23 de mai. de 2026

ainda me lembro


 

mexe mexe que mexe

com a colher de pau

mexe mexe que mexe

desempelota o mingau



na trempe quente do fogão a lenha

- ainda me lembro das mãos de mãe

a mexer o mingau no fim da tarde



e no fim da tarde assobia o vento no telhado

despede-se do dia o bem-te-vi na mangueira



na cozinha sobre a trempe do fogão a lenha

da panela de ferro sobe o cheiro da canela

e sabe a canela o mingau de minha mãe



esquecido do ontem – esquecido do amanhã

eu-menino cheio da fome logo saciada

não sei quanto de felicidade que há ali



mexeu mexeu que mexeu

com a colher de pau

mexeu mexeu que mexeu

e o que o menino comeu

não foi da mãe o mingau

foi o tempo ali parado

sem futuro e sem passado



o bem-te-vi bateu asas para mangueiras insondáveis

levado pelo vento que não assobia mais no telhado

- que telhado não há mais

- não há mais fogão a lenha

[nem cheiro de mingau com canela]

- nem a casa existe mais

e minha mãe – ah minha mãe

uma saudade que dói

que dói

[e não passa]




11.4.2026

(Ilustração: Rui de Paula)







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