no meio de uma tempestade
queria encontrar uma nova amiga
ou uma nova amiga me encontrasse
e fosse alguém que me visse
como esperança de desejos proibidos
de amores não superados
de beijos desejados e nunca colhidos
no meio da tempestade
os meus olhos baços lhe pediriam misericórdia
os meus versos tortos que lhe falariam
talvez de traumas talvez de rosas fanadas
seus braços se estenderiam para a chuva
e suas mãos colheriam os espinhos travados
que um dia lhe tolheram a voz
no meio da tempestade
sentados ambos à mesa de um bar intemporal
contemplando as águas da enchente
embebidos apenas por nossos dilemas
nós nos deixaríamos carregar pelos sonhos
e flutuaríamos sobre as águas da enchente
para uma longínqua preamar à luz do luar
no meio da tempestade
agora na praia imaginada banhada de luar
despiríamos nossos preconceitos todos e nossos desejos
para nos ver como seres perdidos que se encontram
no meio da tempestade
para gozarmos um com o outro a ilusão
de termos enfim mitigado pelas águas
os amores perdidos outrora
no meio de tantas outras tempestades
4.4.2026
(Ilustração: Jacqueline Colbac - promenade sous la pluie)


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