num canto da larga calçada
da avenida movimentada
enfia-se o morador sem teto
em sua cabana de plástico
deita-se de lado e mal coberto
acende uma pequena lanterna
e lê no livro a palavra eterna
marcando com o toco do lápis
estas palavras de nietzsch:
“coisa para nos preocupar
é a vida humana,
e sempre vazia de sentido:
um trovão lhe pode ser fatal!”
de repente a avenida enlouque
vozes
gritos
tiros
correria
um assalto
pega pega
tiros
o pobre morador sem teto
no susto apaga a lanterna
deita rápido e cobre a cabeça
com o livro que lia e relia
acalma-se a avenida
e aos poucos o silêncio
cai com a madrugada
nada passa
nada além de um ou outro veículo
manhã de domingo
domingo pede cachimbo
o cachimbo é de barro
na larga calçada um escarro
na larga calçada nada se move
alguns passos passam
soa a buzina longínqua de um carro
já quase noite dois soldados da patrulha
são chamados da esquina para uma ocorrência
que um passante mais atento percebeu
- na cabana do sem-teto algo estranho
chamam-se os bombeiros
pede-se uma ambulância
aglomeram-se alguns curiosos
já de madrugada chega reforço
não – não é reforço – é o camburão
do instituto médico legal
no cemitério em cova rasa
cobrem os coveiros o caixão
assistidos apenas por um mendigo
que apenas olha e espera
que se afastem os coveiros
os coveiros falantes e sorridentes
então se aproxima da cruz torta
onde se inscreveu apenas um número
e sobre a terra ainda fofa deposita
o único bem na terra daquele morto
o livro “assim falava Zaratustra”
tendo na capa a foto do autor
vai embora o mendigo amigo
sob a fina garoa que caía
se olhasse para trás veria
na capa do livro o misterioso
e escarnecedor sorriso
[talvez um pouco triste]
de Friedrich Wilhelm Nietzche
25.3.2026
(Ilustração: barraca de sem-teto na Avenida Paulista/SP
- foto da internet, sem indicação de autoria)


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