19 de jul. de 2026

Lavras – palavra estranha

 




Lavras é palavra estranha

que me faz mineirar memórias.

Arroja em mim momentos meus

de loucos dias e dias mortos.



Lavras tem o jeito sutil

de trazer o vento que já passou,

de trazer a vida um dia já vivida,

de trazer o doce canto de minha mãe.



De Lavras vem

o eco de águas pingadas

a molhar o peito em dor,

águas doces de mangueiras em flor,

águas sujas de ruas tortas,

águas do rio louco de minha vida vã.



Às Lavras ecoam

lamentos de agora dos dias idos.



Entre sombras e entre passos retorno

às luas cheias da paixão,

catracas, rezas, cicios e preces

que o menino seguia em contrição,

pagando lá os pecados de agora.



Mergulho em Lavras atrás de mim,

mergulho em mim e encontro Lavras.



Renego, renego a vida que lá vivi,

mas não me livro da marca funda

em cicatriz de dor já mascarada.



Do pó do tempo me vêm as sombras

de tudo que já esquecera.

Se de Lavras ficou essa sombra triste

que me tornei, para lá retornam

as memórias loucas dos meus sonhos bons.



14/12/95

(Ilustração: Lavras, vista aérea, 
tendo em primeiro plano a Igreja Matriz de Santana)

16 de jul. de 2026

filosofia de bebum

 


no bar lotado todos de pinga se encharcavam

e conversavam e se chateavam

com papos sem pé nem cabeça

numa irritante chatice



foi quando entrou um bebum de fora

para quebrar a mesmice

pediu e implorou por mais um gole de cachaça

na mesa de um e outro a todos implorando

a alguns até mesmo irritando



foi quando o dono do bar

já meio cheio

de toda aquele zunzum

resolveu dar ao bebum

um bom de um safanão

e uma bela lição para livrar seus fregueses

de toda aquela doidice



mas – coitado – acabou derrotado

- pois o bêbado foi ovacionado

quando se virou para ele e disse:



“eu daqui só vou-me embora

com um copo de cachaça

porque a vida só melhora

se pela pinga ela passa”





11.2.2026

(Ilustração: Alfedo López - californiennes à Paris0





13 de jul. de 2026

Eu, arquiteto

 



Rabisco em meu cérebro o projeto de uma casa.

Minha imaginação corre atrás de linhas retas

para construir a casa de meu sonho,

mas o pensamento voa para o passado

- renitente pensamento obsessivo -

e traz de volta à minha memória

a velha casa onde nasci:

seis cômodos num retângulo,

três quartos,

sala,

uma espécie de copa primitiva

e a cozinha esfumaçada,

talvez o lugar mais importante da casa,

porque lá reinava minha mãe

lutando – e essa é a palavra exata –

com o velho fogão a lenha

(que também usava serragem)

onde borbulhava nas panelas de pedra

- o angu (às vezes doce, para adoçar minha meninice)

- o arroz

- o feijão

(às vezes, e só às vezes, a carne).

Lá ficava eu a brincar ou simplesmente acompanhando

a azáfama de minha mãe.

[Um dia o meu cachorrinho cheirou sob a cadeira onde eu estava o mortífero escorpião e isso me livrou da picada e um dia, também no mesmo local, brincando com um trenzinho de caixa de fósforo, ao colocar gasolina na estopa fumegante da máquina, queimei minha perna – seis meses tomando injeção de penicilina e de molho na cama, pensando na fogueira de são João que não ia poder pular.]

Essas são lembranças de um passado tão passado

que não devia mais vir à minha memória: quero falar das casas,

das casas que rabisco no meu cérebro,

casas feitas de nuvens e de sonhos, porque nelas nunca morei

nem nunca vou morar [não, não é bem assim: moro nelas

todos os dias da minha vida, todos os dias].

Eu – arquiteto de versos tortos e sonhos mortos – ergo tijolo a tijolo

quantas casas em que moro nos meus sonhos,

construídas todas elas nas nuvens de meu cérebro.

Casas de belezas etéreas no concreto de minhas sinapses,

amplos espaços que abrigam a mim e a todos os meus filhos.

Casas onde se vive e se brinca e se refestela em festejos de família

num sonho perpétuo de amizade entre nós.

Casas e casas que imagino e que sonho

e com que construo - pelo menos dentro de mim -

o que eu sei que só existe mesmo na minha imaginação:

a felicidade.




4.1.2026


(Paul Bond - A Home At The Edge Of The World)

9 de jul. de 2026

enquanto as águas sobem

 



enquanto as águas sobem

e pessoas morrem

os gananciosos engraxam motosserras

para derrubar mais florestas

e continuar lucrando



enquanto as águas sobem

e pessoas morrem

os donos das terras e de todas as fontes

bebem água mineral Perrier

(paga com dólar ao câmbio do dia)

entre doses de uísque irlandês triplamente destilado



27.5.2026

(Ilustração: Georg Emanuel  Opitz - Der Völler, 1804)

7 de jul. de 2026

É PRECISO DESTRUIR TODOS OS ALTARES




É preciso destruir

Todos os altares, todas as piras, todos os templos

No coração dos homens.

Há cheiro podre de cadáver putrefato no ar e

No coração dos homens.

É preciso destruir altares de um deus morto

No coração dos homens.

É preciso que todas as piras não mais exalem

No coração dos homens

O cheiro putrefato do deus morto.

Templos de ódio, templos de dor, onde jazem

Como se fossem no coração dos homens

Deuses mortos, fétidos por estarem podres.

Da carne suja dos deuses mortos

No coração dos homens

Gases exalam rancores e ódios e trevas.

Do coração dos homens

O tóxico de opiários espirituais enlouquece

E destrói e mata e mutila e rompe

A carne vermelha de corações em chamas.



Não mais templos, não mais piras, não mais sacrifícios.



Matar os deuses dos corações dos homens

Seja da paz o gesto final.



terça-feira, 18 de setembro de 2001

(Ilustração: desenho do argentino Al Margen - puta)

4 de jul. de 2026

cena surreal





num canto da larga calçada

da avenida movimentada

enfia-se o morador sem teto

em sua cabana de plástico

deita-se de lado e mal coberto

acende uma pequena lanterna

e lê no livro a palavra eterna

marcando com o toco do lápis

estas palavras de nietzsch:

“coisa para nos preocupar

é a vida humana,

e sempre vazia de sentido:

um trovão lhe pode ser fatal!”

de repente a avenida enlouque

vozes

gritos

tiros

correria

um assalto

pega pega

tiros

o pobre morador sem teto

no susto apaga a lanterna

deita rápido e cobre a cabeça

com o livro que lia e relia



acalma-se a avenida

e aos poucos o silêncio

cai com a madrugada

nada passa

nada além de um ou outro veículo



manhã de domingo

domingo pede cachimbo

o cachimbo é de barro



na larga calçada um escarro

na larga calçada nada se move

alguns passos passam

soa a buzina longínqua de um carro



já quase noite dois soldados da patrulha

são chamados da esquina para uma ocorrência

que um passante mais atento percebeu

- na cabana do sem-teto algo estranho



chamam-se os bombeiros

pede-se uma ambulância

aglomeram-se alguns curiosos

já de madrugada chega reforço

não – não é reforço – é o camburão

do instituto médico legal



no cemitério em cova rasa

cobrem os coveiros o caixão

assistidos apenas por um mendigo

que apenas olha e espera

que se afastem os coveiros

os coveiros falantes e sorridentes



então se aproxima da cruz torta

onde se inscreveu apenas um número

e sobre a terra ainda fofa deposita

o único bem na terra daquele morto

o livro “assim falava Zaratustra”

tendo na capa a foto do autor



vai embora o mendigo amigo

sob a fina garoa que caía

se olhasse para trás veria

na capa do livro o misterioso

e escarnecedor sorriso

[talvez um pouco triste]

de Friedrich Wilhelm Nietzche



25.3.2026

(Ilustração: barraca de sem-teto na Avenida Paulista/SP 
- foto da internet, sem indicação de autoria)



















1 de jul. de 2026

brevíssimo






se chove

eu choro

não comove

se imploro

que a vida

como água

na descida

do morro

seja mágoa

sem socorro



o amor

é breve

proscreve

a dor

e deixa

mais leve

a queixa



tudo quando penso

no meio da noite

- brevíssimo açoite

ou um contrassenso




11.2.2026

(Ilustração: Félix Vallotton - clair de lune c.1895)