quando choro por causa
de uma cena comovente
da novela na televisão
tenho consciência
de que esse gatilho
nada tem a ver com a novela
e sim com fatos do mundo
atrelados à minha vida
aquela voragem
que me consome
aquela voragem
que me leva
para abismos insondáveis
que insisto em desvelar
são encantos e desencantos do inferno
os desprezos e encantamentos inexplorados
ou os inefáveis desejos de busca
pelos labirintos de pedra de minhas tolas ambiguidades
devorados os anseios de viagens por mares nunca dantes navegados
pernoito na estepe sob o chumbo da artilharia napoleônica
rasgando nos espinhos o fardamento verde de militares bêbados
a construir memórias dos que viveram e sobreviveram
nas florestas encantadas de rios insolúveis de vastas amazônias
sou o louco que grita pelas praças
pela liberdade de campear a selva
trajando cocares indígenas
totalmente pelado no mesmo coreto
sob a velha tipuana de minha terra desencantada
onde quartetos de cordas entoaram um dia em dó menor
as estranhas serenatas noturnas de Mozart
extraterrestres convidam os líderes do mundo
a cagarem juntos nas sentinas imundas
das casas grandes e dos grandes escritórios
onde os capitalistas gordos de todos os tempos
comem bites e bytes das bets enlouquecidas
operários mudos cantam a Internacional
nos congressos falidos do partido comunista
no Sputnik russo a cadela que só come caviar
vomita na bandeira deslistrada e desestrelada
que o presidente estadunidense mastiga ao café da manhã
enquanto lança bombas de papel-maché sobre a cabeça dos aiatolás
os leitores da bíblia e dos versos satânicos
marcam encontro nos campos de soja
para mascarem juntos as flores incandescentes
que o vento derruba a cada batida dos tambores
o papa condena o pecado que não houve
ou só houve nos recantos obscuros
dos seminários de Minas Gerais
onde adolescentes se masturbam uns aos outros
diante do êxtase de santas terezinhas embalsamadas
cresce e se multiplica o bulbo atômico
dentro da cabeça de líderes loucos ou enlouquecidos
pela miragem de podres poderes
o santo se santifica nos altares do juízo final
e os demônios que se revoltam contra deus
sentam-se no trono de fogo do vaticano
para ouvir os gritos que do passado recontam
histórias macabras de mistérios e bruxarias
o sétimo selo da memória que se rompe
mostra todo o desalento da humanidade
diante de um menino travesso
que de vez em quando esquenta
as águas do oceano em que os espanhóis
perseguiram as escunas negras dos piratas ingleses
que voaram para os mares do Caribe
e levaram com eles todo o ouro que havia nos Andes
todos os povos se uniram
em torno da fogueira final sobre os solos rompidos
pelas águas termais vomitadas de infernos dolarizados
e agora só resta aos humanos
o degredo de um planeta em chamas
que se sacode todo para se livrar desses vermes
que se multiplicaram como humanidade
eu quero ter a consciência dos loucos
para não ser apenas um número numa lápide
de um cemitério de periferia
como vítima de pandemias ignoradas
quero andar à toa pelas ruas tortas
subir ladeiras e deslizar pelos rios de lama
que vazam dos castelos dos que bebem uísque com coca-cola
vou chamar todos os demais fantoches como eu
para bebermos juntos a pinga vagabunda
nos bares dos bêbados anônimos
e depois da ressaca de cuspir versos aos porcos
lutar a luta dos cães de rua
miar nos telhados como gato no cio
viajar pelas planuras de luar
cantar a ária da dama da noite
perseguir morcegos nas cavernas de Minas
louvar o desencanto do imigrante
que leva cacetadas da polícia
nas ruas sujas do centro de novas iorques borbulhantes
e ser ao final do meu périplo o inolvidável das gentes
no transporte das vítimas de enchentes
talvez se eu gritasse minha revolta
sob as barbas dos profetas de Congonhas
o Aleijadinho se levantaria do seu túmulo
para anistiar as minhas intenções
de explodir todas as mansões
do lago sul de Brasília
e então eu penso:
oh mar-oceano de todos os meus sofreres
de todos os nossos choros diante das telas de televisão
quanto de teu sal não são lágrimas de Portugal
mas gritos de uma revolta muda e desencantada
que tantos com ela sonharam e por ela pereceram
22.7.2026
(Ilustração: Johannes Hendrikus Moesman (1909-1988) - the rumor)
%20-%20the%20rumor.jpg)

Nenhum comentário:
Postar um comentário