vaguei um dia pelas estrelas da ursa
quando estive cavalgando
pelas planuras da europa
o corpo gelado nas alturas alpinas
os pés fincados
na floresta amazônica
navegador do cosmo
pelos mares ocultos
dos deuses de um olimpo decadente
sou fernão de magalhães
a dobrar todos os cabos
que vestem fardas verdes
desnutridas de esperança
descobridor das estradas dos mares
sou colombo a sobrenadar
com as galeras santa maria
e mais a pinta e mais a niña
sobre os cascalhos dos quartéis
para molhar no vinho
que virou vinagre
as insígnias dos generais
pedro dos álvares sou cabra cabral
para fincar no peito de cada negrinha
como marco da corte portuguesa
o desejo de decepar bem decepado
a mão suja que o rei dom joão
ousou limpar em cada carapinha
mulato ou negro retinto
nasci na noite do cruzeiro
como descendente direto
daquele capitão do mato
que riu da febre que matou
o bandeirante genocida
enganado pelas pedras verdes
roto e faminto me empreguei
nas fazendas dos paulistas
colhi mais miséria que café
e deixei em cada eira
uma lasca de minha pele
segui minha jornada sem rumo
na coluna de outro capitão
que no mato plantou revolução
semente que não medrou
semente que só ficou
como ex-futuro baobá
dentro de cada peito
de preto pobre e favelado
que ainda arde de febre e dor
por um tempo sem desigualdade
viajo por todas as matas
o corpo de onça pintado
com as cores do urucum
como negro ou tupi ou tapuia
prego no peito do genocida
o prego que roubei da cruz
cruzo mares desde europa
até a foz do amazonas
e depois me espalho por aí
do oiapoque até o chuí
a plantar minhas estrelas
e a colher muitas florestas
bebo os rios de águas limpas
que os malditos empestearam
e os vomito sobre a cidade eterna
com todo o mercúrio e todo ouro
que enfeitaram suas bocas podres
enterro nas grotas das montanhas
a língua de fogo das fornalhas
que derrete o ferro das gerais
chuto a bunda dos financistas
que atiçam a sanha dos racistas
e grito contra gente que não presta
falso patriota que me detesta
sou sim o viajante vigilante
que não nega cada delito
registrado nos gritos do bem-te-vi
e é assim que assumo
meu próprio grito que ecoa
até pelas estrelas da ursa
quando planto meus pés feridos
nos píncaros alpinos podres
de uma europa que não há
e deito as penas do meu cocar
no leito agônico dos rios mares
e vestido com o manto tupinambá
planto a sonhada pátria que um dia virá
25.9.2025
(Ilustração: Manto Tupinambá na Biblioteca do Museu Nacional no Rio de Janeiro).


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