29 de jan. de 2024

caminheiro

 





dizem que os passos do caminheiro

fazem o caminho enquanto ele caminha

mas o que não sabem e não dizem

é que os caminhos pelos quais caminha o caminheiro

vão construindo dentro dele caminhos de pensamentos e de ideias

no princípio apenas vagos e depois a cada passo

cada vez mais o sonho e a poesia crescem em seu cérebro

tomam conta de seu ser e ele passa a ver os caminhos de fora

com os olhos e os sentidos dos caminhos de dentro



e então o mundo que acabaria ali ao pé do arco-íris

se estende por galáxias e pelas poeiras das estrelas distantes

e leva o caminheiro para o mundo infinito que só existe

dentro dele mesmo e de seus caminhos interiores




15.1.2022

(Ilustração: Gustav Klimt - the Sunflower Gardens - 1905-1906)

28 de jan. de 2024

JABAQUARA, TERMINAL

 

 


Desceu do ônibus no Jabaquara, sem um puto no bolso. Puto da vida, sonhava com uma puta vida, mas até agora só a putaria do cais de Santos. Ficou sem os últimos tostões. Só a quantia certa para o ônibus. Olhou para todos os lados, ainda tonto da subida da serra. Do outro lado da rua, vários bares. Tentou negociar com alguns fregueses o dinheirinho do metrô. Escorraçado, desceu a Rua dos Jequitibás e virou à esquerda na Avenida George Corbisier. No escritório do deputado, também não conseguiu nada. Com aquelas roupas e aquelas olheiras... Viu um fantasma no vidro da loja. Sentou em frente à igreja dos crentes e tentou esmolar. O sol a pino turvava-lhe o olho faminto. Nada. Precisava ir embora do Jabaquara, mas sem dinheiro... Desespera-se. Tenta descolar uma coxinha na padaria. Nada. O sol desce pelo seu estômago e provoca ânsias de anoitecer. Quase. Um sopro na tarde e só. Senta. Levanta. Pede. Povo filho-da-puta. Refaz o caminho. Torce a esquina e vê. Acha que pirou. Não. Está lá. Uma carteira no canto do muro. Dentro, uma nota de cinco e um bilhete do metrô. Entra na pastelaria e torra a nota em pastel e caldo de cana. O bilhete, uma preciosidade fechada na mão. Na descida para o metrô, para. Vira-se. De punho cerrado, uma banana pro Jabaquara, povo pão-duro e filho-da-puta, vão se foder. Enfia o bilhete na catraca, que não se abre e ainda apita. Bilhete inválido. Solta um palavrão. Na bilheteria, a moça, autoritária: falso. Não pode trocar, não. Dá escândalo e quase vai preso. Uma semana depois, na porta da igreja dos crentes, música e muitas aleluias. Fim do culto. Todos saem apressados, sem se dar conta do corpo encostado no muro.







sexta-feira, 7 de março de 2003

(Ilustração: Rua dos Jequitibás, Jabaquara, São Paulo/SP 

- foto da internet sem indicação de autoria)


(Você pode ouvir esse texto, na voz do autor, neste endereço de podcast:

https://open.spotify.com/episode/6IHWW8jOPpnLxUGWv1hL5T?si=va_8lajXRampbe4aPIUlXA)

26 de jan. de 2024

caminheiro noturno

 





eu às vezes durmo

mas minha cama não dorme

mesmo que lá fora esteja zumbindo a noite



eu às vezes cochilo

mas meu quarto não cochila

mesmo que lá fora esteja correndo-me a noite



eu às vezes sonho

mas meu travesseiro não sonha

mesmo que lá fora esteja se estrelando a noite



assim sou eu e meu mundo estranho

preso a mim e a meus objetos com que convivo à noite

porque durante o dia

sou apenas um caminheiro noturno a escrever o que não se deve

- estes meus poemas



24.12.2023


(Ilustração: Edward Munch - nuit etoilée)

24 de jan. de 2024

caminhar

 






não é preciso ter destino

para começar a caminhar

o caminho começa quando se é menino

ou menina

e só termina

quando não há mais o que sonhar




10.9.2022

(Ilustração: Giovanni Giacometti) 

21 de jan. de 2024

cafetinagem

 


tu me dizes que não gozas


no pau de outro homem

mas é ele que te come

quando precisamos de grana

e é ele que geme e goza

enquanto sonho com tua xana



1.12.2021

(Ilustração: Ciparis (Christelle)  - harmonie)

17 de jan. de 2024

caetamaro

 




um índio branco e baiano dos anos 40 de um século de guerras

desamarga o amaro passo de pássaro pelas margens do saruê

e dança o samba torto de mil amazonas sem pororoca através das serras

chegado que foi um dia pelas águas do tietê

para beber do mar a cor amara

da baía de guanabara

caetanem-se todos ao grito de alegrias tropicais

caetanem-se todos os que pularam carnavais

um índio branco e baiano dos anos 40 de um século de guerras

caminha impoluto pelos mares e pelas terras

caetaneando o brasil de cowboys e carmens mirandas

com seu trinado canto de sambas e cirandas



1.11.2021

(Ilustração: Caetano Veloso, foto da internet sem indicação de autoria)

14 de jan. de 2024

busca inútil

 


  



caminho à noite pelas ruas tortas

da cidade antiga

para onde me transportas

com tua cantiga



sou teu servo e te procuro

levantando aos ares os miasmas

de um tempo ainda mais escuro

povoado pelos meus fantasmas



meus pés que batem na pedra dura

pisam cabeças que rolam do cadafalso



no céu o sete estrelo pisca para a lua

ando só e ralo-me nas pedras descalço



não meço meus passos pela rua

nem há sentido em minha procura

estás na tua tumba há muito morta

e é somente o vento que me transporta

para o silêncio de tua sepultura



os loucos que um dia aqui viveram

teus dias de festas e tédio colheram

como se colhem as rosas do jardim

inútil é meu caminhar pela noite escura

por onde um dia teus delírios percorreram

sei há muito que tu não voltarás para mim





16.7.2022

(Ilustração: Michael Pickett - lonely walk home)





11 de jan. de 2024

busca da felicidade

 



no solo há muito crestado e sofrido a chuva


que cai

desperta da terra molhada o cheiro de felicidade



dentro do fruto amarelo o caroço chacoalha

e à primeira mordida

desperta na boca o jambo o perfume da felicidade



no horizonte verde entre duas montanhas surge

o arco colorido

e desperta aos olhos já baços as cores da felicidade



o vento do sul ou do mar agita de repente a folhagem

traz o frio

e a pele eriçada desperta um arrepio de felicidade



do verde e preto da jabuticabeira em frutos e festa

o silvo assanhado do sanhaço

desperta à memória o canto ancestral da felicidade



felicidades que vêm de fora

um momento que se comemora



então se pensa que se é feliz

e é o que todo mundo se diz



mas tudo isso vem carregado da maior falsidade

porque não existe o que se chama felicidade

nesse mundo em que somos todos aprendizes

há para o ser humano somente alguns momentos felizes





7.7.2022

(Ilustração: Nicoletta Tomas Caravia)


8 de jan. de 2024

breve instante

 

 




breve

brevíssimo

o instante do beijo



leve levíssimo

o momento da vida

quando a folha cai

quando o sopro se esvai

quando a morte passa



breve

brevíssimo o laço

que enlaça

o passo

para o nada

e os deuses cochilam

na cama quebrada

e os olhos refilam

a noite calada

o passo

o laço



cai o pano no palco vazio

enquanto o palhaço

eu – apenas sorrio

porque de leve

a vida breve

passa no passo do estio



4.9.2021

(Ilustração: Paul Bond - Departure)

5 de jan. de 2024

bossa nova

 



talvez um bar

talvez um piano

talvez a lua

no oceano

talvez um leve

talvez um leve

murmurar

talvez te ame

ao som do luar

talvez me chame

a voz do violão

sempre um talvez

jamais um não

nós dois outra vez

um barquinho no mar

sorri para mim

e eu sei que vou te amar

na canção de Jobim

talvez esse bar

nunca aconteça

talvez esse luar

nunca me entristeça

talvez não exista

esse canto e esse mar

e para sempre persista

o desejo de te encontrar


ah que seja uma trova

de um verso torto

como barco no porto

a nossa bossa nova





9.3.2023

(Ilustração: Cícero Dias: sonoridade da Gamboa do Carmo, 1930)

2 de jan. de 2024

bastidor

 





no centro do tecido

esticado pelo bastidor

agulha e linha

agilmente manejados

fazem nascer o caule

depois a flor

sumo de jabuticaba – o tecido

verde que te quiero verde – o caule

sangue vivo – a flor

nada mais desenham os dedos bordadeiros

o mundo é isto apenas – sonho

flor

esperança

e dor



11.3.2022

(Ilustração: foto da internet, sem indicação de autoria)