mexe mexe que mexe
com a colher de pau
mexe mexe que mexe
desempelota o mingau
na trempe quente do fogão a lenha
- ainda me lembro das mãos de mãe
a mexer o mingau no fim da tarde
e no fim da tarde assobia o vento no telhado
despede-se do dia o bem-te-vi na mangueira
na cozinha sobre a trempe do fogão a lenha
da panela de ferro sobe o cheiro da canela
e sabe a canela o mingau de minha mãe
esquecido do ontem – esquecido do amanhã
eu-menino cheio da fome logo saciada
não sei quanto de felicidade que há ali
mexeu mexeu que mexeu
com a colher de pau
mexeu mexeu que mexeu
e o que o menino comeu
não foi da mãe o mingau
foi o tempo ali parado
sem futuro e sem passado
o bem-te-vi bateu asas para mangueiras insondáveis
levado pelo vento que não assobia mais no telhado
- que telhado não há mais
- não há mais fogão a lenha
[nem cheiro de mingau com canela]
- nem a casa existe mais
e minha mãe – ah minha mãe
uma saudade que dói
que dói
[e não passa]
11.4.2026
(Ilustração: Rui de Paula)


Nenhum comentário:
Postar um comentário