeu todas as velas 

o náufrago viajou para a profundeza do abismo 

de onde ele não sabe se voltará um dia 

sem que o plúmbeo amargo da vida tenha desatado 

todos os nós de imensos dias vazios e inúteis 

em mais uma noite de solidão e lua nova 



8.6.2018




(Ilustração: Alyssa Monks)



8 de jun de 2018

normal







vou fazer a pergunta de forma clara como água da fonte

você se acha um ser humano normal



se respondeu sim

então

você ama o seu próximo como a si mesmo/a

desde que esse próximo seja por exemplo sua mulher ou seu marido

seu filho ou sua filha

ah sim sua mãe ou seu pai embora nem sempre os ame

porque esse negócio de família às vezes é complicado

e odeia a todos os outros principalmente seu vizinho chato

ou sua vizinha fofoqueira que falou mal de seus filhos

ou o cara da padaria que vive dizendo que você não entende porra nenhuma de política

ou ainda o cara da torcida uniformizada do time que você ama odiar



você ama o próximo mesmo que não seja como ama a si mesmo/a

desde que esse próximo não seja o mendigo que mija na sua porta

ou aquele chefe nojento que não promoveu você porque tem inveja de sua competência

ou ainda aquele seu ex-amigo que cantou sua mulher

ou aquela periguete que no churrasco da firma deu em cima de seu marido



claro que você ama o próximo conforme sua religião diz que deve ser

desde que esse próximo nunca tenha reclamado de seu cachorro

que suja a calçada ou faz xixi no elevador

ou ainda que esse próximo não seja o menino de rua

que suja seu para-brisa com aquele paninho imundo e ainda quer um dinheirinho o cretino



então você diz que é normal porque ama o próximo



mas há outros elementos importantes para a tal normalidade

e eu lhe pergunto de novo e de novo se você se acha um ser humano normal



se você responder que sim mas que tem apenas uma tara

a de usar de vez em quando a calcinha de sua mulher para ter ereção

ou você branca cis gênero católica apostólica romana ou crente que paga o dízimo

mas que só consegue gozar com seu marido quando imagina

que quem a está comendo é aquele negão de caralho grande que trabalha no açougue



você se acha um ser humano normal e gosta de comer feijão gelado de madrugada

como se fosse a ambrosia dos deuses do olimpo mas isso não é nada anormal

você pensa todos os dias que o mundo devia ter só gente boa e branca e que faz caridade

e que também é normal dar uns sopapos no filho malcriado porque

onde já se viu um menino de sete anos ainda fazer xixi na cama



você se acha um ser humano normal e até aplaude quando a polícia mata o ladrão

principalmente se o fato é narrado por aquele apresentador do programa policial da tarde

que você adora porque ele diz que bandido bom é bandido morto e você acha

que vai votar no candidato que disse ter vacilado e a mulher teve uma filha

e você acha que graças a deus seu filho não parece ser veado

nem sua filha tem algum traço de sapatão como a filha gorda da vizinha



mais uma vez eu pergunto se você se acha uma pessoa normal

e você garante que sim que é normal porque anormal mesmo

é o porteiro do seu prédio ter uma porrada de filhos no nordeste

e mandar dinheiro todo mês para a mulher quando devia ter usado camisinha

ou qualquer outro meio de não ter tanto filho assim e é por isso

que esse mundo tem tanto bandido tanto assaltante e tanta miséria



ah sim você é tão normal quanto eu

eu digo para que isso não fique uma lista sem fim de coisas estranhas

porque afinal somos todos sim tão normais em nossas pequenas taras

em nossa vidinha sem vergonha de dizer que não temos nenhum preconceito

e até gostamos sim de veados pretos e pobres porque temos um amigo que pobre

outro que é veado e até mesmo um primo distante que é meio pretinho coitado

ah como é bom ser normal não é mesmo eu digo para você e vou-me embora

que meu estômago está chegando à boca e eu não quero dar vexame perto de você

afinal uma pessoa tão normal que não aceitaria um vômito verde assim de repente

bem no meio da calçada onde seu cachorrinho passa e pode ter vontade de lamber




21.5.2018



(Ilustração: Norman Rockwell)





5 de jun de 2018

não passarinho









não passarinho como o poeta

mas às vezes gostaria de ser

ou um bravo bem-te-vi

ou um canoro sabiá



voar por arrebóis e ver lá de cima

o serpentear do rio

a extensão da campina

sentir o arrepio do vento

na pureza de nuvens brancas

assustar-me ao grito faminto

do rápido gavião

construir um ninho aconchegante

no galho da mangueira em flor



das asas do passarinho

gozar apenas a liberdade

e brincar com o sonho

de toda a humanidade



9.5.2018

(Ilustração: foto de Fátima Alves / Lavras, MG)


4 de jun de 2018

mistérios na manga madura








depois de uma certa idade

chupar uma manga

é despertar desejos inauditos

sonhar artes de antanho

viajar por reentrâncias e carnalidades

ansiar por arrepios em peles rugosas



a língua se aguça ao perfume

o sabor enche os olhos de vales e vulcões

o macio do vermelho vivo

canta aos ouvidos o vento de nenúfares

a manga madura escorrega entre os dedos

como sonhos de entreveros e entreatos

e a idade do homem renasce em mistérios

de abismos e florescências amarelas

misericordiosos acordes de violoncelos


27.2.2018



(Ilustração: Jacqueline Secor)



30 de mai de 2018

LAGO







“UMA TRISTEZA É UM LAGO MORTO DENTRO DE NÓS”. 

Fernando Pessoa 





Tenho dentro de mim um lago 

azedo 

de aziagas águas 

e criaturas mortas. 



Lá navegam fantasmas 

de gente amiga e gente amada, 

sombras etéreas de eternas saudades. 



Secá-lo não posso, 

nem contemplá-lo por muito tempo. 

Deixo-o escondido no peito 

a lembrar que um dia 

será ele tão imenso 

quanto meu próprio ser.



(Ilustração: Honoré Daumier)



25 de mai de 2018

furna







numa funda furna de meu ser

encontrei escolhos inabaláveis

desejos ocultos e anseios desgarrados

pedaços de antigas paixões

e no meio de tudo o meu profundo desencanto



naquela furna de meu ser o meu cérebro

embaralha vidas vividas e há tanto tempo desfalecidas

que o abalo de as lembrar enterra um pouco mais

o espinho das longas caminhadas por estradas sem fim



descubro nessa furna o meu entristecer de águas

que não moveram moinhos nem se encachoeiraram

transformadas em lagos escuros e fundos onde corroem

os sentimentos que julgava os melhores da minha existência



não desejo o vento que vem com venenos de antanho

mas lá está a brisa constante a soprar aos meus ouvidos

que não terei um segundo de paz nesta vida se não remover

os escolhos e os restos naufragados nessa funda furna de meu ser



2.3.2018



(Ilustração: Alyssa Monks)



24 de mai de 2018

internacional







abram-se todas as fronteiras a todos os povos

que venham e vão os passos dos inconformados

o mundo é vasto e nele devem caber todos os homens e todas as mulheres

nele devem viver sem peias e sem arames farpados e sem muros

todos os que professam humanidade

derrubem-se de sua arrogância todos os tiranos

desçam dos palácios todos os que assinam tratados

não há lugar no mundo para os donos do petróleo

não há lugar no mundo para os que exploram o ouro

não há lugar no mundo para os que espalham a morte

abram-se mentes e cantos a todas as marchas

os ventos de cada bandeira agitada derrubam as incompreensões

falem todos uma só língua em seu próprio idioma

pobres e miseráveis não contemplem de longe as mansões

ruas se tornem rios de gritos e vitórias do prazer de viver

não importa quem você leva para sua cama

não importa quem você convida para o seu banquete de arroz com feijão

não importa quem dança com quem na festa do harpejo sem dono

derrubem por favor todas as fronteiras a todos os povos

para que os passos não marchem numa só batida do tambor

para que os olhos não olhem todos numa só direção



7.4.2018


(Ilustração: Manabu Mabe - Grito,1958)




23 de mai de 2018

fruta







sabe a vento 

a fruta negra ao galho presa 

sabe a cheiro de mato 

a cheiro de riso 



e só ela sabe 

do belo que contêm 

a negra forma 

o redondo olho 

de doce prazer 

que explode no céu 

no céu do sabor 

em orvalho de mel 



sabe a sucos 

que só se revelam 

no último êxtase 

e o mel que escorre 

sabe a rios que correm 

nas babilônias 



sabe a vento 

a vento de Minas 

a negra filha 

que d’África não veio 

a negra fruta 

da jabuticabeira


22 de mai de 2018

caçador de poesia








li algures o nome de um poeta britânico que viveu em majorca

fui então atrás de robert graves e encontrei laura riding

duas vidas cruzadas e descruzadas com uma tentativa de suicídio no meio

duas vidas de poetas tão diversos e tão parecidos

nascido o primeiro na ilha de todas as ilhas

ela do continente chamado brooklin família de judeus

dois poetas que se amaram e se desamaram entre oceanos

separados unidos jungidos versificados consagrados



fiquei pensando eu caçador de poesia e de poetas mensageiro

às vezes eu que escrevo aquilo que chamo de versos e nem sei

se são mesmo versos o que absolutamente não importa

eu caçador de metáforas em poemas alheios um dia será

que alguém irá procurar por mim na grande enciclopédia virtual

e se procurar vai encontrar apenas a minha pobre poesia

e nunca haverá outro poeta ou outra poeta por trás de mim

ou será ou não será não sei talvez haja talvez não

para um caçador de poesia como eu o rastro que deixo

talvez nem seja assim um rastro que fique nem que provoque

alguma curiosidade de um futuro que não sei prever

poeta não profeta embora o nome me traia nem judeu eu sou

e sigo perseguindo a musa dos outros a musa fugitiva entre

as pedras do caminho que a poesia sempre ela ilumina e faz

que eu seja o que sou e me torna só um pouco menos infeliz

assim como laura e seu amante assim como graves e sua amante

de ambos a poesia a unir e separar entre tantos sonhos inúteis





10.5.2018



(Ilustração: Marco Ortolan - Ridi, Pagliaccio e ognun applaudirà)



21 de mai de 2018

vida junk






a vida é junk picada no veio da veia o veneno da vida

corrói por dentro o sangue que pulsa o ar dos pulmões

o pensamento em circuitos em curto circuito o sonho

brilho de cometa em céu de brigadeiro bem doce

o rio a correr em águas de mel e fel pelas fendas

de morros e vales onde cavalos selvagens relincham

junkies loucos a dançar na lua a pedra verde em luz

à luz do ventre da terra o recheio da desesperança

lenta a viagem através do vácuo em ventosas velas

enfunadas aos mares bravios de terras longínquas

a vida flui junk de cheiro de canela e cocares

à dança do vento no cio da montanha em fogo

picadas no veio em busca de ouro e de egos

selfs de sílfides nuas em riachos de outrora

a verdade saindo nua de um poço profundo

e as estrelas caindo de um céu de trevas e futuros




15.5.2018

(Ilustração: Alyssa Monks)


20 de mai de 2018

rezar ou trepar








se você está em dúvida entre rezar e trepar

saiba minha querida

que fará melhor negócio sair comigo

e ajoelhar-se e rezar e gozar

com meu caralho

se você for rezar

quem sabe um dia irá para o paraíso

mas é uma promessa que você

não gostaria de cobrar

e não é assim tão certo que o seu deus irá perdoar

a todos os outros pecados devidos e não remidos

no entanto na minha igreja de paixão e tesão

prometo-lhe aqui mesmo o paraíso

sem nenhum outro sacrifício

que não sejam beijos e carícias

trepemos pois meu amor em rezas e ofícios

que a paixão a tudo perdoa e lava bem lavado

todos nossos pecados de amor e tesão



18.4.2018


(Ilustração: Luc Lafnet -1899-1939)

19 de mai de 2018

poeta marginal










não sou um poeta marginal

sou apenas uma das margens de mim mesmo

escrevo versos que parecem versos que parecem prosa

que parece de novo um verso torto

entorto o estro e a vida

que me leva para o delírio da rotina

o rio passa em águas barrentas

o lago ao luar retém minhas tormentas

que não são assim tão estrondosas

ferem apenas a superfície de meu ser

a margem que me resta

esboroa em torrões e lodo bruto

e isso é o meu verso em prosa

ou minha prosa de mineiro esquecido

a caminhar sobre as águas turvas

como se profeta fora de um mundo

que o ignora como eu mesmo o olho à distância

com meus olhos corroídos por dentro

na escavação que turva a cada dia um pouco mais a paisagem 





18.5.2018


(Foto de Fátima Alves; Lavras/MG)



18 de mai de 2018

necessidade da poesia









perguntam-me para que serve a poesia para que isso

e tudo o que posso dizer é que a vida não pode ser apenas isso

essa pressa essa loucura de todos se abraçarem como ouriço

a vida precisa de sonho a vida precisa de um pouco de feitiço



nem que seja o feitiço de palavras de amor e viço

que floresçam a cada manhã até mesmo num cortiço

ou no lodo do coração fechado do homem submisso

preso à tragédia do dia a dia e do inútil compromisso 





12.5.2018


(Ilustração: Henri Matisse 1898 - femme lisant en robe violette)



17 de mai de 2018

liberdade







como são frágeis as asas da liberdade

a voar sobre operários e camponeses

qualquer aragem que sopre da boca dos malditos

faz que ela caia e arrebente com todas as lutas



soltamo-la à liberdade de nossas gaiolas e de nossas gargantas

não conseguimos no entanto manter o seu voo de fênix

e se a vemos como fênix é para que nunca deixemos

de aquecê-la em nosso peito como aos filhos que procriamos



como são frágeis as asas da liberdade

quando a soltamos de nossas gargantas

qualquer sopro da boca de um canhão

derruba seu voo e destrói nossos sonhos



acolhemo-la à liberdade após cada voo em nossas casas

aquecemos suas asas quebradas com o fogo de nossos anseios

esperamos que se cicatrizem suas feridas e suas desesperanças

e soltamos de novo suas asas para que ela voe sobre nós



como são frágeis as asas da liberdade

depois de tantos voos e sobrevoos

as asas e os olhos feridos de traições

acendem de novo nossos corações



tantas vezes voa a frágil liberdade levada por ventos

que brotam de nossas angústias e de nossa persistência

que mil vezes esquecemos de contar nossos mortos

e enterrar nossos filhos para seguir com os olhos o seu voo

e se são frágeis as asas da liberdade

que voa e sobrevoa sobre nós

fortaleçamos nossos braços e nossa luta será

também a fênix que sempre renasce






27.4.2018




(Ilustração: Debora Arango, 1907-2005 - huelga de estudiantes)

16 de mai de 2018

amor perigoso







periga o amor bater de frente logo ali no bar da esquina

com a turma da pesada e dançar um funk ou um blues etílico

e acabar destroçado num show de rock num estádio de futebol

periga o amor acabar quadrado numa cama de motel

entre espelhos de cristal vagabundo tomando uísque falsificado no paraguai

cheirando calcinha ou usando cuecas transparentes

calmo o amor nunca foi em sua ânsia de poder e foder

mas periga agora sentir o peso do passado podre

e acabar à deriva num bote em plena preamar

e à luz do luar dançar pular gozar um cancã

como se nunca houvesse mais o tal amanhã

chega o amor para destronar o rei

e encontra o rei jogando pelada na várzea

a coroa debaixo do banco dos jogadores reservas

vai o amor para o campo e busca o cheiro de rosas

mas a vagina aberta de putas de bordel de terceira

atrai mais que mosca em torno de matéria podre

e o amor afunda seu destino estranho em gozos de antanho

e prazeres de cada momento o seu olho castanho mergulhado

em piscinas de ópio e danças macabras o amor é assim

e periga sempre não saber para onde vai cada passo torto que o leva

para cada homem ou cada mulher que não variam seu repertório

e dançam sempre a mesma melodia e o mesmo bater de tambores

e o amor amplia seu repertório na cama redonda de casais que não se amam

envia mensagens a todos componentes de seu grupo

dizendo que vai se suicidar às três horas da manhã bem defronte

ao palácio do governo como protesto a tudo o que sabe que não existe

e periga o amor acabar seus dias toscos como todos os que se suicidam

nas masmorras fedorentas da polícia federal se não houver quem lhe diga

que ninguém mais acredita que ele ainda seja capaz de alguma coisa

nesse mundo

e o amor

ora o amor

quem ainda acredita no amor ou na capacidade de quem quer que seja

de beijar sua boca no asfalto quente depois que ele fingir um orgasmo

e engasgar a última mensagem para todos os membros de seu grupo

nas redes antissociais do estranhamento e da bomba de hiroshima




5.5.2018


(Ilustração: Alexey Vasiliev - libélula)



15 de mai de 2018

moto perpétuo







revoguem-se todas as leis todos os decretos todas as portarias

revoguem-se inclusive as leis da física da química e de todas as ciências

revoguem-se as regras de construção e de destruição

revoguem-se as gramáticas e as especulações financeiras

revoguem-se bosques e rios

revogue-se a voz de todos os que vivem no fundo das minas

revoguem-se a mesa da ceia dos miseráveis e o pão ázimo do forno dos poderosos

revogue-se o brilho das estrelas e revogue-se o olhar mais atento do menino que busca o pássaro da felicidade

revogue-se o desejo que brota no cheiro de flores pisadas

pelos pés das moças que buscam o tempo perdido em romances medievais

revoguem-se todas as palavras mesmo as que ainda moram

na memória dos tempos futuros

revoguem-se os pelos pubianos e a queda dos aviões

revogue-se tudo o que disseram os deuses nos templos destruídos

revogue-se a canção que ainda não chegou à lua

revoguem-se os mares e dentro dos mares os navios naufragados

revogue-se a fome dos predadores e revogue-se o beijo

que ficou na boca da prostituta ao se despedir do último cliente

revogue-se o pio da coruja e revogue-se a disputa pelo gol mais bonito

revogue-se o diálogo da borboleta e dos crocodilos

revogue-se a pena dos pássaros e dos condenados

revogue-se o susto dos devorados e dos carrascos

que se revoguem todas as prisões e se arranquem todos os dentes de todos os desdentados do planeta

revogue-se a picada do mosquito

revogue-se o passo trêfego do bêbado

e que se marquem com cruzes negras as portas de todos os que ainda respiram

revogue-se o vento que levanta a saia da menina sem pejo

e dispam-se de inveja todos os músicos que tocam chopin nos sinos das igrejas

que se revogue para sempre o choro das crianças que ainda não provaram

o glacê do bolo de seu primeiro aniversário

revogue-se o sangue que escorre todo mês pelas pernas

das ex-futuras matrizes de todos os deserdados

e que se passem a ferro quente

a língua das serpentes e as cascas de frutas que não amarelaram

revogue-se o teu pedido de clemência

destruam-se depois de devidamente revogadas

todas as pontes que ligam as estrelas e o sorriso do lagarto

revogue-se a cor com que pintaste os teus passos

revoguem-se o esperma do impotente e a bala que se perdeu na favela

e foi encontrada depois no útero da fêmea do javali

revogue-se o homem que gosta de mulher

revogue-se a mulher que gosta de homem

revogue-se também o amor entre os que não se podem amar

revoguem-se as estruturas atômicas e todos os genes gerados em laboratórios

que se revoguem o espaço sideral e os cabos submarinos

revoguem-se os navios e as estradas que conduzem às montanhas

revogue-se o desejo entre os que se aproximam da brasa ardente

revoguem-se as disposições contrárias e a favor

e que se revoguem enfim o brilho da noite e a escuridão dos dias



28.1.2018


(Ilustração: Nicoletta Tomas Caravia_- Menos tu vientre - 2012)


14 de mai de 2018

raiz







se amarga a raiz

não será doce o tempero



buscar ser feliz

sobre o próprio desespero

sem arrancar do chão a erva daninha

é como semear girassóis

na pedra dura da montanha



enquanto teu passo te encaminha

em busca de arrebóis

solta o grito que tua garganta arranha



pisa as pedras de tua estrada

sem medo de nada

que a amargura de tua raiz

está para sempre fadada

a não deixar que sejas feliz



tempera o tempo de espera

e deixa a que vida flua

só é doce a vinda da primavera

quando só desejas que no céu a lua

os teus passos e caminhos ilumine

antes que tua vida inútil termine 





10.5.2018

(Ilustração: René Magritte)






13 de mai de 2018

profissão de fé









não me irrites com teus cantos mágicos

não firas meus ouvidos com tuas preces trágicas

não tentes minha inteligência com teus santos trêfegos



teus deuses que me importam teus deuses

mortos a pauladas ou crucificados em madeiros podres

são todos eles tão patéticos em suas dores impávidas

deixa-os em seus túmulos ou em suas moradas etéreas

mortos estão e mortos devem permanecer indômitos

criaturas de tuas entranhas e de tuas próprias tragédias

falsos mágicos em tua mente a dominar o mundo



não me venhas com teus mistérios falsos

não me convences com teus milagres encomendados

os teus deuses são seres trágicos de tua mente trêfega



calo-os a todos distantes de minha mente libertária

jogo-os a todos na vala comum dos mortos não identificados

quero-os a todos bem longe de minha vida e sentimentos

e dou a todos enfim os meus mais sinceros pêsames




2018


(Escultura de Benvenuto Cellini)