30 de nov. de 2022

o último verso

 




se nem sempre pulsa em meu peito

a inspiração

eu me pergunto – por onde

anda a deusa despida de meus versos



despojo-me de mim ante seus devaneios

a buscar na plenitude do universo

o canto orfeônico das estrelas mortas

sob a lua antes da manhã de primavera



somente o canto dos pássaros

no espanto do fruto maduro

faz renascer novamente o esplendor

de me recompor em estranhos poemas

para que a vida – que pulsa em minhas veias –

se reanime em sangue e suor e lágrimas

o todo eu em mim mesmo desfeito em líquidos

no caldo primal de universos nascentes



se no peito o coração que bate calmo

sustém o susto de continuar vivo

eu sou – em sumos e células –

o poeta que regurgita as dores todas do mundo

mesmo que as musas mortas

dos velhos mundos em guerra permanente

se estraçalhem no pó das usinas atômicas



desespero-me no entanto ao pensar que

os ventos de ogivas nucleares

possam regurgitar do sol a energia final

e trazer para a superfície dos mares

os abismos todos dos buracos negros estelares

para o último e lancinante grito

que precede aquele grito primal

do último verso jamais escrito

na pele do último ser humano e do último animal





19.11.2022

(Ilustração: Georg Scholz -  drei totenköpfe)



27 de nov. de 2022

MARCO ZERO

 


Uma tarde, atravessando a praça da Sé, driblando as barracas de tem-de-tudo e a fumaça e o cheiro dos churrasquinhos-de-matar-o-guarda, e os cantos imundos de urina, e o bodum de creolina, e o azedo do suor de quem batalhou o dia inteiro, e o perfume barato das prostitutas, e a água velva dos barbeiros de rua, e a brilhantina mais barata ainda dos almofadinhas que pregam o evangelho, e os incensos florais dos falsos místicos, e as mostardas e ketchups das barracas de cachorro-quente-com-duas-salsichas-a-cinquenta-centavos, e a fumaça de ônibus, e a gasolina dos automóveis, indo em direção à Liberdade, vi, no marco zero da cidade o olho imenso da metrópole a acompanhar meus passos e me detive a contemplar o inequívoco pesadelo de meus sentidos em meio à algaravia que de repente emudeceu e a cidade que era cheiro, luz, movimento, de repente estancou como num filme que você deu pause no videocassete e, no silêncio de cemitério que então se seguiu, eu fiquei ali olhando aquele olho que me olhava e só olhava como se não me visse e eu sabia que estava me vendo como eu estava vendo a íris imensa a abrir-se e fechar-se como uma lente louca de máquina fotográfica dos paparazzi a tirar fotos da morte da princesa Diana da Inglaterra, mas eu sabia que não estava em Paris, estava na praça da Sé em São Paulo e aquele olho do marco zero era o olho de São Paulo, não era o olho de Paris ou de Londres ou de qualquer outra cidade, e eu fiquei ali a perguntar-me de mim para mim mesmo o que queria aquele olho estranho, bem no meio da praça suja e fedorenta, com todo mundo transformado em estátua, até mesmo as fumacinhas das barracas de churrasco e cachorro-quente pareciam paradas, imóveis, pesadas, densas em suas cores cinza e a catedral, ao fundo, parecia apenas uma fantasmagórica aparição com suas torres imensas e vazias dentro do silêncio de profundezas, e eu ali a olhar aquele olho que me olhava e eu olhava para mim, beliscava-me para ver se estava acordado e estava acordado, só a cidade parecia dormir num sono profundo de bêbado e aquele olho parecia querer dizer-me apenas que a cidade estava ali, a cidade estava atenta a tudo e eu era o seu profeta e eu não queria ser profeta de porra nenhuma, então eu saí correndo em direção ao metrô e quando o túnel engoliu o trem e me jogou dentro de mim mesmo eu vi que a cidade estava em cada pedra e em cada olho de cada passageiro, numa tristeza que dava dó e eu chorei.



22.9.97

(Ilustração: Praça da Sé - São Paulo: marco zero; foto de Vinicius Lomaski)



(Você pode ouvir essa crônica, na voz do autor, no podcast indicado acima à direita)

24 de nov. de 2022

noite

 




quando à noite o silêncio cobre o meu leito

não sei bem com quem me deito

se com a saudade de tempos passados

ou com a saudade de tempos ansiados

sei apenas que me cubro de esperança

e o mundo de sonhos que me alcança

na dobra do romper da aurora

e tudo quanto pela vida o tempo explora

estão nos versos que escrevo já desperto

em busca de mim mesmo neste deserto




17.9.2022

(Ilustração: Joseph Wright of Derby - Dovedale by Moonlight,1784)

21 de nov. de 2022

namorados

 





deu-me a vida uma amante

para meus tempos de madurez

quando o sonho fica mais distante



deu-me a vida mais uma vez

o gozo simples de um abraço

o riso claro para um novo caminho



prendeu-me num suave laço

a feliz descoberta de seu carinho

e hoje que somos mais que amantes

e quando nos sentimos apaixonados

quero dizer-lhe muito mais do que antes

somos dois eternos namorados



11.6.2022

(Ilustração: Leonid Afremov - The Passion)

19 de nov. de 2022

mistérios gozosos

 

ulvas de mágicos sabores em vasos líquidos cultivadas

sarças-de-fogo em areias fulvas de desertos espalhadas

melopeia de sinos encapuzados no vértice de triângulos sagrados

à vicária luz da lua o uivo dos lobos selvagens

no círculo de fogo os braços às estrelas levantados

corpos rútilos em sangue esvaídos a colorir as folhagens

o capítulo de fogo-fátuo na pedra tumular

nenhum obstáculo que impeça às ogivas romper o espaço ovular

e os templos erguidos aos deuses antigos e a seus festejos

finalmente em cinzas transformados durante a dança das ninfas nuas

destruídos todos os tabus em torno dos anseios e dos desejos

restam apenas as folhas das ulvas e as vulvas à luz de todas as luas

no altar improfícuo de cerimoniais deletérios

onde se pode gozar e comemorar como animais todos os mistérios



28.8.2022

(Ilustração: escultura de Andrea Riccio - sátiro e sátira)



15 de nov. de 2022

UMA TRISTE SOMBRA ESPREITA, NUM RESTAURANTE JAPONÊS DO BAIRRO DA LIBERDADE, SÃO PAULO, BRASIL, 2002


Sueli, Sueli, nome de ocidental, nome besta esse, gostava mais do meu nome antigo, lá do Japão, Futami, isso sim, nome de gente como eu, mas há tanto tempo me chamam Sueli que até tinha esquecido, e então, lá do Japão a voz, a voz de mais de cinqüenta anos atrás, ainda bonita, no tremor de velho, velha estou eu, puxa vida, dona Sueli, não, dona Futami, setenta e sete anos, sim, no mês que vem, setenta e sete anos, e a voz que veio do Japão, semana que vem, é, semana que vem vou estar no Brasil, o português meio trôpego, mas inteligível, poderíamos nos encontrar, quem sabe, senhora Futami, um jantar, sim, um jantar, e agora ela estava ali, naquele restaurante no bairro da Liberdade, ela não morava na Liberdade, ela morava no Jardim da Saúde, mas estava ali, na Liberdade, à mesa do restaurante, mais de trinta anos não ia a um restaurante chique como esse, e então ela pensou, tudo na minha vida se passou há mais de trinta anos, e eu aqui, nesse restaurante japonês no bairro da Liberdade, não, não era mentira, e ali estava o homem que amara em 1947 e que tivera que ir embora de repente do Brasil, tinha só vinte anos, ele um pouco mais velho, vinte e cinco, um pouco mais, um pouco menos, que importa, juravam amor eterno, juravam nunca se separar, naquele mesmo bairro da Liberdade, eu te amo, Futami, ele dizia e nunca, nunca vou te deixar, e um dia ele foi embora, ele foi obrigado a ir embora, partiu numa madrugada, como um ladrão saindo pela janela, ele foi embora, uma sombra fugitiva, sem falar nada para ninguém, só ela sabia que ele ia embora, ele tinha de ir embora, ainda se escreveram durante um tempo, mas as cartas semanais viraram mensais e um dia ela percebeu que não iam chegar mais, e já se tinham passado vários anos e ela nem notou que ele não escrevia mais, sempre relendo as velhas cartas lá do Japão e então, uma nova bomba de Hiroshima não caiu em Hiroshima, caiu na minha vida, ele se casou, alguém que veio do Japão falou assim, sem mais nem menos, no meio de uma conversa boba de quem chega e tem novidades para contar, e agora ela observa o senhor grisalho e sorridente ali sentado, o presente é sonho, o passado não passou, tudo sonho, e de repente ela olha para ele e vê uma sombra, uma sombra medonha de ódio e vingança, foi por causa dessa sombra que ele foi embora, foi por causa do ódio que ele foi embora, foi por medo de uma vingança terrível que ele foi embora, eu nunca entendi direito por quê, mas ele teve de ir embora, aquele senhor sorridente a chama de senhora Futami, que me chama de Futami, sim, sim, nunca me casei, nunca tive outros homens, Futami ficou te esperando, meu amor, ela não diz, ela só pensa em dizer meu amor, um casal estranho naquele ambiente de jovens, todos tão respeitosos, mas nós somos velhos, velhos como a sombra de uma vingança terrível que ela nunca, eu nunca, jamais consegui entender, um casal, naquele restaurante japonês, um casal de velhos, e ele sorri um sorriso que podia ser de esperança, mas eles são apenas um casal de velhos, e ele conta coisas do passado, de como encontrou a pátria destruída, de como trabalhou tanto e de como prosperou nesses cinquenta anos, e ele fala de um Japão tão moderno, tão bonito, que ela não conhece, fala da mulher que morreu, dos netos que estudam tecnologias que ela não entende, e ele fala de computadores que ela não sabe bem o que são, há mais de cinquenta anos eu vivo te esperando, meu amor, e ele come com elegância e a serve, não tenho fome, meu amor, e ele parece tão jovem, não tem uma só ruga, não tem dente amarelo, não tem cabeça branca, suas mãos estão limpas e lindas e lisas, o tempo não passou, passou apenas uma sombra, e ela olha com amor aquele jovem de vinte e cinco anos e então uma sombra, uma sombra terrível que matou toda a sua esperança de vida está ali, atrás dele, a sombra ainda ali, é apenas uma sombra mas está ali, a sombra da Shindô Remei.(*)






Nota:

(*) A Shindô Remei foi uma organização surgida nas comunidades de imigrantes japoneses e nikkeis no interior de São Paulo durante a Segunda Guerra Mundial. A Shindô Remei recusou-se a aceitar a derrota militar do Japão e cometeu uma série de homicídios e atentados, após a guerra, contra membros da sua própria comunidade acusados de "derrotistas", por terem aceito o fato da derrota militar japonesa.




4.9.2002

(Ilustração: Kitagawa Utamaro - 1754-1806)


(Você pode ouvir esse conto, na voz do autor, neste link de spotfi:


12 de nov. de 2022

melado

 



quem nunca comeu melado

quando come se lambuza

e eu te como lambuzado

porque é assim que se usa

fazer amor deliciado

no balanço de uma rede

onde gemes de mansinho

onde eu mato a minha sede

a beber devagarinho

o melado do teu gozo

me lambuzo e me escorrego

lambendo teu mel cheiroso

que goteja do teu rego

na mata o tiziu se cala

quando pedes que eu te foda

eu atendo à tua fala

te afogo na porra toda



10.5.2022

(Ilustração: Raffaele Marinetti)



9 de nov. de 2022

lua triste




o menino tira da boca uma rosa - o sorriso de dentes pequenos

ainda os dentes de leite

não sabe para quem sorri o menino de olhos negros e suaves

sabe apenas que sorri porque a vida ainda é um jardim de grama verde

onde a bola pula no pé - esfera obediente a seus meneios

e o futuro é o gol que o amigo não defendeu



cresceram na boca do menino os dentes e a rosa aos poucos se despetalou

era a vida a reservar para ele - depois da terceira esquina

os dias tristes sem bola e sem gol não defendido por amigos que já se foram

agora o menino já não sorri como antes nem tem nos olhos a suavidade de madrugadas

ainda sonha - sim ainda sonha - mas seu futuro está preso à sua angústia

roda a cidade vendendo não a rosa murcha mas o chocolate de origem duvidosa



uma noite voltava o menino-homem-quase-feito para casa de madrugada

no bolso uns poucos reais da féria do dia

pensava ele na mãe a engrossar o angu do jantar

pensava ele na rosa que não era flor mas tinha dentes brancos e belos como ele

pensava e sonhava

quem sabe - um dia um beijo



e então de repente o susto - perdeu camarada

levanta os braços

vira de costas

abre as pernas

não olhe não olhe não olhe para trás

o que o safado está fazendo sozinho à noite

cadê o fruto do roubo

fala logo que eu não tenho tempo a perder com gente como tu

fala desgraçado

cala a boca cala a boca cala a boca

deita

deita

deita



quando se virou para deitar no asfalto frio o frio dos olhos iguais

os olhos iguais ao dele e a pele ao luar igual à dele a pele negra



não sentiu nada o menino-quase-homem-feito quando a rosa explodiu

não sentiu nada

só a lua piscou antes de se esconder atrás de uma nuvem



no barraco forrado de estrelas

o angu ficou duro e esquecido para sempre

sobre a trempe do fogão apagado



7.3.2022

(Ilustração: Michael D’Antuono)

6 de nov. de 2022

lágrimas

 



meus olhos – lagos parados no tempo –

guardam lágrimas tantas

lágrimas que não mais tento

derramar pelas gargantas

de meus desesperos

lagos quase sem água

– água sem gosto e sem temperos –

que jorram apenas a mágoa

de estar sempre a viver

com o pouco chorar

embora com o muito sofrer

e o muito amar



25.9.2022

(Ilustração: Odilon Redon - tears - 1878)

3 de nov. de 2022

inevitável

 


o espanto de um gol contra

o vento gelado de um inverno fora de tempo

o espasmo da flor murcha no vaso quebrado

o beijo negado no ardor do orgasmo



talvez seja tudo isso a vida

talvez seja tudo isso apenas o manifesto

de uma esperança que se desvaneceu



e quando tudo parece pacificado

sopra a bocarra do inefável

a trazer de novo a lembrança do inevitável




26.8.2022

(Ilustração: Andrea Kowch)