4 de jul de 2017

sinfonia em dó menor



(Symphony Painting by Valerie Vescovi)







vida uma sinfonia que nasce ao solo de um oboé

grito estridente a chamar os finos flautins

afinada a orquestra entram violinos e violoncelos

tímpanos anunciam movimentos trágicos

violinos e violoncelos abraçam trompas

trompetes e todas as madeiras se encapelam

tudo freme em frêmitos e frenesis

longo o andante em dó maior e dores maiores

para enfim calarem-se todos os instrumentos

para o solo encantado da harpa num adagietto

o maestro descansa a batuta e vira-se

para a plateia vazia que responde com silêncio

à sinfonia justa de um tempo que passou

e eu confesso que não compreendo



estranhos os tempos de banhos e leites e tantos cuidados

a vida sem nenhum outro sentido que só o viver

o olhar atento a tudo a tudo absorvendo

bicho que chora que ri que esperneia que anda de gatinhas

o oboé silencia aos poucos para as primeiras palavras

e eu confesso que não compreendo



janelas se abrem para um infinito que cabe numa flor

num cão vadio pela rua num carro que buzina e não freia

a vida começa a ter contornos de prazer e dor

o vento que assobia aos ouvidos são os finos flautins

do lento amanhecer de estações que se sucedem

e eu confesso que não compreendo



o tempo enfim se conta ao som de violinos e violoncelos

sensações e espantos emoções e desilusões o outro

os outros a campina se abre em caminhos e obstáculos

sente-se o vento mas não se acomoda a ele e prossegue

tempo lento que passa numa rajada e fulge em branca luz

e eu confesso que não compreendo



a tragicidade do espanto se instala e o mundo é largo

não se luta tanto quanto se devia lutar e o mundo é largo

não se ama tanto quanto se devia amar e o mundo é largo

o tempo traz as trompas da felicidade que se compra

ali na esquina está a sombra que nos perseguirá

mais adiante o desejo que não se saciará jamais

homens e mulheres enlaçam-se em ritos de passagem

campinas antes floridas ao som dos violoncelos

estiolam-se e renascem mais adiante em flores

que também se estiolam ao sol ou até mesmo aos ventos

cada passo abre um caminho e o mundo é muito largo

constroem-se mistérios e destroem-se as pontes

vagam vazios os vagões vermelhos aos ventos vivos

os caminhos se cruzam e descruzam como centopeias

olham-se para olhos que não mais olham estampado o medo

cultivam-se rancores e amores e esperanças e o mundo é largo

vai comendo cada broto da árvore que se plantou há muitos anos

para um dia quem sabe construir o arco do violino e a palheta

de todas as cores de um arco-íris que devia ter rompido o céu

depois de tantas tempestades e que se despedaçou no deserto

cacos de vida que não se juntam mais e o mundo é largo

e eu confesso que não compreendo



lento o passo ao som do adagio de uma harpa que marca

o compasso em escala descendente para um dó menor

a dor maior dos olhos baços e do caminhar angustiado

contando o compasso a cada passo a cada laço

de que pendem das árvores do caminho as sombras

que marcaram a areia e deixaram o rastro para ninguém

e eu confesso sim confesso que nunca compreendi

que não compreendo ainda e que nunca vou compreender


30.6.2017





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