20 de mai. de 2026

a tempestade

 





no meio de uma tempestade

queria encontrar uma nova amiga

ou uma nova amiga me encontrasse

e fosse alguém que me visse

como esperança de desejos proibidos

de amores não superados

de beijos desejados e nunca colhidos



no meio da tempestade

os meus olhos baços lhe pediriam misericórdia

os meus versos tortos que lhe falariam

talvez de traumas talvez de rosas fanadas

seus braços se estenderiam para a chuva

e suas mãos colheriam os espinhos travados

que um dia lhe tolheram a voz



no meio da tempestade

sentados ambos à mesa de um bar intemporal

contemplando as águas da enchente

embebidos apenas por nossos dilemas

nós nos deixaríamos carregar pelos sonhos

e flutuaríamos sobre as águas da enchente

para uma longínqua preamar à luz do luar



no meio da tempestade

agora na praia imaginada banhada de luar

despiríamos nossos preconceitos todos e nossos desejos

para nos ver como seres perdidos que se encontram

no meio da tempestade

para gozarmos um com o outro a ilusão

de termos enfim mitigado pelas águas

os amores perdidos outrora

no meio de tantas outras tempestades





4.4.2026

 (Ilustração: Jacqueline Colbac - promenade sous la pluie)

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