2 de jan. de 2026

o viajante

 




vaguei um dia pelas estrelas da ursa

quando estive cavalgando

pelas planuras da europa

o corpo gelado nas alturas alpinas

os pés fincados

na floresta amazônica



navegador do cosmo

pelos mares ocultos

dos deuses de um olimpo decadente

sou fernão de magalhães

a dobrar todos os cabos

que vestem fardas verdes

desnutridas de esperança



descobridor das estradas dos mares

sou colombo a sobrenadar

com as galeras santa maria

e mais a pinta e mais a niña

sobre os cascalhos dos quartéis

para molhar no vinho

que virou vinagre

as insígnias dos generais



pedro dos álvares sou cabra cabral

para fincar no peito de cada negrinha

como marco da corte portuguesa



o desejo de decepar bem decepado

a mão suja que o rei dom joão

ousou limpar em cada carapinha



mulato ou negro retinto

nasci na noite do cruzeiro

como descendente direto

daquele capitão do mato

que riu da febre que matou

o bandeirante genocida

enganado pelas pedras verdes



roto e faminto me empreguei

nas fazendas dos paulistas

colhi mais miséria que café

e deixei em cada eira

uma lasca de minha pele



segui minha jornada sem rumo

na coluna de outro capitão

que no mato plantou revolução

semente que não medrou

semente que só ficou

como ex-futuro baobá

dentro de cada peito

de preto pobre e favelado

que ainda arde de febre e dor

por um tempo sem desigualdade



viajo por todas as matas

o corpo de onça pintado

com as cores do urucum

como negro ou tupi ou tapuia

prego no peito do genocida

o prego que roubei da cruz



cruzo mares desde europa

até a foz do amazonas

e depois me espalho por aí

do oiapoque até o chuí

a plantar minhas estrelas

e a colher muitas florestas



bebo os rios de águas limpas

que os malditos empestearam

e os vomito sobre a cidade eterna

com todo o mercúrio e todo ouro

que enfeitaram suas bocas podres

enterro nas grotas das montanhas

a língua de fogo das fornalhas

que derrete o ferro das gerais

chuto a bunda dos financistas

que atiçam a sanha dos racistas

e grito contra gente que não presta

falso patriota que me detesta



sou sim o viajante vigilante

que não nega cada delito

registrado nos gritos do bem-te-vi

e é assim que assumo

meu próprio grito que ecoa

até pelas estrelas da ursa

quando planto meus pés feridos

nos píncaros alpinos podres

de uma europa que não há

e deito as penas do meu cocar

no leito agônico dos rios mares

e vestido com o manto tupinambá

planto a sonhada pátria que um dia virá





25.9.2025

(Ilustração: Manto Tupinambá na Biblioteca do Museu Nacional no Rio de Janeiro).

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