25 de set de 2016

os bruxos



(Vermeer - the concert)







das profundezas do ser o som dos bruxos

bach

beethoven

brahms

para as alturas do bem-estar


18.9.2016





24 de set de 2016

adagio




(Margarita Sikorskaia - wrestlers on a snow)



deem-me a delicadeza

de brahms

a emoção de beethoven

a profundidade de bach

a ousadia de mahler

ou de stravinsky

a ludicidade de satie

a criatividade de villa

e farei para ti

meu amor

um adágio

um lento e majestoso adágio

para aquele momento

em que dos fluidos e líquidos

de tuas profundezas

arrancam de mim

o meu jato de vida e prazer

a ode suprema do desejo

a elegia final do amor

o meu adagio lento e longo

majestoso e profundo

como o fim do mundo




17.9.2016

22 de set de 2016

primeira lei da convivência

(Aleah Chapin - Lucy and Laszlo)





artigo primeiro



fica abolida como impropério

a expressão

filho ou filha da puta



artigo segundo



que todas as putas que tenham filhos

que os reconheçam como legítimos



artigo terceiro



que todos os filhos da puta

cujas mães não sejam putas

tenham o mesmo tratamento

dos legítimos filhos de puta



artigo quarto



revogam-se todas as disposições

contrárias

ou mesmo a favor



21.3.2016

20 de set de 2016

CANTIGA EM FUGA





 (Taro Hata) 


1.

Na espera,

deságua

o verso

só mágoa!



2.



Minto?

Não:

apenas sinto.



3.



No ensejo

do beijo,

desejo.



4. 



O coito,

espero

afoito.



5.



Enquanto 

cantas, 

me encanto.



6. 



Amor:

entreato

barato.



7. 



Proponho:

apenas 

sonho!



8.



Lua,

vem 

nua.



9.



Tanto 

te quero,

quanto

te espero.



10.



Se vieres,

não

esperes.



11.



Beija

louca

minha 

boca.



12.



Sem juízo,

teu

sorriso.



13.



Aceito

do teu

jeito.



14.



Teu

umbigo

mexe 

comigo.



15.



Teu ventre

me diz:

entre!



16.



Tu gozas,

e me

afogas.



17.



Contigo

eu vou

ao after

glow.



18. 



Me encolho

no teu

olho.



19.



Me enlaço

no teu

abraço.



20.



Gemidos?

Gozos

mais que atrevidos.



21.



Vacilo: 

tu gozas

ou eu deliro?



22



Entro:

teu jogo

é fogo.



23.



Retardo 

o gozo.

Gemes, eu ardo.



24. 



Contemplo

exausto

teu corpo:

um fausto!



25.



Após loucos

ais,

ainda pedes: 

mais!



26.



Quantas vezes 

queres:

és em uma,

mil mulheres.



27.



Teu corpo

eu lavo,

bêbado,

escravo.





28.



Sacias

em mim

desejos

sem fim.



29.



Meu sêmem

já é pó.

Exiges:

- Só?



30.



De novo 

na cama,

teu corpo

é chama.



31.



Tu metes

mais que

prometes.



32.



Tua vagina

engole

meu sexo

mole.



33.



Na sanha

da luta,

arranhas

como puta.



34.



No teu 

sexo,

perde o verso

seu nexo.



35.



Minha sina:

tua

vagina.



36.



Temes?

Não:

gemes!



37.



Na curva

do seio,

me enleio.



38.



Na bunda,

a língua

afunda.



39.



No ventre,

o espasmo

precede

o orgasmo.



40.



Na trilha

da língua,

o clitóris

brilha.



41.



Minha boca

te deixa

louca.




42.



Exalas,

enfim,

o puro

jasmim.



43.



Persigo

o perfume:

contigo,

meu ciúme.



44.



Foges,

esfumas.

Teu gozo,

espumas.



45.



Na cama

fria, 

viraste

poesia.





Sexta-feira, 11 de junho de 1999

12 de set de 2016

meus heróis



(Honoré Daumier - Don Quixote)






nenhum dos meus heróis gargalha na sela de um cavalo branco

no meio de uma batalha



nenhum dos meus heróis pisoteia o peito do povo em desprezo ao seu poder



nenhum dos meus heróis compra com dólares falsos a liberdade de crianças

nem oferece ao futuro apenas o peso do passado



nenhum dos meus heróis constrói monumentos de destruição e fogo

no meio de flores e bichos



nenhum dos meus heróis determina o apocalipse

em telefones privativos de linhas vermelhas



nenhum dos meus heróis cultua a traição e acende velas

para deuses dissolutos



nem precisava de heróis

mas se os tenho como exemplo de algo mais que a miséria dos prepotentes

quero-os sempre em meu peito

como a esperança que fulge mesmo no meio dos piores momentos da vida



não os quero no entanto

como querem aos deuses

se deuses existissem

os povos ignaros de antanho e de hoje

quero-os homens de poucas palavras

somente as que bastam

para afastar os bandidos

os destruidores

os traidores

os pusilânimes

e todos aqueles que pisoteiam o peito do povo





porque nenhum dos meus heróis compactuou um momento sequer

com a bandalheira de ricos e poderosos do mundo



5.9.2016

deo gratias 10




(Pawel Kuczynski)







faça-se a luz

e a luz se fez

e deus reinou sobre o abismo

no princípio do mundo



(a luz do templo acende-se

os crentes – aterrados –

contemplam as fauces vermelhas

do pastor no seu púlpito)



e deus

meus amados irmãos e irmãs

(vociferou o pastor)

manda que retornem às suas casas

a pé – se vieram de carro –

que assinem o compromisso

- junto a nossos pastores auxiliares

postados bem ali junto ao altar –

repito: que assinem o compromisso

de doar suas casas – aqueles

que têm casa –

porque deus

meus amados irmãos e irmãs

vai trocar essa lata velha

com que vocês vieram até aqui

- sim amados irmãos e irmãs – lata velha

mesmo que seja a mercedes do ano

é uma lata velha

perto daquela que deus proverá

e não uma

mas duas

três

quantas mercedes os irmãos merecerem

deus proverá

lá do fundo dos tempos

assim como fez a luz que nos ilumina

deus dará muito

muito mais do que vós estareis dando a ele

(e o pastor muda de fisionomia como muda de tratamento

- suas fauces rosadas são agora como o rosto de um deus

- furibundo

- monstruoso

- assustador)

e vós

meus amados irmãos e irmãs

não ficareis sem a casa que dareis

porque deus vai reconhecer

(pausa/tosse/agita os braços/olha fixo)

vai reconhecer

a vossa doação

como reconheceu lá no início

lá no princípio dos tempos

a lua das trevas

o pecado da virtude

a avareza da bondade

(pausa / enxuga o rosto / a plateia transida não tira o olho do pastor)

meus amados irmãos e irmãs

(retoma o discurso agora com voz compungida)

vosso sacrifício não será sacrifício

porque deus proverá que mansões de ouro

que castelos de esmeraldas e rubis

que palácios de grandeza e poder

e todas as riquezas da terra

deus proverá para vós

(pausa / esbugalha os olhos / ameaçador / dedo em riste)

e não ouseis duvidar da palavra de deus

irmãos e irmãs

deus promete

deus cumpre

se não neste mundo

mas com certeza

certeza absoluta

na vida eterna

aleluia

aleluia

aleluia

(a plateia grita cada vez mais alto

euforia geral

e nessa noite o pastor volta para casa

- a nova casa –

dirigindo uma reluzente mecerdes benz vermelha)



deus operou no coração empedernido dos homens

mais um de seus milagres



18.7.2016






9 de set de 2016

milonga




(Fabian Perez )




meio borracho

depois de um litro e meio de vinho

quero dançar com você

numa tasca de mendigos e bêbados

num sujo bairro de buenos aires



quero dançar com você 

uma milonga de arrepiar

e quando suas milonguíssimas pernas

com minhas bebedíssimas pernas trançarem

cairei contigo na pista

e ali mesmo tentarei te beijar



então a orquestra em gargalhada

recomeçará a mais longa das milongas

enquanto tu

extremissimamente vexada e irritada

colocará sobre meu peito

o salto número 15 de teu sapato



e tuas pernas milongamente nuas

a traçar no ar malcheiroso

a cruz dos meus tormentos

servirá de ensejo aos meus temores

transformados enfim na última possibilidade

de que reencontre um pouco de dignidade




27.8.2016



8 de set de 2016

ditatores



(Luis Quiles - ditadores)




dona maria a louca

“a que, embora piedosa e meiga,

pelo poder da desventura,

degredava e matava – longe –

com sua clara assinatura”(*)

nunca foi assim tão louca

quanto os ditadores do século 20



são carniceiros mais cruéis

porque – lúcidos – assassinam

pessoas

povos

nações

com armas que matam à vista

milhares

milhares ao mesmo tempo

enquanto maria a dona louca

matava à prestação



e mais: enquanto a grande dama de portugal

cumpriu sentença dentro de si mesma

“prisão perpétua, exílio estranho,

sem juiz, sentença ou carcereiro” (*)

nossos ilustres ditadores

assassinos bem mais eméritos

escaparam quase todos

às garras do remorso

e viveram quase todos

como nababos

ou se mataram como covardes

- doce pena imerecida -

sem juízes que os julgassem

sem sentenças que os condenassem

sem carcereiros que os vilipendiassem





(*) Cecília Meireles: Romanceiro da Inconfidência; Romance LXXIV ou da Rainha Prisioneira.


27.8.2016




6 de set de 2016

apreço

(Salvador Dalí)






sempre se paga o preço

de qualquer apreço

se no peito como de gesso

bate sem pejo o coração



soltam-se os demônios

mas eles voltarão

atraídos por feromônios

do medo da solidão



e mesmo que a preço

de ouro e da liberdade

consiga-se algum apreço

já de nada vale a vontade


5.9.2016