4 de jul. de 2026

cena surreal





num canto da larga calçada

da avenida movimentada

enfia-se o morador sem teto

em sua cabana de plástico

deita-se de lado e mal coberto

acende uma pequena lanterna

e lê no livro a palavra eterna

marcando com o toco do lápis

estas palavras de nietzsch:

“coisa para nos preocupar

é a vida humana,

e sempre vazia de sentido:

um trovão lhe pode ser fatal!”

de repente a avenida enlouque

vozes

gritos

tiros

correria

um assalto

pega pega

tiros

o pobre morador sem teto

no susto apaga a lanterna

deita rápido e cobre a cabeça

com o livro que lia e relia



acalma-se a avenida

e aos poucos o silêncio

cai com a madrugada

nada passa

nada além de um ou outro veículo



manhã de domingo

domingo pede cachimbo

o cachimbo é de barro



na larga calçada um escarro

na larga calçada nada se move

alguns passos passam

soa a buzina longínqua de um carro



já quase noite dois soldados da patrulha

são chamados da esquina para uma ocorrência

que um passante mais atento percebeu

- na cabana do sem-teto algo estranho



chamam-se os bombeiros

pede-se uma ambulância

aglomeram-se alguns curiosos

já de madrugada chega reforço

não – não é reforço – é o camburão

do instituto médico legal



no cemitério em cova rasa

cobrem os coveiros o caixão

assistidos apenas por um mendigo

que apenas olha e espera

que se afastem os coveiros

os coveiros falantes e sorridentes



então se aproxima da cruz torta

onde se inscreveu apenas um número

e sobre a terra ainda fofa deposita

o único bem na terra daquele morto

o livro “assim falava Zaratustra”

tendo na capa a foto do autor



vai embora o mendigo amigo

sob a fina garoa que caía

se olhasse para trás veria

na capa do livro o misterioso

e escarnecedor sorriso

[talvez um pouco triste]

de Friedrich Wilhelm Nietzche



25.3.2026

(Ilustração: barraca de sem-teto na Avenida Paulista/SP 
- foto da internet, sem indicação de autoria)



















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