31 de jul. de 2017

águas que correm




 (Foto de Fátima Alves)





rios nos montes nascidos

filetes

fios de pérolas

se escorrem 

por preguiçosos leitos

encachoeiram-se em véus

dos céus os arco-íris

espalham-se 

sob florestas

fontes de nuvens

fontes de mares

águas que escorrem

em pedras e limos

formando caminhos

caminhos de vida

águas

águas

águas

vivas

em chuvas 

e cheias

em cheias

e limo de vida

que nascem finos fios

viram oceanos

rios que correm

rios que morrem

se não os amamos

se deles não cuidamos

rios de vida

rios de morte

nossa a escolha

se vivemos

se morremos

nas águas que correm

nos rios da terra

que descem da serra

filetes

fontes

riachos

ribeirões

rios

oceânicos rios

rios que correm

águas de vida

águas da vida



22.6.2016

29 de jul. de 2017

autorretrato 3

(René Magritte) 





como pouco

bebo muita água

mijo muito

cago pouco

à parte isso

escrevo poemas

como quem vai morrer amanhã



na política sempre à esquerda

não uso gravata

não vou a enterros nem a casamentos

odeio cerimônias

ateu

profundamente ateu

convictamente ateu

irritantemente ateu



gosto de animais

não de cães

que eles

os cães

também não gostam de mim

e isso

de não gostar de cães

já está ficando repetitivo dizer



não sou de engolir desaforos

ouço-os pouco é verdade

felizmente

já que meu pavio é tão curto

quanto minha paciência

para ouvir bobagens metafísicas



gosto de música

quase de qualquer tipo de música

principalmente bach

beethoven e brahms

mas de bach não ouço nunca

sua produção dita sacra

odeio música sacra

mesmo escrita por meu amado bach

enchem de prazer os meus ouvidos

as bachianas de villa e de gozos os meus sentidos

as canções de billie holliday



ler é minha paixão

leio de tudo

de nietszche a bula de remédio

sei por causa disso uma ou outra coisa da vida

mas ainda muito pouco

muito pouco mesmo

para entendê-la minimamente possível



assim sou eu

ou uma parte de mim

já que se for escrever

tudo o que sou

tudo o que não sou

tudo o que gostaria de ser

tudo o que não fui porque não pude

e tudo o que pude ser mas não quis

teria que estender a mim um tapete

que me levasse à lua

ou talvez mais longe




27.2.2017

16 de jul. de 2017

silêncio do poeta





(James Abbott McNeill) 




em silêncio, nasce um botão e transforma-se em flor;

em silêncio, seca a roupa no varau;

em silêncio, o sol vem e vai de nossos olhos

a cada rotação silenciosa da Terra;

em silêncio, o espermatozoide encontra o óvulo

e ambos, silenciosamente, formam um novo ser;

em silêncio, ouvia Beethoven os sons da Nona Sinfonia;

rasteja o verme no fundo da terra em silêncio

e em silêncio o mal consome o corpo;

por isso, em silêncio morre o poeta

e seus poemas são o seu único grito sobre a terra.


10.6.2015

4 de jul. de 2017

sinfonia em dó menor



(Symphony Painting by Valerie Vescovi)







vida uma sinfonia que nasce ao solo de um oboé

grito estridente a chamar os finos flautins

afinada a orquestra entram violinos e violoncelos

tímpanos anunciam movimentos trágicos

violinos e violoncelos abraçam trompas

trompetes e todas as madeiras se encapelam

tudo freme em frêmitos e frenesis

longo o andante em dó maior e dores maiores

para enfim calarem-se todos os instrumentos

para o solo encantado da harpa num adagietto

o maestro descansa a batuta e vira-se

para a plateia vazia que responde com silêncio

à sinfonia justa de um tempo que passou

e eu confesso que não compreendo



estranhos os tempos de banhos e leites e tantos cuidados

a vida sem nenhum outro sentido que só o viver

o olhar atento a tudo a tudo absorvendo

bicho que chora que ri que esperneia que anda de gatinhas

o oboé silencia aos poucos para as primeiras palavras

e eu confesso que não compreendo



janelas se abrem para um infinito que cabe numa flor

num cão vadio pela rua num carro que buzina e não freia

a vida começa a ter contornos de prazer e dor

o vento que assobia aos ouvidos são os finos flautins

do lento amanhecer de estações que se sucedem

e eu confesso que não compreendo



o tempo enfim se conta ao som de violinos e violoncelos

sensações e espantos emoções e desilusões o outro

os outros a campina se abre em caminhos e obstáculos

sente-se o vento mas não se acomoda a ele e prossegue

tempo lento que passa numa rajada e fulge em branca luz

e eu confesso que não compreendo



a tragicidade do espanto se instala e o mundo é largo

não se luta tanto quanto se devia lutar e o mundo é largo

não se ama tanto quanto se devia amar e o mundo é largo

o tempo traz as trompas da felicidade que se compra

ali na esquina está a sombra que nos perseguirá

mais adiante o desejo que não se saciará jamais

homens e mulheres enlaçam-se em ritos de passagem

campinas antes floridas ao som dos violoncelos

estiolam-se e renascem mais adiante em flores

que também se estiolam ao sol ou até mesmo aos ventos

cada passo abre um caminho e o mundo é muito largo

constroem-se mistérios e destroem-se as pontes

vagam vazios os vagões vermelhos aos ventos vivos

os caminhos se cruzam e descruzam como centopeias

olham-se para olhos que não mais olham estampado o medo

cultivam-se rancores e amores e esperanças e o mundo é largo

vai comendo cada broto da árvore que se plantou há muitos anos

para um dia quem sabe construir o arco do violino e a palheta

de todas as cores de um arco-íris que devia ter rompido o céu

depois de tantas tempestades e que se despedaçou no deserto

cacos de vida que não se juntam mais e o mundo é largo

e eu confesso que não compreendo



lento o passo ao som do adagio de uma harpa que marca

o compasso em escala descendente para um dó menor

a dor maior dos olhos baços e do caminhar angustiado

contando o compasso a cada passo a cada laço

de que pendem das árvores do caminho as sombras

que marcaram a areia e deixaram o rastro para ninguém

e eu confesso sim confesso que nunca compreendi

que não compreendo ainda e que nunca vou compreender


30.6.2017