15 de ago. de 2026

apenas um delírio

 




quando choro por causa

de uma cena comovente

da novela na televisão

tenho consciência

de que esse gatilho

nada tem a ver com a novela

e sim com fatos do mundo

atrelados à minha vida



aquela voragem

que me consome

aquela voragem

que me leva

para abismos insondáveis

que insisto em desvelar



são encantos e desencantos do inferno

os desprezos e encantamentos inexplorados

ou os inefáveis desejos de busca

pelos labirintos de pedra de minhas tolas ambiguidades



devorados os anseios de viagens por mares nunca dantes navegados

pernoito na estepe sob o chumbo da artilharia napoleônica

rasgando nos espinhos o fardamento verde de militares bêbados

a construir memórias dos que viveram e sobreviveram

nas florestas encantadas de rios insolúveis de vastas amazônias



sou o louco que grita pelas praças

pela liberdade de campear a selva

trajando cocares indígenas

totalmente pelado no mesmo coreto

sob a velha tipuana de minha terra desencantada

onde quartetos de cordas entoaram um dia em dó menor

as estranhas serenatas noturnas de Mozart



extraterrestres convidam os líderes do mundo

a cagarem juntos nas sentinas imundas

das casas grandes e dos grandes escritórios

onde os capitalistas gordos de todos os tempos

comem bites e bytes das bets enlouquecidas



operários mudos cantam a Internacional

nos congressos falidos do partido comunista

no Sputnik russo a cadela que só come caviar

vomita na bandeira deslistrada e desestrelada

que o presidente estadunidense mastiga ao café da manhã

enquanto lança bombas de papel-maché sobre a cabeça dos aiatolás



os leitores da bíblia e dos versos satânicos

marcam encontro nos campos de soja

para mascarem juntos as flores incandescentes

que o vento derruba a cada batida dos tambores



o papa condena o pecado que não houve

ou só houve nos recantos obscuros

dos seminários de Minas Gerais

onde adolescentes se masturbam uns aos outros

diante do êxtase de santas terezinhas embalsamadas



cresce e se multiplica o bulbo atômico

dentro da cabeça de líderes loucos ou enlouquecidos

pela miragem de podres poderes



o santo se santifica nos altares do juízo final

e os demônios que se revoltam contra deus

sentam-se no trono de fogo do vaticano

para ouvir os gritos que do passado recontam

histórias macabras de mistérios e bruxarias



o sétimo selo da memória que se rompe

mostra todo o desalento da humanidade

diante de um menino travesso

que de vez em quando esquenta

as águas do oceano em que os espanhóis

perseguiram as escunas negras dos piratas ingleses

que voaram para os mares do Caribe

e levaram com eles todo o ouro que havia nos Andes



todos os povos se uniram

em torno da fogueira final sobre os solos rompidos

pelas águas termais vomitadas de infernos dolarizados

e agora só resta aos humanos

o degredo de um planeta em chamas

que se sacode todo para se livrar desses vermes

que se multiplicaram como humanidade



eu quero ter a consciência dos loucos

para não ser apenas um número numa lápide

de um cemitério de periferia

como vítima de pandemias ignoradas



quero andar à toa pelas ruas tortas

subir ladeiras e deslizar pelos rios de lama

que vazam dos castelos dos que bebem uísque com coca-cola

vou chamar todos os demais fantoches como eu

para bebermos juntos a pinga vagabunda

nos bares dos bêbados anônimos

e depois da ressaca de cuspir versos aos porcos

lutar a luta dos cães de rua

miar nos telhados como gato no cio

viajar pelas planuras de luar

cantar a ária da dama da noite

perseguir morcegos nas cavernas de Minas

louvar o desencanto do imigrante

que leva cacetadas da polícia

nas ruas sujas do centro de novas iorques borbulhantes

e ser ao final do meu périplo o inolvidável das gentes

no transporte das vítimas de enchentes



talvez se eu gritasse minha revolta

sob as barbas dos profetas de Congonhas

o Aleijadinho se levantaria do seu túmulo

para anistiar as minhas intenções

de explodir todas as mansões

do lago sul de Brasília



e então eu penso:

oh mar-oceano de todos os meus sofreres

de todos os nossos choros diante das telas de televisão

quanto de teu sal não são lágrimas de Portugal

mas gritos de uma revolta muda e desencantada

que tantos com ela sonharam e por ela pereceram



22.7.2026

(Ilustração: Johannes Hendrikus Moesman (1909-1988) - the rumor)



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