14 de jul de 2018

veleiro









o vento venta



inflada a vela

o veleiro voa

navega à vaga

arrasta a vida



arrosta o vento

enrosca a vela

naufraga o sonho



deságua em vagas

o aguaceiro

naufraga a vela



o barco enfim

sufraga a morte

o vento amaina



a vida é vela



levada ao vento

vale o que sopra

o vento à vaga


24.5.2018



(Ilustração: Gustave Courbet - the wave)






11 de jul de 2018

tristesse







sabe aquela noite profunda e escura

sabe aquela noite de tempestade e fúria

sabe aquela noite de frio intenso

quando todas as forças mais terríveis da natureza

se uniram numa só madrugada sem fim

o vento o frio o breu a chuva

das nuvens negras ao abismo apenas

raios iluminam de quando em quando

essa noite de terror e sofrimentos

de rios que inundam e casas que desabam

a morte rondando os berços onde dormem

as crianças esquecidas dos pais para sempre

os braços que somem na voragem

a desesperança plantada em cada peito

essa noite que o dia agora ilumina

essa noite maldita que deveria para sempre ser esquecida

essa noite amiudou-se num átimo

e encontrou o seu abrigo dentro do meu coração

e está aqui com jeito de ficar por muito muito tempo






30.5.2018

(Ilustração: Nicola Samorì)

9 de jul de 2018

tango







abro a janela e o sol espanta a noite

de dentro de meu quarto

não de dentro de mim



leio até me lacrimejarem os olhos

os poetas loucos e os loucos poetas

não adianta



esfrego vigorosamente o chão

e deixo-o limpo de toda a sujeira

também não adianta



ingiro o que dizem ser a droga da felicidade

e espero um sorriso no rosto

mas ele não vem



à noite que ameaçava eternizar-se dentro de mim

peço então que se vá embora ao som de um tango

ao som de um tango bem marcado e bem tangado

e um tango bem tangado reorganiza enfim

uma a uma as sinapses de meu cérebro

e as asas do anjo torto que em mim habita

não se derretem mais ao calor do sol

não não se derretem mais não se derretem

pelo menos por um tempo de voo

por um tempo de voo que me permita

pousar no galho de uma mangueira em flor





9.6.2018


(Ilustração: Odires Mlazho)





7 de jul de 2018

solidão








redemoinha em meu cérebro o pensamento

quando estou só comigo mesmo

inventam-se ideias

regurgitam-se emoções

sonham-se sonhos

despertam-se lembranças

águas turvas de sensações tornam-se claras

escancara-se à dor de viver o regozijo do encontro

não há complacência ao desencanto

e o canto do encontro do vento com as águas

ressuscita o silêncio do meu ser

para fazer-me a unidade de mim com a humanidade

ter enfim todo o universo num só suspiro

e tudo quando nesses momentos aspiro

é continuar tecendo teias em que me enrede

até que o cérebro cansado se desfaça em luz



28.6.2018


(Ilustração: Paul Signac - 1863-1935, French)








4 de jul de 2018

raízes podres








no tempo de raízes podres o sol se põe mais cedo 

o vento não traz alento enquanto o canto triste do fogo-apagou 

reboa na mata morta de terra em cinzas onde os bois pastam 

ruminando as folhas secas de um passado de flores e frutos 

o boi comeu a floresta e o homem come o boi e come a raiz podre 

que o boi rumina em surdina no fim do ciclo ao ciciar do vento 

a cidade distante não sabe de bois nada sabe de ventos 

a cidade distante é feita toda ela da raiz podre da floresta 

e morre um pouco mais a cada peido do boi que comeu a mata 

santos os dias em que não houve um rangido de morte 

ou um ronco súbito da motosserra debulhando o dente podre 

de quem mora sob as toras de aço do viaduto progressista 

o vento que sopra do capim seco queima a face do agiota 

e o sol açoita a bunda do dono do banco em busca de papagaios 

o boi comeu a mata e a mata agora mata o boi e mata o homem 

com as raízes podres do veneno que o vento venta nas ventas 

do capitalista que queima na caldeira do trem de ferro 

as últimas toras da última árvore pau-brasil que havia na margem 

do rio podre que vira o leite da criança que não verá o sol 

que se perdeu mais cedo atrás do rochedo nu da cidade morta 



20.6.2018




(Ilustração: Doug Johnsonson)



2 de jul de 2018

quando se casa um príncipe







a realeza toda fica em festa

quando um príncipe se casa

e o povo que é feito de besta

nem se dá conta de que é ele

quem paga a conta da mordomia

sustentando uma aristocracia

que come e bebe e viaja e dança

e se diverte e prolifera

e nunca trabalha na vida

tudo à custa do suor dos tais súditos

que verão de longe a bela festa

sem poder nem cheirar nem provar

um só doce da grande comilança



então proponho que quando um príncipe

de qualquer nobreza nojenta e decadente

faz festa de casamento em seu castelo

que todo o povo possa cantar e dançar

não de alegria e de contentamento

mas a dança de guerra de bravos guerreiros

e todos – homens e mulheres e outros gêneros –

possam invadir a tal festa de casamento

rasgar o vestido da noiva

jogar para os gansos no lago o buquê

e prender o príncipe bem no alto

de uma torre como antigamente fazia

com seus inimigos a própria nobreza

e beber toda a beberagem destinada

aos poucos convidados escolhidos

e comer os docinhos requintados

e embrulhados como se fossem balas

do camelô ali da esquina

e chutar todos os traseiros

dos guardas empenachados

soltar dos arreios os cavalos

botar fogo no coche real

mijar na mitra do cardeal

pisar nos arranjos florais

subir nos altares e pisar no calo

dos músicos e cantores reais

pregar pregos nos assentos

da tal nobreza agora assustada

e fazer dançar a corte imperial

ao som de batuques bem batucados

entoar seus hinos de liberdade

no lugar dos cantos nupciais

quebrar bem quebrados os protocolos

de tal forma que nunca nos assombrem

e exilar para uma ilha bem distante

a rainha mãe e o rei já quase gagá

condenados para sempre a trabalhar

para pagar o que comem e consomem

e assim no casamento do tal príncipe

que não haja mais plebeus ou nobres

nem tronos nem coroas de brilhante

porque quando se casa um príncipe

é a hora da vingança do povo esquecido

dessa gente que vive e se lambuza

do sangue e suor do povo

que eles sempre pisotearam






17.5.2018


(Ilustração: Nancy Farmer - royal wedding)



30 de jun de 2018

pó do tempo









o vento lento

o tempo desatento

a flor

o fruto

o bico

do pássaro

a queda

semente

os passos

as marcas

o vento sopra forte

o pó do tempo



24.5.2018

(Ilustração: Leszek Sokol)




29 de jun de 2018

picos e vales






picos e vales assim a vida nos ensina e nos leva

prazer e dor

riso e lágrimas

noite e dia

as antíteses lugares comuns de todo e qualquer vivente

tantas são elas que lamentavelmente as adotamos e adoramos

picos de prazer

vales de sombras

lugares

lugares comuns de nossas vidas tão mexidas e tão inúteis

aprende-se e reaprende-se e repetem-se os opostos a nos iludir

não sabemos de nada e a nada nos leva o saber da onda que vai e vem

não nos diz a vida que os picos podem ser congelantes

e os vales

os vales podem ser muito mais que aconchegantes

não sabemos por que nos afligimos nos vales e nos alegramos nas alturas

quando temos nos vales a sombra e as águas

e nada temos nos picos além de prováveis horizontes

sonhamos com o inferno dentro de céus de mentiras

e temos pesadelos no céu com infernos que nos atormentam

metáforas inúteis metáforas de cacos de vida

a vida o ser o coração tudo despedaçado não importa onde estejamos

quer seja o vento no rosto quer seja a corrente nos calcanhares

o abismo não fica aos nossos pés olhando nossos queixumes

o abismo somos nós e nossos pensamentos de dor ou de morte

e temos que conviver com os dragões e demônios

que são nossos companheiros de jornada ainda que

pesquemos de nosso peito o gelo do desconforto que nos envolve

se há nuvens ou se há luares

nossos lagos estão por demais poluídos para os refletir

e seguimos o lugar comum como se o alto da montanha

fosse o paraíso perdido sem perceber que ele é o cume do abismo

esquecidos do vale que nos alimenta de orvalho e pólen

ah quanto seríamos menos do que idiotas dos lugares comuns

se tivéssemos um poeta a nos estender a mão na descida da montanha

ah como seríamos menos do que infelizes dos picos e vales

se tivéssemos um filósofo a nos olhar com desdém nos tropeços do caminho

ah sim

sim e sim e não e não e vamos para essa desmemoriada depressão

como se não houvesse outros perigos que não os que encontramos

quando com nós mesmos somos o que não queríamos ser



18.6.2018

(Ilustração: George Grosz)



27 de jun de 2018

passarinho








não gosto de gaiolas

não gosto de passarinho em gaiolas

no entanto

o meu passarinho está numa gaiola

protegido

pássaro criado em gaiola que não sabe

o amado

viver solto e achar comida

viver solto e fugir dos predadores

viver solto e não morrer de frio



não gosto de gaiolas

não gosto de passarinho em gaiolas



e então hoje eu lembrei de você

bicho bravo do sertão carcacará que não mata nem come

bicho bravo do sertão que não briga e matou a fome

de milhões de outros sertanejos como você



e então hoje eu lembrei de você

lembrei hoje de dizer porque me lembro todo dia

meu carcará que veio do sertão e ficou para sempre

na minha história e na história de meu país



não gosto de gaiolas

não gosto de passarinho em gaiolas



e meu carcará que pega luta e mata a fome

o que faz aí dentro a cantar como o meu passarinho canta

o que faz aí dentro a sorrir para toda a gente

o que faz aí dentro meu carcará

ah já sei o que você faz aí dentro meu carcará

você pega o alpiste que lhe dão e joga-o pela janela

e cada grão vira uma flor

e cada grão vira um grito

e o vento leva a flor e leva o grito

para o sertão para a campina para a montanha

e o grito do carcará vai ser ouvido de novo

e de novo e de novo sempre levado por seu povo



não gosto de gaiolas

não gosto de meu carcará preso numa gaiola



8.6.2018


25 de jun de 2018

para ana c.








vejo-te nua na foto ana cristina césar ana c.

teu corpo esguio e solitário os seios pequenos um sorriso

de lagartixa os braços cruzados livros e mais livros onde

te sentes à vontade mas não estás assim tão nua quanto

nos teus poemas ana c. que tão breve o teu corpo parece

tão leve ao peso de teus poemas tuas asas de colibri

teus olhos travessos e tão tristes para a vida o teu olhar

quase escondido sob o cacheado cabelo revolto o teu

quase desprezo pelo corpo esguio que escondes e mostras

que queres e não queres que te vejam nas curvas mais

acentuadas de teus versos e reversos teu estro

tão mais solto que teus cabelos que tua nudez um dia

voaste colibri ou pintassilgo quem sabe de tuas asas

quem soube teus seios quem um dia não te deu

o arrepio que precisavas no voo de qual vida não

querias que te deixaste levar ao vento ana c. ana nua

18.5.2018




(Ilustração: Ana Cristina César; fotos de Katia Muricy - RJ 1982)


 

21 de jun de 2018

o mofo do tempo









inútil sacudir os ombros ou expô-los ao vento e à chuva

que lá está a mancha perene o mofo do tempo

que nada amortece a lembrança o som distante de um piano na noite

o ruído dos passos ao pisar a folha seca do jardim

o banco deserto na praça à luz da lua

o lento gotejar da chuva na cornija

o pio do pássaro no ninho à espera do alimento

o cicio de preces cantadas ao rosário no calor da noite

luzes distantes e sutis de primaveras

e tudo isso nada vale que o som do piano

as esperanças fugidias e o estalido da madeira

os ombros curvados em busca da terra roxa

e o mofo estranho entranhado agora nos seus olhos turvos



24.5.2018

(Ilustração: Zdzisław Beksiński)


 

16 de jun de 2018

o meu silêncio








passo tantas vezes em silêncio por esses caminhos

que minha voz se torna rouca quando dela necessito

mas não te iludas com esse meu recolhimento e esse meu jeito

de nada dizer e andar por aí como pálida sombra

o meu cérebro fervilha de desencanto e protesto e sabe

que os tempos são difíceis e o pão é pouco a cada um

sofro e faço do silêncio a minha forma muda de dizer

que o mundo ao redor não tem o espaço de justiça

e as tão desgastadas esperanças de vida mais digna

sou o silêncio dos que não mais têm forças para gritar

sou o silêncio dos que ainda buscam no fundo do ser

a gota fatal da descrença e do ódio para levantar

quem sabe ao último estalar do chicote aquele grito

que estremecerá a mão que fere e fará nascer enfim

a flor lentamente gestada da revolta dos desesperados





13.6.2018

(Ilustração: Robert Fisher - Lyndhurst Eclipse II)



13 de jun de 2018

noturno número 8








o que era róseo fez-se negro 

o que era plúmbeo fez-se amargo 

o que era promessa fez-se pesadelo 

e o tempo de olhos abertos deixou na boca 

o gosto de pianos desafinados quando o frio 

cobriu os ossos e arrepiou os pelos do corpo 

na campa de plumas o olho não fechou 

e tudo o que era passado se fez presente 

no mesmo instante em que o perfume 

apagou todas as lâmpadas e acendeu todas as velas 

o náufrago viajou para a profundeza do abismo 

de onde ele não sabe se voltará um dia 

sem que o plúmbeo amargo da vida tenha desatado 

todos os nós de imensos dias vazios e inúteis 

em mais uma noite de solidão e lua nova 



8.6.2018




(Ilustração: Alyssa Monks)



8 de jun de 2018

normal







vou fazer a pergunta de forma clara como água da fonte

você se acha um ser humano normal



se respondeu sim

então

você ama o seu próximo como a si mesmo/a

desde que esse próximo seja por exemplo sua mulher ou seu marido

seu filho ou sua filha

ah sim sua mãe ou seu pai embora nem sempre os ame

porque esse negócio de família às vezes é complicado

e odeia a todos os outros principalmente seu vizinho chato

ou sua vizinha fofoqueira que falou mal de seus filhos

ou o cara da padaria que vive dizendo que você não entende porra nenhuma de política

ou ainda o cara da torcida uniformizada do time que você ama odiar



você ama o próximo mesmo que não seja como ama a si mesmo/a

desde que esse próximo não seja o mendigo que mija na sua porta

ou aquele chefe nojento que não promoveu você porque tem inveja de sua competência

ou ainda aquele seu ex-amigo que cantou sua mulher

ou aquela periguete que no churrasco da firma deu em cima de seu marido



claro que você ama o próximo conforme sua religião diz que deve ser

desde que esse próximo nunca tenha reclamado de seu cachorro

que suja a calçada ou faz xixi no elevador

ou ainda que esse próximo não seja o menino de rua

que suja seu para-brisa com aquele paninho imundo e ainda quer um dinheirinho o cretino



então você diz que é normal porque ama o próximo



mas há outros elementos importantes para a tal normalidade

e eu lhe pergunto de novo e de novo se você se acha um ser humano normal



se você responder que sim mas que tem apenas uma tara

a de usar de vez em quando a calcinha de sua mulher para ter ereção

ou você branca cis gênero católica apostólica romana ou crente que paga o dízimo

mas que só consegue gozar com seu marido quando imagina

que quem a está comendo é aquele negão de caralho grande que trabalha no açougue



você se acha um ser humano normal e gosta de comer feijão gelado de madrugada

como se fosse a ambrosia dos deuses do olimpo mas isso não é nada anormal

você pensa todos os dias que o mundo devia ter só gente boa e branca e que faz caridade

e que também é normal dar uns sopapos no filho malcriado porque

onde já se viu um menino de sete anos ainda fazer xixi na cama



você se acha um ser humano normal e até aplaude quando a polícia mata o ladrão

principalmente se o fato é narrado por aquele apresentador do programa policial da tarde

que você adora porque ele diz que bandido bom é bandido morto e você acha

que vai votar no candidato que disse ter vacilado e a mulher teve uma filha

e você acha que graças a deus seu filho não parece ser veado

nem sua filha tem algum traço de sapatão como a filha gorda da vizinha



mais uma vez eu pergunto se você se acha uma pessoa normal

e você garante que sim que é normal porque anormal mesmo

é o porteiro do seu prédio ter uma porrada de filhos no nordeste

e mandar dinheiro todo mês para a mulher quando devia ter usado camisinha

ou qualquer outro meio de não ter tanto filho assim e é por isso

que esse mundo tem tanto bandido tanto assaltante e tanta miséria



ah sim você é tão normal quanto eu

eu digo para que isso não fique uma lista sem fim de coisas estranhas

porque afinal somos todos sim tão normais em nossas pequenas taras

em nossa vidinha sem vergonha de dizer que não temos nenhum preconceito

e até gostamos sim de veados pretos e pobres porque temos um amigo que é pobre

outro que é veado e até mesmo um primo distante que é meio pretinho coitado

ah como é bom ser normal não é mesmo eu digo para você e vou-me embora

que meu estômago está chegando à boca e eu não quero dar vexame perto de você

afinal uma pessoa tão normal que não aceitaria um vômito verde assim de repente

bem no meio da calçada onde seu cachorrinho passa e pode ter vontade de lamber




21.5.2018



(Ilustração: Norman Rockwell)





5 de jun de 2018

não passarinho









não passarinho como o poeta

mas às vezes gostaria de ser

ou um bravo bem-te-vi

ou um canoro sabiá



voar por arrebóis e ver lá de cima

o serpentear do rio

a extensão da campina

sentir o arrepio do vento

na pureza de nuvens brancas

assustar-me ao grito faminto

do rápido gavião

construir um ninho aconchegante

no galho da mangueira em flor



das asas do passarinho

gozar apenas a liberdade

e brincar com o sonho

de toda a humanidade



9.5.2018

(Ilustração: foto de Fátima Alves / Lavras, MG)


4 de jun de 2018

mistérios na manga madura








depois de uma certa idade

chupar uma manga

é despertar desejos inauditos

sonhar artes de antanho

viajar por reentrâncias e carnalidades

ansiar por arrepios em peles rugosas



a língua se aguça ao perfume

o sabor enche os olhos de vales e vulcões

o macio do vermelho vivo

canta aos ouvidos o vento de nenúfares

a manga madura escorrega entre os dedos

como sonhos de entreveros e entreatos

e a idade do homem renasce em mistérios

de abismos e florescências amarelas

misericordiosos acordes de violoncelos


27.2.2018



(Ilustração: Jacqueline Secor)



30 de mai de 2018

LAGO







“UMA TRISTEZA É UM LAGO MORTO DENTRO DE NÓS”. 

Fernando Pessoa 





Tenho dentro de mim um lago 

azedo 

de aziagas águas 

e criaturas mortas. 



Lá navegam fantasmas 

de gente amiga e gente amada, 

sombras etéreas de eternas saudades. 



Secá-lo não posso, 

nem contemplá-lo por muito tempo. 

Deixo-o escondido no peito 

a lembrar que um dia 

será ele tão imenso 

quanto meu próprio ser.



(Ilustração: Honoré Daumier)



25 de mai de 2018

furna







numa funda furna de meu ser

encontrei escolhos inabaláveis

desejos ocultos e anseios desgarrados

pedaços de antigas paixões

e no meio de tudo o meu profundo desencanto



naquela furna de meu ser o meu cérebro

embaralha vidas vividas e há tanto tempo desfalecidas

que o abalo de as lembrar enterra um pouco mais

o espinho das longas caminhadas por estradas sem fim



descubro nessa furna o meu entristecer de águas

que não moveram moinhos nem se encachoeiraram

transformadas em lagos escuros e fundos onde corroem

os sentimentos que julgava os melhores da minha existência



não desejo o vento que vem com venenos de antanho

mas lá está a brisa constante a soprar aos meus ouvidos

que não terei um segundo de paz nesta vida se não remover

os escolhos e os restos naufragados nessa funda furna de meu ser



2.3.2018



(Ilustração: Alyssa Monks)



24 de mai de 2018

internacional







abram-se todas as fronteiras a todos os povos

que venham e vão os passos dos inconformados

o mundo é vasto e nele devem caber todos os homens e todas as mulheres

nele devem viver sem peias e sem arames farpados e sem muros

todos os que professam humanidade

derrubem-se de sua arrogância todos os tiranos

desçam dos palácios todos os que assinam tratados

não há lugar no mundo para os donos do petróleo

não há lugar no mundo para os que exploram o ouro

não há lugar no mundo para os que espalham a morte

abram-se mentes e cantos a todas as marchas

os ventos de cada bandeira agitada derrubam as incompreensões

falem todos uma só língua em seu próprio idioma

pobres e miseráveis não contemplem de longe as mansões

ruas se tornem rios de gritos e vitórias do prazer de viver

não importa quem você leva para sua cama

não importa quem você convida para o seu banquete de arroz com feijão

não importa quem dança com quem na festa do harpejo sem dono

derrubem por favor todas as fronteiras a todos os povos

para que os passos não marchem numa só batida do tambor

para que os olhos não olhem todos numa só direção



7.4.2018


(Ilustração: Manabu Mabe - Grito,1958)




23 de mai de 2018

fruta







sabe a vento 

a fruta negra ao galho presa 

sabe a cheiro de mato 

a cheiro de riso 



e só ela sabe 

do belo que contêm 

a negra forma 

o redondo olho 

de doce prazer 

que explode no céu 

no céu do sabor 

em orvalho de mel 



sabe a sucos 

que só se revelam 

no último êxtase 

e o mel que escorre 

sabe a rios que correm 

nas babilônias 



sabe a vento 

a vento de Minas 

a negra filha 

que d’África não veio 

a negra fruta 

da jabuticabeira