31 de jul. de 2021

amargura

 





tenho às vezes vontade

de passar toda a noite escrevendo

escrevendo até raiar o dia

para destilar toda a minha amargura

e depois

numa manhã triste e fria

fazer a colheita amarga de tudo quanto escrevi

e então botar para fora todo o meu mau humor

junto com o grito que vem da pitangueira

o grito do bem-te-vi



25.9.2020

(Ilustração: Eric Lacombe - dark abstract portraits)

29 de jul. de 2021

amantes

  


colada a boca na boca

não se reconhecem os amantes

simples e precisos obedecem

ao pulsar da aorta em seus lábios

contentes no anseio desejado

pensam-se cada vez mais sábios

sem que ao menos tateiem ou sequer imaginem

o abismo

a

seus

pés

porque é assim o amor quando no ápice

- inútil sonhar qualquer esperança

se a boca que beija como louca

será a mesma a vomitar a lava do vulcão

 



1.3.2021

(Ilustração: escultura de Roberto Manzano)

26 de jul. de 2021

amanheceres

 




quando contemplo a lua

te vejo bela e nua

a vagar entre lençóis



sonho de prazer em busca de arrebóis

os pés entrelaçados aos teus

teus cabelos mal cobrindo os seios

à luz opaca da manhã dos meus anseios



esquecida a lua

que ainda flutua

entre as nuvens

dos olhos meus

arpejos de cordas

violões plangentes

tu mal acordas

já abres planuras

para os teus passos

nas minhas loucuras

quando o dia enfim debrua de luz nossos lençóis

e tu acolhes meu desejo entre as luas dos teus abraços



3.5.2021

(Ilustração: Catherine Abel)


23 de jul. de 2021

alta voltagem

 




fio desencapado de 220 volts

minha sensibilidade aflora

na pele e na pupila dos meus olhos



vontade de rever fatos de outrora

o passado e o medo em convivência

o desejo e o presente misturados

a vida e a morte – ambas alojadas

nos escaninhos da mente e a sobrevivência

cada mais tensa em tempos perdidos

na luta por mais vida e mais paixão



os dias de agora explodem na luz

enquanto os dias futuros não sei se virão



16.3.2021

(Ilustração: Wols - Alfred Otto Wolfang Schulze - 1937-50) 






20 de jul. de 2021

alento

 




seja o sopro do vento

aos meus ouvidos

seja a carícia dos teus lábios

aos meus sentidos

preciso desse alento

preciso desse suspiro

para continuar no meu intento

de buscar ainda um respiro

de perseguir a minha sorte

antes que me pegue a morte



11.3.2021

(Ilustração: Nicoletta Tomas Caravia)

17 de jul. de 2021

adiamentos

 




procrastinados os encontros

amordaçados os desejos

soltas apenas as asas da desesperança



aos prantos nossos olhos secos e vazios

a vagar pelas solidões de noites sem estrelas



hades perambula pelas ruas

traz para a terra seus infernos



o nojo em sacos pretos na hora do desespero

não nos dá a trégua de lágrimas e adeuses



despem seus atavios todos os que ainda respiram

presos às alvuras assépticas de quartos pulsantes

de uma rosa vermelha fendida ao meio

pinga e escorre o pretenso soro da vida



procrastinados também os desencontros

no brilho sem jaça de olhos que se desabrigam

nos esconsos de desejos inalcançáveis



batem no muro as nossas lamentações

- bumerangues que nos açoitam e adiam

para sempre qualquer olhar de esperança



19.3.2021

(Ilustração: Edward Hopper - solidão)

 

13 de jul. de 2021

abismos

 


 



cavo fundo nos abismos de mim mesmo

abuso dos contornos de cada torrão

desço a infernos de desoladas paisagens

desapareço nos desvãos de falésias

desencontro-me ao sabor dos ventos mágicos

socorrem-me os ramos secos das trilhas

descubro-me nu e paralítico em troncos trágicos

sofro o isolamento dos náufragos em busca de ilhas

sento-me ao fundo à beira de riachos podres

e morro em mim mesmo como um palhaço sem nome



24.7.2020

(Ilustração: Eric Lacombe - dark abstract portraits)

 

11 de jul. de 2021

a raça humana

 



do fundo do mistério proveio a raça humana

dos miasmas das águas ao ser bípede pensante

uma quase eternidade de adaptações

da estupidez pétrea ao cérebro que inventa

que cria e que movimenta o mundo

o mundo ao redor também se adaptou – ou não



e quando humanos – criaram a linguagem

e quando humanos – inventaram a ciência

e quando humanos – renegaram a ciência e criaram os deuses



e ainda que humanos – rendem-se às trevas das bênçãos e dos milagres

e ainda que humanos - provindos da lenta luta para sobreviver

- não entendem a natureza onde vivem



assim a raça humana – sábia e estúpida

assim a raça humana – contempla as estrelas e joga-se ao fundo do poço

assim a raça humana – dominadora e extinguível por seres quase invisíveis

que provêm do fundo do mistério das águas do poço




28.7.2020

(Ilustração: Georges De La Tour -  the new born child)


9 de jul. de 2021

a ponte

 





duas cidades

duas pequenas cidades

um rio no meio



quando o seu chico de cá

comprava uma cabra

de seu chico de lá

lá ia a pequena balsa a cruzar o rio

e trazer de lá para cá

a cabra comprada



quando dona maria de lá

fazia um bolo para dona joana de cá

lá vinha a pequena balsa a cruzar o rio

trazia de lá para cá

o bolo gostoso do aniversário da filha

de dona joana de cá



e assim viviam as duas pequenas cidades

com seu miúdo comércio de um lado para o outro

pela pequena balsa que o rio cruzava

de lá para cá

de cá para lá

bailando e driblando as águas do velho rio



pouca gente levava

a pequena balsa

no seu balanceio

de cá para lá

de lá para cá

que pouco se visitava

o povo de cá

ao povo de lá

e o povo de lá

ao povo de cá



mas viviam na harmonia

das águas do rio

do velho rio que as unia

do velho rio que as separava



até que um dia

um governador – sabe-se lá por quê

depois de eleito

com os votos de cá e com os votos de lá

achou por bem de uma vez acabar

com essa tal dificuldade

- que – ele achava –

de balsa pra cá

de balsa pra lá

que isso era coisa de gente atrasada

viesse o progresso e unisse de vez

as duas cidades – cidades irmãs – ele perorava

e mandou para lá

e mandou para cá

para as duas beiras do rio

tratores e máquinas e operários um monte

que fizessem logo uma ponte

uma ponte de cimento e de aço

que agora – e depois de pronta –

cada cidade ficasse a um passo

um passo apenas uma da outra



e assim se fez e assim se ergueu

sobre o rio que separava

a cidade de lá

da cidade de cá

uma ponte imponente

que uniu de repente

de uma vez e para sempre

a cidade de cá

à cidade de lá

- cidades irmãs – o político dizia

dizia e repetia

agora mais do que nunca irmanadas

nunca mais separadas



e fogos soltaram as gentes de lá

e fogos soltaram as gentes de cá



não mais aquela balsa acanhada

não mais o olhar que olhava

de longe o povo de lá

de longe o povo de cá

agora imponente lá estava

a ponte da união então chamada



e a gente de cá que nunca visitava

a gente de lá – podia agora visitar

e a gente de lá que nunca visitava

a gente de cá – agora podia visitar



e a gente de lá que nunca acompanhava

a procissão da gente de cá – agora podia acompanhar

e a gente de cá que nunca comparecia

ao desfile da gente lá – no dia da pátria –

agora até aplaudir já podia



soltaram-se fogos

uniam-se os povos



na festa afinal acabada

pelo governador a fita cortada

e o povo – todo o povo – do lado de cá

e o povo – todo o povo – do lado de lá

na ponte todos – cada povo de seu lado

na ponte novinha que estalava

olhando um para o outro o povo desconfiado



e então levaram as gentes de cá um belo bolo

e então levaram as gentes de lá um belo bolo

até o meio da ponte branquinha e novinha que estalava

o seu bolo que cada povo mais bonito e gostoso achava



cortou o prefeito de cá uma fatia

cortou o prefeito de lá uma fatia

ofereceu o prefeito do lado de cá ao prefeito do lado de lá

ofereceu o prefeito do lado de lá ao prefeito do lado de cá

que cada um apreciasse do outro a iguaria

naquele esplêndido dia

em que a ponte afinal as duas cidades unia



provou o prefeito de cá

o bolo do povo de lá

provou o prefeito de lá

o bolo do povo de cá



deram vivas os dois povos

os dois povos afinal amigos

unidos por um bolo de trigo



chorava a gente de cá

chorava a gente de lá

feliz o povo de lá

feliz o povo de cá

que não havia mais nem lá nem cá

nem cá nem lá que que tudo era um acá



mas então alguém do lado de lá

mas então alguém do lado de cá

notaram num breve instante

algo estranho no ar

bem no meio da ponte

bem no meio da bela festa



e o que viram os dois – um de cá e um de lá

pedaços de bolo a voar de cá para lá e de lá para cá



não gostou do bolo de lá o prefeito de cá

não gostou do bolo de cá o prefeito de lá

cuspiram ambos para o ar

cada um o seu pedaço



parou o povo no meio do abraço

que um dava no de lá

ou que o de lá dava no de cá



ante todo o povo no maior embaraço

seu filho de um cão – gritou o prefeito de cá

seu filho de uma cadela – gritou o prefeito de lá

puxaram os dois a peixeira

que à cinta traziam – coisa de costume

e partiram para a briga

como marido em crise de ciúme

engalfinharam-se como leões

os dois prefeitos gordos e machões



e os dois povos que ainda se achavam

cada um do seu lado da ponte

finalmente se uniram numa massa disforme

os dois lados se batiam e se esmurravam



joão de lá deu sopapos em pedro de cá

dona maria de cá deu paneladas na dona joana de lá



e no fim da refrega

depois de muito baterem

depois de muito apanharem

cansados a não mais poder

foram todos para suas casas

cuidar de braços quebrados

de cabeças rachadas

de olhos roxos de porradas

cada cidade contando vantagem

cada cidade achando que venceu

que foi o outro lado que correu



no dia seguinte o povo de cá

foi até ponte para xingar

o povo de lá

no dia seguinte o povo de lá

foi até a ponte para xingar

o povo de cá

prontos talvez para a briga recomeçar



tiveram todos no entanto

uma grande surpresa ao chegar

para todos um grande espanto



viram as gentes de lá

viram as gentes de cá

arregalaram os olhos a gente de cá

arregalaram os olhos a gente de lá



um alto muro de ferro fechava

o caminho de cá para lá



um alto muro de ferro fechava

o caminho de lá para cá



no meio a ponte majestosa e alvar

agora inútil monumento sobre o velho rio

e o velho rio corria sereno para o mar



muito tempo se passou

muita água o rio levou

agora velha a ponte continuou

uma inútil ponte em que ninguém passou



e os filhos dos filhos das gentes que brigaram

dessas gentes mortas herdaram

que o povo de lá odiava

o povo de cá

que o povo de cá odiava

o povo de lá



e sabiam apenas – ou apenas lhes contaram

que todo esse ódio nasceu

que todo esse ódio aconteceu

quando no dia em que seus avós

a velha ponte inauguraram

do sabor de um bolo não gostaram





16.9.2020

(Ilustração: Hiroshima Peace Memorial Museum - Yamada Sumako)

 

 (Você poderá ouvir esse texto na voz do autor, no podcast indicado ao lado)


7 de jul. de 2021

a ideia de deus

 




inexequível – uma ponte suspensa no ar

a ligar o nada a lugar nenhum

assim a ideia de um deus



penso: um ser além da vida e da morte

se criou o universo – além da grandeza do universo

um ser que é e ao mesmo tempo não é

vive onde?

entremeado entre tudo o que existe?

ou tudo o que existe é também esse deus?



penso: o universo tem bilhões e bilhões e bilhões

de eventos a cada momento – e outros tantos bilhões

de estrelas – quasares – planetas – galáxias

ah! as galáxias e mais os buracos negros

e a matéria escura e os mundos que colidem sei lá onde

talvez lá onde ele – esse deus – se esconde



penso: se esse deus criou essa coisa toda

[quase disse essa porra toda – respeito?]

tem o tamanho do universo ou é maior do que tudo?

onisciente – onipresente – onipotente

esse cara paira sobre bilhões e bilhões e bilhões

de eventos e de tudo quanto existe

e a tudo vê com olhos de águia

os olhos da águia que ele criou

a tudo controla com mãos de ferro

o ferro que ele inventou

sabe tudo como um sábio na montanha

montanha que há aqui e não sei se há também por aí

montanha que ele das profundezas desentranhou



penso: esse ser além de tudo e acima de tudo

com tantos universos – ah, sim, pode haver só um

tanto quanto pode haver bilhões de outros universos –

esse cara vai se preocupar que você comeu a vizinha

- e a vizinha não era sua mulher –

esse cara vai se preocupar porque você deu uma facada

no marido que lhe cobre de porrada cada vez que chega bêbado

- e ele sempre chega bêbado –

e esse cara – esse deus infinito em infinitudes largado –

vai dizer que você – homem ou mulher – vai ser jogado num inferno

para gozo de um capeta que se lhe opõe – um demônio inimigo –

- que ele também criou: para quê? -

apenas porque você fez algo que ele não gostou

e vai fazer crescer pelo na mão do menino que se punheta

ou vai apedrejar a menina que paga um boquete no beco

esse deus que criou o universo e que deve ter criado a si mesmo

tão formidável em seus poderes – tão infinito em suas qualidades –

quer que você ou eu ou qualquer idiota lhe construa

altares e templos e que nos ajoelhemos na poeira das estrelas

para cumprir vontades que nem sabemos que ele tem



penso ainda: esse deus tão poderoso

que inventou mundos e universos e criou tudo o que existe

- esse deus precisa do concurso de míseros humanos

- rabinos, aiatolás, pais de santo, padres, pastores, gurus –

e tantos e tantos outros intérpretes da sua vontade

para dizer a nós – pobres mortais – seus desejos e suas vontades

precisa esse deus de tantas vozes para sua voz?

[será ele – esse ser imenso e poderoso – assim tão estranho

que não aceite que se fale diretamente com ele?]



uma ponte que liga o nada a lugar nenhum

uma ponte suspensa no espaço – uma ponte inexequível

assim a ideia de deus para mim




20.7.2020

(Ilustração: Peter Paul Rubens - Saturn Devouring His Son, 1636)







5 de jul. de 2021

a flautista

 



apaixonei-me desesperadamente

por uma flautista da osesp

apaixonei-me

por seus olhos e seus ombros nus

pelo som de sua flauta num concerto

tocando a sinfonia do novo mundo

do dvořák



e agora o que faço com tal paixão

vou lá correndo e interrompo o concerto

e digo te amo te amo casa comigo

ou aqui eu fico a curtir em silêncio

essa paixão por uma flautista da osesp

e agora – o que faço?



comprei o vídeo do concerto – de 2016

porque a flautista por quem me apaixonei

nesta primavera de 2020

talvez more com um cantor de tango

talvez tenha três filhos – um deles o jovem fagotista

nem sabe que ainda há quem por ela se apaixone

nem sabe que sou apenas o expectador de uma gravação

feita lá em 2016 e agora

sem nem saber bem saber por que

por ela – a bela flautista da osesp

tantos anos depois cutuca e sangra o coração

quando ela faz um solo num concerto

de um compositor checo



10.10.2020

(Sajida Hussain - Young Lady Playing Flute) 




3 de jul. de 2021

a casa da vovó

 





avós

minhas avós

sombrearam minhas memórias

apenas minhas memórias

nem imaginá-las consigo

nem casa nem olhos de meiguice

nem a sopa quente na noite fria

sequer um passo trêfego antes do beijo de boa noite

casa de avó

carinho de avó



agora que os anos me fizeram a mim também avô

vejo nos olhos de netos o brilho da vela no bolo de aniversário

a alegria do abraço apertado ou da carícia sutil



o sonho da casa da avó

como a nunca construída casa da árvore



casa da avó – as portas sempre abertas

poucos cômodos

o quintal onde se possa reinar à vontade

fogão a lenha

o cheiro de feijão com torresmo

a porta que bate e assusta o gato dorminhoco

o canto do pintassilgo

a janela que se abre para os galhos da jabuticabeira

goiabada com queijo

bolinho de chuva na tarde de chuva

fadas e gnomos à mesa do jantar

o cobertor quentinho e o cheiro da palha do colchão



avós de brasis de caatingas

avós de brasis de florestas negras

avós de brasis de montanhas azuladas

avós de brasis dos pampas e de lagoas perenes

voz de avós que embalam netos em cidades e roças de milho

avós que em sílaba dobrada viram

vovós



a casa de todas as vovós



a casa da vovó

por onde um dia entraram

tantos – não eram mais meninos e meninas – que sonharam

entraram e saíram

para nunca mais serem encontrados

(e isso foi num tempo que nem ouso lembrar)



11.10.2020

(Ilustração: Fernando Botero -Abughraib)



(Você pode ouvir esse poema, na voz do autor, neste endereço de podcast:

1 de jul. de 2021

2020

 



a manhã do amanhã será

depois de amanhã

o sonho de ontem não se saberá

se houve ou haverá

 

suspensa em nuvem passageira

a vida vivida queima na fogueira

de lembranças que ficam

não se sabe para quando

 

e os dias vão passando

não se sabe para onde

enquanto em cada beco e em cada casa

sob as máscaras a vida com medo se esconde


 

16.10.2020

(Ilustração: auto-retrato de Edvard Munch depois da gripe espanhola, 1919)